Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (VII): 7 poemas inéditos de Pedro Eiras 


Pedro Eiras. 2016. © Sara Augusto

“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].
Parte IV: “Volta para Tua Terra (Urutau 2021)” [junho 2021].
Parte V: “Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa” [agosto 2021].
Parte VI: “Casa de Gigante” [setembro 2021].



Pedro Eiras (Porto, 1975) é uma das vozes mais singulares, desafiantes e fundamentais da literatura portuguesa atual. Autor de mais de 35 romances, livros de crónicas, peças de teatro, ensaios, livros de poemas e outros volumes impossíveis de catalogar, como This Is the Way the World Ends (2020) e Regras para a Direcção do Espírito (2021), Pedro destaca-se pela inteligência versátil com que se move entre registos, de que, muitas vezes, resulta a mescla interdisciplinar e, pontualmente, intermedial, e pela criatividade renovadora com que se arrisca de ideia em ideia. Depois de mais de 19 anos de carreira, estreou-se finalmente como poeta em 2020 com a publicação de Inferno (Assírio & Alvim). A Inferno seguiu-se Purgatório (2021), segunda parte da trilogia dantesca, com que, à semelhança dos seus trabalhos anteriores, voltou a distinguir-se não só pela criação rigorosa de um dispositivo empático, semelhante a um para-raios acrónico, como pelo domínio atualizado da tradição. Publicou recentemente, e além destes, Língua Bífida. Ensaio sobre Ecce Corpus, uma performance de António Gonçalves (Documenta, 2021).


Poemas inéditos
Pedro partilhou comigo 7 poemas inéditos: “Fraude”, “Season 1, episode 1”, “Desculpas”, “E outros argumentos”, “Breve explicação do contrato social”, “Votos” e “Pentecostes”.



FRAUDE

É a tua assinatura, vê,
neste documento: a tua letra,
traço a traço, com
o ataque nervoso das consoantes,
a acalmia das vogais –

é o teu nome, completo
e rigoroso, certificado por comparação
com outros documentos: atestados,
passaportes, o velho caderno
da escola primária,

é o teu aval, nesta página colonizada
por letras pequeninas, irritantes
(quem leria isto até ao fim?),
concordando, por actos e omissões,
com a sempiterna ordem das coisas.

E pouco importa se
não te lembras
de assinar: não se pode saber tudo
de cor, a vida
é tão breve.

E talvez seja melhor assim:
o que não tem remédio – remediado está;
o teu nome, argumentas, é só mais um
nesta longa lista de rubricas
ilegíveis:

não vale a pena, decerto,
meter os papéis para reclamar
por tão pouca coisa.



SEASON 1, EPISODE 1

É irritante, nas séries
sabermos
que o nosso juízo pouco vale.
A personagem mais viciosa
pode, em meia-dúzia de episódios,
tornar-se um santo.
Já os heróis, a quem
de bom grado confiaríamos
as nossas vidas,
se revelam, a qualquer momento,
infames.
No juízo do mundo,
um argumentista gere o plot
com régua e esquadro:
está na hora do twist, é preciso
revelar
esqueletos no armário dos bons,
motivações secretas nos gestos
dos malditos.
A ti, binge watcher, cabe apenas
resistir um pouco;
jurar: amarei esta personagem
por mais segredos que venha a descobrir,
e a esta outra
odiarei sem apelo,
ainda que me demonstrem quanto eram
nobres afinal
as suas motivações, e frágil
o seu coração.
Doesn’t matter:
o argumentista já tem na manga
duas ou três surpresas
para acabar o episódio,
que é como quem diz: para te obrigar a ver
o seguinte.
E tu – obedeces,
que remédio.

Mas não é assim também
o tribunal da vida? Não haverá
um secreto realizador, vigiando
o script, reservando-te
mistérios, o sim e o não confundidos,
a manipulação da tua inocência?
E tu, enquanto desabafas
na página do IMDB, julgas
que te sabes defender
dos truques, narrativas,
manipulação.
Shame on you.



DESCULPAS

Que naquela altura não sabíamos
fazer melhor;
que não foi por mal, pelo menos
conscientemente;
que os outros também fazem assim,
ou pior;
que não havia precedentes
nos livros consultados;
que foi por um gesto reflexo, mecânico,
condicionado;
que o sol, a chuva, os equinócios
trocados;
que os genes, a raça, os dados do contexto
histórico;
que o simples azar,
imperando;
que os imponderáveis
e os necessários;
que o sim
e o não, confundidos;
que assim seja,
para todo o sempre,
amen.



E OUTROS ARGUMENTOS

Pode ser que sim,
mas também
pode ser que não.

Pode ser um aplauso
mas também
um olhar de soslaio.

Pode ser a luz a olhar pela janela
mas também
os dedos trocados num charco.

Pode ser um genocídio
mas também
um erro de paralaxe.

Posso ser eu
mas também
podes ser tu.

Pode ser prudência metódica
mas também
envergonhada cobardia.



BREVE EXPLICAÇÃO DO CONTRATO SOCIAL

O dicionário foi escrito
pelos loucos que ganharam.




VOTOS

Eu prometo, eu juro
que hoje vou dar conta das horas
bu-ro-cra-ti-ca-mente:
triando as tarefas por ordem
de urgência, preenchendo atento
o caderno de encargos, adiando
para outro dia as minhas
opiniões.

Prometo que vou cumprir
bu-ro-cra-ti-ca-mente
o que esperam de mim: sorrisos,
compaixão, as virtudes dos
minerais: firmeza, constância,
a máscara cristalina que deflecte
este gosto amargo de um nome
ardente.

Juro que vou cumprir
bu-ro-cra-ti-ca-mente
o currículo solene, funcionário
do mês, nunca mais amarei
senhor, na minha morte quotidiana,
doravante: frio, gélido, técnico,
eu juro,
se o mundo arde, este é o meu
impecável pulsar de máquina.



PENTECOSTES

Quem precisa de línguas de fogo
se tem o google translator?

Quem precisa do sol e do éter,
se tem lâmpadas, e fluidos
supercondutores?

Quem precisa do mar, da distância,
se tem na ponta dos dedos
300 canais de distração?

Quem precisa de ti,
se tem a tua sombra
congelada?

Quem precisa de morrer,
se ainda nem deu conta
de que está morto?