Jorge Canese, por Adalberto Müller

Canese na Faculdad de Medicina

Jorge Canese (1947-) é um dos mais importantes poetas paraguaios da geração que nasceu em meio à ditatura de Higinio Morígino (1940-1948)  e que teve que enfrentar uma das mais longas e cruéis ditaduras militares do século XX: a de Alfredo Stroessner (1954-1989). O nome desse sanguinário carrasco deve ser lembrado aqui por duas razões: primeiro, porque Canese foi aprisionado e torturado no final dos anos 1970 nos porões da ditadura; segundo, porque os poemas que se leem aqui fazem parte de Paloma blanca, paloma negra, livro proibido pela mesma ditadura logo após o seu lançamento, em 1982. O título aludia à canção  “Paloma Blanca” (George Baker) hit parade dos anos 70 que se referia ao Paraguai, e que foi regravada por gente como Julio Iglesias e Demis Roussos. Para a geração de intelectuais e artistas exilados,  perseguidos e torturados no Paraguai de Stroessner (cujo lema era “Tierra de Paz y de Sol”), essa música efusiva e dançante, que fala de uma “noche guarani”, era dolorosa. Assim, a adição, por contraste, da “paloma negra”, dá o tom do livro e da poesia de Canese: uma realidade opressora requeria uma mímesis feita a partir de um espelho negro, numa œuvre au noir. Canese foi aluno e amigo do gravurista Lívio Abramo (que viveu no Paraguai nesses anos terríveis), e retratou o sofrimento, a humilhação e, sobretudo o medo de viver em um regime brutal. Aliás, em tempos de ressurgimento do fascismo em escala mundial  a poesia de Canese é tão necessária quanto respirar.

Os poemas a seguir fazem parte Paloma branca, paloma negra, que se propõe a ser a primeira tradução integral de uma obra de Canese no Brasil. Ela é prefaciada pelo poeta e jornalista paraguaio Cristino Bogado, que relata a história de um livro proibido e de um autor perseguido, cuja obra proliferou em um caminho cada vez mais radical a partir dos anos 1990. Inclusive, o Jorge Canese passou a ser Jorge Kanese, e escreve hoje numa língua própria, que mistura o espanhol, o guarani e o português. Curiosamente, seus poemas em kanesês foram traduzidos para o alemão por Leonce W. Lupette, que criou uma interessante mistura de turco e alemão (veja o link abaixo do Lyrikline) para transcriar Kanese na língua de Kafka. Mas há que se reconhecer que esse Kanese já estava no Canese de 1982. Comparando os poemas do livro de 1982 a letras de punk rock, e salientando a distância de Canese em relação ao ufanismo romântico paraguaio, Bogado assim define:

Se alguém pensasse em filmar este livro emblemático da Weltanschauung dominante durante o stroessnerismo (medo, resignação, desesperança, felicidade com pequenas coisas como a primavera ou o cheiro das rosas), eu optaria por um filme fortemente expressionista em preto e branco, um noir com toques suaves de tropicalismo e com o pessimismo guarani de mba’e megua (fim dos tempos).  

Assim, que o leitor dessa seleção tenha também em mente os contrastes dolorosos e ao mesmo tempo sublimes da gravura de Lívio Abramo.

Adalberto Müller

Textos de Canese: https://www.lyrikline.org/pt/autores/jorge-kanese

* * *

“Figuras com medo”, de Livio Abramo

EU

Eu sou o que sou. O que é. O que sempre foi.
O que ainda às vezes não é, e continua a ser.

Sou aquele em quem cachorros cuspiram.
O que mendigou o carinho nas poças.
O que não soube o que fazer quando tinha a verdade nas mãos.
O que acabou fodido desde o princípio.
O que aumentou a tormenta; à toa e sem fundamento.

Eu sou o que procurou ser algo mais que eu mesmo.
Sou o idiota que se desespera quando lhe negam
um sorriso ou um gole de vinho.
Sou o que nunca soube amar como se deve.
Sou o infeliz que mexe e remexe o miolo das coisas.
Sou o que às vezes se sente só quando está com amigos.
Sou o que quer ser santo quando beija alguém
e o que se sente mártir quando o Espírito
Santo diz que só lhe concederá uma audiência
em 20 anos,
ou quando dizem simplesmente que não, porque
já é tarde.

YO SOY EL QUE SOY. El que es. El que aunque a veces no es, sigue siendo. Yo soy al que escupieron los perros. El que mendigó el cariño en los charcos. El que no supo qué hacer cuando tenía la verdad en la mano. El que se achicó cuando le apuntaron los chacales. El que se agrandó a la intemperie: al pedo y sin fundamento. Yo soy el que pasa. El que se expone al viento y a los tiroteos. Soy el infeliz que hurga y remueve en el meollo de las cosas. Soy el que quiere ser un santo cuando da un beso y el que se siente un mártir cuando el Espíritu Santo dice que concederá audiencia recién dentro de veinte años; o cuando le dicen sencillamente que no, porque ya es tarde.

§

DEMÔNIOS

Os demônios faziam turnos, obedientes.
Subiam e desciam
aparentemente sem lógica.

Demônios precisos e bonitos,
desses que sabem engordar
a esperança dos pobres.

Demônios brancos,
demônios corados
como o fogo eterno
que nos tenta e nos queima.

Demônios espectrais,
Demônios carcereiros,
escuros de muito amanhecer.
Utopistas enfim
e cheios de boas intenções.

LOS DEMONIOS se turnaban obedientes. Subían y bajaban aparentemente sin lógica. Demonios precisos y hermosos, de esos que saben engordar la esperanza de los pobres. Demonios blancos y demonios rojizos como el fuego eterno que nos tienta y quema. Demonios espectrales y demonios carcelarios oscuros de amaneceres. Utopistas al fin y llenos de buenas intenciones.

§

UMA FORMA DE DIZER

Ontem sonhei com as moléculas,
com edifícios, com o vento norte
e com os raros poros da tua pele.

Ontem sonhei contigo.
Eram os átomos do infinito
querendo te dizer pequenas coisas:
como que beijos são isso e nada mais
e às vezes não sabemos o quê,
que os sorrisos, os olhos,
as mordidinhas
são uma forma de a gente se gostar,
uma forma de dizer
que já não sabemos o que será o amanhã.

UNA FORMA DE DECIR Ayer soñé otra vez con las moléculas, los cementerios, el viento norte y los exquisitos poros de tu piel. Eran los átomos del infinito queriéndome decir pequeñas cosas. Como que los besos son eso nada más. Y a veces no sabemos qué. Que las sonrisas, los ojos o las mordiscos son una forma de querernos. Una manera de decir que no sabemos lo que va a pasar mañana.

§

FOMOS MURCHANDO

Perdemos a saúde
e nos brotaram brotoejas
grandes como melancias a ponto de estalar.

A maleita e seus acólitos
nos minaram o sangue,
nos carcomeram os ossos,
nos infectaram irremediavelmente o cérebro,
o coração das tripas,
as mãozinhas ternas-suaves.

Perdemos a terra, a água,
perdemos o ar, o vento, a alegria.

O nosso fogo foi apagando
pouco a pouco, murchando:
e faz tanto tempo que não chove!

PERDIMOS LA SALUD y nos brotaron granos grandes como sandías a punto de estallar. La peste y sus acólitos nos minaron la sangre. Nos carcomieron los huesos. Nos infectaron irremediablemente el cerebro, el corazón de buena entraña. Perdimos la tierra. El agua. Perdimos el aire, el viento, la alegría. El fuego se nos fue apagando poco a poco, marchitándose ¡y hace tanto tiempo que no llueve!

§

O QUE FICA PRA NÓS

Todos os dias
se inauguram cemitérios.
Vivemos cavando sepulturas.
O contrabando de lápides e caixões
é a última moda.

Ninguém quer morrer
sem uma reza,
sem seu panteão último modelo.

Tudo entra de forma clandestina.
Tudo é gringo, tudo importado,
menos o medo
que continua sendo autóctone.

TODOS LOS DÍAS SE INAUGURAN CEMENTERIOS. Vivimos cavando sepulturas. El contrabando de lápidas y cajones está de última moda. Nadie quiere morirse sin un rezo, sin su panteón último modelo. Todo ingresa en forma clandestina. Todo es gringo; todo importado, menos el miedo que sigue siendo autóctono.