essa língua tão áspera: Maria Sabina, por Julia Bicalho Mendes

me vejo encontrando Sabina, conto sobre minha filha neurodiversa, ela me ampara numa acolhida de sábia que é. diz coisas como “a menininha vai rir e não chorar com seus fantasmas; a ti te costuro com a própria ferida”. talvez a linguagem de seu livro (os cânticos que entoa), ditada pelos meninos santos (os cogumelos), a velada (o ritual) façam mais negócio que as inúmeras cartelas de drogas legalizadas trocadas de dois em dois meses que adoecem nossos corpos e bolsos. e sim, uma acolhida bem diferente muito diferente da gente mui amiga e gratiluz que nunca vai me responder quando digo “é muito sozinho estar aqui”, ou então me manda um “aceita, entrega, confia e agradece”. diferente também da terapeuta que também está cansada e, coitada, perdida.

esta é a Maria Sabina que uma parte de mim gostaria de se ver encontrando, àquela Maria Sabina que entende – e/ ou vê e sente – o mundo como coisa coletiva; que sabe que a educação e a saúde da minha filha não é um problema meu, e que não é quem pariu matheus que tem que o embalar, seja lá quem for matheus, é um problema coletivo; que a palavra mãe nem deveria existir, que a palavra pai nem deveria existir, que a criação e saúde das crias deveria ser coisa coletiva. que sabe que a morte de john lennon (que, dizem as lendas, foi mais um que a conheceu em busca de – iluminação, alucinação, quem sabe?), não é um fato individual, é coletivo. que sabe, eu aqui digitando isso nesta escola agora e pensando, em meus alunes pensando em educação não se trata de fazer desta uma escola melhor, deles alunes melhores, mas do coletivo o melhor. e isso se estende num sem fim: esta é a Maria Sabina, La Señora, a Sacerdotisa, a Xamã, a Curandeira, e um sem-fim de vocativos pelos quais ficou muito mais conhecida.

tem também essa parte de mim que se enche de raiva e se enraivece muito mesmo e que se interessa em falar sobre apropriação cultural e a miséria a que foi relegada após a converterem numa malinche moderna; e ainda a parte que quer falar sobre sua infância, os laços com a irmã, sua força de mulher que como uma Oyá pare nove; seu corpo de mulher-árvore que só se vê livre quando se torna viúva. tudo isso que você que me lê poderá conhecer nesse artigo escrito por Pedro Cardoso para a Revista Buala e também no livro “A Vida de Maria Sabina a Sábia dos Cogumelos” escrito por Álvaro Estrada (com vários de seus cânticos também compilados ao final), traduzido para o brasileiro por Beatriz Perrone Moisés e publicado em 1984 pela Martins Fontes.

acontece que outra parte de mim se interessa muito por essa linguagem e esse livro que Sabina recebeu de seus meninos niños santos e do qual era intérprete (e que poeta nunca foi cavalo da linguagem?) e que poucas pessoas leem como a própria Sabina o chamou: linguagem – a linguagem de livro que inclusive chegou a ser compilada e publicada em livro propriamente dito de papel e tal quando ela ficou famosa, num movimento que me lembra muito o falatório de Stella do Patrocínio, mulher preta, pobre, considerada louca e enclausurada num hospício, mas que quando uma senhora branca legitimada pela academia e outros meios grava suas falas num gravador e compila e coloca em livro de papel e tal se torna poeta (sim, Stela era poeta, como Sabina era poeta, a questão é precisar da validação e, risos, do papel!).

curiosamente, Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, o livro de Stela do Patrocínio, foi publicado no Brasil em 2001 pela Azougue editorial, a mesma editora que traduziu e publicou muito do que chegou por aqui de etnopoesia – de povos indígenas (aqui no youtube uma entrevista bacana sobre tradução e etnopoesia): segundo um dos livros, Etniopoesia do Milênio de Jerome Rothemberg e em tradução de Luci Collin, “uma poética do outro, para o outro, com o outro, não uma leitura exótica de outros povos”.

sobre as traduções que se seguem nessa língua tão áspera, comecei a ler a linguagem-livro-poesia de Sabina há alguns anos e vinha guardando tudo o que encontrava em espanhol e mazateca, cotejando aqui e ali, no desejo de fazer minhas traduções algum dia. até que num outro dia me deparei com uma tradução tão bonita da Julia Bicalho Mendes que achei que seria bom estender essa caminhada e ler mais de Sabina via Julia. troquei uma ideia com ela e sugeri que traduzisse mais e ela achou massa, porque Sabina vai ali em seu coração de poeta num lugar bonito. e cá estamos.

Henry Munn, citado por Heriberto Yépez no artigo Re-reading Maria Sabina escreve: “Sabina herdou de sua cultura um repertório de temas e motivos nos quais ela, como outros xamãs, baseou suas próprias variações individuais […] portanto, ela era sábia não porque comia cogumelos e fazia viagens, mas porque dominava um dicionário dinâmico de significados […] ela reescreveu aquele dicionário dinâmico ao longo de sua vida. Estava tentando revolucionar a práxis. É por isso que até permitiu a participação de estrangeiros. Estava tentando ir além. Ela queria abrir o livro. Talvez tentar abrir o livro demais tenha sido o motivo pelo qual seu próprio livro se desfez.”

depois da minha desastrosa experiência na faculdade de história onde professores diziam pra gente ler a história pela lente dos vencidos, mas só nos ofereciam textos escritos pelos vencedores, foi através da poesia que pude me acercar um cadiño más não só dos povos originários, pretos e indígenas, de aqui e de acolá, mas fundamentalmente fortalecer minha identidade latinamericana (de gente, de mulher e, ó, de poeta!). E ler Maria Sabina é compreender que, ao ser uma mulher de mil tentáculos – esse “eu sou” cada coisa que vem a cada um de seus versos – elabora e reelabora mitos, que não há experimentação radical sem cura.

e esse ler poesia e compreender poetas como poetas não é apenas questão de linguagem: é o que é. e é respeito também. por isso te peço, leia essas traduções – e poesia, num geral – menos como um fenômeno etnográfico exótico e interessante – e mais como linguagem: poesia, arte.

nina rizzi

*

Maria Sabina foi uma sacerdotisa, xamã, poeta, sábia, mazateca, da região de Huautla (México). Seus cânticos foram entoados originalmente em sua língua nativa, em meio a ritos de cura/transe/êxtase e depois traduzidos e transcritos ao espanhol, sem nunca terem sido revisados por ela, que além de analfabeta, pouco conhecia a língua hispânica. Seus poemas são encontrados em inúmeras versões, variando muito em sua estrutura e composição, levando a entender que não há uma disposição definitiva/oficial para eles, mas que seus versos eram mesmo assim, repetidos oralmente de maneiras diversas. Suas palavras eram sopradas pelas “crianças santas” – cogumelos sagrados – que cantavam através dela. Palavras que caiam sobre seu corpo. Palavras de um livro que não tinha início nem fim, e que chegavam sobre si por uma ordem intuitiva, própria para cada instante. Assim, cada uma de suas palavras engendra uma força grandiosa, porque cada uma é dona de si, independentes de suas roupas e suas formas, carregadas de um manifesto mágico, que nos fala, e nos toca, tão diretamente como faria o próprio céu ou a terra.

*

Todo mi lenguaje está en el libro que me fue dado. Soy la que lee, la intérprete. Ése es mi privilegio. Mi sabiduría no puede enseñarse. Es por eso que digo que mi linguaje nadie me lo enseñó, porque es el lenguaje que los niños santos dicen al entrar a mi cuerpo. Los ignorantes nunca podrán cantar como los sabios. Los niños santos me dictan, yo soy la intérprete. Aparece el libro y ahí empiezo a leer. Cuando ellos me entregaron el libro había música. Sonaba el tambor, la trompeta, el violín y el salterio. Me sumerjo y camino por abajo. Puedo buscar en las sombras y el silencio. Así llego donde las enfermedades están agazapadas. Muy abajo. Abajo de las raíces y del agua, del barro y de las piedras. Otras veces asciendo, muy arriba, arriba de las montañas y de las nubes. Al llegar adonde debo miro a Dios. Miro a las gentes buenas. Allí se sabe todo. Del todo y de todos, porque allí está todo claro. Oigo voces. Me hablan. Es la voz del pequeño que brota. El dios que vive en ellos entra en mi cuerpo. Yo cedo mi cuerpo y mi voz a los niños santos. Ellos son los que hablan, en las veladas trabajan en mi cuerpo. Me dicen que soy la mujer de los mares, que traigo la sabiduría en mis manos. Que soy la mujer de San Pedro y San Pablo. Que soy la mujer niña. A veces lloro, pero cuando silbo nadie me espanta. En el medio está el Lenguaje. En esta orilla, en el medio y en la otra orilla está el Lenguaje. Com los niños veo a Dios. Ellos hablan y yo tengo el poder de traducir. Si digo que soy la mujercita de libro eso quiere decir que un pequeno que brota es mujer y que ella es la mujercita de libro y así me convierto durante la velada en hongo-mujercita-de-libro. Si estoy en la orilla acuática, yo digo:

soy mujer que está parada
en la arena,
porque la sabiduría viene
el lugar donde nace
la arena.
soy la mujer que escribe.
¿En qué número descansas,
Padre amado?
Padre lleno de vida
Padre lleno de frescura
aquí traigo mi rocío
mi rocío fresco
mi rocío transparente
soy la mujer del alba
soy la mujer día
soy la mujer santo
soy la mujer espíritu
soy la mujer que trabaja
soy la mujer que está debajo del árbol que gotea
soy la mujer crepúsculo
soy la mujer del huipil pulcro
soy la mujer remolino
soy la mujer que mira hacia dentro
soy mujer pensamiento
mujer de sentarse
mujer de pararse
El Cristo traigo yo
el corazón de nuestra Virgen traigo yo
el corazón de nuestro Padre traigo yo
el corazón de Tata traigo yo
Madre que estás en el cielo
Padre que estás en el cielo
hacia allá me dirijo
hacia allá voy
pues allí estoy hablando con mi libro
con mi lengua y mi boca

Toda minha linguagem está no livro que me foi dado. Sou a que lê, a interprete. Esse é o meu privilégio. Minha sabedoria não pode ser ensinada. É por isso que eu digo que ninguém me ensinou minha linguagem, porque é a linguagem que as crianças santas dizem ao entrarem em meu corpo. Os ignorantes nunca poderão cantar como os sábios. As crianças santas me recitam, eu sou a interprete. Aparece o livro e aí começo a ler. Quando elas me entregaram o livro havia música. Soava o tambor, o trompete, o violino e o saltério. Submerjo e caminho para o fundo. Posso buscar nas sombras e no silêncio. Assim chegou onde as enfermidades estão escondidas. Bem fundo. Abaixo das raízes e da água, do barro e das pedras. Outras vezes ascendo, muito alto, acima das montanhas e das nuvens. Ao chegar onde devo vejo Deus. Vejo as pessoas boas. Assim tudo se sabe. Sobre tudo e sobre todos, porque ali está tudo claro. Ouço vozes. Falam comigo. É a voz do pequeno que brota. O deus que vive nelas entra em meu corpo. Eu cedo meu corpo e minha voz para as crianças sagradas. Nas veladas são elas que falam, trabalham em meu corpo. Me dizem que sou a mulher dos mares, que trago a sabedoria em minhas mãos. Que sou a mulher de São Pedro e São Paulo. Que sou a mulher menina. Às vezes choro, mas quando assobio nada me assusta. No meio está a Linguagem. Na margem, no meio, e na outra margem, está a Linguagem. Com as crianças vejo Deus. Elas falam e eu tenho o poder de traduzir. Se digo que sou a mulherzinha de livro, isso quer dizer que um pequeno que brota é mulher e que ela é a mulherzinha de livro e assim me converto durante a velada em cogumelo-mulherzinha-de-livro. Se estou na margem aquática, eu digo:

sou a mulher que está parada na areia,
porque a sabedoria vem desde o lugar
onde nasce a areia.
sou a mulher que escreve.
em que número descansas Pai amado?
Pai cheio de vida
Pai cheio de frescor
aqui trago meu orvalho
meu orvalho fresco
meu orvalho transparente
sou a mulher da Alvorada
sou a mulher dia
sou a mulher
sou a mulher Santo
sou a mulher espírito
sou a mulher que trabalha
sou a mulher que está debaixo da árvore que goteja
sou a mulher crepúsculo
sou a mulher do huipil elegante
sou a mulher redemoinho
sou a mulher que olha para dentro
sou a mulher pensamento
mulher de sentar
mulher de parar
sou eu que trago o Cristo
sou eu que trago o coração da nossa Virgem
sou eu que trago o coração do nosso Pai
sou eu que trago o coração de Tata
Mãe que estais nos céus
Pai que estais nos céus
é para lá que estou indo
é para lá que eu vou
pois é onde falo com meu livro
com minha língua e minha boca
£

soy mujer que mira hacia adentro
soy mujer luz del día
soy mujer luna
soy mujer estrella de la mañana
soy mujer estrella dios
soy la mujer constelación guarache
soy la mujer constelación bastón
porque podemos subir al cielo
porque soy la mujer pura
soy la mujer del bien
porque puedo entrar y salir del reino de la muerte

soy una mujer que llora
soy una mujer que escupe
soy una mujer que ya no da leche
soy una mujer que habla
soy una mujer que grita
soy una mujer que da la vida
soy una mujer que ya no pare
soy una mujer que flota sobre las aguas
soy una mujer que vuela por los aires

soy una mujer que ve en la tiniebla
soy una mujer que palpa la gota de rocio posada sobre la yerba
soy una mujer hecha de polvo y vino aguado

soy una mujer que sueña mientras la atropella el hombre
soy una mujer que siempre vuelve a ser atropellada
soy una mujer que no tiene fuerza para levantar una aguja
soy una mujer condenada a muerte

soy una mujer de inclinaciones sencillas
soy una mujer que cría víboras y gorriones en el escote
soy una mujer que cría salamandras y helechos en el sobaco
soy una mujer que cría musgo en el pecho y en el vientre
soy una mujer a la que nadie besó jamás con entusiasmo
soy una mujer que esconde pistolas y rifles en las arrugas de la nuca

soy mujer que hace tronar
soy mujer que hace soñar
soy mujer araría, mujer chuparrosa
soy mujer águila, mujer águila dueña
soy mujer que gira porque soy mujer remolino
soy mujer de un lugar encantado, sagrado
porque soy mujer aerolito.

sou mulher que olha para dentro
sou mulher luz do dia
sou mulher lua
sou mulher estrela deus
sou a mulher constelação guarache
sou a mulher constelação bastão
porque podemos subir ao céu
porque sou a mulher pura
sou a mulher de bem
porque posso entrar e sair do reino da morte

sou uma mulher que chora
sou uma mulher que cospe
sou uma mulher que já não dá leite
sou uma mulher que fala
sou uma mulher que grita
sou uma mulher que dá a vida
sou uma mulher que não pare
sou uma mulher que flutua sobre as águas
sou uma mulher que voa pelos ares

sou uma mulher que vê na escuridão
sou uma mulher que que apalpa a gota de orvalho repousada sobre a erva
sou uma mulher feita de pó e vinho aguado

sou uma mulher que sonha enquanto é atropelada pelo homem
sou uma mulher que sempre volta a ser atropelada
sou uma mulher que não tem forças para levantar uma agulha
sou uma mulher condenada a morte
sou uma mulher de inclinações simples
sou uma mulher que cria víboras e pardais no decote
sou uma mulher que cria salamandras e samambaias no sovaco
sou uma mulher que cria musgo no peito e no ventre
sou uma mulher a qual ninguém jamais beijou com entusiasmo
sou uma mulher que esconde pistolas e rifles nas rugas da nuca

sou mulher que faz trovoar
sou mulher que faz sonhar
sou mulher arado, mulher chuparrosa
sou uma mulher águia, mulher águia dona
sou mulher que gira porque sou mulher redemoinho
sou mulher de um lugar encantado, sagrado,
porque sou mulher aerólito.
£

soy un ciervo: de siete púas,
soy una creciente: a través de un llano,
soy un viento: en un lago profundo,
soy una lágrima: que el Sol deja caer,
soy un gavilán: sobre el acantilado,
soy una espina: bajo la uña,
soy un prodigio: entre las flores,
soy un mago: ¿quién sino yo
inflama la cabeza fría con humo?

soy una lanza: que anhela la sangre,
soy un salmón: en un estanque,
soy un señuelo: del paraíso,
soy una colina: por donde andan los poetas,
soy un jabalí: despiadado y rojo,
soy un quebrantador: que amenaza la ruina,
soy una marea: que arrastra la muerte,
soy un infante: ¿quién sino yo
atisba desde el arco no labrado del dolmen?

soy la matriz: de todos los bosques,
soy la fogata: de todas las colinas,
soy la reina: de todas las colmenas,
soy el escudo: de todas las cabezas,
soy la tumba: de todas las esperanzas.

sou um cervo de sete pontas,
sou uma crescente: através de uma planície,
sou um vento: em um lago profundo,
sou uma lágrima: que o sol deixa cair,
sou um gavião: sobre o penhasco,
sou um espinho: debaixo da unha,
sou um prodígio: entre as flores,
sou um mago: quem senão eu
inflama com fumaça a cabeça fria?

sou uma lança: que anseia por sangue,
sou um salmão: eu um tanque,
sou um chamariz: do paraíso,
sou uma colina: por onde andam os poetas,
sou um javali: rubro e impiedoso,
sou uma britadeira: que ameaça a ruína,
sou uma maré: que arrasta a morte,
eu sou uma criança: quem senão eu
espreita o arco não esculpido do círculo de pedras?

sou a matriz: de todos os bosques,
sou a fogueira: de todas as colinas,
sou a rainha: de todas as colmeias,
sou o escudo: de todas as cabeças,
sou a tumba: de todas as esperanças.
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soy la mujer que sólo nací.
soy la mujer que sola caí.
soy la mujer que espera.
soy la mujer que examina.
soy la mujer que mira hacia adentro.
soy la mujer que busca debajo del agua.
soy la nadadora sagrada
porque puedo nadar en lo grandioso.

soy la mujer luna.
soy la mujer que vuela.
soy la mujer aerolito.
soy la mujer constelación huarache.
soy la mujer constelación bastón
soy la mujer estrella, Dios
porque vengo recorriendo los lugares desde su origen.

soy la mujer de la brisa.
soy la mujer rocío fresco.
soy la mujer del alba.
soy la mujer del crepúsculo.
soy la mujer que brota.

soy la mujer arrancada.
soy la mujer que llora.
soy la mujer que chifla.
soy la mujer que hace sonar.
soy la mujer tamborista.
soy la mujer trompetista.
soy la mujer violinista.
soy la mujer que alegra
porque soy la payasa sagrada.

soy la mujer piedra del sol.
soy la mujer luz de día.
soy la mujer que hace girar.
soy la mujer del cielo.
soy la mujer de bien.
soy la mujer espíritu
porque puedo entrar y puedo salir
en el reino de la muerte.

soy la mujer que chupa
soy la mujer que limpia
soy la mujer que cura
soy la mujer hierbera
soy la mujer sabia en lenguaje
porque soy la mujer sabia en medicina.

sou a mulher que somente nasci
sou a mulher que sozinha caí
sou a mulher que espera
sou a mulher que examina
sou a mulher olha para dentro
sou a mulher que busca deibaixo d’água
sou a nadadora sagrada
porque posso nadar no grandioso
sou a mulher lua
sou a mulher que voa
sou a mulher aerólito
sou a mulher constelação huarache
sou a mulher constelação bastón
sou a mulher estrela Deus
porque venho percorrendo os lugares desde sua origem

sou a mulher da brisa
sou a mulher do orvalho fresco
sou a mulher do alvorecer
sou a mulher do crepúsculo
sou a mulher que brota
sou a mulher arrancada
sou a mulher que chora
sou a mulher que endoida
sou a mulher que faz soar
sou a mulher tamborista
sou a mulher trompetista
sou a mulher violinista
sou a mulher que alegra
porque sou a palhaça sagrada.

sou a mulher pedra do sol
sou a mulher luz do dia
sou a mulher que faz girar
sou a mulher do céu
sou a mulher do bem
sou a mulher espírito
porque posso entrar e posso sair
do reino da morte.

sou a mulher que chupa
sou a mulher que limpa
sou a mulher que cura
sou a mulher herborista
sou a mulher sábia em linguagem
porque sou a mulher sábia em medicina
£

Cúrate mijita, con La Luz del sol y los rayos de la luna
con el sonido Del Río e la cascada
con el vaivén del mar y el aleteo de las aves

Curate mijita con las hojas de mienta y la hierbabuena,
con el neem y el eucalipto
edúlzate con lavanda, romero y manzanilla
abrázate con el grano de cacao y un toque de canela
ponle amor al té en lugar de azúcar y tómalo mirando las estrellas

Cúrate milita, con los besos que te da el viento y los abrazos de la lluvia
hazte fuerte con los pies descalzos en la tierra y con todo lo que de ella nace
vuélvete cada día más lista haciendo caso a tu intuición
mirando el mundo con el ojito de tu frente.

Salta, baila, canta, para que vivas más feliz

Curate Mijita, con amor bonito, y recuerda siempre…
Tu eres la medicina

Cure-se, filhinha, com a luz do sol e os raios da lua
com o som do rio e da cachoeira
com o vaivém do mar e o esvoaçar das aves

Cure-se, filhinha, com as folhas de menta e hortelã
com o neem e o eucalipto
se adoce com lavanda, alecrim e camomila
se abrace com o grão do cacau e um toque de canela
acresça amor ao chá no lugar de açúcar e beba-o olhando as estrelas

Cure-se, filhinha, com os beijos que te dá o vento e os abraços da chuva
faça-se forte com os pés descalços na terra e com tudo o que dela nasce
torne-se cada dia mais preparada, escutando a sua intuição
enxergando o mundo com o seu olhinho da fronte

Salte, dance, cante, para que você viva mais feliz

Cure-se, filhinha, com amor bonito, e lembre sempre…
Você é a medicina.

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Hay un mundo más allá del nuestro, un mundo que está lejos, también cercano e invisible. Ahí es donde vive Dios, donde vive el muerto y Los Santos. Un mundo donde todo ha pasado ya, y se sabe todo. Ese mundo habla. Tiene un idioma proprio. Yo informo lo que dice. El hongo sagrado me toma de la mano y me lleva al mundo donde se sabe todo. Allí están los hongos sagrados, que hablan en cierto modo que puedo entender. Les pregunto y me contestan. Cuando vuelvo del viaje que he tomado con ellos, digo lo que me han dicho y lo que me han mostrado

Há um mundo além do nosso, um mundo que está longe, também próximo e invisível. Aí é onde vive Deus, onde vive o morto e os Santos. Um mundo onde tudo já passou e tudo se sabe. Esse mundo fala. Tem um idioma próprio. Eu informo o que ele diz. O cogumelo sagrado me toma pelas mãos e me leva ao mundo onde tudo se sabe. Ali estão os cogumelos sagrados, que falam de forma que posso entender. Eu pergunto e eles respondem. Quando volto da viagem que tive com eles, revelo o que me disseram e o que me mostraram.
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Julia Bicalho Mendes é poeta, terapeuta, performer, tem se dedicado à tradução de autories da região da America Latina, do espanhol e outras línguas e interlínguas atravessadas pela colonização, com a intuição de aproximar os lusófonos brasileiros, aos seus vizinhos de terra, em um processo de aprendizado, resgate, escuta, identificação e desfronteirização. Tem disponível em seu site http://www.juliabicalhomendes.com algumas dessas traduções.

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