Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (VI): Casa de Gigante


Fotografia: Raquel Caetano Lopes @vivertodososdiascansa

“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].
Parte II: “Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira” [março 2021].
Parte III: “Poesia Expandida. Fernando Aguiar, Teresa M. G. Jardim, Ricardo Tiago Moura, Alexandre Francisco Diaphra e Marta Bernardes” [maio 2021].
Parte IV: “Volta para Tua Terra (Urutau 2021)” [junho 2021].
Parte V: “Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa” [agosto 2021].




A Casa

A Casa de Gigante, projeto integrado na Associação Cultural Mandriões no Vale Fértil, é gerida pelo poeta português Miguel-Manso e acolhe a R.E.Fazenda, uma residência de escrita para poetas portuguesas(es) e de outras nacionalidades que, durante julho, viajam até Vale do Pereiro (Castelo Branco, Portugal). Com apenas duas edições, entre 2019 e 2020, a R.E.Fazenda já acolheu nomes como Margarida Vale de Gato, Angélica Freitas, Mariano Marovatto, Inês Francisco Jacob, Andreia C. Faria, Mariano Alejandro Ribeiro, André Tecedeiro ou Sónia Balacó.

Além disso, a Casa recebe, a par deste evento anual, poetas, escritoras(es), músicas(os) e artistas durante o resto dos meses e ocupa, no contexto literário português, um espaço singular ao contrariar, pelo propósito coletivo e dialogante com que se apresenta, o individualismo e a solidão tradicionalmente associadas ao processo de escrita. A dimensão coletiva em que a iniciativa assenta parece também não poder desconetar-se da relação da poesia com as outras artes que define os perfis de algumas e alguns convidadas(os), o que, por sua vez, vai de encontro à obrigação monodisciplinar que assombra ainda o ofício da(o) poeta em Portugal.

As atividades da Casa podem ser acompanhadas na sua página Instagram.





Conversa entre Miguel-Manso e Patrícia Lino + depoimentos de Margarida Vale de Gato, Mariano Marovatto e Inês Francisco Jacob

Patrícia Lino: Começo pelos nomes. Casa de Gigante e R.E.FAZENDA. Como chegaram até eles? 

Miguel-Manso: Gigante é uma alcunha/ apelido de família e que vem do tempo das invasões francesas. Assim eram chamados aqueles que ergueram esta casa, no princípio do século XX. Sabe-se que não eram pessoas de grande estatura física, pelo que depreendemos que os alcunhados foram deixando de estar à altura do próprio epíteto e aos descendentes, a quem o edifício chegou, ocorreu-lhes recuperar o nome, iludindo também eles a própria falta de tamanho.

R.E.FAZENDA acomoda o título de uma canção do Gilberto Gil à função de nomear uma residência de escrita que acontece longe dos centros urbanos. Para esta residência temos convidado autoras e autores de poesia (lato sensu) a vir escrever – e não-escrever – para cá. Mais que a pertinência do convite, a localização da casa torna a coisa mais ou menos irrecusável.

PL: A R.E.FAZENDA teve, até à data, duas edições. Trata-se de um projeto recente e, por isso mesmo, imagino que vá mudando consideravelmente de edição para edição. Poderias descrever em detalhe estas duas primeiras edições?

MM: Este projecto de residências de escrita, pensado para poetas, partiu, em primeiro lugar, da necessidade pessoal de quem dirige a associação de não perder o contacto físico e afectivo com aquel_s que, como ele, estão a escrever poemas agora. Sobretudo depois de ter abandonado há muito o círculo onde esses encontros acontecem com maior frequência. A ideia, contudo, nunca foi a de convidar apenas _s amig_s mas sobretudo aquelas e aqueles com quem menos se relaciona, quer seja por simples desencontro no caminho ou porque estas e estes vieram a publicar anos depois formando, pela diferença de idades, senão uma nova geração, pelo menos uma fornada mais recente.

Porém, suprido esse primeiro impulso egoísta, depressa a coisa vem tomando caminhos mais estimulantes e promissores. Partiu-se da ideia simples de chamar 4 poetas para habitarem a Casa durante 4 a 5 dias a cada Julho. Sem lhes impor qualquer plano rígido de trabalho mas com tarefas a serem cumpridas em conjunto, desde cozinhar, nadar, apanhar abacates, caminhar na floresta, ler, conversar. Assim foi o encontro de 2020, já em plena pandemia – mas numa altura em que nos pareceu possível realizá-lo, ponderada a realidade que à data se vivia. Terminada a residência, os poemas foram chegando por correio electrónico sendo, em geral, impressões dos dias vividos aqui e da paisagem local. Estiveram presentes o André Tecedeiro, a Andreia C. Faria, a Margarida Vale de Gato e o Mariano Alejandro Ribeiro. Aproveitámos também, servindo-nos de ignição, o poema que a poeta indiana Sampurna Chattarji escreveu (e a Margarida traduziu) sobre a Casa, aquando de uma sua visita uns tempos antes.  

No encontro deste ano decidiu-se ir um pouco mais longe. Não só mantivemos a residência física (a vacinação global em curso aliviou em muito a pressão) como beneficiámos igualmente do que se aprendeu e incorporou durante os vários confinamentos: a banalização da videoconferência; neste caso quisemos chamar-lhe A Videoconferência dos Pássaros. Aproveitou-se essa possibilidade e vieram juntar-se ao encontro três poetas que não vivem perto. Assim, na Casa, tivemos a Inês Francisco Jacob, o Pedro Barateiro (substituindo o António Poppe, que não pôde vir) e a Sónia Balacó. Na tela, internacionalizando a residência, contámos com a Angélica Freitas, em Berlim, o Mariano Marovatto, no Rio de Janeiro e, desde Los Angeles, Califórnia, a poeta que me faz estas perguntas.

A chamada do Pedro, cujo trabalho se insere no domínio das artes plásticas ou visuais responde a uma necessidade, entretanto adquirida, de questionar a ideia logocêntrica de poema. O Pedro não veio, pois, colorir, ilustrar ou complementar coisa nenhuma. Convidámo-lo como poeta e como poeta pedimos-lhe que fizesse o que já faz. Mais à frente podemos convidar, partindo de premissa semelhante, bailarin_s, músic_s, cineastas, etc. Ao contrário do que aconteceu no primeiro encontro, desta vez os poetas decidiram pensar numa forma de trabalhar balizados por uma ideia surgida e construída em conjunto. O resultado destas e das próximas residências será publicado pela própria associação através daquele que será o seu futuro departamento editorial, a Gigante, pequenas edições.     



PL: A colaboração ou o princípio da coletividade está na base de um projeto como a R.E.FAZENDA e isto vai, obviamente, de encontro ao individualismo que circunda o perfil e o ofício tradicionais da(o) poeta. A própria ideia de intermedialidade que define os trabalhos de muitas(os) as(os) que participaram, sobretudo, na segunda edição também põe em causa a monodisciplinaridade do que é produzido, em termos gerais, em Portugal. Não há, na verdade, e a longo prazo, como separar as duas.

MM: Não apenas a residência de escrita mas todo o projecto associativo quer guiar-se por esse princípio de colaboração e diversidade. É importante ir derrubando as pequenas edificações egoístas (a começar pelas próprias) e no seu lugar ver instalar-se um sistema colaborativo, de aprendizagem e fazeres concordantes e discordantes. Com estes encontros e com o que possa surgir deles não nos interessa eternizar a figura do poeta ensimesmado, fechado sobre a página em que escreve. Parece-nos muito mais interessante colocar pessoas em contacto, mesmo (ou sobretudo) que não pertençam ao mesmo grupo estético ou cujo trabalho não imaginaríamos agrupável.

 

a casa: radiante e ordeira de um lado do outro o acaso empedrado o reboco um soluço num hiato um poço a que saberás não resistir em nome da subsequente transformação.

o projeto: sentinela para re-clamar o cultivo extensivo na província, mediante empenho do feitor e de um bando de mutualistas aka mandriões aka grupo heteróclito de curtidos flibusteiros para fazer t-shirts, filmes, taberna, edição e manufatura, massa eco-crítica, trabalhos de reconstrução, pintura e fotografia, entre outros, ramificando-se em:

gigante (peq. edições): intervenções de pormenor cirúrgico para alargar o campo a/e quem o trabalha;

residências espontâneas: por exemplo, uma cravista a “atirar Bach a Paredes” numa escola desativada de um lugar entre a floresta e o risco de incêndio;

re-fazenda: alambique de vasos comunicantes de poesia a ocupar o espaço e as vastas margens do que cresce no interior e se abre em comum, do que se mostra aos vizinhos e do que não, dos que imaginam paisagens e dos que vão entre outros.

MARGARIDA VALE DE GATO


PL: Como descreverias o processo destes encontros, no caso dos pássaros, e do convívio diário e quase permanente entre as(os) que ocupam fisicamente a casa?

MM: São processos diferentes. Com os poetas hospedados na casa as tarefas acabam por viver da espontaneidade e do descomprometimento, ninguém se obriga a nada. Essa é a forma que eu julgo ser a melhor, tendo em conta o pouco tempo de residência e o contexto estival em que ela se faz. Já com a “conferência dos pássaros” sente-se a necessidade de ter estabelecidas algumas diretrizes que justifiquem o aparato. A convergência dessas duas realidades parece-me ser o mais desafiante.

PL: E apesar dessa liberdade, as(os) envolvidas(os) na residência assumem o compromisso de escrever segundo um tema ou projeto coletivo como aconteceu, respetivamente, na primeira e segunda edições.

MM: Na primeira edição, não havendo tema previamente imposto ou acordado, o que aconteceu foi que os textos que foram chegando davam em geral notícia da própria experiência na Casa durante aqueles dias: descrições transfiguradas da sua arquitectura, a relação dos bardos com os bichos, com esta paisagem e circunstância. Guardamos esses poemas com muita vontade de os editar. Mas não assim, desacompanhados. Esperaremos o fruto de mais edições e, juntamente com o registo fotográfico que as acompanha (as fotografias da Raquel Caetano Lopes – @vivertodososdiascansa – que esteve e estará sempre presente) havemos de ir publicando estes trabalhos.

Na mais recente edição, os encontros online serviram para urdir a ideia, aí sim, de um projecto colectivo que está em curso (há sempre vida depois destes encontros) e sobre o qual pouco interessará revelar, sob pena de interferir com a surpresa e a própria natureza reservada do intento. Veremos o que surgirá.

 

Não há nada lá, mas é o melhor nada que há, é o que repito sobre a Sertã. Estive por lá algumas vezes, na Casa de Gigante, inclusive antes do Gigante tornar-se o grão diretor e mascote da casa. Nadei naquela ribeira no meio da estrada espiralada, nadei também no meio dos fartos montes de eucaliptos (antes e depois das terríveis queimadas), dei de comer às galinhas (que Nossa Senhora de Fátimas as tenha), li em voz alta e também escrevi poemas, senti muito calor e também muito frio, compus uma trilha sonora inteira (que também desapareceu, como as galinhas) e até comi feijoada brasileira na Casa de Gigante. Meu amigo Miguel Manso esteve sempre por lá para nos receber a todos. Este ano, porém, foi a primeira vez que visitei a Sertã pelo ecrã/tela do computador. Como sabemos, tudo hoje é feito pela tela do computador, principalmente se você é um trabalhador das artes. E também todos nós já temos muita fadiga dos ecrãs/telas e fadiga de falar sobre a fadiga dessa mediação com o outro através de ecrãs/telas. Mas, o final de semana na Casa de Gigante, participando da segunda edição da residência de escrita R.E.FAZENDA, sinceramente, foi diferente de todas as experiências mediadas pelo ecrã/tela desde o início da pandemia. A Teleconferência dos Pássaros foi extremamente inventiva e estimulante. Retomei os tempos da infância no recreio da escola, a inventar uma brincadeira inédita, ou ainda, experimentando personagens impossíveis nos exercícios instantâneos de improvisação teatral, fonte de criação e prazer na adolescência. Mesmo cada um no seu quadradinho pixelado pelo Zoom, carregando nas costas um fuso-horário distinto do globo terrestre, conseguimos com alegria, reunidos pela antena parabólica da Casa de Gigante, criar uma língua, um grupo, um jogo em comum. Em tempos tão desacompanhados, de imediato, e traumáticos, a longo prazo, estabelecemos os rastilhos de toda literatura ao sentarmos diante dos outros: ouvir as histórias para criar as fantasias e torná-las historias. E assim sucessivamente.

MARIANO MAROVATTO


PL: Além de assentarem tanto no perfil intermedial de algumas e alguns e partirem de uma ideia de criação coletiva, há também, já que as(os) poetas se juntam, um propósito ou background político nestes encontros?

MM: Seria político (mas tristemente) mesmo se não houvesse propósito político algum. Nisso julgamos não estar iludidos. O que queremos é que todo o projecto associativo – e não só estas residências – participe dos debates progressistas, ainda muito silenciados num país como Portugal, sobretudo fora da bolha urbana, mas também aí. Através de uma aprendizagem e prática partilhadas – ouvindo, sintonizando as minorias (ou “as maiorias minorizadas”), e colocando a tónica na diversidade e na sua representatividade – a nossa posição é a de buscar o desconforto de quem descobre o tamanho do próprio privilégio e se coloca, aceitando-o, no deslocamento. Assumir o “risco do deslocamento”, como explica Linn da Quebrada num debate recente. 

PL: Este propósito político estende-se também à Casa como um todo, inclusive às outras atividades que, para além da R.E.Fazenda, acontecem no espaço durante o resto do ano. A última residência foi, por exemplo, a da cravista Joana Bagulho. 

MM: Esta associação cultural está sedeada na zona mais envelhecida da Europa. Julgamos decisivo que se ocupem estes espaços desertificados e neles se façam duas coisas: 1) não deixar que se perca (para que possa continuar a ser mexido e transformado) um conjunto de saberes e de memórias colectivas relacionados com as gentes e as paisagens (físicas e incorpóreas); 2) proporcionar um contacto permanente e continuado com algo que confronte certos ideários populistas e neofascistas que grassam, sem nenhuma graça e com bastante força, por territórios onde a massa crítica empobreceu. Dizer isto, desta forma, poderá parecer arrogante, prepotente até, mas diante de que se nos afigura não nos sobra muito tempo para a prática da falsa modéstia. A Joana veio tocar Carlos Paredes (1925-2004), um músico popular, comunista de velha cepa, e cujo repertório ela tem vindo a transcrever para o seu instrumento. Liturgias à parte, há quantos séculos não soava um cravo por estas paragens?

PL: E, dentro desse movimento intelectual e comunitário de resistência, que projetos acolherá a Casa nos próximos tempos?

MM: Ainda que a associação tenha já seis anos de existência, a sua acção e integração tem sido até aqui preguiçosa. Temos, durante este tempo, colaborado em parcerias com agentes locais e recebido artistas em contexto de residência de trabalho. Isso prosseguirá. Mais recentemente decidimos assumir o projecto com outro empenho e dedicação. Além do trabalho contínuo naquilo que é a melhoria dos espaços físicos do edifício e a sua adaptação às necessidades da associação (a casa é antiga e de tamanho considerável, é um esforço diário salvá-la da ruína) há também um trabalho importante de integração do projecto numa rede de outros colectivos semelhantes a nível local, nacional e internacional. E a busca de financiamento para o que queremos fazer. A criação de uma editora ocupar-nos-á nos próximos meses, ainda que façamos já no dia 18 de Setembro, no encontro Poesia, Um Dia, em Vila Velha de Ródão, uma primeira apresentação pública – e platónica – do que pretendemos ser enquanto editores. No mesmo festival de poesia será apresentando o primeiro filme produzido pela associação: a longa-metragem documental Passagem dos Elefantes, de João e Miguel Manso, com António Poppe e Bárbara Assis Pacheco. O mais será música, que confirmamos ser uma maneira privilegiada de estreitar laços com a comunidade, organizando pequenos recitais com músicos e instrumentos menos óbvios, como foi com o cravo e será em breve com outros.

   

Há casas que surgem à nossa frente como se fossem pessoas. Falam connosco, escutam-nos, beliscam-nos quando assim tem de ser, respiram a nosso lado, alteram a nossa visão sobre as paredes e para lá delas. Estive na R.E.FAZENDA como se estivesse em minha casa, sem filtros, sem receio do absurdo, sem limites para os ecos e as ideias frescas.
Devido aos oceanos, às fronteiras inventadas, a este atrevido vírus, partilhei o momento ao vivo com o Miguel, a Sónia e a Raquel, mas quebrámos essas barreiras quando cruzámos vozes e sotaques e chegámos às palavras da Patrícia, da Angélica, do Pedro e do Mariano.

Respirámos, nesse curto espaço, nesse curto tempo, como uma pequena irmandade, firme e convicta, e escolhemos a demanda de não cruzar os braços. O jet-lag informal dos grandes abismos, que nos viram do avesso, tem muito que se lhe diga. Sair da Sertã não se tornou real quando apanhei o comboio para Lisboa. Demorou mais. Ainda estou a sair de lá. Gritar, mesmo que em sussurro, já é gritar. E agora é preciso ir e é preciso voltar.

INÊS FRANCISCO JACOB