essa língua tão áspera: Nigar Arif, por Francis Kurkievicz

Nigar Arif nasceu em 20 de janeiro de 1993, no Azerbaijão. Formou-se em Língua Inglesa pela Universidade Pedagógica do Estado do Azerbaijão, em 2014. É membro da União Mundial dos Jovens Escritores da Turquia e diplomou-se na III Escola de Escritores Jovens pela União de Escritores do Azerbaijão. Também é membro do Fórum Internacional para a Criatividade e Humanidade, instituição sediada no Marrocos. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês, turco, russo, persa, Montenegro e espanhol e foram publicados em revistas digitais de diferentes países. Ela participou do IV LIFT- Festival Literário Eurasiano, realizado em Baku no ano de 2019 e do 30° Festival Internacional de Poesia de Medillin em 2020, realizado na Colômbia e do Festival Literário International Panorama – 2020 na Índia, realizado através de uma plataforma online. Participou ainda do projeto Viagem das palavras pela Europa, 100 poetas ao redor do mundo por amor e Quarto Encontro Virtual Global de Poetas 2020.

Nigar Arif tem uma extensa e incansável atividade em prol da poesia e escreve tanto em azerbaijano, sua língua materna, quanto em inglês, com a mesma peculiaridade estética e a mesma força da sua juventude: de forma simples, direta sem subterfúgios, adornos ou pistas falsas. Ficará nítido ao leitor a maturidade e compromisso da poeta com o seu tempo. Assim como ficarão nítidas sua forma estética e dicção nos poemas aqui apresentados. Sua visão de mundo consegue abranger as entranhas do micro universo humano, dúvidas e inquietações íntimas, e também perscrutar os movimentos no macro, os destinos e contextos que acossam a humanidade. E embora ainda não tenha publicado um livro solo, caminha a passos largos na consumação de um volume, pois poemas se acumulam na diversidade digital de suas publicações.

Muitos são os temas que perpassam estes seis poemas onde podemos perceber o desenho arquitetônico de seus versos: o espanto pela separação amorosa, o inquérito sobre a ausência, a pacificação do ânimo através da autocompreensão, a perplexidade e dúvida com a própria jornada existencial, a morte e as falsas esperanças, a compreensão da natureza humana. Temas universais tratados na intimidade da experiência individual, no entanto, de modo não confessional, mas transmutados na singularidade poética. Talvez este seja o caminho mais difícil para poetas na contemporaneidade: como sublimar a experiência pessoal em obra de arte sem cair no clichê da evidência confessional do ego auto afirmado.

Os poemas apresentados aqui foram selecionados pela própria autora e encaminhados aos cuidados deste poeta, que os transmigrou intuitivamente para a língua portuguesa. Esperamos que esta contribuição literária possa voltar nossa atenção para uma poesia realizada num país que pouca notícia temos, mas que tem irradiado sua melodia e seus temas para além de suas fronteiras.

Francis Kurkievicz

THE RECONCILIATION

Hey man, taking umbrage at himself,
Have you done a lot of sinning?
All you’ve lost, is just yourself,
Is there anything you gained?
Who took you from you?
Who left you to the void?
Who put his hand on your heart?
And calmed you like that?
Who ruined your life and fate
looking at your “sorry” face?
What did he leave in your eyes,
Dropping as tears?
Maybe it’s you, and,
you’ve become a pain for yourself?
Maybe you just let your joys
slip through your fingers?
Hey you,
Who’s oppressed by sorrow,
Walking in his thoughts,
Getting tired of his ways…
Losing the sun among complaints.
Turn back,
Make peace with yourself.
Shake hands and have faith ,
With that one whom you turned away.

A RECONCILIAÇÃO

Ei cara, ofendido estás contigo mesmo?
Pecastes muito?
Tudo que perdeste foi a ti mesmo,
Existe algo que ganhaste?

Quem te tirou de ti?
Quem no vazio te deixou?
Quem pousou a mão em teu coração?
E isso te pacificou?

O que arruinou tua vida, teu destino
Mirando tua cara de “desculpa”?
O que foi deixado em teus olhos
Gotejando como lágrimas?

Talvez sejas tu e
Tenhas tornado uma dor para ti mesmo?
Talvez tu tenhas deixado tuas alegrias
Escorregarem pelos teus dedos?

Ei cara,
Quem é oprimido pela dor,
Perambulando em teus pensamentos
Cansado de tuas formas…
Perdendo o sol entre reclamações.

Volte!
Faça as pazes contigo mesmo.
Aperte tuas mãos e tenha fé
Naquele que rejeitastes.
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THE WAY

Who did really cut out my way?
Either the way is chance or I’m green.
I may be the last human on this road,
Maybe I’m just a gravestone of this road.

My dreams looking through the window,
My leg got tangled with my own way;
I don’t know how it looks from that side,
My fate is clapping at my falling.

Or maybe it’s not me going on this way,
It’s my road, limped, my road’s crawling.
It turns to ground, it changes to stone,
It just follows and blankets with me.

How this way did fall on my fortune?
Maybe it slipped out of my pockets?
Had I trampled on its face and head?
That’s why it is so impudent to me!


O CAMINHO

Quem realmente podou meu caminho?
Ou o caminho é o acaso ou sou eu imatura.
Posso ser o último humano nesta estrada,
Talvez apenas uma lápide desta estrada.

Meus sonhos vagam através da janela,
Minhas pernas embaraçaram-se pelo caminho;
Não sei como se mostra do outro lado,
Aplaudindo minha queda está o meu destino.

Ou talvez não seja eu a seguir assim,
É minha estrada, vacilando, se arrastando.
O caminho se dissimula em solo, em pedra,
Apenas segue e avança comigo.

Como isso desceu em minha ventura?
Talvez tenha escapulido dos meus bolsos?
Havia pisoteado seu rosto e sua cabeça?
É por isso que é tão insolente comigo!
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WHEN YOU LEFT

I used to see the flushed eyes of life
in geography class,
I used to see the truths that erupt like volcano,
and plains
on which were creeping the lies
under the truths,
I used to see the fall down the knees
of the highest mountains,
The same wind was blowing in all countries,
The same rain all over the world…
I was a country myself,
Yes, I was…
When I wanted to subdue the country like you
my heart was shaking
like it was an earthquake;
sweet waters were running,
pure springs were running
from the bottom
of the most rocky and barren lands
I used to see the beautiful faces of the best creatures
in the far-off places…
When you left…
When you left,
I realized that
human being is the biggest iceberg;
he will go on melting for years
and flowing into death.

QUANDO VOCÊ SAIU

Eu costumava ver os olhos ruborizados da vida
Na aula de geografia,
Costumava enxergar verdades irromperem como vulcões,
E planícies
Por onde as mentiras rastejavam
Sob as verdades,
Costumava contemplar o quedar de joelhos
Das montanhas mais altas,
O mesmo vento soprava em todos os países,
A mesma chuva em todos os lugares…
Eu mesma era um país,
Sim, era…
Quando desejei dominar um país como você
Meu coração tremeu
Como se fosse um terremoto;
Águas doces fluíam,
Fontes puras vertiam
Do fundo
Dos solos mais rochosos e áridos,
Eu costumava ver os belos rostos das melhores criaturas
Nos lugares mais remotos…
Quando você saiu…
Quando você saiu,
Compreendi que
O ser humano é um enorme iceberg;
Ele continuará derretendo por anos,
Vazando para a morte.
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AT THE DOOR OF PARTING

I don’t know when
we were parted,
How and when
our love was ended?
Maybe
we shouldn’t have met
from the beginning…
Were we really bowed down
the love and desire?
Maybe we were children
in the hands of love.
And those hands parted us…
Maybe…
maybe I am wrong,
We did grow it ourselves
We grew up just each other.
And what parting was,
what was the parting then?
Parting was the bitter tea,
Parting was like bane.
When sleepless night
attempting to fall asleep
Parting was the morning.
A tender word I found
in the book I read
was a handful sadness.
Parting was worse
than the boring death!
I don’t know,
Where was the door of parting?
It’s like I knew,
but so what?
From now,
I won’t come back anymore,
and you won’t open that door.

À PORTA DO DESENLACE

Não sei quando
Nos separamos,
Como e quando
Nosso amor se esgotou?
Pode ser que
Não deveríamos ter nos encontrado
Desde o começo…
Estávamos realmente inclinados
Ao amor e ao desejo?
Talvez fossemos crianças
Nas mãos do amor.
E essas mãos nos apartaram…
Pode ser…
Talvez eu esteja errada,
Nós mesmos o cultivamos,
Brotamos apenas um para o outro.
E que despedida foi esta,
Qual foi então a separação?
A despedida foi um chá amargo,
Foi como uma desgraça.
À noite, insone,
Tentando adormecer,
E no alvorecer se deu a despedida.
Uma palavra de ternura
Que encontrei num livro que li
Estava plena de tristeza.
O adeus foi pior
Do que a morte tediosa!
Não sei,
Onde estava a porta da despedida?
É como se eu soubesse,
Mas e daí?
De agora em diante,
Jamais voltarei,
E você nunca abrirá essa porta novamente.
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THE WIND

Hey wind,
knocking door to door,
is that one door
you’re looking for,
is that enough for you?
Where are they now,
those open doors
from the hot, sunny days of summer?
Where are those that loved you,
to dine with and to rest;
who once were pleased to welcome you
and treat you as their guest?
Hey wind, knocking door to door,
where are your lovers now?
Now the weather’s turned to winter,
have they turned cold as well?
Don’t knock, my dear, don’t knock,
no one’s opening their door,
no one will look out for you,
nor call on you,no more.
Who, I ask, now the weathers changed,
would call on you at all?
Go dear, go.
Just wander round these dull grey streets
and break dry trees in anger;
just wait as winter turns to summer and your friends,
dear wind, with the sun, will grow again once more.

O VENTO

Ei vento,
Que bate de porta em porta,
É aquela porta
Que está procurando,
É suficiente para você?
Onde estão elas agora,
As portas abertas
Como nos dias quentes e ensolarados de verão?
Onde estão aqueles que o amavam,
Jantaram e descansaram consigo,
E que uma vez tiveram o prazer de recebê-lo
E tratá-lo como seu convidado?
Ei vento, que bate de porta em porta,
Onde estão agora seus amantes?
A estação mudou e inverno é agora,
Eles ficaram frios também?
Não bata, meu querido, não bata,
Ninguém abrirá a porta,
Ninguém cuidará de você,
Nem mesmo chamá-lo mais.
Pergunto eu, agora que a estação mudou,
Quem chamaria por você?
Vá querido, vá.
Perambule por essas ruas cinzentas e monótonas
E com sua raiva derrube as árvores secas;
Apenas espere o inverno se tornar verão e seus amigos,
Querido vento, com o sol, florescerão novamente.
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THE WOMAN

Your life like an ant was away eaten,
There’s not even one day left for you.
You had the weight of the world
on your shoulders like an elephant
But no one really ever appreciated you.
You skimmed off and cleaned up your life,
But you’d relied on hopes, woman!
You just laughed in silence at your grief,
You’d troubled about your joy, woman?!
You’re pinning your hopes on now,
Your land is at the end of its rope.
Woman, maybe we don’t just know:
the land is unwitting, the stone is dark.
The death you walk on the balls of the feet
is your eaten life that waits for you,
It just waits for you in silence as dead.

A MULHER

Sua vida como uma formiga foi devorada,
Não resta nem um só dia para você.
Você teve o peso do mundo
Em seus ombros como a um elefante,
Mas ninguém jamais apreciou seu valor.
Você depurou e saneou sua vida,
Porém confiou em esperanças, mulher!
Em silêncio você apenas ria-se da própria dor,
Preocupada estava com a sua alegria, mulher?!
Você está sujeitando sua confiança no agora,
Sua terra está no fim da fiação.
Mulher, talvez nada saibamos:
A terra é inescrupulosa, a pedra, sombria.
A morte que você traz na ponta dos pés
É a sua devorada vida lhe espreitando,
Ela apenas espera por você em silêncio mortal.
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Francis Kurkievicz é poeta. Lançou pela Editora Patuá, em dezembro de 2020, seu primeiro livro de poemas B869.1 K96. Atualmente reside em Vitória/ES, onde se dedica exclusivamente à poesia.

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