Tishani Doshi, por Shelly Bhoil

Tishani Doshi é uma notável dançarina indiana e autora premiada de seis livros de poesia e ficção. Ganhou o Eric Gregory Award for Poetry, All-India Poetry Competition, Forward Prize for Best First Collection por seu primeiro livro, Countries of the body em 2006. Seu livro de poesia, Girls are coming out of woods, foi indicado para os prêmios Ted Hughes e Firecracker. O primeiro romance da Tishani, The pleasure seekers, foi selecionado para o Hindu Literary Prize, o Orange Prize e o International IMPAC Dublin Literary Award. Seu segundo romance, Small days and nights,, foi selecionado para o Tata Best Fiction Award 2019 e o RSL Ondaatje Prize 2020. Ela é professora visitante de prática, literatura e redação criativa na New York University, Abu Dhabi.

Na tradição tântrica hindu e budista, a ioga chamada Phowa pertence à “transferência do fluxo mental” de um corpo para outro. Traduzindo o espírito dos poemas da Tishani Doshi de uma língua para outra me trouxe mesmo sentimento e com medo da responsabilidade de fazê-lo bom.  A tradução desses poemas não poderia ter feito bem sem discutir as escolhas das palavras com a Celia Tomimatsu e sem a revisão do Guilherme Gontijo Flores. ‘As meninas estão saindo da selva’ é o primeiro poema que traduzi para o português-brasileiro com o objetivo de criar a minha pequena Índia, especialmente aquela com consciência feminina, no Brasil enquanto fixava o português-brasileiro no meu cérebro esquerdo.

Shelly Bhoil

Shelly Bhoil é uma escritora, tradutora e pesquisadora indiana que mora no Brasil.

* * *

Girls are coming out of the woods
for Monika

Girls are coming out of the woods,
wrapped in cloaks and hoods,
carrying iron bars and candles
and a multitude of scars, collected
on acres of premature grass and city
buses, in temples and bars. Girls
are coming out of the woods
with panties tied around their lips,
making such a noise, it’s impossible
to hear. Is the world speaking too?
Is it really asking, What does it mean
to give someone a proper resting? Girls are 
coming out of the woods, lifting 
their broken legs high, leaking secrets
from unfastened thighs, all the lies
whispered by strangers and swimming
coaches, and uncles, especially uncles,
who said spreading would be light
and easy, who put bullets in their chests
and fed their pretty faces to fire,
who sucked the mud clean
        off their ribs, and decorated
their coffins with briar. Girls are coming 
out of the woods, clearing the ground
to scatter their stories. Even those girls
found naked in ditches and wells,
those forgotten in neglected attics,
and buried in river beds like sediments
from a different century. They’ve crawled
their way out from behind curtains
of childhood, the silver-pink weight
of their bodies pushing against water, 
against the sad, feathered tarnish
of remembrance. Girls are coming out
of the woods the way birds arrive
at morning windows—pecking
and humming, until all you can hear
is the smash of their miniscule hearts
against glass, the bright desperation
of sound—bashing, disappearing. 
Girls are coming out of the woods. 
They’re coming. They’re coming.

As meninas estão saindo da selva
para Monika

As meninas estão saindo da selva,
envoltas em mantos e capuzes,
carregando barras de ferro e velas
e multidão de cicatrizes, colhidas
nas acres de grama prematura e dos ônibus
da cidade, nos templos e bares. As meninas
estão saindo da selva
com calcinhas amordaçadas nos lábios,
fazendo um tipo de ruído, é impossível
ouvir. O mundo também está falando?
Está perguntando na verdade, O que significa
dar algum descanso eterno adequado? As meninas estão
saindo da selva, levantando
alto as pernas quebradas, derramando segredos
das coxas abertas, todas mentiras
sussurradas por estranhos e treinadores de
natação, e tios, especialmente tios,
que falaram que abrir seria leve
e fácil, que puseram balas nos peitos
e alimentaram seus rostos bonitos a fogo,
que sugaram a lama limpa pra fora
de suas costelas, e decoraram
seus caixões com sarça. As meninas estão saindo
da selva, limpando o terreno
pra espalhar suas histórias. Mesmo essas meninas
encontradas nuas nos vales e poços,
aquelas esquecidas em sótãos negligenciados,
e enterradas no leito do rio como sedimentos
de um diferente século. Rastejam
seus caminhos através das cortinas
de infância, o peso rosa prateado
dos corpos empurrados contra água,
contra triste, emplumada mancha
da lembrança. As meninas estão saindo
da selva como passarinhos chegam
às janelas da manhã—bicando
e cantarolando, até tudo o que se ouve
é o quebrar dos seus minúsculos corações
contra vidro, o brilho desesperado
de som—batendo, desaparecendo.
As meninas estão saindo da selva.
Estão saindo. Estão saindo.

§

Contract

Dear Reader,
I agree to turn my skin inside out,
to reinvent every lost word, to burnish,
to steal, to do what I must
in order to singe your lungs.

I will forgo happiness 
stab myself repeatedly
and lower my head into countless ovens.

I will fade backwards into the future
and tell you what I see.
If it is bleak, I will lie 
so that you may live
seized with wonder.
If it is miraculous I will 
send messages in your dreams,
and they will flicker 
as a silvered cottage in the woods,     
choked with vines of moonflower.

Don’t kill me, Reader. 
This neck has been working for years
to harden itself against the axe. 
This body, meagre as it is,
has lost so many limbs to wars, so many 
eyes and hearts to romance. But love me,
and I will follow you everywhere –
to the dusty corners of childhood, 
to every downfall and resurrection. 
Till your skin becomes my skin.
Let us be twins, our blood
thumping after each other 
like thunder and lightning. 
And when you put your soft head
down to rest, dear Reader, 
I promise to always be there,
humming in the dungeons 
of your auditory canals—
an immortal mosquito, 
hastening you towards fury,
towards incandescence.

O contrato

Querido Leitor,
concordo em virar a minha pele do avesso,
em reinventar cada palavra perdida, em lustrar,
em roubar, em fazer o que devo
para chamuscar seus pulmões.

Vou renunciar a felicidade,
me esfaquear repetidamente
e baixar a minha cabeça em fornos incontáveis.

Vou esvanecer de trás para ao futuro
e te contar o que vejo
Se for sombrio, vou mentir
para que você possa viver
tomado de admiração.
Se for milagroso, vou
mandar mensagens em teus sonhos,
e eles vão tremeluzir
como uma cabana prateada na mata
sufocada com dama-da-noite.

Não me mate, Leitor.
Este pescoço tem trabalhado por anos
para se endurecer contra o machado.
Este corpo, por franzino que é,
perdeu tantos membros para guerras, tantos
olhos e corações para o romance. Mas me ame,
e vou te seguir em todos os lugares—
para os cantos empoeirados da infância,
para cada ruína e ressurreição.
Até que tua pele se torne minha pele.
Vamos ser gêmeos, nosso sangue
batendo um atrás do outro
como trovão e relâmpago.
E quando você coloca a cabeça macia
para descansar, querido Leitor,
eu prometo estar sempre lá
cantarolando nas masmorras
dos teus canais auditivos—
um mosquito imortal
te apressando para a fúria,
para a incandescência.

(traduções de Shelly Bhoil)

Tishana Doshi lê os dois poemas aqui traduzidos e ainda outros.