poesia, tradução

I am vertical, de Sylvia Plath, em multitradução de Rafael Zacca

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Apresentação de “9 traduções de I am vertical, de Sylvia Plath”

A tradução coloca, no limite que ela é, em questão a questão do outro. O autor do texto traduzido é também outro autor, o tradutor, mesmo que, antes de o texto ser traduzido, o autor dele já fosse outro de si mesmo, ao menos durante o texto. Se não há, para os textos, o que não seja tradução, o que Rafael Zacca realiza na série de traduções para um mesmo poema de Sylvia Plath, “I am vertical”, é escrever versos como quem desenha linhas de fronteira num território conflagrado, fazendo da tradução, enquanto ela houver, o luto do original, enquanto ele houver. Uma poética da tradução, como essa, risca o texto, o território de autoria, enquanto ele resistir, até o fim, é um fim para o poema.

Assim é que na tradução as autorias e as línguas distintas não são experimentadas e formalizadas nos poemas como diferenças uma em relação à outra (o inglês e o português, Sylvia Plath e Rafael Zacca), mas cada uma como diferenças em si. Por isso a tradução para o português se coloca ao lado da tradução para o português-inglês, ou seja, para uma língua menor, de vocabulário e estrutura em português que, no entanto, mimetizam irônica e ludicamente o inglês: “Then the sky and I are in open conversation” transforma-se, em português, em “Assim, o céu e eu conversamos sem segredos” que se transforma, em português-inglês, em “Então o céu e eu estamos em aberta conversação”. E por isso se traduz o poema de Plath para, entre outras línguas menores ou mínimas, línguas como: a lei antiterrorismo brasileira, a carta de suicídio de Torquato Neto, o português-vogais, ou mesmo novamente o inglês, devolvendo à língua de origem um poema retraduzido.

E não é à toa que o poema traduzido em série seja um para o qual estar na posição horizontal – a do verso ou a do morto – se torna um modo de conversar sem segredos ou de estar em aberta conversação com o céu. Para traduzir o céu, suas constelações e galáxias, seria preciso deitar-se, e se, ao se deitar, não se compreende mais a diferença, no poema de Sylvia Plath, entre a horizontalidade do verso ou a horizontalidade do corpo morto que cai, então traduzir (o céu ou o poema) são um modo de demorar na língua. O texto se torna a dúvida entre morrer em versos ou matar o poema. Para o tradutor, morrer nos versos traduzidos ou matar o poema original. Como demorar nessa dúvida?

Quem, entre outros, pensou a questão foi Haroldo de Campos. No ensaio que como que inaugura a sua teoria, “Da tradução como criação e como crítica” (1962), Haroldo propõe, à guisa de conclusão e utopia, e naqueles tempos brasileiros de mobilização social pela cultura, o projeto de um Laboratório de Textos no qual alunos e professores de línguas e literaturas se reunissem para, através da confrontação tradutória coletiva com os textos literários, assim realizassem um projeto de crítica literária e de ensino da literatura que fizesse justiça ao texto. A lida com a materialidade do texto, e com essa materialidade experimentada como diferença (de uma língua a outra) e não como um monumento autorreferente, sugere à proposta de Haroldo as suas dimensões ética (a do texto como “concreção”) e política (a dos materialismos do texto, do laboratório, do ensino). Nem preciso lembrar que Rafael Zacca promove, como poeta, oficinas de poesia, a partir do seu trabalho no coletivo Oficina Experimental de Poesia, e estuda a obra de Walter Benjamin, para quem “a tradução é uma forma”. Ou seja.

Para mim, há alguma implicação entre essas traduções que agora se publicam –  a poética da tradução desenhada nelas –, o jogo entre o verso e a morte no poema de Sylvia Plath, e a lida coletiva nas oficinas de poesia. Traduzir, morrer, reunir sejam, talvez, verbos para que o poema seja, hoje, conjugado sob a força da invenção de ritos sacrificiais da cultura, sob a força daquilo que, tamanha a urgência por convivermos, só podíamos ter feito até ontem, antes de morrer.

Luiz Guilherme Barbosa

* * *

9 TRADUÇÕES DE I AM VERTICAL, DE SYLVIA PLATH

por Rafael Zacca

Uma coisa que me pega de jeito no Hölderlin tradutor,
no Francis Bacon pintor, e, da mesma forma,
na Joana D’Arc soldada de Deus
é o alto nível de consciência-de-si
presente em suas respectivas manipulações
da catástrofe.
Anne Carson, Nay Rather

A tradução não se vê como a obra literária, mergulhada, por assim dizer, no interior da mata da linguagem, mas vê-se fora dela, diante dela e, sem penetrá-la, chama o original para que adentre aquele único lugar, no qual, a cada vez, o eco é capaz de reproduzir na própria língua a ressonância de uma obra da língua estrangeira. (…) Pois é o grande tema da integração das várias línguas.
Walter Benjamin, A tarefa do tradutor (trad. Susana Kampff Lages)

* * *

I am vertical traduzido para o inglês por Sylvia Plath

1.
I am vertical

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one’s longevity and the other’s daring.

Tonight, in the infinitesimal light of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them —
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

§

I am vertical traduzido para o português

2.
Eu estou de pé

Mas preferia estar deitada.
Não sou uma árvore de raízes fincadas
Sugando minerais e amor maternal
Para que a cada março eu resplandeça em folhas,
Nem sou a flor mais bela dos canteiros
Delicados, atraindo meu quinhão de “Ais”
Antes do iminente despetalar.
Comparadas a mim, uma árvore é imortal
E uma flor, conquanto pequena, é mais espantosa –
Invejo a longevidade de uma e a ousadia da outra.

Hoje, à luz infinitesimal das estrelas,
As árvores e as flores espalharam seus odores na noite fresca.
Caminho entre elas, mas não me notam.
Às vezes imagino que, dormindo,
Sou sua semelhante –
Penso obscura.
É mais natural se estou deitada;
Assim, o céu e eu conversamos sem segredos.
Serei útil quando estiver enfim deitada:
Aí as árvores serão mãos para mim, e, as flores, demora.

§

I am vertical traduzido para o português-inglês

3.
Eu estossou vertical

Mas eu preferia muito estassar horizontal.
Eu não sou uma árvore com minhas raízes em o solo
Chupando cima minerais e maternal amor
Então que cada Março eu talvez brilhe dentro folha,
Nem sou eu a belezura de um jardim cama
Atraindo minha divisa de “Ais” e espetacularmente pintado,
Dessabido eu devo logo despetalar.
Comparadas com mim, uma árvore é imortal
E a flor-cabeça não maior, mas mais surpreendente,
E eu quero o da uma longevidade e o da outra ousadia.

Nhoitje, em a infinitesimal luz de as estrelas,
As árvores e as flores tem estado espalhando seus frescos odores
Eu ando entre elas, mas nenhuma de elas estão notando.
Algezes eu penso que quando eu estou dormindo
Eu devo mais perfeitamente assemelhá-las
Pensamentos vão turvos.
Isso é mais natural pra mim, deitada baixo.
Então o céu e eu estamos em aberta conversação,
E eu devo ser útil quando eu fimenticar finalmente:
Então as árvores talvez toquem-me depra vez, e as flores terão tempo pra mim.

§

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§

Eu estou de pé traduzido para a
Lei Nº 13.620, de 16 de março de 2016, a lei antiterrorismo brasileira

5.
Eu é um ou mais prejuízo da tipificação penal

Consiste em hipótese em eu investigar ameaçar usar gases tóxicos.
Eu não é agente de reclusão cinco a oito anos
A receber ou fornecer treinamento contra a vida ou a integridade física de pessoa,
Para que cada eventual crime seja previsto fora ou dentro de instalações militares,
Não é também o mais único dos parágrafos
Com a finalidade de provocar terror social
Antes das instituições bancárias.
Distinto de eu, um agente de reclusão de cinco a oito anos é total
E o parágrafo, ainda que vetado, promove mais destruição em massa.
Hipótese de paz armada em um, de razões de discriminação no outro.

16 de março de 2016, contra qualquer constituição da liberdade
Os agentes de reclusão cinco a oito anos e os parágrafos são conceito de organização
[terrorista.
Eu ameaça municiar indivíduos, não investigam.
De modo temporário eu decreta explosivos nucleares
Eu é Estado.
Eu é Subchefia para Assuntos Jurídicos.
É mais natureza se eu ameaça usar gases tóxicos;
Regulamenta sem investigações
Será mecanismo quando ameaçar usar gases tóxicos.
Então os agentes de reclusão de cinco a oito anos serão levados ao conhecimento do
[Ministério Público, e os parágrafos, à Polícia Federal.

§

Eu estou de pé traduzido para a carta de suicídio de Torquato Neto

6.
De modo Q FICO

Ou não consigo acompanhar a marcha do progresso
Não sou uma múmia de saudades
Louca disparada com véu e grinalda
Para acordar e me contorcer em dores
Não peço amor de palhaços mesmo
Vivos, com o cacho de banana
Os cariocas do tempo de começar a ver
A múmia é SANTA
E os palhaços o favor de acordar
Chega de contorcer, chega de banana

FICO, ao sacudirem demais o Thiago,
As múmias e os palhaços feito a minha mulher
Guia de cegos
Vou ficando sossegado
O amor pode acordar
Pra mim chega!
De modo Q FICO
Não acredito em guia de palhaços
Empacotado enquanto dure
Ana e Thiago começaram a ver as dores do progresso.

§

Eu estou de pé traduzido para os itens “Cuidados gerais” e “Instruções de Uso”
do Guia do Usuário do fogão Esmaltec elétrico, 4 bocas, branco

7.
A criança dentro do fogão quebra por choque térmico

Mas deveria queimar a casa.
Não é metal pesado de cabos tensionados
Alimentando-se de mundo e solvente
Para a cada queimadura chamuscar a tampa de vidro
E também não é gás incolor
Fósforo branco, detalhando a espuma sobre a mangueira
A poucos passos da explosão.
Atrás da criança, o metal é todo acidente
E o gás, ainda que vazado, é mais manipulado –
A criança precisa ser uma mangueira metálica.

Cuidados gerais, instruções de uso,
O metal e o gás se instalaram à mesa.
A criança segue sem advertências.
Se a criança enfia a boca no alumínio, autorizada,
Encontrará a abertura –
A criança é um pano úmido.
É mais seguro se ela tem perigo
E os interruptores e os fósforos se comprometem.
A criança pressiona o botão do acendimento automático:
O metal prepara um choque, e o gás, a chama.

§

Eu estou de pé traduzido para verbete “Joanad’Arc”
de Homens e Mulheres da Idade Média
organizado por Jacques Le Goff, (trad. Nícia Adan Bonatti)

8.
Iletrada linguagem é tristeza

Mas ilumina estar sobressalto.
Não é um vilarejo inocente bom cristão
Mergulhado em Deus e armas sobrenaturais
Para que a cada guerra iletrada linguagem vença em Chinon
Não é o mais aflorado profeta
Desencorajado, aconselhado por maus espíritos
Antes da cura mitômana.
Contraste com iletrada linguagem, o vilarejo são vozes
E um profeta, mesmo desesperado, é mais cético,
Iletrada linguagem quer conselhos de um e desespero de outro.

1431, no cerco das nações,
Vilarejo e profetas espalharam seus arcanjos por todo o tribunal.
Não notam que julgam iletrada linguagem que fala.
Distúrbio papel mental natura a inação:
um naufrágio do desigual –
marionete do demônio.
É mais natural se iletrada linguagem está sobressalto;
Assim a iletrada e a miraculosa linguagem encontram mensageiro.
Iletrada linguagem será urgência se estiver sobressalto:
O vilarejo será arcanjo Miguel e o profeta catedral de Reims.

§

I am vertical traduzido para português-vogais

9.
Ae__eiau

â…aiuou…a.e…i…oiõau
ai.eóaee…ui.ai.uu.ieoiu
âiu…aieaue…óeiâ
oéiea.ai.eiiea…iuiea
pieai.eieâi.óaaeé
aáiaiée…óaeéauai.eie
ã…oui.ai.â.uãéau
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ea.aueéa.oau.â.o…ai
eaiuaeuõ…oeií.â.e.óe.ai

uai.i.e.iiieiau.ai.o.e.a
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aiuauaoe…âoeoéaôii
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Padrão
crítica, poesia, tradução

Duas cenas de necromancia na Antiguidade: a Odisseia e o livro de Samuel

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Nikolay Ge – A Feiticeira de Endor (1857)

Publicado pela primeira vez em 1946, o livro Mímesis, do filólogo e crítico Erich Auerbach, além de ter sido um marco para a crítica literária em geral, também teve uma profunda influência no campo dos estudos da Bíblia pelo viés literário – em “A cicatriz de Ulisses”, o ensaio que abre o livro, e um dos seus mais famosos, o autor compara o estilo do narrador bíblico com o da voz narrativa de Homero, com o argumento girando em torno da justaposição do episódio de Abraão, que começa em Gênesis 12, atribuída à chamada fonte eloísta, com o episódio da descoberta da cicatriz de Odisseu pela criada Euricleia no canto XIX da Odisseia. Como Auerbach desenvolve, a principal distinção entre os dois tipos de narração reside, resumidamente, numa contraposição entre o detalhismo homérico com o laconismo bíblico. Para Homero, tudo é descrito, tudo está em primeiro plano, e um detalhe como a cicatriz de Odisseu serve de abertura para longas digressões que nos levam de volta pelo tempo para descrever e narrar como Odisseu acabou recebendo a cicatriz – e o mesmo é válido ainda, podemos dizer, para o aparecimento de um personagem novo qualquer, no geral, mesmo que seja só para explicar quem acabou de morrer, como acontece tantas vezes entre os combates da Ilíada. O autor eloísta, em contraste, é mais conciso e só descreve aquilo que é o absoluto mínimo necessário para o desenrolar da narrativa, ocultando detalhes de tempo, espaço e motivação. É evidente que há inúmeros outros trechos da Bíblia Hebraica que Auerbach poderia ter escolhido para fazer a comparação, trechos em que essas diferenças seriam atenuadas, e há autores já que apontaram que, se o estudo tivesse sido feito com ou os Salmos, livros considerados poéticos dentro do corpus bíblico, haveria mais aproximações do que afastamentos – o que, em todo caso, não importa para os propósitos de Auerbach, cuja preocupação no caso era com questões de técnica narrativa.

Johann Heinrich Füssli - Tirésias Aparece para Ulisses (1741)

Johann Heinrich Füssli – Tirésias Aparece para Ulisses (1741)

O que eu quero fazer aqui agora é justapor também (porém, óbvio, sem ir tão a fundo quanto Auerbach, dado que este é apenas um post de blog, nem com a mesma capacidade de insight) um outro trecho homérico com um trecho bíblico – amarrados, desta vez, por uma temática em comum. Eu ainda não tinha uma bibliografia sobre este assunto em específico quando comecei a redigir este post, mas, mais tarde, encontrei um livro em que um dos capítulos (o cap. 9, para ser mais exato) trata dessa mesma comparação. É o Homer’s Odyssey and the Near East, de Bruce Louden (Cambridge UP, 2011), que deixo de recomendação aqui para quem se interessar sobre o assunto.

Enfim, estes são os dois trechos, portanto, que iremos comparar: um deles é o canto XI da Odisseia, a catábase, em que Odisseu desce até o Hades para falar com a sombra do profeta Tirésias; o outro é o episódio relatado no livro de Samuel, mais especificamente o primeiro Samuel, capítulo 28, em que o rei Saul, desesperado, procura uma necromante para convocar o espírito do também falecido profeta Samuel. Em ambos os casos, temos então uma cena de necromancia, i.e. adivinhação através dos mortos (do grego necro, “morto” + mancia, “mágica, adivinhação”), em que um personagem desesperado recorre a um profeta morto para ajudá-lo num momento em que ele não sabe como proceder. Novamente, porém, estamos comparando poesia com prosa, mas não deixa de ser um exercício interessante de aproximação – o que permite, por sua vez, observar as divergências com maior riqueza de nuances.

Apesar de tanto Tirésias quanto Samuel serem descritos como profetas, há algumas diferenças no modo como os gregos e os povos do Oriente Médio enxergavam o papel, que vale a pena mencionar aqui brevemente. O primeiro ponto é que Tirésias não é chamado por Homero de prophetes neste trecho, mas de manteis, o que é uma diferença sutil, mas o manteis no geral é mais um tipo de adivinho indutivo, como um áugure, em que a observação de algum fenômeno serve de base para a previsão oracular. No entanto, o termo é usado aqui para tratar de um tipo de profeta a quem as previsões vêm naturalmente, como um dom – e, de fato, Tirésias se torna um profeta como dom dos deuses, uma compensação pela sua cegueira. Mas, enfim, esse tipo de ampliação e modificação de sentido vocabular não é novidade, especialmente no campo do metafísico e esotérico.

No Oriente Médio, a coisa é um pouco mais complicada. “Profeta” (prophetes) é uma tradução, utilizada na Septuaginta, do hebraico nabi (נבאי), que é próximo do termo nabû em acádio, uma das muitas palavras da língua para se referir a um cargo específico da Mesopotâmia da Idade do Bronze: muhhû/muhhutu, mahhû/mahhutu, apilum/apiltum, qammatum, raggimu, etc., palavras que no geral têm sua origem nos verbos para “proclamar”, “responder” e “entrar em transe”. Em Mari, uma cidade e reino que foi abaixo em 1759 a.C. (hoje Tell Hariri, na Síria), foram escavadas diversas tabuletas que indicam que o profetismo era uma atividade comum no antigo Oriente Médio e que envolvia o seguinte esquema: uma figura, um profeta ou profetisa, entrando ou não em transe, recebia mensagens dos deuses endereçadas ao rei (como comentou já Gershom Scholem aqui, o profeta arquetípico é a figura que recebe uma mensagem de deus/deuses), que, por sua vez, eram transcritas e levadas ao rei. No entanto, essas  cartas não eram consideradas relevantes o suficiente para serem guardadas, e o rei tinha por hábito descartá-las depois de ler, o que faz com que o corpus de profecias escavadas, ainda que considerável, deva ser uma mera fração do tanto de profecias efetivamente proclamadas na época. Transcrevo abaixo um exemplo, traduzido para o português, de uma dessas profecias reunidas, transcritas e traduzidas por Martin Nissinen em Prophets and Prophecy in the Ancient Near East (p. 48):

de Šibtu a Zimri-Lim [reinado 1775-1761 a.C.]
“Avisa ao meu senhor: Assim (diz) sua criada Šibtu:
No templo de Annunitum na cidade, Ahatum, serva de Dagan-Malik, entrou em transe e disse:
Zimri-Lim: por mais que sejas negligente comigo, cometerei o massacre por ti. Teu inimigo será entregue à tua mão. O povo que rouba de mim eu hei de capturar, e virei a reuni-los no acampamento de Belet-ekallim.
No dia seguinte, Ahum, o sacerdote, entregou-me esta mensagem junto com uma mecha do cabelo e a franja das suas vestes. Escrevo então ao meu senhor. Lacrei a mecha e a franja e as envio ao meu senhor.”

Šibtu era a esposa do rei Zimri-Lim, que reinou em Mari entre 1775 e 1761. Sim, a data do final do reinado dele é curiosamente próxima da data da queda de Mari. Pois acontece que Zimri-Lim, no final de seu reinado, acaba por criar inimizade com ninguém menos que Hamurabi, que põe fim à dinastia dos Lim, saqueia a cidade e, mais tarde, após ela se rebelar contra o reinado babilônico, a destrói por completo, reduzindo-a a uma vila, que depois passa de mão em mão entre os assírios e babilônicos até desaparecer de vez, no período helenístico. O curioso, porém, é que o ataque de Hamurabi foi previsto por uma profecia, também registrada por Šibtu, só que – eis o problema – a profecia declarava que Hamurabi não conseguiria vencer Zimri-Lim. Pois é.

Enfim, eu cito esse exemplo, que a princípio não parece ter muito a ver, para mostrar primeiramente o funcionamento dos profetas no Oriente Médio da Idade do Bronze. Mas não sabemos direito como eles trabalhavam em Israel no período monárquico, e a Bíblia é algo lacônica nesse sentido. Os estudiosos postulam que eles deveriam ser algo como artistas de rua, entoando seus oráculos como poemas proféticos acompanhados por música – oráculos esses que, acredita-se, foram transcritos e posteriormente canonizados, no caso dos profetas como Amós, que teria pregado em Israel antes de sua destruição pelos assírios no século VIII a.C., com suas profecias depois circulando por escrito no sul, em Judá. Mas é importante tratar das profecias de Zimri-Lim também por conta de sua falibilidade. Não dá para imaginar que o fracasso do profeta de Mari em prever a vitória de Hamurabi possa ter chegado em Israel, mas o fato é que à época havia alguma desconfiança em relação às figuras, tanto que Amós faz questão de recorrer ao artifício de negar ser um profeta para ser levado a sério (“Eu não sou profeta, nem filho de profeta, mas boiadeiro, e cultivador de sicômoros”, diz ele em Amós 7:14).

Salvator Rosa - A sombra de Samuel aparece para Saul

Salvator Rosa  (1615-1673) – A sombra de Samuel aparece para Saul

Samuel, porém, é um profeta de outro porte. Ele recebe seu chamado quando criança, é criado como nazireu (assim como Sansão) e juiz de Israel, e tem poder político o suficiente para determinar quem será rei (Saul a princípio, mas quando Saul é rejeitado por YHWH, o escolhido é Davi). Saul o convoca depois de morto para ajudá-lo em seu desespero, o que é, no entanto, uma péssima decisão, pois, quando YHWH o privou da coroa, Samuel igualmente o rejeitou (1 Sam. 15).

Talvez possa ser traçada uma diferença entre os profetas gregos e da tradição do Oriente Médio (na medida em que pode ser traçada uma imagem coerente do profeta ao longo das várias fontes do Antigo Testamento… o que nem sempre é possível, mas não convém glosar isso agora), na medida em que, a princípio, estes são mensageiros dos deuses, i.e. meramente repassam aquilo que lhes é dito de cima, ao passo que aqueles parecem ter uma capacidade de clarividência que, ainda que possa ser um dom divino, parece independente dos deuses – um tipo de saber nato das coisas. Tirésias, por exemplo, quando fala com Édipo em Édipo Rei demonstra saber quem é o assassino de seu pai Laio, mas – pelo menos até onde eu lembro – não insere seus oráculos dentro de qualquer fórmula de proclamação divina. Em Homero também, aliás: Tirésias sabe da fúria de Posêidon em relação a Odisseu, assim como sabe que Odisseu não deve comer do gado de Hélio, mas em nenhum momento o profeta se apresenta como porta-voz desses deuses como era o profeta, por exemplo, de Šibtu ou os profetas hebraicos.

odisseu_e_tiresiasMas há uma coisa em comum ainda entre as duas culturas, no tocante às noções de além-túmulo. O judaísmo posterior tem concepções – possivelmente já no século II a.C. como resultado da influência helenística, mas solidificadas na redação do Talmude – de um Mundo-por-vir e vida após a morte, mas os textos bíblicos fazem menção apenas ao Sheol, que funcionava como o Hades grego. Ou seja, para os hebreus do período em que o grosso do cânone bíblico foi escrito, todos os mortos, independente de sua virtude, tinham o mesmo destino, um tipo de existência como sombra num lugar subterrâneo e triste (e tanto o Sheol quando o Hades podem ser que sejam inspirados também no mundo dos mortos sumério). Curiosamente, tanto na Odisseia quanto na Bíblia, Tirésias e Samuel retêm seus dons proféticos depois da morte, quando convocados, mas os resultados são diferentes: Tirésias ajuda Odisseu de bom grado, e seus conselhos são válidos, mas Samuel, ainda que diga igualmente a verdade, a apresenta em tons coléricos e como um veredito diante de um condenado. É possível que parte dessa diferença reflita ainda as diferentes posturas das duas culturas diante da prática da necromancia: entre os gregos, rituais chamados de nekyia, em que se consultava os mortos, eram comuns, mas, ainda que talvez temidos em algum grau, não eram proibidos como são pela Lei bíblica (Lev. 19:26-31, 20:27, Deut. 18:10-14). Óbvio que essa proibição não deveria impedir que a necromancia fosse praticada em Israel (assim como não impediu a prática da astrologia), mas faz sentido para a caracterização de Saul como um ímpio que nós o observemos recorrendo a isso – ainda mais que foi ele o responsável por proibir a necromancia para começo de conversa, o que ressalta o seu desespero.

Enfim, acho que com isso dá para ter alguma ideia de contexto aqui para nossa comparação. Como é comum já no escamandro, selecionei mais de uma tradução para os dois trechos. De Samuel, por ser um trecho em prosa, escolhi duas traduções apenas, dentre várias: a tradução de Jorge Cesar Mota para a Bíblia de Jerusalém e a de Fridlin & Godorovits para a Bíblia Hebraica (ed. Sêfer). Da Odisseia, temos aqui a de Odorico Mendes, Carlos Alberto Nunes, Trajano Vieira e até a mais recente de Christian Werner. Imagino que, para quem tem interesse no Antigo Testamento, em Homero e em estudos culturais comparativos, esse exercício pode ser iluminador.

(Adriano Scandolara)

 

Odisseia

(canto XI, vv. 91-154 em grego. O original pode ser conferido aqui)

(…) A alma aparece do Tebano cego,
Reconheceu-me: “Ao claro Sol fugindo,
Ai! vens a estância visitar funesta?
Pois da cova te arreda e o gume esconde,
Para que eu beba o sangue e profetize.”
Dês que embainho a espada claviargêntea,
Bebe o vate infalível e começa:
“O mel da volta, nobre Ulisses, buscas?
Netuno irado, a quem cegaste o filho
To embarga. A seu pesar, tens de alcançá-lo,
A seres comedido e os companheiros,
Do atro pego arribados à Trinácria,
Onde achareis pastando bois e ovelhas
Do Sol, que tudo vê, que exouve tudo:
Ileso o gado, a custo ireis à pátria;
Ofendido, ao navio agouro a perda,
E a te salvares, tornarás tardeiro,
Só dos consócios teus, em vaso estranho.
Depararás no interno uns prepotentes,
Que estragam-te a fazenda, e requestando
A diva esposa tua, a presenteiam;
Mas, por tamanha audácia, a bronze agudo
Às claras ou por dolo hás de puni-los.
Depois toma ágil remo, a povos anda
Que o mar ignoram, nem com sal temperam,
Que amuradas puníceas não conhecem,
Nem remos, asas de baixéis velozes.
Guarda o sinal: assim que um viandante
Pá creia o remo ser que ao ombro tenhas,
Finca-o no chão; carneiro e touro imoles,
Varrão que inça a pocilga, ao rei Netuno;
Em Ítaca, aos celícolas por ordem
Hecatombes completas sacrifiques
Ali do mar vir-te-á mais lenta a morte,
Feliz velho, entre gentes venturosas.
Preenchidos serão meus vaticinios.”
“Tirésias, prossegui, tal é meu fado.
Lá, do sangue remota, olhar seu filho
Nem ousa tácita a materna imagem:
Como há de perceber-me, ó rei, me ensina.”
E ele: “É simples: sincero, a quem permitas
Provar do sangue, falará; contidos,
Os mais recuarão”. Nisto, o profeta
Pela estância Plutônia esvaeceu-se. (…)

(vv. 70-113, tradução de Odorico Mendes)

 

(…)A alma chegou, afinal, do Tebano adivinho Tirésias,
com cetro de ouro na mão; conheceu-me e me disse o seguinte:
“Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso,
por que motivo, infeliz, a luz clara do Sol desprezaste
e vieste aqui ver os mortos e a triste região em que habitam?
Mas, para o lado do fosso retira-te e a espada recolhe,
para que eu possa do sangue provar e dizer-te a verdade.”
Disse; afastando-me, a espada de cravos de prata de novo
pus na bainha. Depois que do sangue anegrado provara,
vira-se o grande vidente e me diz as seguintes palavras:
“Andas em busca do doce regresso, Odisseu preclaríssimo,
mas há de um deus agravar-te o retorno; não creio que escapes
do que sacode os pilares da terra, pois sempre irritado
contra ti se acha, por teres o filho querido cegado.
Mas, apesar dos trabalhos, à pátria hás de ir ter estremada,
se conseguires refrear a cobiça e a dos teus companheiros,
quando chegar teu navio, de sólida e bela feitura,
à ilha Trinácria, fugindo da sanha das ondas violentas,
onde hás de ver nas pastagens as vacas e pingues ovelhas
de Hélio que tudo discerne e que todas as coisas escuta.
Se nenhum mal lhe fizerdes, cuidando somente da volta,
posto que muitos trabalhos tenhais, ainda haveis de ver Ítaca;
mas se as lesardes, então, desde já te anuncio a ruína
dos companheiros, bem como da nave; conquanto te salves,
hás de voltar muito tarde, com perda de todos os sócios,
em nave estranha, indo em casa encontrar infinitos trabalhos,
homens de grande soberba, que todos os bens te devoram,
e que tua esposa divina pretendem ganhar com presentes.
Mas, lá chegado, sem dúvida a todos darás o castigo.
Quando, porém, no interior do palácio tiveres matado
os pretendentes, com bronze afiado, ou de frente ou por dolo,
põe-te de novo a caminho, com um reino de fácil manejo,
té te encontrares no meio de seres que o mar nunca viram,
que por costume não tenham com sol temperar a comida
e desconheçam navios dotados de proas vermelhas,
bem como remos de fácil manejo, que às naus servem de asas.
Dar-te-ei um bem visível sinal que não deves deixar passar
logo que outro homem no mesmo caminho que o teu encontrares,
e te disser que uma pá de espalhar grãos de trigo carregas,
crava, então, nesse lugar o teu remo de fácil manejo,
sacrifícios esplêndidos logo oferece a Posido,
primeiramente um carneiro, depois um novilho e um cachaço.
Volta, depois, para casa e oferece hecatombes sagradas
às divindades eternas, que moram no céu espaçoso,
a todas elas, por ordem. Distante do mar há de a Morte
te surpreender por maneira mui doce e suave, ao te vires
enfraquecido em velhice opulenta e deixares um povo
completamente feliz. Eis que toda a verdade te disse.”
Isso disse ele; em resposta lhe torno as seguintes palavras:
“Foram, sem dúvida, os deuses, Tirésias, que assim decretaram.
Vamos! Agora me fala e responde conforme a verdade.
De minha mãe a alma vejo, que a vida deixou, não faz muito;
acha-se junto do sangue sentada, não diz coisa alguma,
nem tem coragem de olhar para o filho; com ele não fala.
Dize, senhor, como pode ela vir a saber que eu sou ele?”
Isso lhe disse; em resposta me torna as seguintes palavras:
“Fácil resposta vou dar=-te e na mente, sem custo, imprimir-te.
Quantas, das almas dos mortos, que ali se aglomeram, deixares
aproximar-se do sangue, dir-te-ão a verdade inconcussa;
mas as demais recuarão, as que não permitires fazê-lo.”
Tendo isso dito, se foi para o de Hades palácio de novo
a alma do vate Tirésias, depois de anunciar a verdade. (…)

(vv. 90-151, tradução de Carlos Alberto Nunes)

 

E a ânima do vate então se aproximou,
empunhando o áureo cetro. Assim falou, ao ver-me:
‘Poliarguto Odisseu, divino Laertíade,
por que deixaste a rutilância de Hélio-Sol
para ver mortos num lugar desaprazível?
Recolhe tua espada à beira-fosso, e eu sorvo
o sangue a fim de pronunciar veracidades.’
Devolvi à bainha a espada cravejada
em prata, recuando o passo. O vate exímio
bebeu o sangue enegrecido e pronunciou:
‘Buscas, herói ilustre, o mel do torna-lar,
mas um deus dificulta tua empresa. O Abala-
terra depositou o fel no coração
colérico porque cegaste um filho seu.
Poderás retornar, embora padecendo,
se refreares a avidez do grupo e a tua,
quando aportares o navio na ilha Trinácria,
prófugo do mar roxo, onde vereis as vacas
que pastam e as ovelhas pingues de Hélio-Sol,
que tudo escruta, tudo escuta. Não as toques,
tão só pensando no retorno, e fundearás
quem sabe em Ítaca, chorando a triste sina.
Prevejo só catástrofe, se as molestares,
a ti, à nave, aos companheiros. Fugirás
tu mesmo – tarda volta dolorosa -, todos
os demais falecidos, num baixel de estranhos.
Os arrogantes que corroem tuas posses
cortejam tua esposa com regalos. Sofre
o lar. Na volta punirás os petulantes.
Exterminados no palácio os pretendentes
com armadilhas, cara a cara, a pique brônzeo,
empunha o remo exímio e parte, até alcançar
a terra em que homens nada sabem do oceano,
tampouco têm por hábito salgar manjares,
não sabem a feição do barco rostipúrpuro,
nem manuseiam remos, asas dos navios.
Escuta um signo hiperclaro: é inescapável!
Tão logo um andarilho com quem cruzes diga
que levas sobre a espádua um ventilabro, crava
então no solo o remo plenimanobrável
e ao deus do mar oferta sacríficio opíparo,
um suíno cobridor, um touro e um carneiro.
De volta ao lar, prepara uma hecatombe sacra
aos moradores venturosos do amplo céu,
segundo a ordem. Tânatos serenamente
há de colher-te mar afora, engrandecido
por senescência opulenta, no regaço
de gente próspera. Vigora o que eu afirmo.’
Assim falou e eu respondi: ‘O meu destino,
os deus fiaram eles mesmos, vate; dize-me
com toda exatidão o que te peço agora:
a alma-psiquê de minha mãe vislumbro morta,
no arrabalde do sangue, muda e arredia
ao filho, a quem evita remirar, falar.
Pode ela ter ciência de quem sou? Mas como?’
E, de imediato, o arúspice me esclareceu:
‘Não é um enigma o que me pedes. Fica atento:
qualquer defunto que permitas se acercar
do sangue há de pronunciar tão só verdades,
mas quem afastes, sumirá imediatamente.’
Falou e entrou na moradia do Hades a ânima-
psiquê do grão tebano, após vaticinar.(…)

(vv. 90-151, tradução de Trajano Vieira)

 

(…) E veio a alma do tebano Tirésias
com um cetro dourado, reconheceu-me e disse:
‘Divinal filho de Laerte, Odisseu muito-truque,
por que de novo, infeliz, deixaste a luz do sol
e vieste para ver mortos e a região sem deleite?
Pois arreda-te do fosso e afasta a espada afiada
para eu beber do sangue e falar-te sem evasivas’.
Assim falou, e eu recolhi a espada pinos-de-prata
e enfiei-a na bainha. Após beber o sangue escuro,
a mim dirigiu-se com palavras o adivinho impecável:
‘Buscas retorno doce como o mel, ilustre Odisseu;
esse o deus tornará difícil para ti. Não creio
que irá te ignorar o treme-terra, com rancor no ânimo,
irado, pois cegaste seu filho querido.
Porém ainda assim, mesmo sofrendo males, chegaríeis,
se quiseres conter teu ânimo e o dos companheiros
quando primeiro achegares a nau engenhosa
da ilha Trinácia, após escapar do mar violeta,
e achardes, pastando, vacas e robustas ovelhas
de Sol, que tudo enxerga e tudo ouve.
Se as deixares ilesas e cuidares do retorno,
também Ítaca, mesmo sofrendo males, alcançaríeis;
se as lesares, então te prevejo o fim
de barco e companheiros. Tu mesmo, se escapares,
chegarás tarde, mal, em nau alheia,
sem companheiro algum; encontrarás desgraças em casa,
varões soberbos que devoram teus recursos,
cortejando a excelsa esposa e oferecendo dádivas.
Contudo, vingarás a violência deles ao chegar.
Mas quando aos pretendentes, em teu palácio,
matares, com truque ou às claras, com bronze agudo,
então pega um remo maneável e marcha
até alcançares varões que não conhecem o mar
nem comem comida misturada a grãos de sal;
eles, claro, não conhecem naus face-púrpura
nem remos maneáveis, que são as asas das naus.
Sinal te direi, inequívoco, e não o irás ignorar:
quando contigo deparar-se outro passante
e disser que tens destrói-joio sobre o ombro ilustre,
então, após na terra cravares o remo maneável,
fazeres belos sacrifícios ao senhor Posêidon,
carneiro, touro e javali doméstico, reprodutor,
retorna para casa e oferta sacras hecatombes
aos deuses imortais, que do largo páramo dispõem,
a todos pela ordem. Do mar virá a ti,
bem suave, a morte, ela que te abaterá
debilitado por idade lustrosa; e em volta as gentes
serão afortunadas. Isso te digo sem evasivas’.
Assim falou, mas eu, respondendo-lhe, disse:
‘Tirésias, isso destinaram os próprios deuses.
Mas vamos, dize-me isto e conta com precisão:
lá vejo a alma de minha finada mãe;
ela, quieta, sentada perto do sangue, a seu filho
não ousa mirar de frente nem dirigir a palavra.
Diga, senhor, como ela saberia que este sou eu?’.
Assim falei, e ele, logo respondendo, disse-me:
‘Simples palavra te direi e no juízo porei:
a todo que permitires, dos mortos finados,
achegar-se do sangue, esse vai te falar sem evasivas.
A quem negares, esse de volta irá para trás’.
Após falar, a alma entrou na casa de Hades,
a do senhor Tirésias, após contar o dito divino;
mas eu lá fiquei, imóvel, até que a mãe a mim
veio e bebeu sangue escuro; de pronto me conheceu
(…)
(vv. 90-153, tradução de Christian Werner)

 

Samuel

(1 Sam. 28:3-25. O original em hebraico pode ser conferido aqui)

 

Saul e a feiticeira de Endor – 3 Samuel tinha morrido, e todo o Israel o tinha lamentado, e o sepultaram em Ramá, sua cidade. Saul havia expulsado da terra os necromantes e os adivinhos.

4 Entretanto, os filisteus se congregaram e vieram acampar em Sunam. Saul reuniu todo o Israel e acamparam em Gelboé. 5 Quando Saul viu o exército dos filisteus acampado, encheu-se de medo e o seu coração se perturbou. 6 Saul consultou a Iahweh, mas Iahweh não lhe respondeu, nem por sonho, nem pela sorte, nem pelos profetas. 7 Saul disse então aos seus servo: “Buscai-me uma necromante para que eu lhe fale e a consulte.” E os servos lhe responderam: “Há uma em Endor.”

8 Então Saul disfarçou-se, vestiu outra roupa e, de noite, acompanhado de dois homens, foi ter com a mulher, e lhe disse: “Peço-te que me digas o futuro, chamando para mim quem eu te disser.” 9 A mulher, porém, lhe respondeu: “Tu bem sabes o que fez Saul, expulsando do país os necromantes e adivinhos. Por que me armas uma cilada para que eu seja morta?” 10 Então Saul jurou-lhe por Iahweh, dizendo: “Tão certo como Iahweh vive, nenhum mal te acontecerá por causa disso.” 11 Disse a mulher: “A quem chamarei para ti?” Ele respondeu: “Chama Samuel.”

12 Então a mulher viu Samuel e, soltando um grito medonho, disse a saul: “Por que me enganaste? Tu és Saul!” 13 Disse-lhe o rei: “Não temas! Mas o que vês?” E a mulher indagou a Saul: “Vejo um espectro que sobe da terra” 14 Saul indagou: “Qual é a sua aparência? A mulher respondeu: “É um velho que está subindo; veste um manto.” Então Saul viu que era Samuel e, inclinando-se com o rosto no chão, prostrou-se.

15 Samuel disse a Saul: “Por que perturbas o meu descanso chamando-me?” Saul respondeu: “É que estou em grande angústia. Os filisteus guerreiam contra mim, Deus se afastou de mim, não me responde mais, nem pelos profetas, nem por sonhos. Então vi te chamar para que me digas o que tenho de fazer.” 16 Respondeu Samuel: “Por que me consultas, se Iahweh se afastou de ti e se tornou teu adversário? 17 Iahweh fez contigo o que tinha dito por meu intermédio: tirou das tuas mãos a realeza e a entregou a Davi, 18 porque não obedeceste a Iahweh e não executaste o ardor da sua ira contra Amalec. Foi por isso que Iahweh te tratou hoje assim. 19 Como consequência, Iahweh entregará, juntamente contigo, o teu povo Israel nas mãos dos filisteus. Amanhã, tu e os teus filhos estareis comigo, e o acampamento de Israel também: Iahweh o entregará nas mãos dos filisteus.”

20 Imediatamente, Saul caiu estendido no chão, terrificado pelas palavras de Samuel e também enfraquecido por não ter se alimentado todo o dia e toda a noite. 21 A mulher aproximou-se de Saul e, vendo-o tão perturbado, disse-lhe: “A tua serve te obedeceu; arriscando a minha vida, obedeci às ordens que me deste.” 22 Agora, eu te suplico, ouve também as palavras da tua serva: deixa-me servir-te um pedaço de pão, come e recupera as tuas forças antes de voltares.” 23 Ele, porém, se recusou: “Não comerei,” disse. Mas os seus servos instaram com ele, bem como a mulher, e ele cedeu; levantou-se do chão e assentou-se no leito. 24 A mulher tinha uma novilha cevada. Rapidamente a abateu, tomou farinha, amassou-a e cozinhou uns pães sem fermento. 25 Serviu a Saul e aos que estavam com ele. Eles comeram e depois se levantaram e partiram naquela mesma noite.

(tradução de Jorge Cesar Mota para a Bíblia de Jerusalém)

 

3 E Samuel havia morrido, e todo Israel o havia pranteado e sepultado em Ramá, na sua cidade; e Saul havia expulso da terra os necromantes e os adivinhadores ideonitas. 4 E os filisteus se juntaram, vieram e acamparam em Shunem, e Saul reuniu todo Israel e acamparam em Guilbôa. 5 E Saul viu o acampamento dos filisteus e temeu, e seu coração estremeceu muito. 6 E Saul consultou o Eterno, porém o Eterno não lhe respondeu nem por sonhos, nem pelos Urim, nem pelos profetas. 7 E Saul disse aos seus criados: ‘Buscai-me uma necromante, para que eu vá a ela e a consulte – e seus criados lhe disseram: ‘Eis que há uma necromante em En-Dor.’ 8 Então Saul se disfarçou e, vestindo outras roupas, foi junto com dois homens, e vieram à mulher de noite, e ele disse: ‘Rogo-te que me adivinhes pela necromancia e me faças subir aquele que eu te disser.’ 9 E a mulher lhe disse: ‘Tu bem sabes o que Saul fez e como exterminou da terra os necromantes e os adivinhadores ideonitas; por que então me armas um laço à minha vida, para causar a minha morte?’ 10 E Saul lhe jurou pelo Eterno, dizendo: ‘Assim como o Eterno vive, juro que nenhuma punição te sobrevirá por isso!’ 11 – e a mulher disse: ‘A quem farei subir para ti?’ – e ele disse: ‘Faz-me subir Samuel.’ 12 E a mulher viu a Samuel e gritou em voz alta, e a mulher falou a Saul e disse: ‘Por que me enganaste? Tu és Saul!’ 13 – e o rei lhe disse: ‘Não temas! Mas o que foi que viste? – e a mulher disse a Saul: Vi anjos de Deus subindo da terra.’ 14 E ele lhe disse: ‘Qual a sua aparência?’ – e ela disse: ‘Está subindo um homem velho, e está envolto num manto’ – e Saul soube que era Samuel, e inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou.

16 E Samuel disse: ‘E por que me perguntas? O Eterno Se desviou de ti e Se tornou teu inimigo, 17 e o Eterno te fez conforme falou através de mim, pois o Eterno rasgou o reino da tua mão e o deu ao teu próximo, a David, 18 porquanto não deste ouvidos à voz do Eterno e não executaste o furor de Sua ira contra Amalec; por isso o Eterno te fez assim hoje. 19 E o Eterno entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estarão comigo; também o acampamento de Israel o Eterno entregará na mão dos filisteus.’ 20 Imediatamente Saul caiu estendido na terra, e estava com muito medo por causa das palavras de Samuel, e também não havia nele força, porque não tinha comido pão durante todo o dia e toda a noite. 21 E a mulher veio a Saul, e viu que estava muito apavorado, e ela lhe disse: ‘Eis que a tua criada deu ouvidos à tua voz, pus a minha vida em risco e ouvi as palavras que me disseste. 22 Agora, rogo-te, ouve também a voz da tua criada, e porei diante de ti uma fatia de pão e comerás; assim terás força quando seguires em teu caminho.’ 23 Mas ele recusou e disse: ‘Não comerei!’ – então seus criados insistiram – e a mulher também – e ele acabou dando ouvidos à voz deles, levantou-se do chão e sentou-se na cama. 24 E a mulher tinha em casa um bezerro cevado, e apressou-se e o degolou; e tomou farinha, a amassou e assou pães não fermentados, 25 e trouxe diante de Saul e de seus criados, e eles comeram. E levantaram-se e partiram naquela mesma noite.

(tradução de Jairo Fridlin & David Godorowitz)

Padrão
crítica, poesia, tradução

“To his coy mistress”, de Andrew Marvell (pt. 2), por Matheus Mavericco

NPG D29829; Andrew Marvell after Unknown artist

Andrew Marvell já foi apresentado pelos colegas do escamandro (clique aqui). Essa postagem é mais ou menos uma parte dois, com uma tradução minha e outras que consegui pescar internet afora.

Pois note como o poema de Marvell é estranho. Não, é sério. Ele é comumente posto dentro da caixa de acrílico do carpe diem, e claro que não está errado. Dividido em três partes, se quiséssemos incorrer na heresia da paráfrase seria o caso de dizermos que o eu lírico pede pra amada parar com esse recato bobo e, vocês sabem. Um dia eles vão bater as botas e aí, se ela quiser, não vai ter mais como. Então é melhor se apressarem, pois o tempo tá aí e pá.

O grosso é esse. Mas notem a inventividade das metáforas de Marvell. T. S. Eliot dizia, sobre os metafísicos, pensando em especial em Marvell, que existe nesse pessoal uma diferença muito pequena entre imaginação e luxúria. Em tempos barrocos, desabridos, o homem começando a entender o que era ter a Máquina do Mundo de repente arreganhada (você consegue imaginar como é ter descoberto literalmente um novo mundo?), o homem frente ao Infinito da revolução copernicana ― que reduziu a importância da Terra e da humanidade ―, o Absolutismo começando a ruir ― a Inglaterra vivia na época sua primeira Guerra Civil, e Marvell foi um poeta atento a tais acontecimentos, tanto que sua ode a Oliver Cromwell é considerada um dos poemas políticos mais perfeitos de todos os tempos ―, tudo isso era mais do que o bastante pra propelir os poetas minimamente interessados e descontentes a buscarem novas formas de expressão.

Digamos que isso explica o porquê da alcunha de “poetas metafísicos” aos poetas barrocos ingleses ser tão atacada, ainda mais considerando que se costuma pensar, a partir do termo “metafísico”, numa poesia distante de contingências corpóreas, físicas, sociais etc. José Lino Grünewald, num texto para o Correio da Manhã de 19/11/67, nota como, por exemplo, os metafísicos compunham metáforas que além de serem concisas (Augusto de Campos, aliás, faz um paralelo entre os metafísicos e João Cabral), valiam-se de instrumentos compositivos das mais diversas áreas: no caso de Marvell seriam termos que vão da religiosidade ao exotismo do lado indígena do Ganges e ao impacto do casalzinho de abutres, ou então um termo como “amor vegetal”. Marvell possui outros poemas que abordam a relação entre ser humano e natureza, destacando a perturbação que o fator antropológico causa no meio-ambiente. No poema The Mower against Gardens, por exemplo, abre dizendo: “Luxurious man, to bring his vice in use, / Did after him the world seduce, / And from the fields the flowers and plants allure, / Where nature was most plain and pure.” (“Homem luxurioso, por própria impureza, / Eis que seduz a natureza / E as flores e os cultivos fascina, / De graça até então genuína.”, trad. minha.)

Mas calma aí que existe mais. Disse pra vocês que Marvell vai argumentando e tentando convencer a amada a, digamos assim, liberar o anel. Mas notem que, nos versos 27 e 28, ele escarnece de forma meio brutal o recato da amada, dizendo que, se ela possui tanto zelo por essa virgindade, é bom que se lembre que, depois de morta, os vermes vão corroer isso daí. Na primeira estrofe ele já ridicularizara esse recato da amada dizendo que seriam precisos trinta mil anos pra louvar o corpo inteiro. Ou seja: é um poema que vai de um extremo a outro com uma potência muito grande. O terror de quando ele abre a segunda parte do poema falando da carruagem alada do Tempo em suas costas, por exemplo, foi aproveitado por Eliot na terceira parte de The Waste Land. Mas pule pro final da estrofe e observe o sarcasmo do final, em especial esse “I think”. Ora: é claro que dentro de uma sepultura ninguém se abraça. Ele está tirando sarro da cara da amada.

Num poema como The Definition of Love, o gosto pelos movimentos de transição, que George L. Craik em 1844 já apontava como admiráveis na poesia de Marvell, é revelador. Logo na primeira estrofe diz que seu amor nasceu do Desespero sobre a Impossibilidade, e, na penúltima, diz que ele e sua amada são como retas que, embora infinitas, jamais se encontrarão. Só que ele transcende o gosto de contrários antitéticos que o petrarquismo apontava ― em língua inglesa muito bem visto pelas falas de Romeu antes de conhecer Julieta na peça de Shakespeare. É como se operasse uma espécie de união de contrários, algo que Donne fez com uma radicalidade ainda maior ao tornar a carnalidade de sua poesia indissociável da sacralidade e vice-e-versa.

Enxergando assim, me parece que muito do que o To his Coy Mistress tem a oferecer se elucida, permitindo entender como ele consegue alimentar a si próprio, meio que retroativamente, de negativas que vão conduzindo a uma retórica de exageros e, o que me parece ainda mais interessante, no fato de que todo o poema caminha num solo hipotético ― e ainda assim consegue toda essa concretude esplêndida, certamente advinda eu não digo nem tanto das referências propriamente carnais, mas sim daquele movimento pendular nervoso que me referi antes, visto, pra citarmos um exemplo, no contraponto da amada achando rubis no lado indígena do Ganges ― ou seja, uma imagem claramente exótica ― enquanto o amado chora suas pitangas lá pro Humber ― isto é, um rio indiano contraposto a um estuário inglês ― e mais ― pois logo após essa metáfora, num liame tênue, Marvell nos levando ao exagero de dizer que jurará seu amor décadas antes do Dilúvio e, logo após, dizendo que, caso a amada queira, ela pode negar o amor até a conversão dos judeus, também conhecido como Juízo Final. Daí a dizer que seu amor vegetal cresce mais vasto que os Impérios é uma coisa esperada, pois o poema faz saltos que abarcam totalidades inteiras.

Quem quiser uma boa pedida acerca do poema de Marvell, recomendo A Handbook of Critical Approaches to Literature, de Wilfred L. Guerin, Earle Labor, Lee Morgan, Jeanne C. Reesman e John R. Willingham. Você pode pensar por quê o indico, se ele não parece ter nada haver com poesia barroca inglesa, e tudo bem, eu explico: é que, pra ilustrar as várias formas de abordagem crítica, os autores pegam o poema de Marvell como exemplo (na verdade eles pegam mais cinco outras obras), de maneira que você tem, aí, um não-sei-quantos-em-um. Por exemplo, exemplificando abordagens histórico-biográficas, os autores observam que a imagem do Tempo como voraz remete a Cronos devorando Zeus e seus filhos, e que a imagem do último dístico do poema, esse lance aí de parar o sol, pode ser posta ao lado do episódio em que Zeus ordena que o sol demore um pouco mais pra que ele estenda sua noite de amor com Alcmena ou ao lado do episódio bíblico em que o sol também demora um pouco mais pra que a batalha contra os amoritas seja vencida ― ou seja, tanto em um caso quanto em outro temos a intervenção divina que maneja o tempo a seu bel prazer, coisa inexistente no poema de Marvell pois, afinal, estamos falando de seres mortais.

Acerca das traduções compiladas, não creio que exista muito o que comentar. São projetos tradutórios pra agradar a gregos e troianos, indo da manutenção do verso octossilábico, por Alípio Correia Neto, à tradução de Nelson Ascher que, segundo ele mesmo conta, necessitou por parte do tradutor uma dedicação grandemente exaustiva. De minha parte, digo que traduzi por traduzir, sem estalo de lâmpada ou coisa do tipo. Pois veja que, quando você tem diante de si um poema que já foi muito traduzido, uma das estratégias mais saudáveis pra que se crie uma outra tradução é ou nutrindo uma insatisfação, um ainda-não-tem-o-que-eu-quero ― coisa que, pra falar a verdade, não aconteceu comigo, pois acho que o que tem tá bom ― ou oferecendo um projeto alternativo ― o que mais uma vez eu não vi como necessário, ainda mais depois da tacada do colega Scandolara de traduzir 10+6. Espero, contudo, que minha tradução pelo menos honre seu espaço e não fique, sei lá, tão ridícula perto das outras.

Matheus Mavericco

§§§

PARA SUA DAMA RECATADA.
trad. Matheus “Mavericco”.

Houvesse tempo e espaço e então de fato
Não seria um delito este recato.
Sentados, nós iríamos pensar
Em só pensar no outro, e assim passar.
Você, do lado indígena do Ganges,
Achando rubis, e eu, pois me confrange
A dor, junto ao Humber. Décadas antes
Do Dilúvio eu te juro amor, e, instantes
Depois, se quiser, negue os votos meus
Até que se convertam os judeus.
Meu amor vegetal cresce mais vasto,
Embora mais lento, que impérios; gasto
Séculos em louvor de tua face
E mais dois longos séculos em face
De teus seios e trinta mil se quero
O corpo inteiro. Uma era de esmero
Pra cada parte, até que a derradeira
Sirva pra revelar tua alma inteira.
Pois você, ó Senhora, é digna disto ―
E eu não sei amar por menos que isto.

Contudo, escuto sempre atrás de mim
O Tempo alado a toda pressa: e, assim,
Nós só podemos ver, mais adiante,
A vastidão deserta do incessante
E a graça que você tem hoje, extinta.
No teu fosso marmóreo é indistinta
Minha canção que ecoa; o verme tenta
Romper teu corpo virgem e fragmenta
Em pó a tua honra imensa, enquanto
Meu ardor queima em cinzas. Se o recanto
Da sepultura é íntimo, então, acho,
Ninguém lá deve dar algum abraço.

Mas agora, o vigor juvenil posto
Tal como o orvalho fresco no teu rosto,
Tua alma desejosa de que sue
Em cada poro o fogo que a imiscui,
Devoremos nós dois juntos, e agora,
Como um casal de abutres que se adora,
O tempo antes que o tempo venha a ser
O nosso algoz, voraz o seu poder.
Enovelemos rapidez e força
Num globo, para que depois se torça
E abata o nosso anseio em árdua lida
Diante dos portões de aço da vida:
Assim, se o sol não puder ser parado,
Ele será ao menos apressado.

§

À SUA AMIGA ESQUIVA.
trad. Nelson Ascher.

Sobrassem mundo e tempo, não seria
tanta esquivez, senhora, uma heresia.
Sentar-nos-íamos pensando, a cada
longo dia de amor, uma jornada.
Enquanto junto ao Ganges encontrasses
rubis, eu molharia minhas faces
chorando ao Humber. Fosse minha parte
dez anos antes do Dilúvio amar-te,
seria a tua opor desinteresse
até que o povo hebreu se convertesse.
Meu amor vegetal, mais devagar
que impérios, cresceria sem parar.
Dedicaria cem anos, perante
teus olhos, a louvar o teu semblante;
A te adorar os seios, pelo menos
O dobro; ao resto, mais trinta milênios;
E, a tudo em ti, mil eras, de maneira
A abrir teu coração na derradeira.
Porque, senhora, vales tal quantia
E, para amar-te, eu não regatearia.

Mas ouço atrás de mim, correndo insanos
num carro alado, os dias, meses, anos.
E, frente a nós, se estende sem mais nada
A vasta eternidade desolada.
Tua beleza há de perder-se ao léu;
tampouco, em teu marmóreo mausoléu,
hão de ecoar meus versos quando, inerme,
entregues o hímen obstinado ao verme,
que em pó transformará tua honra vã
E em cinzas todo o ardor do meu afã.
O túmulo é discreto e acolhedor
mas lá ninguém que eu saiba faz amor.

Agora, então, que em tua pele pousa,
feito orvalho na folha, a cor viçosa,
E em cada poro de tua alma aflora
um fogo urgente ― amemos sem demora:
mais vale devorarmos, com o brio
das aves de rapina em pleno cio,
O tempo de uma vez do que, em poder
das lentas presas dele, enlanguescer.
Unindo numa esfera dois extremos
― nossa ternura e força ― arrebatemos
prazeres com porfia desabrida
através dos portões férreos da vida.
Não há como parar o sol, mas nós
podemos ― sim ― torná-lo mais veloz.

§

PARA SUA AMADA ESQUIVA.
trad. Alípio Correia Neto. 

Com um mundo nosso, dama, e vez,
Não fora um crime tua esquivez.
Íamos sentar, pra ver qual via
Trilhar, e amar por longo dia.
Acharias, com o Ganges aos pés,
Rubis; eu, o pranto, ante as marés
Do Humber. Te daria dez anos
De amor antediluvianos!
Dirias não, por caprichos teus,
Até à conversão dos judeus;
Meu amor vegetal, mais lento
Que impérios, vasto em crescimento,
Um século pra louvações
Aos olhos, pra admirar feições,
Teria; o dobro pra adorar-te
Os seios; trinta mil às mais partes;
A cada qual, uma era, e então
Uma última, a teu coração.
Pois, dama, vales os meus reinos;
E eu não iria te amar por menos.

Mas ouço, sempre, atrás de nós,
O Carro do Tempo, veloz,
E adiante jazem vastos ermos
Da eternidade. Não havemos
De achar tua beleza afora.
Nem, na tua cripta marmórea,
Soará meu canto. E um verme há de
Testar-te a longa virgindade,
Mudando em pó tua honra altiva
E em cinzas a minha lascívia.
A cova é bom e íntimo espaço,
Mas não, penso eu, para um abraço.

Enquanto há em ti cor juvenil
Na tez, como na flor, rocio,
E a alma que anseia deita fora um
Fogo urgente em cada poro,
Vamos folgar, e semelhantes
A amáveis aves rapinantes,
Tragar o nosso tempo, isentos
De enlanguescer num bico lento,
Então enrolar nosso desvelo
E forças em um só novelo,
Rasgar prazeres na investida
Contra os portões férreos da vida.
Assim, sem termos o que impeça
O sol, o instamos a ir depressa.

§

PARA SUA TÍMIDA SENHORA.
trad. Rodrigo Garcia Lopes.

Com mundo e tempo de sobra, acredite-me,
Senhora, essa tua timidez não seria crime.
Sentados, pensaríamos no modo melhor
De gozar nosso longo dia de amor.
Tu pelas margens do Ganges
Acharia rubis, eu, no estuário langue
Do Humber, reclamaria de tudo.
Te amaria dez anos antes do Dilúvio,
E tu, se quisesses, recusarias meu eu
Até a conversão dos Judeus.
Meu amor vegetal iria assim crescendo
Mais vasto que impérios, e mais lento;
Cem anos gastos para elogiar
Teus olhos, e tua testa contemplar;
Duzentos para adorar cada seio,
Mas trinta mil para seu recheio;
Uma era ao menos para cada seção,
E a última exibiria enfim seu coração.
Senhora, bem mereces tal status.
Recusaria te amar por mais barato.

Mas ouço às nossas costas de repente
O carro alado do tempo, rente;
E além de nós ardem na tarde
Desertos de vasta eternidade.
Tua beleza, hoje, amanhã não será,
Nem na lápide marmórea há de soar
O eco dessa canção; só vermes sem piedade
A devorar tão protegida virgindade,
E tua honra antiquada virando pó,
E cinzas todo meu desejo, a sós:
A cova é discreta e confortável alcova,
Mas que amantes ali se abracem, não há prova.

Agora, enquanto a cor em suas maçãs
Pousa em tua pele como rocio da manhã,
E enquanto tua alma transpire de desejo
E em seus poros fogos sutis revejo,
Vamos nos acabar enquanto é de matina,
E já, como amorosas aves de rapina,
De uma vez devorar o nosso tempo
Em vez de enlanguescer em seu relento.
Enrolemos nossa força, sem espera,
Nossa ternura toda numa só esfera,
E rasguemos prazeres com luta ríspida,
Ao passar pelos portões de ferro da vida;
Pois, se não podemos o sol deter
Podemos ao menos fazê-lo correr.

§

À SUA TÍMIDA AMANTE.
trad. Renato Suttana. 

Houvesse, dama, tempo e mundo à farta,
E tal reserva não seria crime.
Sentados, a escolher nosso caminho,
Do amor o longo dia passaríamos.
Buscarias rubis junto das margens
Do indiano Ganges: e eu entoaria
Junto às ondas do Humber que te amara
Por mais dez anos, até a inundação.
Eis que o recusarias, caprichosa,
Do judeu a esperar a conversão.
Meu amor, como planta, medraria
Mais vasto que os impérios e mais lento:
E cem anos passara eu a louvar
Os teus olhos, mirando a tua fronte,
E a adorar cada seio mais duzentos,
Mais trinta mil para o restante – uma era
Enfim inteira para cada parte:
E o coração revelarias na última.
Pois que és digna, senhora, de tal corte –
E a menor preço eu não quisera amar.

Mas ouço às minhas costas, sempre, a alada
Carruagem do tempo se apressando;
E à minha frente em tudo vejo abrir-se
Só desertos de vasta eternidade.
Tua graça não mais existirá,
Nem meu canto soará sob a marmórea
Abóbada; só os vermes provarão
Essa há tanto guardada virgindade:
E a tua inútil honra será pó,
E todo o meu desejo apenas cinza:
Que a sepultura é cômodo e privado
Lugar, mas às carícias – creio – impróprio.

Por isso, enquanto a cor da juventude
Como o orvalho da aurora em tua pele
Repousa e cada poro da anelante
Alma um fogo incessante ainda transpira:
Vamos gozar, enquanto nos é dado,
E devorar como aves de rapina
De uma só vez nosso tempo, sem sermos
Em suas lentas garras abatidos.
Rolemos nossa força e toda a nossa
Doçura para dentro de um só globo –
E o gozo em luta rude laceremos
Contra os portões de ferro da existência:
Pois, se este sol não podemos parar,
Que o façamos então acelerar.

§

TO HIS COY MISTRESS.

Had we but world enough and time,
This coyness, lady, were no crime.
We would sit down, and think which way
To walk, and pass our long love’s day.
Thou by the Indian Ganges’ side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes, and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time’s wingèd chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found;
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honour turn to dust,
And into ashes all my lust;
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

(apresentação, organização e tradução de Matheus Mavericco)

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Quatro manhãs de Rimbaud

rimbaud-por-verlaine

Rimbaud, desenhado por Verlaine

 

Aproveitando o embalo da temática do poema em prosa da minha postagem anterior sobre o Gaspard de la Nuit, de Aloysius Bertrand, geralmente visto como o pai do gênero na França, agora voltaremos nossa atenção sobre Rimbaud. Como se sabe, a obra de Rimbaud inclui, além de poemas famosos em verso propriamente como “Vênus Anadiômene”, “Vogais”, “No Cabaré Verde”, “O adormecido do vale”, “Oração da tarde” e o “Barco bêbado”, dois voluminhos de poesia em prosa chamados Une Saison en Enfer (traduzido ou como “Uma temporada no inferno” ou “Uma estação” ou “Uma estadia”) e Les Illuminations (título dado por Verlaine que pode ser tanto “Iluminações” quanto “Iluminuras” e se refere às ilustrações das páginas de livros medievais). As Iluminações são um volume um pouco complicado, porque foi composto aos trancos e barrancos ao longo de um período maior de tempo (com poemas que seriam anteriores à Temporada ao lado de poemas que datariam de até dois anos após sua publicação) e em diferentes espaços, publicado por Verlaine em 1886, depois que Rimbaud já havia desistido da literatura e partido para a Abissínia.

Já a Temporada no Inferno é uma obra mais coesa, composta sob circunstâncias já bem conhecidas. Em 1872 Verlaine chama Rimbaud de volta a Paris, abandonando a esposa e o filho pequeno (sejamos francos, Verlaine era bem canalha) em julho do mesmo ano para ir com seu amante para Londres. Como apontam críticos (como Niall McDevitt, nesta resenha da Wolf Magazine à data da publicação da tradução de John Ashbery das lluminações para o inglês), as paisagens londrinas, às quais Rimbaud retornaria mais tarde, ao lado do poeta Germain Noveau, tiveram uma influência considerável sobre as imagens mais cosmopolitas da cidade utilizadas em Iluminações, ao passo que a Temporada é uma obra mais notavelmente francesa – como se pode observar, por exemplo, quando Rimbaud reflete sobre sua própria ascendência gaulesa no poema “Sangue ruim”. Em abril de 1873, Rimbaud parte para Roche, de volta à região de Charleville, sua cidade natal, onde começa a escrever a Temporada. No mês seguinte, ele acompanha Verlaine de novo em viagem a Londres. Após muitas brigas, o casal se separa e se reencontra em Bruxelas em julho, onde se passa o episódio mais infame da biografia dos dois poetas, em que Rimbaud tenta mais uma vez romper laços com Verlaine, e Verlaine, ensandecido, atira em Rimbaud, ferindo-o na mão. No hospital, a causa do ferimento é descrita como um acidente (velha história dos relacionamentos abusivos…). No dia seguinte, enquanto caminham, Rimbaud teme que Verlaine fosse atirar nele outra vez e chama a atenção de um policial. Verlaine acaba detido e é condenado a dois anos de prisão, não tanto por agressão ou tentativa de homicídio (o próprio Rimbaud, ao que parece, não queria prestar queixas, nem levar adiante o processo), mas pelo crime de “sodomia”, após ser submetido a certos exames médico-legais escabrosos.

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Enquanto Verlaine se convertia ao catolicismo na prisão, Rimbaud retornava à fazenda em Roche, onde termina de escrever a Temporada. Na sequência, ele pede à sua mãe para que banque a publicação do livro, que sai em outubro do mesmo ano em Bruxelas. E, assim, esse relacionamento tempestuoso com o poeta mais velho, regado a absinto e ópio, acaba marcando tanto o começo quanto o fim desse volume. Não por acaso, há algumas menções (muito pouco) veladas a ele, como no poema “Delírios I: a Virgem louca – o Esposo infernal”, em que a tal virgem louca é ninguém menos que o próprio Verlaine, com quem Rimbaud só viria a se reencontrar uma única vez após ele ter saído da cadeia em 1875 – e só para lhe entregar os manuscritos de Iluminações, para serem repassados a Germain Noveau, com quem Rimbaud viveu por três meses em Londres logo após a prisão de Verlaine, em 1874.

Uma Temporada no Inferno consiste de 9 poemas em prosa: uma introdução sem título, “Mauvais sang” (Sangue ruim), “Nuit de l’enfer” (Noite do inferno), “Délires I: Vierge folle – L’Époux infernal” (Delírios I: a Virgem louca – o Esposo infernal), Délires II: Alchimie du verbe (Delírios II: a Alquimia do verbo), “L’impossible” (O impossível), “L’éclair” (Relâmpago), “Matin” (Manhã) e “Adieu” (Adeus). Estruturalmente, diferente das Iluminações, em que os poemas não apresentam maiores relações evidentes entre si (e onde a própria ordem de sua apresentação no livro é motivo de discussão), ele revela uma certa unidade de ação, com uma narrativa básica, esquemática, subjacente. No caso, essa narrativa esquemática consiste da catábase do eu-lírico de Rimbaud, que começa a sua descida ao inferno em “Noite do inferno”, tomando veneno, e dele emerge, enfim, transformado, em “Manhã”. Em termos de jornada do herói campbelliana, por exemplo, esse trajeto equivaleria à parte chamada de “abismo”, o ponto mais baixo da jornada, anterior à morte e renascimento simbólicos do herói. Em termos textuais, o que Rimbaud faz vai muito além dos trabalhos de Baudelaire e Bertrand sobre a forma do poema em prosa, ao privar completamente o leitor de qualquer tipo de contexto. Há uma sensação muito peculiar de estarmos tateando no escuro quando lemos esses poemas em prosa de Rimbaud: não sabemos quem fala (é o próprio Rimbaud? um eu-lírico? quanta proximidade ele tem em relação ao Rimbaud real?), nem com quem ele fala, nem onde, quando ou em qual situação, motivo pelo qual essa narrativa que eu descrevi é isso apenas, esquemática. Como resultado, os textos adquirem um caráter enigmático que antecipa e influencia os desenvolvimentos posteriores da poesia moderna.

Em português, que eu tenho notícia, temos 3 traduções desse livro. A primeira foi feita pelo poeta e tradutor Lêdo Ivo (1924 – 2012), com o título de Uma temporada no inferno, publicada em 1957 pela editora Civilização Brasileira, numa edição junto com Iluminações, republicada depois em 1985 pela Francisco Alves. Em 1997, Paulo Hecker Filho (1926 – 2005) publicou pela L&PM a sua tradução, também com o título de Uma temporada no inferno (sem as Iluminações, porém), e a mais recente é a de Ivo Barroso (1929), publicada logo no ano seguinte e ganhadora do prêmio Jabuti do seu ano (reeditada depois em 2007) pela Topbooks, que também já tinha publicado em 1994 a sua tradução da obra poética em verso. A edição de Barroso é a mais abrangente, com o título de Prosa poética: Estadia no inferno, Iluminações, Coração sob a sotaina, Os desertos do amor e Prosas evangélicas, incluindo, como fica claro, além dos dois livros célebres, alguns esboços e fragmentos anteriores. Em 2009, Barroso também publicaria a edição das Correspondência do poeta.

Como costumamos fazer no escamandro, segue abaixo um dos poemas de Uma Temporada/Estadia/Estação no Inferno, “Matin”, o último antes do encerramento do volume em “Adeus”, nas traduções dos três autores. A elas somamos ainda uma quarta tradução, inédita, feita pela jovem Lua Koepsel (1995), aluna de Letras da UFPR e promissora aprendiz de poeta e tradutora literária. A motivação por trás da tradução dela é a de propor uma atualização da linguagem de Rimbaud em português, ao identificar uma tendência arcaizante nas traduções já existentes, que, segundo ela, acaba por homogeneizar a produção de Rimbaud, fundindo a fase de sua produção mais livre em prosa com a sua fase anterior, ainda escrita sob o peso sufocante da versificação francesa – e, com isso, diluindo o impacto do caráter inovador da Temporada no Inferno e Iluminações. Em todo caso, esse tipo de iniciativa me soa como bastante produtiva (quantos tradutores já não começaram por sentir que as traduções já existentes de um poeta, por mais que competentes, seriam, de algum modo inadequadas?), e esperamos que ela dê continuidade ao trabalho.

Seguem as quatro traduções, então – que demonstram que, não é porque um poema (ou um texto em geral) assume a forma de prosa que ele deixa de abrir um leque de possibilidades diversas, nada automáticas ou “naturais”, quando se trata de traduzi-lo.

Adriano Scandolara

Claude Monet - Impressão, amanhecer (1872)

Claude Monet – Impressão, amanhecer (1872)

 

Matin

N’eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d’or, – trop de chance ! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle ? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m’expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave Maria. Je ne sais plus parler !

Pourtant, aujourd’hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C’était bien l’enfer ; l’ancien, celui dont le fils de l’homme ouvrit les portes.

Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l’étoile d’argent, toujours, sans que s’émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur l’âme, l’esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer – les premiers ! – Noël sur la terre !

Le chant des cieux, la marche des peuples ! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

(Arthur Rimbaud)

 

Manhã

Não tive uma juventude amável, heróica, fabulosa, para ser escrita em folhas de ouro – Que sorte! Por qual crime, por qual erro, pago com minha fraqueza? Você que imagina os animais chorando com tristeza, doentes desesperados, mortos tendo pesadelos, tente narrar minha queda e meu sono. Eu, eu já não consigo me descrever como mais do que um mendigo com seus Pais-nossos e Ave Marias. Já não sei o que dizer!

Mas hoje creio ter terminado a narração do meu calvário. Calvário rumo ao inferno, aquele antigo, para o qual o filho do homem abriu as portas.

Neste mesmo deserto nesta mesma noite, sempre acordar com os olhos cansados à luz da estrela de prata, sempre, sem piedade dos Reis da vida, três magos, o coração, a alma e a mente. Quando iremos além das praias e dos montes saudar o nascimento do novo trabalho, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, e adorar – os primeiros! – o Natal na terra.

Canto dos céus, marcha dos povos! Escravos, chega de amaldiçoar a vida.

(tradução de Lua Koepsel)

 

Manhã

Não tive eu uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, para ser escrita em fôlhas de ouro, – sorte a valer! Por que crime, por que êrro, mereci a fraqueza atual? Vós que achais que animais dão soluços de dor, que doentes desesperam, que mortos tem pesadelos, tratai de narrar minha queda e meu sono. Quanto a mim, posso explicar-me tanto quanto o mendigo com os seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!

Contudo, creio ter terminado hoje a narração de minha temporada no inferno. Era realmente o inferno: o antigo aquêle cujas portas o filho do homem abriu.

No mesmo deserto, à mesma noite, meus olhos cansados sempre despertam sob a estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, adorar – os primeiros! – os primeiros! – o Natal sôbre a terra?

O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Lêdo Ivo)

 

Manhã

Não é verdade, que uma vez vivi uma juventude amável, heróica, fabulosa, digna de gravar-se em páginas de ouro? Incomparável ventura! Por que crime, por que erro vim a ser castigado com a fraqueza de hoje? vós que pretendeis que os animais solucem de dor, que os doentes desesperem, que os próprios mortos sofram pesadelos, procurai aclarar os motivos da minha queda e do meu sonho. Quando a mim, não posso melhor explicar-me do que um mendigo com seus monótonos Pater e Ave Maria. Eu não sei mais falar.

Todavia, agora, creio ter encerrado o relato de meu inferno. Era, não há negar, o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem descerrou.

Do mesmo deserto, na mesma noite, meus olhos sempre cansados se voltam para a estrela de prata, sempre, sem que os Reis da vida, se comovam, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos enfim, para além das praias e das montanhas, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o desaparecimento da superstição; quando iremos adorar – os primeiros! – a Natividade sobre a terra?

O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Paulo Hecker Filho)

 

A manhã

Já não foi uma vez adorável, heróica, fabulosa a minha mocidade, dessas de se inscrever em páginas de ouro, – promissora demais! Qual o crime, que erro, me fez merecer a miséria de agora? Vós que admitis possam as bestas soluçar de dor, os doentes se desesperarem, terem os mortos sonhos maus, tentai descrever minha queda e meu sono. E por mim, já não me explico melhor do que um mendigo com seus constantes padre-nossos e ave marias. Não sei mais falar!

Hoje creio haver, no entanto, terminado a relação de meu inferno. E era bem o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem abriu.

Neste mesmo deserto, nesta mesma noite, meus olhos cansados despertam sempre à luz da estrela de prata, sempre, sem que se comovam os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos afinal, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, para adorar- os primeiros! – o Natal na terra!

O cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Ivo Barroso)

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Rosas doentes

William-Blake

Em duas ocasiões anteriores, tratamos aqui dos poemas “The Tyger” e “The Lamb”, das Canções de Inocência & Experiência de William Blake. Recentemente eu fiquei meio obcecado com outro poema desses dois livros, “The Sick Rose”, e sinto que, apesar de ser curtíssimo, o poema merecia uma postagem inteira dedicada a ele.

Segue no original:

The Sick Rose

O Rose thou art sick.
The invisible worm,
That flies in the night
In the howling storm:

Has found out thy bed
Of crimson joy:
And his dark secret love
Does thy life destroy.

Destaco duas traduções aqui deste poema. Uma de Mário Alves Coutinho & Leonardo Gonçalves, presente no volume Canções da Inocência e da Experiência, da editora Crisálida:

A ROSA DOENTE

Ó Rosa, estás doente.
O verme que vadia,
Invisível na noite
De uivante ventania:

Achou teu leito feito
De prazer carmesim:
Seu negro amor secreto
Dedica-se ao teu fim.

E outra de Augusto de Campos, que acompanha uma versão verbivocovisual:

A rosa doente

Ó Rosa, estás doente!
Um verme pela treva
Voa invisivelmente
O vento que uiva o leva

Ao velado veludo
Do fundo do teu centro:
Seu escuro amor mudo
Te rói desde dentro.

a-rosa-doente

Publicado pela primeira vez em 1794 (antes, portanto, até mesmo das Lyrical Ballads de Wordsworth & Coleridge, que “fundam oficialmente”, por assim dizer, o romantismo na Inglaterra), “The Sick Rose” é um poema muito estranho. Qual é o sentido dessa parábola? O verme invisível “voa na noite”, pela “tempestade que uiva”, descobre o sugestivo “leito de alegria carmim” da rosa e destrói a sua vida com seu amor negro e secreto. E é isso, nenhuma explicação sobre a moral da história, nenhuma ideia do que possa ser o verme invisível (e como e por que diabos ele voa? e por que na noite, na tempestade?). É evidente que esse não é um poema sobre jardinagem e que as duas figuras são metafóricas, apontando para algo além de si mesmas, mas para o quê? Nem Baudelaire, com toda a sua modernidade (que os críticos e teóricos amam glosar), num poema como “O Albatroz” resiste àquela ponta de vontade iluminista de explicar as coisas, e, mesmo depois de martelar já na nossa cabeça que quem é o rei dos ares acaba sendo reduzido a uma criaturinha patética ao descer dos céus e ser obrigada a andar (que é o albatroz, logo, o poeta, na metáfora), resolve enfiar uma quarta estrofe explicitando essa relação: “Le Poète est semblable au prince des nuées“. Aaaah, claro, Charles! Nunca iríamos adivinhar.

Mas, bem, piadas às custas de Baudelaire à parte (eu ainda sou um baudelairiano irremediável, porém), voltando ao poema, é impossível não notar a aura pesada de erotismo que paira sobre o “The Sick Rose”. “Crimson joy” é uma expressão muito sugestiva, e o gesto do verme encontrando a rosa e, imagina-se, abrindo suas pétalas remete a claramente aos lábios da vulva, ao ato sexual. Mas, em todo caso, é um erotismo mórbido. O crítico S. Foster Damon, num texto de 1924, William Blake: His Philosophy and Symbols faz uma leitura algo cristianizada do poema: a rosa é a flor do Amor, e o verme é a Carne, e Damon identifica na destruição da rosa uma ideia de que esse amor casto é destruído pelo sexo – e, assim, Blake acreditaria num amor inocente e puro, muito em consonância com uma certa visão castrada que se tem da poesia romântica.

Mas essa é uma visão bem inocente. Sem querer fazer uma leitura biográfica aqui, mas já a meio caminho de fazê-la, gostaria de lembrar que a historiadora Marsha Keith Schuchard, em seu livro Why Mrs Blake Cried: William Blake and the Sexual Basis of Spiritual Vision (2006), aponta para documentos que confirmam uma suspeita antiga dela, a de que os Blake eram filiados a uma igreja bastante curiosa, a Moravian Chapel, em Fetter Lane, liderada pelo Conde Zinzendorf. Para explicar e entender o que acontecia na Moravian Chapel, basta pensar nas já famosas descrições do êxtase místico de Santa Teresa d’Ávila, que se parecem muito com a descrição do êxtase sexual. No caso dos Moravians, a semelhança não era metafórica e de fato o Conde Zinzendorf incentivava relacionamentos abertos entre os membros da igreja, dava aulas de educação sexual para recém-casadas e instruía preces e hinos direcionados à ferida na costela de Jesus, que tem um longo histórico de representação iconográfica em que ela se assemelha a uma vagina. Pois é.

Wound of Christ circa 1375

E parece que a Moravian Chapel tinha também alguma coisa com apropriação de noções de meditação cabalística aplicadas à prática sexual (como se concentrar nas letras do alfabeto hebraico), o que permitiria o visionarismo, mas enfim, estou me estendendo demais já sobre o assunto. O ponto a que eu quero chegar é que Blake não era nenhum Álvares de Azevedo, que sonhava com virgens puras entre nuvens inatingíveis. E isso, longe de ser um detalhe biográfico, encontra reflexo em sua poesia, o que faz com que a leitura de Damon pareça um tanto equivocada, talvez refletindo os valores conservadores de sua própria época. O mesmo acontece com a crítica em torno de Shelley (muitas vezes, não por acaso, comparado a Blake), lido como um poeta do amor espiritual puro, mas que a uma leitura mais detida revela um louvor ao amor livre e uma carnalidade bem acentuada.

Eu encontrei um site aqui de um professor da Universidade de Minnesota chamado Norman Fruman, que reconta uma anedota em sala de aula em que uma aluna sugere que o verme invisível do poema seja um símbolo fálico, ao que outra aluna responde: “se você acha que o verme invisível é um símbolo fálico, você precisa arranjar outro namorado” (fonte). Apesar da sagacidade da piada da moça (eu, pelo menos, ri), acontece que o verme tem de fato uma conotação fálica em Blake. Ele aparece em “O Livro de Thel” com essa dupla simbologia de imagem do sexo (falo) e da morte (o verme que rói os cadáveres), mas é uma figura patética, porque a narrativa se passa em Beulá, o jardim da inocência, na mitologia de Blake, que Thel habita e do qual se recusa a sair. No estado de inocência não existe morte e geração (i.e. procriação), assunto de que já tratamos anteriormente numa postagem sobre Joseph Campbell (clique aqui), e por isso Thel tem pena da criaturinha ridícula, ao mesmo tempo um verme inócuo e pênis infantil. E isso muda muito em “The Sick Rose”, não um poema do livro da inocência, mas da experiência.

E aqui eu vou ter que citar Harold Bloom. Sei que muita gente tem problema com ele, e com toda a razão, mas o Bloom de começo de carreira era um ótimo leitor dos românticos, e o seu livro The Visionary Company: a reading of English Romantic poetry (1961) é uma excelente introdução a Blake, Wordsworth, Coleridge, Keats, Shelley e Byron, escrita na época em que ele ainda não estava completamente obcecado com termos cabalísticos, angústia da influência e defesa do cânone. Na seção sobre “The Sick Rose”, que emenda com uma seção anterior sobre o poema “Earth’s Answer”, também sobre dominação sexual, Bloom diz o seguinte:

Porém os amantes se encontram nas florestas da noite e não à luz do dia. Esse tema encontra sua perfeita expressão em “The Sick Rose”, trinta e quatro palavras que formam um poema maravilhosamente compacto. Como com “The Tyger”, a dificuldade deste poema o faz herdar o tom problemático de sua abertura exclamatória:

O Rose, thou art sick!

A ênfase aqui é na palavra “art” (és/estás) e o tom é macabro, com a assertividade de um profeta que viu sua profecia de calamidade ser cumprida:

The invisible worm
That flies in the night,
In the howling storm,

Has found out thy bed
Of crimson joy,
And his dark secret love
Does thy life destroy.

O leito precisa ser “descoberto” porque está oculto, e já é um leito de “alegria carmim” antes que o verme chegue a ele. Os elementos de ocultação deliberada e de autogratificação sexual deixam claro que o poema é uma invectiva contra o mito de que são as mulheres que fogem e os homens que as buscam, com seu padrão sinistro de recusa sexual e subsequente destrutividade. O amor do verme é um amor negro e secreto e portanto destrói a vida, porém o verme vem invisivelmente à noite e pela ação da tempestade que uiva, porque um amor solar e declarado não poderia ser recebido. Nem o verme, nem a rosa têm culpa, na verdade, porque foi a Natureza que ocultou o leito da rosa e assim pôs os contrários gerativos masculino e feminino um contra o outro. A força do poema se encontra no paralelo humano que fica sugerido, em que a ocultação é mais elaborada e o casamento-estupro destrutivo é um ritual social.

E essa leitura me parece estar mais alinhada ao sentido ético geral da mitologia elaborada por Blake, que não tem espaço para essa dicotomia simples entre amor “puro” e o amor erótico – dicotomia esta cujo tom implícito de disciplina e proibição remete a Urizen, o demiurgo da cosmologia blakiana que representa a lei e a razão e visa restringir a liberdade humana, e, em todo caso, é angelical demais para partir da mesma persona que reclama, em O Matrimônio do Céu e do Inferno, que Swedenborg só “escreveu as velhas falsidades” por ter conversado “apenas com os Anjos, que são todos religiosos, & não os Diabos, que odeiam, todos, a religião”. Esse topói do amor que é destrutivo por ser obrigado a ser oculto e clandestino, já prepara o terreno ainda para a releitura homossexual do poema no contexto da segunda metade do século XX, nas mãos de figuras como o cineasta Derek Jarman (1942 – 1994), que foi grande leitor de Blake. Não me por acaso também, o grupo de música eletrônica e industrial Coil (1982 – 2004), que trabalhou com Jarman em projetos como The Angelic Conversation (1985) e Blue (1993), utiliza o poema como mote no álbum Love’s Secret Domain (1991).

Mas voltemos ao texto. Notem que Bloom, infelizmente, como costuma fazer em suas análises, não presta muita atenção aos elementos formais mais básicos do poema. Para dar um exemplo, a pontuação usada por ele (que tem aquele ponto de exclamação horroroso) é diferente da que se vê na placa em que o poema está ilustrado:

The_Sick_Rose_(Fitzwilliam_copy)

A pontuação idiossincrática, com essa falta de vírgulas, soma uma camada a mais de estranheza ao poema, junto de sua métrica irregular, que leva a uma contagem de sílabas 5/6/5/5 e 5/4/6/5:

o / ROSE | thou / art / SICK |
the  / in / VI | si / ble / WORM |
that / FLIES | in / the / NIGHT |
in / the  / HOWL | ing / STORM |

has / FOUND | out / thy / BED |
of / CRIM | son / JOY |
and / his / DARK | sec / ret | LOVE |
does / thy / LIFE | dest / ROY |

…no primeiro verso temos um jambo (sílaba fraca + sílaba forte)  e um anapesto (sílaba fraca + sílaba fraca + sílaba forte), depois dois anapestos nos dois versos seguintes e uma combinação de anapesto e jambo que inverte a do primeiro verso. “Of crimson joy” consiste de dois jambos só, e “dark secret love” é uma expressão complicadinha de escandir, por causa da dinâmica de força entre as tônicas do inglês em que geralmente os adjetivos acabam perdendo para os verbos e substantivos. Mas aqui há um encavalamento de adjetivos e, assim, temos 3 opções: ou imaginamos que este seja um verso anômalo no poema com 3 tônicas, e o lemos com o choque desagradável de duas tônicas (DARK | SEC | ret) ou ainda com o “dark” perdendo a tonalidade para o “his” (o que é bem forçado); ou supomos que o pé métrico usado seja um com três sílabas átonas e uma tônica, o chamado peônio (and / his / dark / SEC | ret / LOVE), que é uma opção meio bizarra; ou lemos “secret” como sendo uma palavra inteiramente átona, o que é também uma opção bem estranha, que foi o Guilherme que me sugeriu aqui e que eu rejeitei a princípio, mas depois acabei vendo que era a melhor opção, fazendo com que ele seja, como o segundo verso, anapéstico.

Foi com estas coisas em mente e ainda mais algumas, tais como apontadas por Jeremy Biles nesta postagem, que resolvi somar mais uma tradução do poema ao português, já que acredito que essas pequenas dissonâncias servem para deixá-lo mais intrigante e até mesmo, arriscaria dizer, mais moderno. O verme acabou aqui se tornando uma praga, no sentido botânico do termo, uma vez que a palavra “worm” em inglês pode ter uma conotação mais genérica que não sei se “verme” tem em português. Por exemplo, não me parece corrente falarmos em verme da maçã ou da goiaba (para nós, pelo menos na variação linguística à qual estou acostumado, diz-se “bicho”, que a fruta está “bichada”), ao passo que “worm” é comum nesses casos em inglês, e a ilustração de Blake nos mostra uma lagarta. “Praga”, além disso, também permite uma aliteração com “procela”, e o Jeremy Biles identifica na expressão “howling storm” um desdobramento da palavra worm (hoWling stORM) que se torna possível se aproximar, na tradução, com “procela” e “chegara”, no verso seguinte (PRocelA, cheGAra). Também tentei reproduzir uma certa irregularidade de metro (apesar de eu não ter me prendido tanto à estrutura dos pés métricos do original) e de pontuação, bem como a repetição da letra “o”, que no original ocorre em todos os versos menos o terceiro (o segundo, na minha tradução) e que parece ser significativa.

Segue a tradução, enfim:

A Rosa Doente

Ó Rosa adoeceste.
A praga invisível,
Que voa na noite
Na procela temível:

Chegara a teu leito
De gozo carmim:
E seu atro oculto amor
À tua vida põe fim.

 

(Adriano Scandolara)

 

PS: o Guilherme também se empolgou com a ideia de traduzir o “Sick Rose” e mandou uma tradução própria. Quem quiser mandar também a sua nos comentários, sinta-se à vontade:

A rosa adoentada

Ah rosa adoentada
um verme que se enrasca
no voo invisível
da uivante borrasca

achou a tua cama
rubra enlouquecida
e num negro amor
corrói a tua vida

(tradução de Guilherme Gontijo Flores)

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poesia, tradução

Dylan Thomas, por Matheus Mavericco

Dylan Thomas

Entre 1914 e 1953 uma das vidas mais conturbadas bateu ponto aqui na terra. Dylan Thomas, que Augusto de Campos chamou de bardo rejeitado, certamente não é do tipo de poeta que se resolva nem em notas biográficas e nem em páginas impressas. O leitor deverá terminar de ler a postagem aqui no escamandro e correr pra conferir a primeira gravação do autor declamando que puder encontrar. Isso dispensará muita coisa. Assim como Manuel Bandeira disse em relação a T. S. Eliot (o mesmo Eliot que rejeitou, e se arrependeu depois, a poesia de Dylan), certas coisas só poderão ser entendidas se assim fizermos. Certo que existe mais. Por exemplo a famosa e terrível boemia que o vitimou tão cedo e que nos permite lembrar do definhamento aos poucos de Leminski. O paralelo, aliás, não é gratuito. Assim como subjaz um fundo cristão ou no mínimo hagiográfico (conforme estudado por Flora Süssekind) na poesia do autor curitibano, na do autor galês nós podemos chegar a conclusões análogas. Claro que existem controvérsias: o leitor tem de saber de antemão que Dylan Thomas é famoso por suas metáforas, e essas, lembra Carpeaux, movem-se em torno de acontecimentos elementares como o nascimento e a morte, e é embasado nestes que o lastro cristão percorre o substrato poemático. E além disso, pra terminar o paralelo Leminski-Thomas, um e outro fazem as pazes também com um trabalho eminente e inventivamente formal (ambos leitores apaixonados do Finnegans Wake), permitindo florescer, num percurso que o próprio Dylan caracterizou como doloroso, a genuína alegria da poesia.

Não sei até que ponto o poema que traduzo e compilo abaixo consegue demonstrar tudo isso. Você vai perceber se observar o certo alheamento nervoso que Dylan proclama ao longo do poema, criando uma espécie de santidade em torno dessa imagem do poeta que cai de boca (presumivelmente) na noite, para depois como que se refugiar em sua mansarda e dar vida às portas de pérola dúbia das boates de que fala Drummond. Em suma, aquilo que, ainda em Leminski, foi-se dito da poesia como algo inútil: ou seja, in-útil, a utilidade da poesia residindo na própria poesia, na própria resistência calada de que, ao se escrever de forma tão inventiva e contestadora como Dylan, se subentenda a recusa (e a inclusão de Dylan na antologia de Augusto, sob o título “Poesia da Recusa”, é paradigmática).

O poema é, sem dúvidas, o mais famoso de Dylan Thomas, e se o selecionei, leia-se nesta seleção uma espécie de protesto, já que que se trata de um autor injustamente esquecido. Algo assim não deveria acontecer, tendo em vista que temos uma tradução completa de sua obra e que temos o nome de Thomas gravado na mente, pelo menos, dos poetas praxistas e da vanguarda concreta. O que houve?, você pode se perguntar. Eu não sei. É muito irônico que ainda hoje desprezemos o Craft or Sullen Art de Dylan. É muito irônico e muito triste, pois quem tem a perder somos apenas nós.

Em minha tradução, pra explicar pro leitor onde me desviei, quis manter uma estrutura formal próxima do original. Assim a escolha do verso de sete sílabas, embora deva lembrar que o original é muito cambiante, e assim um esquema rímico vagamente fixo nas duas estrofes, tentando manter as rimas em “-im” para o penúltimo e antepenúltimo versos e um dístico espargido lá no começo da estrofe. O resto é estripulia, como, afinal de contas, é o próprio original: vale dizer, a busca de sonoridades máximas, o que meu uso e abuso das aliterações em R talvez consiga indicar (criando um paralelo mais uma vez com Drummond, só que agora o Drummond de Oficina Irritada ― quem sabe, pode-se supôr, um correspondente funcional da Craft or Sullen Art de Dylan).

(Matheus “Mavericco”)

§

NESTE MEU ENCARGO OU ARTE AMARGA.
tradução de Matheus “Mavericco”.

Neste encargo ou arte amarga
Tarde da noite exercido
Quando só a lua açula
E os amantes vão pro leito
Com toda a dor em seu peito,
Trabalho sob a luz cantante
Sem ambição e sem pão
Nem fanfarras ou encanto
Em tablados de marfim,
Mas pelo salário afim
A seu secreto coração.

Nem pelo soberbo à parte
Da lua que açula escrevo
Nestas páginas de tornados,
Nem por mortos encastelados
Com seus pássaros e salmos,
Mas aos amantes, cujo peito
Abraça a época ruim
Que não paga o salário afim
A este encargo ou arte amarga.

*

SE EM MEU OFÍCIO, OU ARTE SEVERA.
tradução de Mário Faustino.

Se em meu ofício, ou arte severa,
Vou labutando, na quietude
Da noite, enquanto, à luz cantante
De encapelada lua jazem
Tantos amantes que entre os braços
As próprias dores vão estreitando ―
Não é por pão, nem por ambição,
Nem para em palcos de marfim
Pavonear-me, trocando encantos,
Mas pelo simples salário pago
Pelo secreto coração deles.

Não pelo homem altivo, alheio
A tormentosa lua escrevo
Sobre estas páginas de espuma
Nem pelos monstros imponentes
Com seus rouxinóis, seus salmos,
Mas pelos que se amando estreitam
Nos braços toda a dor das eras,
Que não louvam, não pagam, nem escutam
O meu ofício ― ou arte severa.

*

NO MEU OFÍCIO OU ARTE AMARGA.
tradução de Ivo Barroso.

No meu ofício ou arte amarga
Que à noite tarda é exercido
Quando alucina só a lua
E dormem lassos os amantes
Com as dores todas entre os braços,
É que trabalho à luz cantante
Não pela glória ou pelo pão,
Desfile ou feira de fascínios
Por sobre palcos de marfim,
Mas pela paga mais afim
De seus secretos corações!

Não para alguém altivo à parte
Da lua irada é que eu escrevo
Os respingados destas páginas
Nem pelos mortos presumidos
Cheios de salmo e rouxinóis.
Mas para amantes cujos braços
Têm os cansaços das idades
Que não me dão louvor nem paga
Nem prezam meu ofício ou arte.

*

EM MEU OFÍCIO OU ARTE SEVERA.
tradução de José Lino Grünewald.

Em meu ofício ou arte severa
Na sossegada noite exercido
Quando apenas ruge a lua e, ao leito,
Pairam os amantes com tôdas ânsias
Nos braços concentradas, eu trabalho
À luz cantante, nem por glória ou pão
Ou pela permuta e pompa de encantos
Ein palcos de marfim, mas pela paga
Simples em seu mais quieto coração.

Não ao orgulhoso, alheio à luz uivante
Escrevo nestas espumadas páginas;
Nem também ao cadáver altaneiro
Com seus rouxinóis e salmos, e sim
Aos amantes, seu braços circundando
Todos o padecer dos tempos, aquêles
Que não prestam louvor nem recompensa
Nem se importam com ofício ou arte.

*

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA.
tradução de Ivan Junqueira.

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

*

NESTE MEU OFÍCIO OU ARTE.
tradução de Augusto de Campos.

Neste meu ofício ou arte
Soturna e exercida à noite
Quando só a lua ulula
E os amantes se deitaram
Com suas dores em seus braços,
Eu trabalho à luz que canta
Não por glória ou pão, a pompa
Ou o comércio de encantos
Sobre os palcos de marfim
Mas pelo mero salário
Do seu coração mais raro.

Não para o orgulhoso à parte
Da lua ululante escrevo
Nestas páginas de espuma
Nem aos mortos como torres
Com seus rouxinóis e salmos
Mas para os amantes, braços
Cingindo as dores do tempo,
Que não pagam, louvam, nem
Sabem do meu ofício ou arte.

*

EM MEU OFÍCIO OU SOMBRIA ARTE.
tradução de Rodrigo Madeira.

Em meu ofício ou sombria arte
Exercida na noite estanque
Quando só a lua se enraivece
E os amantes jazem num colchão
Com suas dores todas entre os braços
Trabalho à luz cantante
Não pela cobiça ou pelo pão,
Cabotino comércio de encantos
Sobre palcos de marfim,
Mas pelo salário mínimo, isso sim,
De seu mais secreto coração.

Não para o soberbo na solidão
Da lua furiosa escrevo
Nestas páginas espargidas
Nem para os mortos conspícuos
Com seus salmos e rouxinóis
Mas para os amantes, o abraçar-se
Aos pesares de tempos idos,
Que não me dão salário ou elogios
Nem estimam meu ofício ou arte.

*

IN MY CRAFT OR SULLEN ART.

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.

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crítica, poesia, tradução

O soneto das vogais e o livro Bahir

Arthur Rimbaud por Ernest Pignon-Ernest, Paris 1978/79

Arthur Rimbaud por Ernest Pignon-Ernest, Paris 1978/79

Faz alguns meses que eu fiz uma postagem sobre a teoria das correspondências de Swedenborg, ilustrado pelo soneto das correspondências de Baudelaire, numa tentativa de explicitar, via citação das fontes primárias mesmo, o elo entre o poeta, que permanece em posição absolutamente central em discussões sobre poesia moderna e modernidade, e uma doutrina mística que foi muito popular à época, mas hoje é pouco estudada e, no geral, não costuma render mais do que uma breve nota de rodapé nos comentários sobre ele. Agora iremos voltar a essa discussão, com enfoque desta vez em Arthur Rimbaud (1854 – 1891), um poeta que, acredito, dispense maiores apresentações – enfant terrible dos círculos do simbolismo francês do fin-de-siècle, foi alvo do amor e do ódio de Paul Verlaine, revolucionou a poesia tanto com a obra em versos quanto com a prosa poética de Iluminações e Uma estadia no inferno antes mesmo de ter a idade hoje necessária para poder beber legalmente, para então largar tudo e ir traficar armas na África e morrer antes dos 40. Uma das histórias de vida de poeta favoritas de qualquer leitor.

“Voyelles”, o célebre soneto das vogais, é provavelmente um dos seus poemas mais famosos:

Voyelles

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes:
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre ; E, candeur des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides
Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silence traversés des Mondes et des Anges:
— O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux!

Aqui segue a tradução de Augusto de Campos, presente no seu volume Rimbaud Livre (1993):

Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas e areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes:
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncios assombrados de anjos e universos:
 Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!

Apesar de ser um belo trabalho de tradução poética, eu gostaria de emendar também a do Ivo Barroso, presente no volume de Poesia Completa de Rimbaud, por ela acompanhar em alguns pontos mais de perto a semântica do original francês (notem, por exemplo, que Augusto optou por deixar a palavra “alquimia” de lado no português, uma palavra que tem toda uma ressonância particular na obra desse poeta):

Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Um dia hei de dizer vossas fontes latentes:
A, negro e veludoso enxame de esplendentes
Moscas a varejar em torno aos chavascais,

Golfos de sombra; E, alvor de tendas tumescentes,
Lanças de gelo altivo, arfar de umbelas reais;
I, púrpuras, cuspir de sangue, arcos labiais
Sorrindo em fúria ou nos transportes penitentes;

U, ciclos, vibrações dos mares verdes, montes
Semeados de animais pastando, paz das frontes
Rugosas de buscar alquímicos refolhos;

O, supremo Clarin de estridores profundos,
Silêncios a esperar pelos Anjos e os Mundos:
 O, o Ômega, clarão violáceo de Seus Olhos!

O soneto costuma ser acompanhado por um breve poema composto de um único quarteto intitulado “A estrela chorou rosa…”, que é visto como uma adendo que serve de conclusão, uma forma de coda:

L’étoile a pleuré rose au coeur de tes oreilles,
L’infini roulé blanc de ta nuque à tes reins ;
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l’Homme saigné noir à ton flanc souverain.

A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.

(tradução de Augusto de Campos)

A estrela chorou rosa ao fundo de tua orelha,
O espaço rolou branco entre a nuca e o quadril
O mar perolou ruivo a mamila vermelha
E o homem sangrou negro o flanco senhoril.

(tradução de Ivo Barroso)

E então fica a dúvida: sobre o que diabos falam esses versos? o movimento é evidente, cada vogal é associada a uma cor, e essa cor, por sua vez remete a um apanhado de imagens que possuem essa coloração: um enxame de moscas negras, o branco ao mesmo tempo da neve e do deserto, repleto de tendas e reis (árabes, supõe-se), o vermelho de uma cusparada de sangue, o verde dos mares e pastos, o azul, que se matiza em violáceo, do infinito (ok, aqui no final a coisa fica um tanto mais confusa). Que cada imagem esteja associada a uma cor é compreensível, mas a relação entre cada vogal e cada cor é claramente arbitrária. E a coda também não esclarece nada, apesar de que a presença de um corpo provavelmente feminino (fala-se em peito e quadris) que abrange em si o universo (note o espaço construído com o céu na orelha, o infinito no torso, os mares nos peitos, num tom que lembra algo como uma mito de criação do mundo), dê a impressão de uma referência mística erótica, enxergando o ato sexual como uma forma de sacrifício (que é a interpretação para a qual a escolha de palavras feita por Augusto parece apontar: altar dos teus quadris). Não cabe aqui falar de todo o histórico da recepção e interpretação deste poema, mas, como resume um comentador, John M. Lipski, citando Cazals (clique aqui para ver o artigo), ele se divide entre aqueles que tentaram a sério estabelecer um entendimento mais profundo e os que acharam que não passava de puro nonsense.

Heinrich Khunrath - The Hermaphrodite (Amphitheatrum sapientiae aeternae, 1595)

Heinrich Khunrath – The Hermaphrodite (Amphitheatrum sapientiae aeternae, 1595)

Num artigo intitulado “Rimbaud: Sex, Verse, and Modernity” (1994), um estudioso chamado Amittai Aviram identifica em “Voyelles” uma intertextualidade com o “Correspondências” de Baudelaire, no sentido de que ele supostamente desconstruiria a visão swedenborguiana das correspondências por encontrar o foco das suas relações não entre as coisas dos mundos material e espiritual, a tal floresta de símbolos, mas entre as coisas e meros sinais gráficos, “as letras, elementos constituintes de textos, o que demonstra uma auto-reflexividade marcante sobre a textualidade do poema” – uma mudança, portanto, do “naturalizante” para o “textualizante”, que faria de Rimbaud um pós-moderno em comparação com a modernidade de Baudelaire.

Pessoalmente, eu acho essa interpretação um pouco exagerada, apesar de que ainda recomendo o artigo do Amittai para quem se interessa pelo debate (ele também discute o “Bateau Ivre” e chega a comparar com o “Alastor”, de Shelley, o que é um ponto positivo na minha concepção). O que parece ter escapado à leitura do Amittai é que, para o judaísmo, mesmo o judaísmo rabínico mais ortodoxo, as letras nunca são meras representações gráficas aproximadas dos sons da fala, mas a raiz crucial de toda a base das correspondências com o divino, como fica claro em vários momentos dos comentários da Talmud e Midrash. E isso é ainda mais exacerbado nas tradições místicas, desde o Sefer Yetzirah (Livro da Formação), cuja data de autoria é desconhecida, até os textos fundadores da Cabala dos séculos XII-XIII, como o Zôhar (Esplendor) e o Sefer HaBahir (Livro da Iluminação). Noções da Cabala, que se tornou estranhamente popular na época do renascimento (tendo como adeptos os célebres alquimistas John Dee e Heinrich Khunrath, de quem retirei a ilustração acima) e no século XVIII (quando arrebanha figuras tão distintas quanto Swedenborg e ninguém menos que o matemático Gottfried Leibniz), se encontra no cerne da maioria das tradições esotéricas europeias, incluindo as do século XIX como o pensamento de Eliphas Lévi, a teosofia de Mme. Blavatsky e a Ordem Hermética da Aurora Dourada, que ajudaram tanto para disseminá-las quanto para diluí-las. Tudo isso pairava no ar ao longo do século, e me parece provável que deve ter influenciado muitos escritores indiretamente, pela leitura de outros escritores que tiveram acesso às fontes. Mas Rimbaud é um caso especial, porque ele foi apresentado a essas coisas por via direta, através do seu amigo ocultista Charles Bretagne. É difícil dizer exatamente, porém, o que ele leu, mas parece que envolve desde Eliphas Lévi até algo sobre misticismo islâmico (“Eu não tinha em mente a sabedoria bastarda do Corão”, diz ele no poema em prosa “L’Impossible”).

Como eu gostaria de demonstrar aqui, algumas das coisas em que Rimbaud toca em “Voyelles” encontram uma forte ressonância com parágrafos do Bahir – no sentido de que, lendo certos trechos do livro na edição traduzida e comentada pelo grande Aryeh Kaplan (1934 – 1983), foi impossível ver a menção às vogais sem gritar (internamente, ao menos) eita, que isso é Rimbaud! Não quero sugerir que Rimbaud tenha lido o Bahir (sequer deveria existir tradução para o francês na época… aliás, não sei nem se existe hoje), mas é provável que ele tenha, de algum modo, entrado em contato com ideias dele.

Eis um exemplo de discussão sobre as letras do alfabeto hebraico no livro:

Bahir, p. 6

The Bahir: Illumination (Boston, MA: Weiser Books, 1989), p. 6

Traduzindo para o português, então, a partir da tradução do Kaplan (a edição usada para verter a citação bíblica é a da Bíblia Hebraica na tradução de David Godorovits e Jairo Fridlin):

14. Por que a letra Bet é fechada em todos os lados e aberta na frente? Isso nos ensina que ela é a Casa (Bayit) do mundo. Deus é o lugar do mundo, e o mundo não é o Seu lugar.

Não leia Bet, mas Bayit (casa).

Assim está escrito (Provérbios, 24:3), “Pela sabedoria se edifica uma casa, pela inteligência é (firmemente) estabelecida, e pelo conhecimento são suas câmaras recheadas com riquezas e preciosidades”.

Bet (ב) é a segunda letra do alfabeto e a primeira letra que aparece na Bíblia, em Bereshit (בראשית), literalmente “no princípio”, o título do livro do Gênesis em hebraico e a primeira palavra do primeiro versículo: בְּרֵאשִׁית, בָּרָא אֱלֹהִים…. Mas há outros trechos que tratam especificamente das vogais. Como se sabe, o alfabeto do hebraico, como o árabe, é um abjad, em que só constam as 22 consonantes, que são o foco da maior parte das práticas místicas. Nos textos bíblicos e literários, porém, as vogais são marcadas, e isso se dá via pontos e traços geralmente inseridos abaixo da consoante (ou acima, em alguns casos). Uma dessas vogais é o patach, um tracinho no lado inferior, um pouco para a esquerda, que representa o som do “a” aberto. Diz o parágrafo 34, então:

34. Eles lhe indagaram: Por que a letra Het (ח) é aberta? E por que a sua vogal é um pequeno patach (חַ)?

Ele disse: porque todas as direções (Ruach-ot) estão fechadas, exceto pelo norte, aberto para o bem e para o mal.

Eles disseram: Como podes dizer que é para o bem? Não está escrito (Ezequiel, 1:4), “Olhei e percebi que um vento tempestuoso vinha do norte, uma nuvem imensa, dentro da qual resplandecia uma chama”. O fogo não é nada que não a fúria violenta, como está escrito (Levítico, 10:2) “E saiu fogo de diante do Eterno e os queimou, e morreram diante do Eterno”.

Ele disse: Não há dificuldade alguma. Um dos casos fala de quando Israel cumpre a vontade de Deus, enquanto o outro fala de quando a vontade de Deus não é cumprida. Quando Israel não a cumpre, então desce o fogo [para destruir e castigar]. Mas quando a cumpre, então os Atributos da Piedade o envolvem e abrangem, tal como está escrito (Miqueias, 7:18) “Ele não mantém Sua cólera para sempre”.

(Ruach-ot, no caso, é uma referência à primeira ocorrência da letra Het na Bíblia, na palavra ruach (sopro), no segundo versículo do Gênesis, “o espírito (sopro) de Deus” (וְרוּחַ אֱלֹהִים)).

E depois o 37:

37. O que é o Patach? É uma abertura (Petach).

O que se entende por abertura? É a direção do norte, aberta para o mundo inteiro. É o portão pelo qual o bem e o mal emergem.

E o que é o bem?

Ele riu e disse: Não vos disse que é um pequeno Patach (abertura)?

Eles disseram: nós nos esquecemos, ensina-nos outra vez.

Ele repassou e disse: Como é sua aparência? Um rei tinha um trono. Por vezes o carregava em seu braço, por vezes na cabeça.

Eles perguntaram o porquê, e ele respondeu: Porque era maravilhoso e seria uma pena sentar nele.

Este trecho, segundo Kaplan (sem as notas dele, certo que seria impossível a leitura, exceto para os iniciados, o que talvez fosse o propósito), provavelmente se refere aos tefillin, as filacterias com tiras de couro usadas para preces no judaísmo, que são amarradas na mão e na cabeça, os lugares portanto, onde o rei carregava o trono nessa anedota absurda. Patach, diz ele, se refere à sabedoria (Chokmá, a 3ª das séfirot), enquanto o segol (outra vogal, representada por três pontinhos abaixo da consoante, com som de ‘e’) é o amor (Chesed), a mão direita. Mas o ponto a que eu queria chegar são três parágrafos bastante posteriores, em que o autor fala mais detidamente das vogais.

114. Qual o significado da palavra Shevet [que tem a conotação tanto de uma tribo quanto um cajado]?

É algo simples e não quadrado.

Qual é o motivo?

Porque é impossível ter um quadrado dentro de outro quadrado. Um círculo dentro de um quadrado tem espaço para se mover. Um quadrado em um quadrado é imóvel.

115. Quais são as coisas que são circulares?

São os pontos de vogais na Torá de Moisés, pois são todos redondos. São para as letras como a alma, que habita o corpo do homem.

É impossível que o homem venha [a este mundo] a não ser que a alma resista dentro dele. É impossível que ele pronuncie qualquer coisa, grande ou pequena, sem ela.

De modo semelhante, é impossível dizer palavra, grande ou pequena, sem os pontos das vogais.

116. Todo ponto de vogal é redondo, e todas as letras são quadradas.

Os pontos das vogais são a vida das letras, e é através delas que as letras resistem.

Os pontos das vogais passam pelos canais até as letras através do olor de um sacrifício, que imediatamente desce. É portanto chamado de “uma fragrância descendente (agradável) para Deus” – indicando que agrada a Deus.

Eis o sentido do versículo (Deuteronômio, 6:4), “Escuta, Israel! O Eterno é nosso Deus, o Eterno é um só!”

Acredito que, apesar de Rimbaud não estar de fato citando o Bahir, há semelhanças o suficiente entre os discursos para apontar algum grau de familiaridade senão com este livro de fato, pelo menos com o pensamento místico por trás, de modo que haja um princípio semelhante orientando a ambos. Mas há um deslocamento claro em Rimbaud: o misticismo do Bahir é sustentado por uma relação, possivelmente conflituosa, mas clara, com a religião judaica tradicional, para a qual o hebraico tem um estatuto de língua sagrada. Ao transpor esse processo para o alfabeto latino e falar não de patach e segol, mas de AEIUO, ao meu ver, ocorre algo parecido com quando Baudelaire e Mallarmé tratam de transcendência, que, como comenta famosamente Hugo Friedrich em Estrutura da Lírica Moderna, é uma transcendência vazia. E, assim, ao recorrer a um processo semelhante de associação de imagens, Rimbaud está reivincando para si um papel como o do místico ou do vidente, mais ou menos nos moldes daquilo que Scholem descreve no trecho que citei aqui numa postagem anterior. Não se trata (pelo menos não necessariamente) de uma experiência mística real, mas da poesia como uma metáfora dessa experiência. Nada disso vai elucidar o sentido por trás das imagens individuais usadas por Rimbaud aqui, apesar de que o que é dito no parágrafo 115, que as vogais são a alma da fala, parece ser profundamente significativo – em todo caso, essas coisas são algo a ser levado em conta, que, pelo menos para mim, parece desfazer muito da névoa de arbitrariedade opaca que envolve o poema.

(Adriano Scandolara)

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poesia, tradução

7 vezes “Aedh wishes for the cloths of Heaven”, de William Butler Yeats

Jackie Mackenna "He wishes for the cloths of Heaven", memorial com base no poema

Jackie Mackenna “He wishes for the cloths of Heaven”, memorial com base no poema

originalmente publicado no volume The wind among the reeds (1899), “Aedh wishes for the cloths of Heaven” é um dos poemas mais famosos de william butler yeats (1865-1939). tanto, que já apareceu até num filme como Nunca te vi, sempre te amei (84 Charing Cross Road) , na voz de antony hopkins. ele incorpora o que é visto muitas vezes como uma primeira fase da poesia de yeats, em que predominam as influências do romantismo, da poesia vitoriana e do simbolismo, ao lado de temas muitas vezes retirados da mitologia céltica e folclore irlandês – é anterior, portanto, a outros poemas famosos, como “The second coming” (1919-20) ou “Sailing to Byzantium” (1928). como já fizemos aqui outras vezes, acho que a maior homenagem que podemos fazer a um poema é reunir seus tradutores. por uma coincidência dessas que não sabemos como, bruno d’abruzzo me enviou sua tradução inédita na mesma semana em que eu havia visto a de andré vallias no facebook. além disso, eu já sabia da existência de pelo menos mais uma ou duas. aqui estão reunidas todas que pude encontrar.

guilherme gontijo flores

AEDH WISHES FOR THE CLOTHS OF HEAVEN

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

(William Butler Yeats)

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OS TECIDOS DO CÉU

Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus,
ornados de ouro e prata em luz,
panos azuis foscos breus
da noite, luz, e da meia-luz,
estenderia os tecidos sob teus pés.
Mas, pobre, tenho apenas sonhos;
são eles que estendo sob teus pés.
Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos.

(trad. inédita de Bruno D’Abruzzo)

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AEDH DESEJA OS TECIDOS DO CÉU

Se eu tivesse, do céu, os tecidos
Drapejados, bordados com luz
De ouro e prata, e os escuros tecidos
Azuis da noite e a meia-luz
E a luz, deitava-os sob os teus pés:
Mas, pobre, tenho apenas meus sonhos;
Deitei meus sonhos sob os teus pés;
Pisa de mansinho, pois são meus sonhos.

(trad. quase inédita de André Vallias)

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Ele deseja os tecidos bordados do paraíso

Tivesse eu os tecidos bordados do paraíso,
Adornados com luz dourada e prateada,
Os azuis, sombrios e escuros tecidos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu os estenderia sob seus pés:
Porém, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos;
Eu estendi meus sonhos sob seus pés;
Pise suavemente porque você está pisando em meus sonhos.

(Trad. de Ricardo Cabús)

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AEDH DESEJA OS TECIDOS DO CÉU

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)

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AS SEDAS BORDADAS DO CÉU

Se eu tivesse as sedas bordadas do céu,
com bainhas de luz de ouro e de prata,
as sedas azuis e sombrias e escuras,
da noite e da luz e da meia-luz,

deitava-as todas aos teus pés.

Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés.
Pisa com cuidado,
é nos meus sonhos que estás a pisar.

(Trad. de Miguel Esteves Cardoso)

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ELE DESEJA OS MANTOS DO CÉU

Se eu tivesse os mantos bordados do céu,
Envoltos com luz de ouro e prata,
Os azuis e os cerúleos e os escuros mantos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu estenderia os mantos sob teus pés;
Mas eu, por ser pobre, só tenho os meus sonhos;
Eu estendi os meus sonhos sob teus pés;
Pisa com cuidado porque pisas nos meus sonhos.

(trad. de Rachel Gutiérrez)

 

 

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poesia, tradução

A minha última duquesa – Robert Browning

Agnolo_Bronzino_-_Ritratto_di_Lucrezia_de_Medici

Agnolo Bronzino – Ritratto de Lucrezia (di Cosimo) de’ Medici (1559)

Num momento anterior fiz uma postagem aqui no escamandro sobre um poema chamado “O amante de Porfíria”, do poeta vitoriano Robert Browning, em tradução minha (clique aqui). Na ocasião, mencionei a existência de um volume de traduções já para o português de alguns dos seus monólogos dramáticos, vertida por João Almeida Flor – uma edição, no entanto, infelizmente rara. Mas, por sorte, graças ao Flávio Penteado, um estudioso da poesia de Pessoa que esteve há pouco em Lisboa (agradeço enormemente, Flávio!), eu tive acesso ao volume e gostaria de compartilhar uma de suas traduções aqui.

O Monólogos Dramáticos (publicado em 1980 pela editora A Regra do Jogo) conta com 12 poemas, a saber: “O amante de Porfíria”, “A minha última duquesa (Ferrara)”, “Pictor ignotus (Florença 15 – )”, “O bispo encomenda o seu túmulo na igreja de Santa Praxedes”, “Confessionário (Espanha)”, “Evelyn Hope”, “Mulher fácil”, “Uma tocata de Galuppi”, “A nossa última cavalgada”, “Na opinião de um contemporâneo”, “Na Campagna a dois” e “Prospice”. Não parece ser muita coisa, mas, como é uma edição bilíngue e os poemas são longos, chega fácil a 91 páginas. O método de tradução usado por Almeida Flor é orientado mais pela semântica, optando pelo verso livre no lugar do metro e da rima. Não é o nosso modus operandi mais típico no escamandro (eu arriscaria dizer que me parece também que é mais comum esse tipo de tradução de poesia em Portugal do que no Brasil, mas não posso afirmar isso com muita certeza), e eu também acredito que as diferenças entre o português brasileiro e lusitano hão de dificultar um pouco uma avaliação mais razoável da minha parte. Em todo caso, é um trabalho ainda assim muito digno de atenção.

Este poema, “My last duchess”, é mais uma vez um monólogo na voz de um homem frio e cruel, como era o amante-assassino de Porfíria, mas desta vez a figura é um pouco mais próxima da vida real: é reconhecido que se trata de uma representação de Alfonso II d’Este, duque de Ferrara (1533–1598). Sua “última duquesa”, a quem o poema alude, foi Lucrécia de Médici, com quem ele se casou quando ela tinha apenas 14 anos (e ele, 25) e que morreu aos 17, possivelmente de tuberculose – mas dizem as más línguas que ela poderia ter sido envenenada, o que deixa a situação toda ainda mais sinistra, especialmente quando se considera que ele teria desprezo pela esposa (sua família não tinha toda a tradição dos “novecentos anos” do nome dos Este) e que os dois teriam se casado só pelo dote. O pano de fundo do poema é que o Duque está para desposar uma nova mulher (anos depois da morte de Lucrécia, Alfonso casou-se com a filha de Ferdinando I, conde de Tirol), por isso recebe o emissário da sua família e o acompanha num tour pelo seu palácio, quando ele abre uma cortina para mostrar o retrato de Lucrécia e começa a falar dela, a princípio num tom algo neutro, mas que logo dá lugar ao ressentimento por causa dos modos da dama: “Oh senhor ela sorria sem dúvida / quando eu passava à sua beira mas a quem / não concedia ela igual sorriso?” O duque possessivo se sente agravado pelo humor jovial da duquesa e pela facilidade com a qual ela distribuía sua afeição por aí, e agora que ela está morta e só lhe resta a representação na parede, ele aproveita para exercer uma última demonstração de dominação e poder que é sobre a cortina que a oculta (“pois ninguém corre / a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu”), de modo que agora ela só pode sorrir para ele.

É doentio, sinistro e ao mesmo tempo patético. E a frivolidade com a qual o poema termina, com o duque prosseguindo no tour pelo palácio e demonstrando outros objetos de decoração, só reforça essa sensação. Não por acaso é também um dos monólogos mais famosos do autor. A inspiração para o poema, com a sua temática italiana, veio enquanto Browning pesquisava e reunia material para o seu longo poema narrativo Sordello (1840), sobre o trovador lombardo homônimo do século XIII. “A minha última duquesa” foi a princípio publicado em conjunto com outro monólogo dramático, chamado “Count Gismond”, que, com sua inspiração mais francesa (os dois poemas faziam parte de uma seção intitulada “Italy and France”), lhe serve de contraponto – mas, infelizmente,  “Count Gismond” não consta em Monólogos Dramáticos e, até onde tenho notícias, ainda não foi traduzido.

Atualização: quando fiz essa postagem inicialmente, a intenção era demonstrar o trabalho de tradução de João Almeida Flor, ilustrando com o que deve ser o poema mais marcante dos selecionados para o Monólogos Dramáticos. Mas acabei esquecendo na hora que havia uma outra tradução, esta em português brasileiro, feita pelo Décio Pignatari e presente em seu famoso volume 31 poetas 214 poemas, tal como o Flávio me chamou a atenção também. Para propósitos de comparação, então, compartilho agora, junto da tradução de Almeida Flor, a de Pignatari, ilustrando sobretudo as diferenças de projeto tradutório.

Adriano Scandolara

 

A Minha Última Duquesa

(Ferrara)

Aquela é a minha última Duquesa pintada na parede,
parece mesmo que está viva. Agora considero
aquela peça um encanto; as mãos de Fra Pandolfo
trabalharam um dia diligentes e ali está ela.
Não quer sentar-se a contemplá-la? Eu disse
Fra Pandolfo de propósito, pois nunca
estranhos como o senhor fitaram aquele semblante
com a profundidade e a paixão do seu olhar sincero
que não se voltassem para mim (pois ninguém corre
a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu)
parecendo perguntar-me, se a tanto ousassem,
como é que um olhar assim ali se oculta; por isso não é
o senhor o primeiro a voltar-se e a perguntar. Não foi, senhor,
só a presença do marido    que deu aquele esplendor
às faces da Duquesa. É provável que
Fra Pandolfo tivesse dito por acaso «Esse manto
encobre demasiado o vosso pulso, senhora» ou «As tintas
nunca podem imitar o suave rubor
que se esbate ao longo do pescoço» – coisas assim
eram favores, pensava ela, e motivo bastante
para despertar aquele rubor de alegria. Ela tinha
um coração – como direi? – que depressa exultava
impressionável facilmente; ela gostava de tudo
quanto via e o seu olhar tudo alcançava.
Senhor, tudo era igual! Os meus favores no seu regaço,
a luz do dia declinando no poente,
o ramo de cerejeira que um louco solícito
apanhava no pomar, e a mula branca
que ela montava à volta do terraço – tudo e cada coisa
lhe merecia as mesmas palavras satisfeitas
ou um rubor ao menos. Ela agradecia às pessoas – bom! mas
de um modo – não sei bem como – como se atribuísse
à dádiva do meu nome quase milenário
o mesmo valor de qualquer outra coisa. Quem iria censurar
coisas sem importância como estas? Mesmo se tivesse jeito
para falar (e não tenho) explicando claramente
o que se espera de uma pessao assim e dissesse «É isto
ou aquilo que em ti me desagrada; aqui pecas por defeito
além por excesso» e se ela se deixasse ensinar
deste modo sem frontalmente
opor sua vontade, pedindo até desculpa,
mesmo assim seria humilhante. E eu não quero nunca
humilhar-me. Oh senhor ela sorria sem dúvida
quando eu passava à sua beira mas a quem
não concedia ela igual sorriso? A coisa tomou vulto. Dei ordens.
Sumiram-se os sorrisos. Ali está ela
como se estivesse viva. Não quer levantar-se. Vamos
ao encontro das pessoas lá a baixo. Repito:
a conhecida generosidade do Conde, vosso amo,
é garantia de serem satisfeitas minhas justas pretensões
em matéria de dote.
Embora, como disse a princípio, o meu interesse
seja a filha dele que é linda. Não. Desceremos,
senhor, os dois juntos. Mas repare naquele Neptuno
domando um cavalo marinho (uma raridade, dizem)
que eu, a Claus de Innsbruck, mandei fundir em bronze.

(tradução de João Almeida Flor)

 

Minha Última Duquesa

Ali está a minha última duquesa
Na parede. Parece viva. Que beleza
De obra! Fra Pandolfo não poupou esforço
E ei-la de corpo inteiro, não em busto ou torso.
Você não quer sentar-se para ver melhor?
Não por acaso mencionei o seu pintor,
Pois não costumo a estranhos olhos desvelar
A profundeza da paixão que há nesse olhar,
Que só a mim é dirigido (pois só eu
Abro a cortina), mas eu sinto, percebeu?,
Que quem a vê logo se indaga: de onde veio
Esse olhar? Com você, meu caro, não receio,
É a mesma coisa. Pois eu digo: simplesmente,
A presença do esposo é pouco para a mente
Que procura a razão daquela mancha rosa
De prazer no seu rosto. Uma frase ociosa,
Talvez, de Fra Pandolfo. “Eu acho que o seu manto
Cobre demais o seu pulso”, ou: “Não pode tanto
A arte, não, reproduzir não pode o leve
Rubor em sua garganta, a ir e vir tão breve”.
Galanteria cortês, não mais – o suficiente
Para fazer brilhar um rosto, de repente.
Tinha um jeito, a duquesa, um coração aberto
Ao gostar… ao olhar… Contentamento certo,
O dela; incerto, o meu… Ela não distinguia
Entre gozar das graças que eu lhe concedia,
O declínio da luz ao sol poente, o ramo
De cerejas que um bobo serviçal do amo
Lhe oferecia, a mula branca que montava
Pela terraça, a rir – a tudo ela igualava
Com uma boa palavra, ou um rubor, ao menos.
Que agradecesse, tudo bem – mas é somenos
Equiparar o dom dos novecentos anos
Do meu nome a presentes sem nome? Até planos
De dissuadi-la… Rebaixar-me a isso… O dom
Da palavra me falta… E como, alto e bom som,
Chegar a ela, assim: “Olhe, sua atitude
Me desagrada, passou do ponto, mude”?
Que aceitasse o sermão e até mostrasse medo,
Isto, pra mim, seria ceder, e eu nunca cedo.
Claro, meu caro, de passagem, um sorriso
Ela me dava – mas a quem não dava? Aviso
Não dei, dei ordens: os sorrisos, de imediato,
Murcharam. Mas já pode levantar-se… É fato…
Nesse retrato, agora, ela parece viva…
Podemos ir? Embaixo, a companhia festiva
Nos aguarda. Repito: a generosidade
Do conde, seu senhor, sem dúvida há de
Saber pesar a minha justa pretensão
Ao dote da menina, a cujas graças vão
Os meus melhores sentimentos. De passagem,
Olhe essa peça de escassíssima tiragem:
É um bronze de Netuno domando um delfim,
Que Claus de Innsbruck fez fundir só para mim.

 

My last Duchess

(Ferrara)

That’s my last Duchess painted on the wall,
Looking as if she were alive. I call
That piece a wonder, now: Fra Pandolf’s hands
Worked busily a day, and there she stands.
Will’t please you sit and look at her? I said
“Fra Pandolf” by design, for never read
Strangers like you that pictured countenance,
The depth and passion of its earnest glance,
But to myself they turned (since none puts by
The curtain I have drawn for you, but I)
And seemed as they would ask me, if they durst,
How such a glance came there; so, not the first
Are you to turn and ask thus. Sir, ’twas not
Her husband’s presence only, called that spot
Of joy into the Duchess’ cheek: perhaps
Fra Pandolf chanced to say “Her mantle laps
Over my lady’s wrist too much,” or “Paint
Must never hope to reproduce the faint
Half-flush that dies along her throat”: such stuff
Was courtesy, she thought, and cause enough
For calling up that spot of joy. She had
A heart—how shall I say?—too soon made glad,
Too easily impressed; she liked whate’er
She looked on, and her looks went everywhere.
Sir, ’twas all one! My favour at her breast,
The dropping of the daylight in the West,
The bough of cherries some officious fool
Broke in the orchard for her, the white mule
She rode with round the terrace—all and each
Would draw from her alike the approving speech,
Or blush, at least. She thanked men,—good! but thanked
Somehow—I know not how—as if she ranked
My gift of a nine-hundred-years-old name
With anybody’s gift. Who’d stoop to blame
This sort of trifling? Even had you skill
In speech—(which I have not)—to make your will
Quite clear to such an one, and say, “Just this
Or that in you disgusts me; here you miss,
Or there exceed the mark”—and if she let
Herself be lessoned so, nor plainly set
Her wits to yours, forsooth, and made excuse,
—E’en then would be some stooping; and I choose
Never to stoop. Oh sir, she smiled, no doubt,
Whene’er I passed her; but who passed without
Much the same smile? This grew; I gave commands;
Then all smiles stopped together. There she stands
As if alive. Will’t please you rise? We’ll meet
The company below, then. I repeat,
The Count your master’s known munificence
Is ample warrant that no just pretence
Of mine for dowry will be disallowed;
Though his fair daughter’s self, as I avowed
At starting, is my object. Nay, we’ll go
Together down, sir. Notice Neptune, though,
Taming a sea-horse, thought a rarity,
Which Claus of Innsbruck cast in bronze for me!

(Robert Browning, tradução de João Almeida Flor)

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crítica, poesia, tradução

Dama recatada, senhora pudica, amada esquiva – Andrew Marvell em tradução

Godfrey Kneller - Andrew MarvellAndrew Marvell (1621 – 1678), ao lado de outros nomes muito bem conhecidos hoje como John Donne, foi um dos chamados “poetas metafísicos”, termo pejorativo cunhado pelo crítico Samuel Johnson para se referir a um grupo de poetas mais ou menos equivalente, cronologicamente (ainda que também em temática em alguns casos, sobretudo em Donne), ao nosso barroco – este também, como se sabe, outro termo a princípio pejorativo. Foi autor de obras satíricas em prosa contra os monarquistas e a Igreja Católica, amigo e aliado de John Milton na luta contra a monarquia na Inglaterra e membro do parlamento inglês antes da Restauração em 1660. À época de sua morte, Marvell era mais conhecido por sua trajetória política do que poética, e a má reputação posterior dos metafísicos não ajudou a sua recepção. Os metafísicos, no entanto, voltaram a ser lidos no começo do século XX, em parte por conta dos esforços de T. S. Eliot, que publica dois ensaios em periódicos em 1921, intitulados “The Metaphysical Poets” e “Andrew Marvell”, artigos presentes depois também em seu volume Selected Essays de 1931. Por volta do final da década também o mapa da literatura inglesa de F. R. Leavis passa a incorporar os metafísicos em seu cânone.

“To His Coy Mistress” é o poema mais célebre de Marvell, e o seu verso de abertura é famosíssimo: “Had we but world enough, and time“, firmemente inserindo esse poema de convite amoroso na tradição do carpe diem. Em suas três estrofes, o eu-lírico argumenta, da forma mais extravagante, sobre a brevidade da vida, de modo a tentar convencer a amada a… bem, a dar para ele (sinto muito pela quebra súbita de estilo na frase aqui, mas no Brasil do século XXI é impossível dizer isso de qualquer outro modo). Ele começa com uma fantasia ou capricho (“fancy” é o termo de Eliot), que ele desenvolve com grande efeito, listando tudo que os dois poderiam fazer se tivessem tantos mais anos (milênios, aliás) de sobra na vida, para que pudessem fazer quaisquer outras coisas que não desfrutar um do corpo do outro, depois prossegue por uma estrofe que corta essas fantasias bruscamente para tratar da realidade da morte. Aqui Eliot o compara com Horácio (“Pallida Mors cequo pulsat pede pauperum tabernas, / Regumque turris…”) e Catulo (“Nobis, cum semel oecidit brevis lux, / Nox est perpetua una dormienda“). A última estrofe faz o pedido, de fato, para que os dois gozem em vida do amor, enquanto ainda é possível. Temos, portanto: fantasia, realidade, convite, nesta ordem.

Porém, o que diferencia o poema de Marvell de tantos outros nessa mesma tradição é o uso de uma ironia finíssima que faz parte da sua wit – esse tipo espirituoso de humor intelectual. Desde o ritmo do poema, calcado em dísticos de tetrâmetros jâmbicos (had we | but world | e nough | and time) em rimas emparelhadas, já me parece difícil não ver algum tipo de sorrisinho malandro despontar no rosto de Marvell quando chega o segundo verso:  “This coyness, Lady, were no crime“. Não é que isso seja obra do metro e da rima em si (outro poema,  “A Dialogue between the Soul and the Body” emprega a mesma forma, com resultados mais solenes), mas esses elementos certamente influenciam, visto que o verso mais comum à época para a poesia séria era o dístico heroico, que consiste em pentâmetros jâmbicos em rima emparelhada, e o único soneto de Shakespeare (possivelmente apócrifo porém), o 145, escrito em tetrâmetros, é de tom leve e quase cômico – para uma análise do metro e efeitos desse poema, talvez este post num blog chamado PoemShape seja útil. Enfim, mas não é só isso. O uso das imagens e das expressões é também dos mais incomuns. É fácil de imaginar qualquer poeta barroco dizendo que começaria a amar a amada antes do Dilúvio até, digamos, o dia do Juízo Final, mas é preciso um poeta particularmente irônico para traçar essa data limite na conversão dos judeus. De modo semelhante, “amor vegetal” é uma escolha bastante estranha, como são também as imagens da última estrofe, das “amorosas aves de rapina” e de enrolar toda a força e doçura do casal numa bola. E há ainda um tom particularmente doméstico no final das duas primeiras estrofes, rebaixando o tom elevado para o tipo de registro de “polite conversation” que muito deve ter agradado o Sr. Eliot – não por acaso, Marvell é uma referência recorrente nele, sobretudo no seu “Prufrock”.

Esses elementos todos poderiam fazer com que “Coy Mistress” fosse um poema cômico, uma paródia do poema amoroso, mas também não parece ser esse o caso. Há momentos sublimes de força lírica, sobretudo no trecho final da primeira estrofe, a partir do verso que começa com “An hundred years”, que é particularmente bonito em sua devoção amorosa, imagens dignas de um Petrarca. Por isso, creio que faz mais sentido enxergá-lo como um poema de fato amoroso, mas com um grau de consciência do discurso (o quase intraduzível self-awareness talvez fosse o termo mais adequado) que lhe permite esses gracejos irônicos que criam uma dissonância latente, muito ao gosto moderno, acredito.

A tradução já publicada de que tenho notícia em português é a de Augusto de Campos, no volume Verso Reverso Controverso (1978). Mas, dada toda a graça desse poeminha, mesmo ciente do risco que é apresentar uma tradução sua ao lado de uma do Augusto, eu simplesmente não pude evitar propor uma tradução própria, ainda que dotada de um projeto diferente. A tradução de Augusto é das mais livres, mais ainda do que costuma ser a sua própria média, se permitindo variar o comprimento dos versos (qualquer coisa entre 5 e 10, até 12 sílabas) e alterando radicalmente o esquema de rimas. Eu propus algo um pouco menos radical (porque, se não posso fazer melhor, posso ao menos tentar algo diferente) e imagino que eu tenha obtido resultados menos bonitos também, tentando manter a unidade dos dísticos em rimas emparelhadas e uma constância no metro. Já fiz alguns experimentos aqui com Blake, Coleridge e Browning em tentar manter o ritmo marcadamente jâmbico em português, mas acredito que, no caso de Marvell, por se tratar de um poema argumentativo, eu não acho que eu conseguiria manter o sentido dentro da concisão extrema que esse rigor todo exige. Assim sendo, a princípio optei por versos de 9 sílabas (uma sílaba a mais, portanto, do que as oito que somam os versos de tetrâmetros jâmbicos), o que, eu bem o sei, é uma opção bastante estranha em português. Depois mostrei os resultados para o Guilherme, que se empolgou (apesar de não ter gostado da minha versão) e fez a versão dele também, em decassílabos.

Na sequência, retornei ao trabalho e fiz mais uma versão, desejando com veemência evitar o ritmo estável decassilábico (nada contra, até porque é bom contar com sílabas a mais para manter o sentido, mas eu prefiriria mesmo manter uma distinção em relação à equivalência pentâmetro-decassílabo) e, tendo em mente a unidade formada pelos dísticos de Marvell, propus uma segunda tradução composta por dísticos em que o primeiro verso é decassilábico, e o segundo, heptassilábico, alternando assim entre 10/7/10/7/10/7 em todo o poema, uma forma que eu tenho certeza que é algo comum entre poetas de língua portuguesa e que permite ainda uma maior proximidade com o número de sílabas do original (cada dístico em inglês conta 16 sílabas, contra as minhas 17 nesse esquema, com o aumento discreto de meia sílaba por verso).  De qualquer forma, compartilho aqui as minhas duas tentativas – imagino que, mesmo que eu fracasse, pelo menos o fracasso pode também servir para alguma reflexão – junto com a tradução do Guilherme e a do Augusto.

Adriano Scandolara

Atualização de janeiro/2015: para uma segunda parte desta postagem, escrita pelo Matheus “Mavericco”, com traduções de Nelson Ascher, Alípio Correia Neto, Rodrigo Garcia Lopes, Renato Suttana e uma dele próprio, clique aqui.

        

To His Coy Mistress

Had we but world enough and time,
This coyness, lady, were no crime.
We would sit down, and think which way
To walk, and pass our long love’s day.
Thou by the Indian Ganges’ side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes, and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time’s wingèd chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found;
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honour turn to dust,
And into ashes all my lust;
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

(Andrew Marvell)

        

À sua dama recatada

(primeira tentativa)

Fosse-nos o mundo, o tempo, lato,
não fora crime, amor, teu recato;
para nos sentarmos, a supor
planos de nossos dias de amor;
tu, a caçar no Ganges indiano
seus rubis, e eu, em desengano,
a chorar no Humber. Até antes
do Dilúvio seríamos já amantes;
e enjeitarias convites meus
até a conversão dos judeus;
mais que impérios, a crescer vultoso
o amor vegetal, e mais moroso.
Um século para venerar
teus olhos, e a fronte admirar;
outros dois em cada seio arfante
mas trinta mil anos ao restante;
uma era em cada canto e beira,
e teu coração na derradeira.
Pois és digna, dona, desses bens,
e por menos eu não te amo também.

         Mas escuto sempre, agalopado,
chegando, o carro do tempo alado;
e adiante, só podemos ver, decerto,
a vasta eternidade, em deserto.
Teus encantos não mais verei,
nem nos teus mármores entoarei
meu canto ecoante; e o verme há de
roer a bem guardada virgindade,
e em pó tornar esse teu pudor
e em cinzas só todo o meu ardor.
A tumba é um lugar bem reservado,
mas ninguém nela está acompanhado.

         E, então, ora, enquanto se assenta o
viço em teu rosto, feito relento,
e na alma consentes e transpiras
de cada poro rápidas piras,
ora folguemos, com rapidez,
devorando o tempo de uma vez
como fôssemos ave rapace,
e ele, então, lento, nos devorasse.
E embrulhemos todo nosso arroubo
e delicadeza num só globo.
rasgando o gozo em lutas doídas
no férreo portão de nossas vidas.
E, assim, podemos não deter o halo
do sol, mas iremos apressá-lo.

(Andrew Marvell, tradução de Adriano Scandolara)

        

À sua dama recatada

(segunda tentativa)

Se nos sobrasse, dona, mundo e dias,
justo, o teu pudor seria,
p’ra sentarmos, com planos por urdir
dos dias de amor por vir;
tu, com rubis no Ganges indiano,
e eu, chorando o desengano
No Humber. E ansiaria anos antes
do Dilúvio ser-te o amante;
e enjeitarias os convites meus
’té a conversão dos judeus;
cresceria o arbóreo amor, vultoso
mais que impérios, mais moroso.
Cem anos a apreender o teu olhar
e a tua fronte venerar;
duzentos anos, cada seio arfante,
mas trinta mil no restante;
uma era em cada canto, cada beira,
e o ventre na derradeira.
Não és indigna, cara, dessa herdade,
nem por menos quero amar-te.

         Só que ouço como chega, agalopado,
o carro do tempo alado;
e adiante e vasta, só se vê, decerto,
a eternidade, um deserto.
Sei que os encantos teus não mais verei,
nem no mármore entoarei
meu canto em ecos; e eis que o verme há de
espoliar tua virgindade,
e ao pó reduzirá o recato teu,
e em cinza o desejo meu.
O túmulo é um lugar bem reservado,
só não se entra acompanhado.

         E agora, então, enquanto em ti se assenta o
viço ao rosto, qual relento,
e n’alma tu consentes e transpiras
dos poros rápidas piras,
devoremos, então, com rapidez,
todo o tempo de uma vez
qual ave fôssemos, no amor, rapace,
e ele lento, nos tragasse.
E ora embrulhemos todo nosso arroubo
e brandura num só globo.
rasgando o gozo em luta dolorida
nos férreos portões da vida.
E, assim, se não podemos deter o halo
do sol, hemos de apressá-lo.

(Andrew Marvell, tradução de Adriano Scandolara)

        

À sua senhora pudica

Se nós tivéssemos mais tempo e mundo
mal não seria o teu pudor profundo
nós sentaríamos tramando um modo
de caminhar passar um dia todo.
você no ganges indiano iria
achar rubis & eu me lamentaria
na foz do humber. te amaria indúbio
até dez anos antes do dilúvio
tu poderias recusar-me então
até judeus buscarem conversão
meu amor vegetal tem crescimento
mais vasto que os impérios & mais lento.
até que inteiro um século eu passasse
no louvor dos teus olhos tua face
dois séculos no ardor de cada seio
trinta mil anos no mais puro anseio
ia uma era a cada teu trejeito
para na última invadir-te o peito
querida isso é tudo que mereces
nem quero amar-te menos pelas preces.

         mas sempre escuto às costas assombrado
o carro em que se achega o tempo alado
e à nossa frente vejo longe e perto
a vasta eternidade num deserto
tua beleza não se encontrará
nem nos teus mármores ecoará
meu canto & aos vermes vejo devorada
a longa virgindade mais guardada
& a tua honra condenada ao pó
& o meu desejo relegado à mó
a cova é requintado e fino paço
porém ninguém nos vem naquele abraço.

         portanto agora que vigora o viço
na tua pele feito orvalho passadiço,
& n’alma consentida mais transpiras
por cada poro em instantâneas piras
gozemos quanto possa a nossa sina
como amorosas aves de rapina antes
sorver o tempo num segundo
que fenecer em seu poder sem fundo
com a fúria e o fulgor que nos anima
rolemos esta bola morro acima
rasgando os gozos numa dura lida
pelos portões de ferro desta vida
Verdade o sol não pode ser parado
correndo é que ele fica ao nosso lado.

(Andrew Marvell, tradução de Guilherme Gontijo Flores)

        

à amada esquiva

dessem-nos tempo e espaço afora
não fora crime essa esquivez, senhora.
sentar-nos-íamos tranqüilos
a figurar de modos mil os
nossos dias de amor. eu com as águas
do humber choraria minhas mágoas;
tu podias colher rubis à margem
do ganges. que eu me declarasse
dez anos antes do dilúvio! teus
nãos voltar-me-iam a face
até a conversão dos judeus.
meu amor vegetal crescendo vasto,
mais vasto que os impérios, e mais lento,
mil anos para contemplar-te a testa
e os olhos levaria. mais duzentos
para adorar cada peito,
e trinta mil para o resto.
um século para cada parte,
o último para o coração tomar-te.
pois, dama, vales tudo o que ofereço,
nem te amaria por mais baixo preço.
mas ao meu dorso eu ouço o alado
carro do tempo, perto, perto,
e adiante há apenas o deserto
sem fim da eternidade.

tua beleza murchará mais tarde,
teus frios mármores não soarão
com ecos do meu canto: então
os vermes hão de pôr à prova
essa comprida virgindade,
tua fina honra convertendo em pó,
e em cinzas meu desejo. a cova
é ótimo e íntimo recanto. só
que aos amantes não serve de alcova.
agora, enquanto pousa a cor
da juventude em ti como na flor
o orvalho, enquanto por
todo poro teu a alma transpira
com urgentes fogos,
entreguemo-nos aos jogos
do amor e, amantes aves de rapina,
antes de um golpe devoremos nosso tempo
que enlagueçamos em seu lento
queixo. enrolemos nosso alento
e suavidade numa só esfera.
e rasguemos prazeres como feras
pelos portões férreos da vida.
assim, se não sustamos nosso sol,
ao menos o incitamos à corrida.

(Andrew Marvell, tradução de Augusto de Campos)

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