XANTO | O mundo mutilado, de Prisca Agustoni ou as línguas partidas. Resenha e desenho, por Ana Cláudia Romano Ribeiro.

O mundo mutilado, livro de poemas de Prisca Augustoni, publicado pela editora Quelônio em 2020, com detalhe de ilustração de Anna Allenbach na capa, tem sete partes: seis delas são compostas por poemas; a última, “como nasceu este livro”, localiza o leitor no tempo, no espaço e nas tragédias que ele recoloca aos nossos olhos e que motivaram o livro:

Entre 2013 e 2017 os jornais europeus relataram cotidianamente a tragédia dos barcos cheios de pessoas fugindo do litoral norte-africano tentando entrar na Europa pelas fronteiras marítimas do Mediterrâneo. As notícias traziam imagens e relatos de muitos barcos afundando e de corpos (a maioria, negros) se avolumando numa lista assustadoramente gigante de mortos, abandonados perto do continente europeu, largados a si mesmos, ou no limbo da “passagem do meio”, isto é, no entre lugar da travessia no mar. Um pesadelo. (2020, p. 117)

O mundo mutilado é, portanto, um livro-testemunho sobre essas migrações, uma resposta possível às milhares de mortes acontecidas nas costas da Grécia e da Itália. Sua autora é uma testemunha que, enquanto cidadã europeia, toma partido do não-esquecimento. Além disso, ela relaciona esse fato histórico a outros tipos de deslocamentos, de épocas e geografias variadas, reverberando acontecimentos que se repetiram e ainda se repetem, em algum grau, em outros momentos históricos e em outras geografias, sob nomes que podem ser tão variados e por vezes cruéis quanto são as configurações que os originam: exílio, expulsão, fuga, expatriação, degredo, banimento, desterro, proscrição, deportação, eliminação, condenação, êxodo, partida, emigração, escapatória, dispersão, debandada, remoção, e uns tanto outros, que evocam uma partida inelutável e uma chegada sobretudo incerta.

De origem suíça, Augustoni, como veremos, também traz para seu livro histórias de migração que concernem a seu país natal e a sua vida de leitora, poeta, escritora e tradutora. A poética de O mundo mutilado nos aproxima de um sujeito enunciador que se percebe como parte de uma sociedade cuja atuação é ora violenta, ora hospitaleira, ora indiferente. Isso, por um lado, amplifica o pensamento poético e político expresso no projeto do livro e, por outro, nos sensibiliza enquanto leitores, afinal, o que acontece no mundo nos concerne, sobretudo em um mundo globalizado em que tudo se conecta: “Somos uma espécie que migra”, p. 34; “Aqui estamos,/ os viventes,/ porque migramos/ no passado/ e assim por diante/ até o presente”, p. 36.
Talvez essa força de espalhamento metafórico de Mundo mutilado deva-se ao “olhar estrábico” (retomando a expressão de Herta Müller citada por Prisca Augustoni) que percebemos nos poemas, ou seja, ao ponto de vista plural da autora, de cuja vida fazem parte várias línguas: ela proferiu suas primeiras palavras em dialeto, estudou em italiano, fez sua formação universitária em língua francesa, período em que se dedicou à literatura escrita em língua espanhola e está radicada no Brasil há muitos anos. Somam-se ainda a esse rico conjunto de línguas e culturas, que a habitam de muitas formas, o inglês, o alemão e o coreano. Essa presença multicultural, perceptível no texto de Augustoni, é marcada por deslocamentos e desnaturalizações, pela necessidade da renomeação, pelas migrações de uma língua a outra, também apreendidas nas referências explícitas e implícitas a fatos históricos, lugares, obras, escritores, poetas e artistas de diferentes culturas ao longo do livro.

A epígrafe de Carlos Drummond de Andrade, “Sempre dentro de mim meu inimigo”, verso do poema “O enterrado vivo”, abre a primeira parte do livro, “A fera” e se junta à alusão ao poema “A flor e a náusea”, na p. 18, sugerindo um sentimento de acuação que se confirma a cada poema. O leitor é levado ao início, “na enseada do medo” (p. 9), lugar de partida e lugar de chegada, onde humanos atracam e anti-humanos “fincam um medo de enxerto,/ suas raízes como facas/ em corpo árido” (p. 10). Está colocado o tema norteador do livro.
A figura da travessia está no barqueiro Caronte, citado explicitamente. Na mitologia grega, ele leva os falecidos ao mundo dos mortos, mas aqui ele “expulsou a máquina/ do mundo pra fora/ do caule da existência/ mais dilacerada”. Há também evocação à travessia quando são citados alguns nomes de poetas perseguidos pelos regimes políticos de suas sociedades, que deitam suas sombras sobre o poema: Maiakóvski (na juventude, atormentado pelos anti-revolucionários, na maturidade, pelos burocratas do novo regime), Dante (expulso de Florença, sua cidade, por seus inimigos políticos), Mandelstam (enviado para um campo de prisioneiros stalinista na Sibéria), e Brecht (aqui evocadas algumas das cidades onde exilou-se, Praga, capital da então Checoslováquia, Svendborg, na Dinamarca, e Lidingö, na ilha homônima na Suécia, “itinerário de uma queda/ infinita rumo ao norte”, p. 20). Corpo e língua ressentem-se face à violência do desenraizamento, em agonia e gagueira.

O texto sugere outros cotejos. Impossível não aproximar os refugiados às muitas etnias de indígenas brasileiros reiteradamente expulsas de suas terras nos últimos mais de cinco séculos quando lemos: “Sim, ainda somos as flechas/ de um arco em riste,/ temos a floresta circulando/ na aorta, essa fúria herdada/ dos dóceis” (p. 14). Mas logo retornamos à Europa, a seus lugares de passagem – Paris e Calais – ao “continente/ com seu extenso perímetro/ de alpes e mortos” (p. 16), ao campo de extermínio de Treblinka, à Chernobyl contaminada e à dura imagem da criança que expulsa de si a infância. Todas essas imagens e esses lugares citados explicitamente marcam a primeira parte do livro, que termina com uma alusão a “A revolução dos viadutos”, de 1937, tela de Paul Klee, artista suíço, reforçando-se assim o contingente de referências às guerras europeias do século XX e à ameaça dos totalitarismos. Os arcos que avançam “como pés” (p. 21) se sobrepõem à imagem dos pés dos refugiados que avançam, da “vida nas frestas” (p. 21), celebrada pelo pintor, pela autora, pelo leitor, pelos que sobrevivem.
“Gente que parte”, a segunda parte, abre com a epígrafe de onde é tirado o título do livro: “Viste os refugiados que caminhavam/ para lugar nenhum, ouviste os carrascos/ que cantavam com alegria./ Tenta louvar o mundo mutilado”, versos do poema Adam Zagajewski, poeta, ensaísta e tradutor polaco, na tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk. Na edição do poema que li (publicada no blog da enfermaria6), o último verso dessa sequência começa com “deves”. Esse verbo é repetido três vezes no poema, variando apenas o verbo inicial: “Tenta louvar o mundo mutilado”/ “Tens de louvar o mundo mutilado” e “Deves louvar o mundo mutilado”. Essa repetição me parece apontar para a tensão e a progressão que vai de “tentar”, “ter de” a “dever” louvar o mundo mutilado, tensão evocada por Augustoni quando troca “deves” (o terceiro passo, a obrigação ética do dever) por “tenta”, o primeiro passo, que evoca a dificuldade ou até mesmo a impossibilidade de representar situações-limite como as de violência extrema.

O texto sugere outros cotejos. Impossível não aproximar os refugiados às muitas etnias de indígenas brasileiros reiteradamente expulsas de suas terras nos últimos mais de cinco séculos quando lemos: “Sim, ainda somos as flechas/ de um arco em riste,/ temos a floresta circulando/ na aorta, essa fúria herdada/ dos dóceis” (p. 14). Mas logo retornamos à Europa, a seus lugares de passagem – Paris e Calais – ao “continente/ com seu extenso perímetro/ de alpes e mortos” (p. 16), ao campo de extermínio de Treblinka, à Chernobyl contaminada e à dura imagem da criança que expulsa de si a infância. Todas essas imagens e esses lugares citados explicitamente marcam a primeira parte do livro, que termina com uma alusão a “A revolução dos viadutos”, de 1937, tela de Paul Klee, artista suíço, reforçando-se assim o contingente de referências às guerras europeias do século XX e à ameaça dos totalitarismos. Os arcos que avançam “como pés” (p. 21) se sobrepõem à imagem dos pés dos refugiados que avançam, da “vida nas frestas” (p. 21), celebrada pelo pintor, pela autora, pelo leitor, pelos que sobrevivem.
“Gente que parte”, a segunda parte, abre com a epígrafe de onde é tirado o título do livro: “Viste os refugiados que caminhavam/ para lugar nenhum, ouviste os carrascos/ que cantavam com alegria./ Tenta louvar o mundo mutilado”, versos do poema Adam Zagajewski, poeta, ensaísta e tradutor polaco, na tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk. Na edição do poema que li (publicada no blog da enfermaria6), o último verso dessa sequência começa com “deves”. Esse verbo é repetido três vezes no poema, variando apenas o verbo inicial: “Tenta louvar o mundo mutilado”/ “Tens de louvar o mundo mutilado” e “Deves louvar o mundo mutilado”. Essa repetição me parece apontar para a tensão e a progressão que vai de “tentar”, “ter de” a “dever” louvar o mundo mutilado, tensão evocada por Augustoni quando troca “deves” (o terceiro passo, a obrigação ética do dever) por “tenta”, o primeiro passo, que evoca a dificuldade ou até mesmo a impossibilidade de representar situações-limite como as de violência extrema.
Há muitas menções a locais específicos, que foram ou são campos de refugiados. Primeiramente Idomeni. Essa aldeia grega marcada pelos campos onde se aglomeram refugiados do Oriente Médio buscando entrar em países europeus pela vizinha Macedônia convoca “outros espectros/ o rosto dos caídos/ deitados na memória” (p. 26), que “alisam as dobras de um passado/ que desbota no presente” (p. 27).
Mais adiante, o leitor é levado aos campos de refugiados de Vrazhdebna (na Bulgária), Salonikko (ou Tessalonica, na Grécia) e a Frankfurt am Mein, nome de cidade alemã, mas, sobretudo, nome do navio militar alemão de grande porte que, em 2016, navegava no mar Mediterrâneo, participando da operação naval europeia “Sofia” destinada a travar a migração ilegal, capturar passadores e resgatar refugiados náufragos.
Em seguida, O mundo mutilado figura o campo de Vucjak, na Bósnia e Herzegovina, próximo da Croácia, por onde refugiados tentavam passar para chegar aos países mais ricos da União Européia. Vucjak ficava num aterro de lixo, sem água nem eletricidade, foi classificado como desumano pela ONU e finalmente fechado em 2019 por falta de condições mínimas para a sobrevivência humana. Em meio a tanta tristeza, em meio à náusea da desesperança, “uma flor, pelo menos,/ pelo menos uma flor/ aberta/ apesar da fome/ – aquela que nos sobrevive/ e demora” (p. 32), e estranhos frutos, pareados com os do poema do compositor judeu Abel Meeropol contra os linchamentos de homens negros nos Estados Unidos, Strange fruit, cuja versão mais famosa foi cantada por Billie Holiday.

Somos frutos estranhos
presos aos galhos
de uma árvore
que nos repudia

não há refúgio possível
em quintal proscrito

só essa suspensão
esse arame farpado
uma revolta explosiva
ainda que tardia

dentro de nós
é onde macera
o açúcar
o licor
da colheita (p. 30)

A terceira parte do livro, “Antilíngua” é dominada pela questão ambígua da língua estrangeira como nova casa. Ela traz em seu início, em seu meio e em seu fim referências a duas autoras e a um autor que lidaram com a violência da perseguição e com o uso da língua do perseguidor de diferentes formas (e que moraram ou moram na Suiça). Lemos em epígrafe um verso de Mariella Mehr, poeta que Augustoni tem traduzido, nascida na Suíça, residente na Itália e pertencente à etnia Jenisch de ciganos nômades, violentamente perseguida pelo Estado Suíço: “Às vezes canta-me o lobo no sangue/ então eu me aqueço/ numa língua estrangeira.” Na sessão Arcas de Babel da revista Cult, publicada online em 30 de novembro de 2020, Augustoni apresenta algumas de suas traduções de poemas de Mariella Mehr e fornece alguns dados acerca da perseguição de que os Jenisch foram alvo:

Foram entre 600 e 2000 crianças ciganas que de 1926 até 1973 foram subtraídas às próprias mães (que eram esterilizadas) e levadas para institutos, onde recebiam outros nomes para evitar que as famílias pudessem encontrá-las – e depois atribuídas a famílias de camponeses. Mariella Mehr foi vítima dessa violência quando criança e sucessivamente como mãe, quando aos 18 anos teve o seu próprio filho retirado. (2020b, s.n.)

Usama Al Shahmani, nascido em Bagdá, perseguido pelo regime de Saddam Hussein, foge de seu país em 2002 e encontra asilo na Suíça. Autor do romance In des Fremde sprechen die Bäume arabish (“Na terra estrangeira, as árvores falam árabe”, Zurique, Limmat Verlag, 2018, vencedor do prêmio Terra Nova), ele é citado (não nominalmente) na página 56 de Mundo mutilado e amplifica as figurações já citadas em um poema nas páginas anteriores, dedicado a Francesca Cricelli (autora que nasceu no Brasil, cresceu na Itália e na Malásia e atualmente mora na Islândia): a fala que desaba e implode, o signo que é barco, as palavras-rebanho, as línguas que rangem, atritam, se lambem, a lei que parte o nome em dois: “Em cada fruto/ a germinação de um estranho dicionário” (p. 56).
O último poema desta parte termina com a equivalência da língua estrangeira como “língua inimiga”. Seu título, “cette langue qui tue ma langue maternelle”, é um verso da escritora húngara de expressão francesa Agota Kristof que, aos 21 anos, refugiou-se na Suíça para escapar à perseguição soviética. Em entrevista a Carola Saavedra, publicada online na edição 253 do jornal Rascunho em maio de 2021, Augustoni explica o quanto Kristof lhe é cara por mobilizar reflexões sobre o estranhamento diante de uma nova língua, que acaba por “rasurar a lembrança e o uso do húngaro, sua língua materna”. Ouço um pouco dessas reflexões transfiguradas em forma de poema:

A língua inimiga entra
pelos ouvidos e escorre
até a aorta

ali espera

um cão que sabe
o estranho à espreita atrás da porta

nessa língua feita cão
que ladra
e rói o osso
da língua morta (p. 58)

“Memória do inferno” começa com a epígrafe: “Ne pas désespérer des lucioles” (“Não desesperar-se com os vaga-lumes”), do poema Vertu des lucioles de Aimé Césaire, poeta martiniquense que elaborou o conceito de negritude, foi um grande crítico do colonialismo e dedicou-se à carreira política (foi prefeito de Fort-de-France, deputado e fundador de um partido que defendia o socialismo). Césaire foi ainda o redator da lei que garantiu a ex-colônias ultramarinas francesas o estatuto de departamentos franceses de além-mar. Seu verso em epígrafe nos leva aos vaga-lumes recentemente evocados por outro autor martiniquense, Patrick Chamoiseau, que, em 2017, publicou seu Frères migrants, livro-irmão de Mundo mutilado, pois que trata da situação dos imigrantes e refugiados entre 2015 e 2016. Os vaga-lumes de Césaire e de Chamoiseau nos conduzem, por sua vez, ao célebre “ensaio dos vaga-lumes”, de Pier Paolo Pasolini. Publicado antes de seu assassinato, nos anos 1970, esse ensaio trata do fato concreto e metafórico do desaparecimento dos vagalumes na Itália em consequência da marcha predatória de uma política regida pelas leis do mercado e do lucro. Essa política, que Pasolini analisa e denuncia, destrói os recursos naturais, acelera um desequilibrado processo de urbanização e faz parte de uma ampla tendência de coisificação do ser humano. Outros autores retomarão a força concreta e simbólica dos vaga-lumes do ensaio de Pasolini – é o caso de Georges Didi-Huberman, em Sobrevivência dos vaga-lumes (2009).

A epígrafe, portanto, leva o leitor à crítica da conjuntura dessas migrações dentro do esquema do capitalismo global (esse “mundo novo/ que veste/ sem estigmas/ seus velhos disfarces”, p. 65), que perpassa os poemas dessa parte com uma veemência particular. É significativo que ela comece com “aqueles barcos que saem do nada/ até parece que sem razão nenhuma” (p. 63), “os fatos, números/ os números, declinações/ de corpos sempre no plural/ como se não houvesse pessoas/ dentro desses números/ dentro desses corpos/ dentro desses barcos/ dentro desses mortos/ […] só o lucro/ bruto dos bancos/ e o escorbuto/ que voltou com tudo” (p. 83-64), e termine com uma série de três “Diálogos” com três autores provenientes de ex-colônias: Dany Laferrière, haitiano radicado no Canadá, o brasileiro juiz-forano Edimilson de Almeida Pereira, e Patrick Chamoiseau, martiniquense, como já foi dito. O poema em diálogo com o autor de Frères migrants alude a Édouard Glissant: “trata-se de uma poética/ que é também uma política/ da relação […] a migração como aranha/ que tece e destece/ a teia invisível/ e precária/ de um mapa” (p. 85).
Creio ter ficado evidente o quanto O mundo mutilado, desde seu início, convoca vozes migrantes de vários tipos para dialogar com o leitor, com os fatos, e para fazê-los dialogarem entre si. Há pessoas nomeadas ou cuja presença é sugerida, há autores de obras, contemporâneas nossas, há pessoas e grupos já mortos, de outros tempos. Nesta quarta parte do livro, conversamos com o cadáver de Boris Y., “músico, migrante curdo morto em Lesbos em 27.04.2017” abraçado a seu violino: Ninguém nunca saberá que “rios e montanhas, paisagens/ muitas ele carrega no canto/ afiado do instrumento” (p. 72). Conversamos ainda com os escravizados das nações africanas do Cassange e do Monjolo, cujos netos “procuram/ uma terra chamada França” (p. 74) e com Akbar, que atravessa o deserto de Sahara – mar sem água – e caminha até chegar em Sebha, cidade da Líbia situada em um oásis.

O diálogo, cada vez mais amplificado, continua na quinta parte do livro, “Rosa dos ventos”, cuja epígrafe é da poeta estadunidense Sylvia Plath: “We wanted to see the sun come up/ And are met, instead, by this iceribbed ship” (“Queríamos ver o sol nascer/ E, ao invés disso, encontrou-nos este navio gelado”, tradução minha). Ou seja, já no título e na epígrafe desta parte topamos com a noção de desencontro: a rosa dos ventos, esquema tão usado na navegação de todos os tempos, localiza os pontos cardeais e seus intermediários; os versos de Plath apontam para a dor das expectativas frustradas. Essa noção se faz presente desde os primeiros versos desta seção, que iniciam com a figuração da rosa dos ventos como “flor agreste/ que brota e resiste no barco” (p. 89) e de corpos submersos, mortos: “debaixo d’água/ o corpo ondula leve/ é de lã o cabelo/ e de maçapão os ossos/ devorados pelas algas” (p. 90). Apenas os nomes “não afundam,/ flutuam, /nódoas de óleo escuro/ alastrando-se na superfície” (p. 90-91), fundando uma “cidade submersa” (p. 93). Alguns versos depois, faz par com a morte a memória, que traz a lume uma “vila subterrânea” “enquanto cava lenta/ e deseterra o pai, o avô, o irmão/ o tio que veio da cidade vermelha” (p. 96).
“A noite é uma casca aberta/ em Lampedusa” (p. 92). Nesse verso, mais um topônimo marcado pelas trágicas consequências da imigração ilegal ancora o leitor na história: a menção à ilha italiana que se situa no Mediterrâneo, a meio caminho da África e da Europa e, por isso, um destino muito visado pelos barcos que carregam migrantes desejosos de entrar em países europeus. Ou se chega ou se morre, e se a chegada é bem sucedida, ela parece ser o inicio de um futuro incerto, numa língua desconhecida que será também uma língua nova – “on ne parle pas ligali” (p. 94), “não se fala lingala” (língua bantu que serve de língua franca na República Democrática do Congo, também falada na República do Congo, em Angola e na República Centro-Africana).
É a essa chegada e a essa língua nova que somos levados “Novo ensaio sobre a chegada”, uma espécie de coda. Aqui é citada Ventimiglia, cidade italiana que faz fronteira com a França, outro lugar por onde tentam passar muitos migrantes, viajando de trem ou até mesmo a pé, às escondidas, por uma estrada montanhosa. No poema final, que termina com uma imagem duríssima que deixo para o leitor descobrir, um enunciador em primeira pessoa olha “todo dia pela mesma janela/ e o mesmo lago me entrega/ uma paisagem cada vez mais distante/ […] Do outro lado da cortina/ há o redemoinho da história/ sabe-lo é aceitar/ o veredito da insônia” (p. 112).

Ilustração de Ana Cláudia Romano Ribeiro