poesia norte-americana, tradução, xanto

XANTO | Joy Harjo: poeta da terra, voz do vento, por Rafael Sobral

A natureza enraizada em terra germina sementes que crescem, florescem e frutificam, suas folhas respiram e fazem respirar, seus caules, troncos e tocos são fundamentos desde antes de pegadas marcadas no chão pela exploração e apropriação do que depois chamou-se de humano, logo o sumo do sumo sempre permanece liquefeito e sublimado como relva sobre as flores e folhas das estações do tempo ou sobre os frutos apodrecidos que outrora retornam às suas raízes para germinar e reviver seu ciclo de vida: a natureza enraizada segue o fluxo da vida da terra assim como o vento segue constante e sibilante. Assim sendo, flor frutífera materializada e encarnada, Joy Harjo (1951—) é uma filha da terra, criança Muscogee Creek estadunidense que cresceu e amadureceu ao ouvir a voz do vento soar em seus ouvidos, poeta por aprender através das giras sob a luz das fogueiras e soar das narrativas de tradição oral as palavras de suas/seus ancestrais e professoras/es traduzidas/os em suas avós, avôs, mãe, pai, tias, tios, irmãs e irmãos, sementes compartilhadas da terra da qual sua genealogia se faz, musicista pelo compasso dos dias e instrumentista pelo ritmo da dança das estrelas. Nascida em Tulsa (Oklahoma), tornou-se a primeira poeta indígena a ser nomeada poeta laureada dos Estados Unidos da América (USA), em 2019, tendo recebido o título novamente pelo segundo ano consecutivo em 2020. Sua voz é um sopro em eco em nossos ouvidos, ressoa vozes e espíritos ancestrais que dão vida aos povos da terra, plantas e animais, caboclas e caboclos das matas, mestras e mestres do encanto, índias e índios (das Américas colonizadas) e filhas e filhos sobreviventes do terceiro-mundo pandêmico. Sua obra incorpora seres míticos e símbolos ameríndios ao longo de poemas e prosa usualmente autobiográficos e/ou inspirados nas experiências ancestrais pelo sentir do corpo arrepiado, trêmulo e dormente ao contato com a natureza que interage de maneira sagrada e singela. Alguns de seus livros incluem “The Last Song” (1975), “She Had Some Horses” (1983), “The Woman Who Fell From the Sky” (1994), “A Map to the Next World: Poetry and Tales” (2000), “How We Became Human: New and Selected Poems, 1975-2001” (2004), “Crazy Brave” (2012), “An American Sunrise: Poems” (2019), dentre muitos outros, incluindo memórias, peças teatrais, ensaios e literatura infanto-juvenil. Além disso, possui álbuns musicais de poesia falada e cantada em produção conjunta com a banda Poetic Justice ou independentemente, tais como “Letter from the End of the Twentieth Century” (1997), “Native Joy for Real” (2004), “She Had Some Horses” (2006), dentre outros, também performados em turnês ao redor das Américas e outros países. Entretanto, todas as obras completas de Joy Harjo ainda não possuem traduções para o português brasileiro, salvo alguns poemas e/ou trechos de poemas, comentários, ensaios e/ou recortes memoriais traduzidos livremente e publicados pela internet ou em poucas pesquisas acadêmicas fundamentadas em estudos de línguas e literaturas ameríndias — Curiosamente, uma das primeiras traduções de Joy Harjo — e talvez a primeira — ao português brasileiro se deu pela atribuição do título de “Oração Cherokee” — nome que referencia tribos e/ou nações de pessoas nativas e ancestrais indígenas estadunidenses — a um excerto de um comentário da poeta durante uma entrevista concedida a Laura Coltelli, presente no livro “Winged Words: American Indian Writers Speak” (1990), tendo sido incrementada com outras palavras e compartilhada inúmeras vezes ao longo das camadas da internet (redes sociais, sites e blogs religiosos, arquivos de manuais e/ou livros xamânicos e/ou indígenas, dentre outros), porém, sem a identificação de quem traduziu. Para esta nota explicativa usa-se como referência a versão da tradução presente no livro “Espiritualidade escoteira: orações” (NETO, 2008, p. 78), apenas por ser um dos registros mais antigos e formais que apresentam a tradução (apesar da não identificação do/a tradutor/a), ao mesmo tempo em que isso não significa lhe atribuir a autoria da tradução. Às outras traduções de Joy Harjo ao português brasileiro incluem-se: duas traduções de excertos do poema “I Give You Back”, por Vieira (2016, p. 109) e por Lopes, Ferreira e Relvas (2018, p. 60-61); duas traduções do poema “Remember”, por Sobral (2018, p. 11) e por Santos (2019); algumas traduções de excertos do livro “Crazy Brave”, por Schneider (2019); e uma tradução do poema “Perhaps the World Ends Here”, por Braga (2020). A poesia de Joy Harjo ainda é urgente e necessária, apesar dos mais de 40 anos de produção poética e musical, é preciso enfatizar a demanda pela disseminação de sua obra, a inclusão de seus textos em materiais de produção poética e de estudos de línguas e literaturas ameríndias e/ou estrangeiras, e ainda de tradução a devir sob os cocares de penas e a fumaça de seus cachimbos que defumam as palavras de sua poesia. Aqui, a intenção é ecoar a (po)ética de Joy Harjo com as traduções de três poemas que ilustram e representam parte de sua genealogia poética e ancestral, pela importância que exercem em sua obra e pela inspiração mitológica desencadeada ao som de sua flauta e retumbar de tambores percutindo sobre as palavras ora traduzidas em português brasileiro. Às traduções seguem alguns comentários com o intuito de referenciar o processo tradutório e as inspirações que incorporam as palavras poéticas.

Rafael de Arruda Sobral é estudante de Ciência da Computação pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), onde também se graduou em Letras – Inglês (2018). Atualmente, é professor e tradutor de inglês. Itatuba, Paraíba, Brasil.

* * *

Remember

Remember the sky that you were born under,
know each of the star’s stories.
Remember the moon, know who she is.
Remember the sun’s birth at dawn, that is the
strongest point of time. Remember sundown
and the giving away to night.
Remember your birth, how your mother struggled
to give you form and breath. You are evidence of
her life, and her mother’s, and hers.
Remember your father. He is your life, also.
Remember the earth whose skin you are:
red earth, black earth, yellow earth, white earth
brown earth, we are earth.
Remember the plants, trees, animal life who all have their
tribes, their families, their histories, too. Talk to them,
listen to them. They are alive poems.
Remember the wind. Remember her voice. She knows the
origin of this universe.
Remember you are all people and all people
are you.
Remember you are this universe and this
universe is you.
Remember all is in motion, is growing, is you.
Remember language comes from this.
Remember the dance language is, that life is.
Remember.

Se lembre

Se lembre do céu sob o qual você nasceu,
saiba todas as histórias estrelares.
Se lembre da lua, saiba quem ela é.
Se lembre do nascer do sol ao amanhecer, este é o
ponto mais forte do tempo. Se lembre do entardecer
e do entregar-se à noite.
Se lembre do seu nascimento, como sua mãe se esforçou
pra te dar forma e fôlego. Você é uma evidência da
vida dela, e da mãe dela, e da dela.
Se lembre do seu pai. Ele é sua vida, também.
Se lembre da terra da qual sua pele é:
terra vermelha, terra preta, terra amarela, terra branca
terra marrom, terra-somos.
Se lembre das plantas, árvores, vidas animais que têm suas
tribos, suas famílias, suas histórias, também. Converse com elas,
escute elas. Elas são poemas vivos.
Se lembre do vento. Se lembre da sua voz. Ela sabe a
origem deste universo.
Se lembre que você é toda gente e toda gente
é você.
Se lembre que você é este universo e este
universo é você.
Se lembre que tudo se mexe, cresce, é você.
Se lembre que a linguagem vem daí.
Se lembre a dança que a linguagem é, que a vida é.
Se lembre.

§

She Had Some Horses

I. She Had Some Horses

She had some horses.

She had horses who were bodies of sand.
She had horses who were maps drawn of blood.
She had horses who were skins of ocean water.
She had horses who were the blue air of sky.
She had horses who were fur and teeth.
She had horses who were clay and would break.
She had horses who were splintered red cliff.

She had some horses.

She had horses with eyes of trains.
She had horses with full, brown thighs.
She had horses who laughed too much.
She had horses who threw rocks at glass houses.
She had horses who licked razor blades
.

She had some horses.

She had horses who danced in their mothers’ arms.
She had horses who thought they were the sun and their
bodies shone and burned like stars.
She had horses who waltzed nightly on the moon.
She had horses who were much too shy, and kept quiet
in stalls of their own making.

She had some horses.

She had horses who liked Creek Stomp Dance songs.
She had horses who cried in their beer.
She had horses who spit at male queens who made
them afraid of themselves.
She had horses who said they weren’t afraid.
She had horses who lied.
She had horses who told the truth, who were stripped
bare of their tongues.

She had some horses.

She had horses who called themselves, “horse.”
She had horses who called themselves, “spirit,” and kept
their voices secret and to themselves.
She had horses who had no names.
She had horses who had books of names.

She had some horses.

She had horses who whispered in the dark, who were afraid to speak.
She had horses who screamed out of fear of the silence, who
carried knives to protect themselves from ghosts.
She had horses who waited for destruction.
She had horses who waited for resurrection.

She had some horses.

She had horses who got down on their knees for any saviour.
She had horses who thought their high price had saved them.
She had horses who tried to save her, who climbed in her
bed at night and prayed as they raped her.

She had some horses.

She had some horses she loved.
She had some horses she hated.

These were the same horses.

II. Two Horses

. . . . . . . . .I thought the sun breaking through Sangre de Cristo
Mountains was enough, and that
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . wild musky scents on my body after
. . . . . . . long nights of dreaming could
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . unfold me to myself.
. . . . . . . . . . . .I thought my dance alone through worlds of
odd and eccentric planets that no one else knew
. . . . . would sustain me. I mean
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . I did learn to move
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . after all
. . . . . . .and how to recognize voices other than the most familiar.
. . . . . . .But you must have grown out of
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .a thousand years dreaming
. . . . . . . . . . . . . . just like I could never imagine you.
. . . . . . . . . . . You must have
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . broke open from another sky
to here, because
. . . . . . . . . . . . . . . . now I see you as a part of the millions of
. . . . . . . other universes that I thought could never occur
. . . . . . . in this breathing.
. . . . . . . . . . . . . . . . And I know you as myself, traveling.
. . . . In your eyes alone are many colonies of stars
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . and other circling planet motion.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .And then your fingers, the sweet smell
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . of hair, and
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . your soft, tight belly.
. . . . . . . My heart is taken by you
. . . . . . . . . . and these mornings since I am a horse running towards
a cracked sky where there are countless dawns
. . . . . . . . . . . . . . . . . . breaking simultaneously.
There are two moons on the horizon
and for you
. . . . . . . . . . I have broken loose.

III. Drowning Horses

She says she is going to kill
herself. I am a thousand miles away.
Listening.
. . . . . . . . . To her voice in an ocean
of telephone sound. Grey sky
and nearly sundown; I don’t ask her how.
I am already familiar with the weapons:
a restaurant that wouldn’t serve her,
the thinnest laughter, another drink.
And even if I weren’t closer
to the cliff edge of the talking
wire, I would still be another mirror,
another running horse.

Her escape is my own.
I tell her, yes. Yes. We ride
out for breath over the distance.
Night air approaches, the galloping
other-life.

No sound.
No sound.

IV. Ice Horses

These are the ones who escape
after the last hurt is turned inward;
they are the most dangerous ones.
These are the hottest ones,
but so cold that your tongue sticks
to them and is torn apart because it is
frozen to the motion of hooves.
These are the ones who cut your thighs,
whose blood you must have seen on the gloves
of the doctor’s rubber hands. They are
the horses who moaned like oceans, and
one of them a young woman screamed aloud;
she was the only one.
These are the ones who have found you.
These are the ones who pranced on your belly.
They chased deer out of your womb.
These are the ice horses, horses
who entered through your head,
and then your heart,
your beaten heart.

These are the ones who loved you.
They are the horses who have held you
so close that you have become
a part of them,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . an ice horse
galloping
. . . . . . . . . . . . . . into fire.

V. Explosion

The highway near Okemah, Oklahoma exploded

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . They are reasons for everything
Maybe . . . . . .there is a new people, coming forth
. . . . . . . . . . . being born from the center of the earth,
. . . . . . . . . . . like us, but another tribe.

Maybe . . . . . they will be another color that no one
. . . . . . . . . . .has ever seen before. Then they might be hated,
. . . . . . . . . . .and live in Muskogee on the side of the tracks
. . . . . . . . . . .that Indians live on. (And they will be the
. . . . . . . . . . .ones to save us.)

Maybe . . . . . there are lizards coming out of rivers of lava
. . . . . . . . . . .from the core of this planet,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . coming to bring rain

. . . . . . . . . . .to dance for the corn,
. . . . . . . . . . .to set fields of tongues slapping at the dark
. . . . . . . . . . .earth, a kind of a dance.

But maybe the explosion was horses,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . bursting out of the crazy earth
near Okemah. They were a violent birth,
flew from the ground into trees
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . to wait for evening night
mares to come after them:

then. . . . . . . into the dank wet fields of Oklahoma
then. . . . . . . their birth cords tied into the molten heart
then. . . . . . . they travel north and south, east and west
then. . . . . . . into wet while sheets at midnight when everyone
. . . . . . . . . . .sleeps and the baby dreams of swimming in the
. . . . . . . . . . .bottom of the muggy river.
then. . . . . . . into frogs who have come out of the earth to
. . . . . . . . . . .see for rain
then. . . . . . . a Creek woman who dances shaking the seeds in
. . . . . . . . . . .her bones
then. . . . . . . South Dakota, Mexico, Japan, and Manila
then. . . . . . . into Miami to sweep away the knived faces of
. . . . . . . . . . .hatred

Some will not see them.

But some will see the horses with their hearts of sleeping volcanoes
and will be rocked awake
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .past their bodies

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .to see who they have become.

Ela Tinha Alguns Cavalos

I. Ela Tinha Alguns Cavalos

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que eram corpos de areia.
Ela tinha cavalos que eram mapas desenhados com sangue.
Ela tinha cavalos que eram películas de água oceânica.
Ela tinha cavalos que eram o azulado ar do céu.
Ela tinha cavalos que eram pelos e dentes.
Ela tinha cavalos que eram barro e se quebravam.
Ela tinha cavalos que eram dispersas falésias vermelhas.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos com olhos de trens.
Ela tinha cavalos com fartas coxas marrons.
Ela tinha cavalos que riam muito.
Ela tinha cavalos que jogavam pedras em casas de vidro.
Ela tinha cavalos que lambiam lâminas de navalhas.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que dançavam nos braços das mães.
Ela tinha cavalos que pensavam que eram o sol e seus
corpos brilhavam e queimavam como estrelas.
Ela tinha cavalos que valsavam às noites sobre a lua.
Ela tinha cavalos que eram muito tímidos e ficavam quietos
em estábulos de sua própria construção.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que gostavam de músicas Creek Stomp Dance.
Ela tinha cavalos que choravam as mágoas.
Ela tinha cavalos que cuspiam em rainhas masculinas que faziam
eles temerem a si mesmos.
Ela tinha cavalos que diziam não temer.
Ela tinha cavalos que mentiam.
Ela tinha cavalos que diziam a verdade, que eram despidos
de vez de suas línguas.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que chamavam a si mesmos “cavalo”.
Ela tinha cavalos que chamavam a si mesmos “espírito” e mantinham
suas vozes em segredo e para si.
Ela tinha cavalos que não tinham nomes.
Ela tinha cavalos que tinham livros de nomes.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que sussurravam no escuro, que temiam falar.
Ela tinha cavalos que gritavam pelo medo do silêncio, que
carregavam facas para se proteger dos fantasmas.
Ela tinha cavalos que esperavam por destruição.
Ela tinha cavalos que esperavam por ressurreição.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha cavalos que ficavam de joelhos para qualquer salvador.
Ela tinha cavalos que pensavam que seus altos preços lhes salvaram.
Ela tinha cavalos que tentavam lhe salvar, que subiam em sua
cama a noite e rezavam ao lhe estuprar.

Ela tinha alguns cavalos.

Ela tinha alguns cavalos que ela amava.
Ela tinha alguns cavalos que ela odiava.

Eram todos os mesmos cavalos.

II. Dois Cavalos

. . . . . . . . . . .Eu pensava que o sol partindo-se ao longo do Monte
Sangre de Cristo era o bastante, e que
. . . . . . . . . . .. . . . .aromas almiscarados selvagens em meu corpo depois
. . . . . . . . . . .de longas noites de sonhos poderiam
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . desabrochar-me a mim mesma.
. . . . . . . . . . .Eu pensava que minha dança sozinha através de mundos de
estranhos e excêntricos planetas que ninguém mais conhecia
. . . . . . . . . . .me sustentariam. Quero dizer
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .eu aprendi a seguir
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. depois de tudo
. . . . . . . . . . .e a reconhecer outras vozes que não as mais familiares.
. . . . . . . . . . .Mas você deve ter evoluído de
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .mil anos sonhando
. . . . . . . . . . .só por que eu nunca poderia te imaginar.
. . . . . . . . . . .Você deve ter
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .aberto outro céu
até aqui, por que
. . . . . . . . . . .. . .agora eu posso te ver como parte de milhões de
. . . . . . outros universos que eu pensava que nunca poderiam acontecer
. . . . . .neste respirar.
. . . . . . . . . . .. . . . E eu te conheço como a mim mesma, viajando.
. . .Em seus olhos sozinhos existem muitas colônias de estrelas
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . .e outros movimentos de planetas circulares.
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .E então seus dedos, o doce aroma
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .de cabelo, e
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . sua suave, pequena barriga.
. . . . . . Meu coração é tomado por você
. . . . . . . . . . .e por essas manhãs logo eu sou um cavalo galopando até
um céu fissurado onde há incontáveis amanheceres
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .abrindo-se simultaneamente.
Há duas luas no horizonte
e por você
. . . . . . . . . . .eu tenho me libertado.

III. Submersos Cavalos

Ela diz que vai matar
a si mesma. Estou a milhas de distância.
Ouvindo.
. . . . . . . . . . .A sua voz em um oceano
de som telefônico. Céu cinza
e quase entardecendo; eu não a pergunto como.
Já estou familiarizada com as armas:
um restaurante que não lhe serviria,
a risada mais fraca, outra bebida.
E mesmo se eu não estivesse mais perto
da beira da falésia do fio
da conversa, eu ainda seria outro espelho,
outro cavalo galopante.

O escape dela é o meu.
Eu digo a ela, sim. Sim. Superamos
o fôlego da distância.
Abordagens ao ar noturno, galopar
outra-vida.

Sem som.
Sem som.

IV. Gélidos Cavalos

Esses são os que escapam
depois que a última dor torna-se interior;
eles são os mais perigosos.
Esses são os mais quentes,
mas tão gélidos que sua língua se espeta
a eles e é despedaçada porque é
congelada ao mover dos cascos.
Esses são os que cortam suas coxas,
cujo sangue você deve ter visto nas luvas
de borracha das mãos do doutor. Eles são
os cavalos que gemiam como oceanos, e
sobre um deles uma jovem mulher gritou alto;
ela era a única.
Esses são os que te encontraram.
Esses são os que empinavam em sua barriga.
Eles caçaram cervos de dentro de seu ventre.
Esses são os gélidos cavalos, cavalos
que entraram em sua cabeça,
e então em seu coração,
seu surrado coração.

Esses são os que te amaram.
Eles são os cavalos que te tiveram
tão perto que você se tornou
parte deles,
. . . . . . . . . . .. . . . . . um gélido cavalo
galopando
. . . . . . . . . . .ao fogo.

V. Explosão

A estrada perto de Okemah, em Oklahoma, explodiu

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .São razões para tudo
Talvez. . . . . .haja um novo povo, vindo adiante
. . . . . . . . . . .nascidos do centro da terra,
. . . . . . . . . . .como a gente, mas de outra tribo.

Talvez. . . . . sejam de outra cor que ninguém
. . . . . . . . . . .nunca viu antes. Daí devem ser odiados,
. . . . . . . . . . .e viver em Muscogee ao lado da pista
. . . . . . . . . . .em que indígenas vivem. (E serão os
. . . . . . . . . . .que nos salvarão).

Talvez. . . . . .existam lagartos saindo de rios de lava
. . . . . . . . . . .do fundo deste planeta,

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .vindo trazer a chuva

. . . . . . . . . . .para dançar pelo milho,
. . . . . . . . . . .para configurar campos de línguas estapeando-se na escura
. . . . . . . . . . .terra, um tipo de dança.

Mas talvez a explosão foram cavalos,
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .eclodindo de dentro da terra absurda
perto de Okemah. Eles foram um parto violento,
voaram do chão até às árvores
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .para esperar pelo crepúsculo pesadelo no-
turno a chegar depois deles:

daí. . . . . . . . . . .até os úmidos campos de Oklahoma
daí. . . . . . . . . . .os fios de seus nascimentos amarrados ao fundido coração
daí. . . . . . . . . . .viajam ao norte e sul, leste e oeste
daí. . . . . . . . . . .até molhados papeis em branco à meia-noite quando todos
. … . . . . . . . . . .dormem e o bebê sonha em nadar no
. .. . . . . . . . . . . fundo do rio sufocante.
daí. . . . . . . . . . .até sapos que saíram de dentro da terra para
. . .. . . . . . . . . . .ver a chuva
daí. . . . . . . . . . .uma mulher Creek que dança chacoalhando as sementes em
. . .. . . . . . . . . . .seus ossos
daí. . . . . . . . . . .Dakota do Sul, México, Japão e Manila
daí. . . . . . . . . . .até Miami para eliminar as cortantes faces de
. . .. . . . . . . . . . .rancor

Alguns não os verão.

Mas alguns verão os cavalos com seus corações de vulcões adormecidos
e serão abalados a acordar
. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .passados os seus corpos

. . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . .para ver quem eles se tornaram.

§

The Myth of Blackbirds

The hours we counted precious were blackbirds in the density of Washington. Taxis toured the labyrinth with passengers of mist as the myth of ancient love took the shape of two figures carrying the dawn tenderly on their shoulders to the shores of the Potomac.

We fled the drama of lit marble in the capitol for a refuge held up by sweet, everlasting earth. The man from Ghana who wheeled our bags was lonesome for his homeland, but commerce made it necessary to carry someone else’s burdens. The stars told me how to find us in this disorder of systems.

Washington did not ever sleep that night in the sequence of eternal nights. There were whirring calculators, computers stealing names, while spirits of the disappeared drank coffee at an all-night cafe in this city of disturbed relativity.

Justice is a story by heart in the beloved country where imagination weeps. The sacred mountains only appear to be asleep. When we finally found the room in the hall of mirrors and shut the door I could no longer bear the beauty of scarlet licked with yellow on the wings of blackbirds.

This is the world in which we undressed together. Within it white deer intersect with the wisdom of the hunter of grace. Horses wheel toward the morning star. Memory was always more than paper and cannot be broken by violent history or stolen by thieves of childhood. We cannot be separated in the loop of mystery between blackbirds and the memory of blackbirds.

And in the predawn when we had slept for centuries in a drenching sweet rain you touched me and the springs of clear water beneath my skin were new knowledge. And I loved you in this city of death.

Through the darkness in the sheer rise of clipped green grass and asphalt our ancestors appear together at the shoreline of the Potomac in their moccasins and pressed suits of discreet armor. They go to the water from the cars of smokey trains, or dismount from horses dusty with fatigue.

See the children who become our grandparents, the old women whose bones fertilized the corn. They form us in our sleep of exhaustion as we make our way through this world of skewed justice, of songs without singers.

I embrace these spirits of relatives who always return to the place of beauty, whatever the outcome in the spiral of power. And I particularly admire the tender construction of your spine which in the gentle dawning is a ladder between the deep in which stars are perfectly stars, and the heavens where we converse with eagles.

And I am thankful to the brutal city for the space which outlines your limber beauty. To the man from Ghana who also loves the poetry of the stars. To the ancestors who do not forget us in the concrete and paper illusion. To the blackbirds who are exactly blackbirds. And to you sweetheart as we make our incredible journey.

O Mito dos Pássaros Negros

As horas consideradas preciosas eram pássaros negros na densidade de Washington. Táxis viajavam pelo labirinto com passageiros em névoa logo que o mito do amor ancestral incorporava como duas figuras carregando a aurora suavemente em seus ombros até às costas do Potomac.

Escapamos do drama de mármores iluminados da capital para um refúgio conservado pela amável contínua terra. O ganense que carregou nossas bagagens estava triste sobre sua terra natal, mas o comércio fez necessário carregar o fardo dos outros. As estrelas me contaram como nos encontrarmos nesta desordem de sistemas.

Washington nunca chegou a dormir naquela noite de sequenciais noites eternas. Haviam calculadoras sibilantes, computadores roubando nomes, enquanto os espíritos dos desaparecidos bebiam café em uma cafeteria noturna nesta cidade de perturbada relatividade.

A justiça é uma história de coração no amado país onde a imaginação chora. As sagradas montanhas apenas parecem estar adormecidas. Quando finalmente encontramos a sala no corredor de espelhos e fechamos a porta eu não pude mais suportar a beleza lânguida escarlate e amarela nas asas dos pássaros negros.

Este é o mundo em que nos despimos juntos. Interiormente um cervo branco intersecciona-se com a sabedoria do caçador do encanto. Cavalos cavalgam rumo à estrela da manhã. A memória sempre foi mais que papel e não pode ser fragmentada pela violenta história ou roubada por ladrões de infâncias. Não podemos ser separadas pelo ciclo do mistério entre pássaros negros e a memória de pássaros negros.

E na madrugada quando tínhamos dormido por séculos sob uma amável chuva encharcada você me tocou e as nascentes de águas claras sob minha pele eram novos conhecimentos. E eu te amei nesta cidade de morte.

Através da escuridão no puro nascer da verde relva aparada e o asfalto nossas ancestrais aparecem juntas na orla do Potomac em seus mocassins e engomados trajes de discreta armadura. Elas vão até a água dos carros de comboios esfumaçados, ou desmontam dos cavalos empoeirados com fadiga.

Vejam as crianças que se tornam nossas avós, as velhas mulheres cujos ossos fertilizaram o milho. Elas nos dão forma em nosso sono de exaustão ao passo que fazemos nosso caminho neste mundo de justiça distorcida, de músicas sem músicos.

Eu incorporo esses espíritos familiares que sempre retornam ao lugar da beleza, não importa o desfecho na espiral de poder. E eu particularmente admiro a terna construção de sua coluna que na suave aurora é uma escada entre a profundeza na qual as estrelas são perfeitamente estrelas e os céus onde conversamos com as águias.

E eu sou grata à cidade brutal pelo espaço que destaca sua beleza flexível. Ao ganense que também ama a poesia das estrelas. Às ancestrais que não nos esquecem na concreta e impressa ilusão. Aos pássaros negros que são exatamente pássaros negros. E a você amor ao passo que fazemos nossa incrível jornada.


Sobre “Remember” — “Se lembre”:

“Remember” — “Se lembre” — foi o primeiro poema que eu li da Joy Harjo, tornando-se subsequentemente a minha primeira tradução da poeta. A primeira versão da tradução foi publicada em 2017, no Facebook, mas depois publicada com algumas poucas alterações em minha monografia de conclusão do curso de Letras – Inglês pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em 2018, sendo a mesma versão aqui republicada. Entre outras palavras, o poema e a sua tradução soam como a voz do vento que o eu-lírico aconselha ouvir, desde os versos sibilantes ao compasso das palavras que parecem surgir de uma mesma lufada de ar: a voz do vento não cansa de repetir o fundamento memorial. Tal fundamento também é traduzido com vistas a explicitar a marca da oralidade das narrativas ameríndias, também transfigurada em português brasileiro pelo uso do pronome reflexivo anteriormente ao verbo, desde o título do poema ao paralelismo desencadeado ao longo de todos os versos, logo o uso da expressão normativa de objeto direto “Lembre-se” contradiz a sua oralidade cotidiana beirando a informalidade, por conseguinte, “Se lembre” é uma alternativa que introduz o fundamento memorial e a oralitura enquanto demanda do sujeito ao se agenciar. Para tanto, as palavras soam aos sopros dos corres do dia-a-dia, são versos para serem lidos em voz alta e reproduzidos de pessoa para pessoa, de geração para geração, por toda a gente, por todo o povo. A escolha tradutória mais erudita em todo o poema é o uso de “terra-somos” enquanto quase um neologismo em alternativa à tradução da consonância de todo o verso e à materialidade “da terra da qual sua pele é” — “earth whose skin you are” —, uma vez que “terra-somos” — “we are earth” — evoca tanto o fluxo poético incorporado anteriormente, quanto a sua materialidade, isto é, a cor da terra, de outra terra que não se sabe a cor, mas que materializa-se ao ser lida, interpretada e agenciada, dentre tantas outras cores mencionadas, pois “somos terra” também não produziria tais questões. O poema possui apenas uma rima nos dois penúltimos versos — “Remember language comes from this. / Remember the dance language is, that life is.” — “Se lembre que a linguagem vem daí. / Se lembre a dança que a linguagem é, que a vida é.” — e que eu não traduzi por acreditar não ser essencial, apesar de optar pelo uso de palavras acentuadas agudas — “daí” e “é” — como ênfase ao fundamento do poema, logo é isso mesmo que a voz do vento nos diz, afinal: na hora alta do tempo, se lembre da dança da vida e dos movimentos da linguagem de toda a natureza, portanto, de tudo o que ela materializa e incorpora.

Sobre “She Had Some Horses” — “Ela Tinha Alguns Cavalos”:

Esta tradução foi feita em meio à absurda epifania do contexto pandêmico que mudou o mundo neste ano, foi um processo tradutório que muito dialoga com a premente necessidade de autoconhecimento, ao mesmo tempo em que demanda alteridade e a compreensão de que o mundo tecnológico ainda tem muito a aprender com o mais elementar e ancestral: as forças inanimadas e imensuráveis da natureza. Em “She Had Some Horses” — “Ela Tinha Alguns Cavalos” —, essas forças parecem surgir rasgando o céu abaixo ou eclodindo de dentro do fundo da terra para nos reconfigurar e dimensionar a pequenez humana à galope de um ser ancestral dentre a normalidade terráquea (in)compreendida. Para tanto, o eu-lírico é uma mulher, ser ancestral capaz de materializar e subverter todas essas forças dentro de si mesma, desde seu ventre ao carregar o sol ao amanhecer de novas vidas vindas à luz, até às Orixás das tradições afro-americanas, deusas míticas egípcias, bruxas medievais e índias e caboclas transfiguradas em animais selváticas de nossa história e cultura ocidentalizada, também marcada pela exploração corporal e sexual, pela violência doméstica e psicológica, pela colonização de saberes, desejos, espaços e experiências. A perspectiva do poema é indissociável aos feminismos e movimentos sociais e ativistas do terceiro-mundo por igualdade de gêneros e desconstrução de poderes piramidados e falocêntricos, uma vez que as suas palavras estão marcadas pelos prazeres e dores femininas, assim como pela colonização corporal e sexual atentada às mulheres de nossa vida, ainda que os versos melhor produzam metáforas e imagens que primam e enfatizam a beleza da libertação feminina urgente em nosso mundo, principalmente, através do reconhecimento e respeito ao gozo feminino enquanto fundamento ancestral de vida. Em “She Had Some Horses” — “Ela Tinha Alguns Cavalos” —, o sujeito “she”/“ela” é agente de si mesma, tal qual a nossa avó, a nossa mãe, as nossas irmãs, as nossas amigas, as nossas vizinhas, as nossas professoras, as nossas amadas, as nossas inominadas não conformadas com a disposição normativa binária de gêneros e que ainda se reconhecem nesse mesmo lugar de sujeito. Não obstante, o poema é um dos mais significativos dentro do arcabouço poético de Joy Harjo, tanto por ser o título de um de seus livros, quanto por ser um de seus poemas mais disseminados até os dias de hoje, seja pela perspectiva de empoderamento e descolonização feminina, seja pela indissociabilidade de tais marcas aos saberes e práticas de mulheres indígenas, enfatizando-se assim a descolonização de saberes étnicos, raciais e sagrados ao povos de nossas terras: índias, caboclas, mestras, rezadeiras e juremeiras que sentem o giro do mundo no chacoalhar e dançar de seus corpos, artefatos e canto. Entretanto, o poema e o seu conteúdo é demasiado extenso para uma análise detalhada de sua tradução — por hora —, tornando-se mais pertinente para este comentário tradutório explicitar a potência do saber ancestral feminino materializada ao longo de todos os versos paralelos que repetem que a singela “she”/“ela” contém muito poder dentro de si mesma. Esse poder galopa ao ritmo dos versos com vistas à tradução da resistência feminina indígena sobrevivente e transfigura-se em animais de fundamento do povo Muscogee Creek e demais povos indígenas pelas Américas, ou ainda através das terras magmáticas ou águas oceânicas que explodem e dimensionam a força da natureza. Portanto, a ciência ancestral sagrada feminina expressa no poema pode ser traduzida a qualquer lugar, a qualquer povo, a qualquer tempo, logo ela vem vindo por aí muito em breve a chegar à galope de seu som verborrágico assentado que percute em todas as diásporas ameríndias ao tom da chuva que desaba sob todos os céus.

Sobre “The Myth of Blackbirds” — “O Mito dos Pássaros Negros”:

Tenho o hábito de fazer traduções apenas em minha mente, deixando para depois a materialização impressa. A primeira vez em que traduzi este poema foi em 2018, quando o ouvi como uma faixa do álbum de poesia falada e cantada da Joy Harjo junto da banda Poetic Justice, “Letter from the End of the Twentieth Century” (2003), porém, não em sua completude, pois a faixa musical não recita todos os versos do poema ora traduzido e finalmente selecionado do livro “How We Became Human: New and Selected Poems, 1975-2001” (2004). Entretanto, ambas versões (em poesia falada e poesia escrita) foram usadas para produzir esta tradução. Dentre outras palavras, é preciso enfatizar que “The Myth of Blackbirds” — “O Mito dos Pássaros Negros” — é sobre amor. No poema, o amor ancestral está materializado através da escolha de palavras metafóricas aos sentimentos e desejos transfigurados em elementos de conexão ancestral, seja ao toque das plantas ou da chuva, seja ao longo das caminhadas aos sítios, rios, montes e serras em busca do amor genuíno. Assim, o amor ancestral configura-se através de duas/dois personagens sobreviventes da cidade de pedra e da vida cosmopolita, tecnológica e globalizada, tal como enfatiza as suas pequenas alegrias compartilhadas do dia-a-dia ao cantar dos pássaros, sob a chuva que encharca os corpos, sobre a relva do amanhecer, abaixo do brilho das estrelas, através dos animais com quem se comunicam, em vida revivida. O amor enfatizado não apenas diz respeito aos desejos e prazeres humanos transfigurados em águas claras, mas também diz respeito ao amor pela terra e suas raízes ancestrais, seus frutos e suas flores, animais, histórias estrelares e fundamentos nascentes de infâncias. A beleza dos versos importa justamente pelo seu caráter paradoxal e melódico-narrativo: ao mesmo tempo em que se vivencia a crueldade terceiro-mundista de tecnologias precipitadas e mal desenvolvidas, da exploração racializada do trabalho humano, da expropriação das terras e nascentes que outrora seguiam seu fluxo ininterrupto, ou ainda ao longo dos encontros e desencontros em um sistema de poderes desordenados e doentes, existe e resiste o singelo ato de amar outra vida, porém, não como condição, mas enquanto sabedoria que possibilita a compreensão de que um sorriso ou um beijo, braços dados ou mãos abertas, experiências únicas, ainda podem transformar a (sobre)vivência diária. Aqui, não há demais explicações racionalizadas sobre tanto, mas apenas a expressão de que o amor ancestral tal qual inexplicável voa sobre as asas de pássaros negros. Nesse sentido, esta tradução busca sobretudo o amor pela linguagem, pelas palavras e pelos fundamentos narrativos através das identificações mitológicas e musicalidade ameríndia que conduz os passos personificados. Ainda, mais que isso, esta tradução busca produzir identificações em amores mitológicos e ancestrais, de outras vidas, de outros tempos, ao passo que estão marcados nas trilhas de nossa incrível jornada.

Referências

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_. The Myth of Blackbirds. In.: Letter from the End of the Twentieth Century. Interpreters: Joy Harjo and Poetic Justice. Mekko Productions, 2003, track 9 (46 min). Available at: https://www.youtube.com/watch?v=Y-sDz8jHgIA&list=OLAK5uy_lDnTSJQxtL3MJzOMc9gHtPdXj5owrolpI&index=10&t=0s. Accessed on: May 8th, 2020.

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