“A mazela do mundo”: Ilessi compositora

Dama de Espadas - Album by Ilessi | Spotify

Ilessi é, sem sombra de dúvidas, a cantora mais poderosa da geração, junto com Juçara Marçal. Dito o ponto central, vamos às novidades; no caso, o disco novo que acabou de lançar pela Rocinante agora em outubro: Dama de espadas. Em sua trajetória de mais de vinte anos de carreira ela contava com apenas três álbuns gravados, Brigador – Ilessi canta Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro, de 2009, Mundo afora – Meada, de 2018 depois de um longo intervalo de nove anos, e Com os pés no futuro – Ilessi e Diogo Sili interpretam Manduka, de 2020, no começo deste ano. Nos três casos, Ilessi interpretava canções alheias(dois dos álbuns eram dedicados especificamente a compositores, Pedro Amorim & Paulo César Pinheiro em um, Manduka no outro). Já este quarto álbum é o primeiro momento em que ela partilha seu trabalho renomado de intérprete com suas próprias composições, para mostrar que tem vigor também na criação de canções.

Seria o caso de um dia conversarmos a sério sobre a tendência da canção brasileira em separar o espaço masculino para a composição e o feminino para a interpretação, salvo casos raros e fortíssimos, tais como Dolores Duran, Maysa, Chiquinha Gonzaga, Marina Lima, Adriana Calcanhotto e outras. Seria mesmo o caso de revermos essa cisão que tende a privilegiar o abstrato mental para o masculino e o corpóreo irracional para o feminino (um assunto debatido sob o viés filosófico pela italiana Adriana Cavarero em Vozes plurais, por exemplo), porque tivemos e temos compositoras de mão cheia, uma tradição na qual Ilessi agora se insere sem nada a dever, mas isso demandaria muito mais espaço, então sigo para o disco.

Aqui temos onze faixas novas mostrando essa faceta autoral da cantora. Em dois momentos Ilessi se apresenta como autoria exclusiva, como é o caso de  “Oração pro Gil”, uma canção sem palavras, muito impactante como força de cura para o mestre tropicalista, peça composta em 2016, quando Gil estava bastante doente e correndo risco, e aqui gravada com participação de Gabi Guedes e Kainan do Jêje na percussão. É também o caso de “Eu não sou seu negro”, acompanhado do forte texto James Baldwin lido por ela, um trecho autobiográfico em que o escritor negro norte-americano tece sua crítica ferina ao racismo que dividia e divide os Estados Unidos, uma violência que se desdobra para o imaginário brasileiro.

No entanto, a maior parte do álbum é feita de parcerias. Duas delas com Thiago Amud, nome dos mais fundamentais na cena contemporânea, figura de tensionamento estético e ético fora de série, seja como letrista, compositor ou arranjador: uma delas é a angulosa canção “Lírico”, que tensiona dor e prazer; outra é a balada amorosa “Desperto de você”. Amud, aliás, foi o arranjador de Mundo afora – Meada, disco solo anterior de Ilessi.

Outra parceria é com Iara Ferreira, no caso do hino-blues feminista “Dama de espadas” que dá nome ao álbum. Trata-se de uma peça que já vinha circulando há mais tempo, em performances em voz e violão. A letra cria já a persona forte da performer:

Compreendo perfeitamente
As razões que ele teve

Mulheres assim
Que vivem na noite
A cheirar sereno
E a rondar botequim

São mulheres
Que trocam de macho
Qual trocam de roupa

Têm opinião
Sobre quase tudo
Carregam no ventre
A mazela do mundo

Ele foi um perfeito lorde
Mas ficou de bode com a sua lady
Na hora da cama
Essas damas de espadas
Matam o homem de sede

Eu sei que afinal
Ele não teve sequer qualquer culpa
Sangrou no punhal
Bebeu a cicuta
Do amor de mulheres assim
Iguaizinhas a mim

O movimento textual, reforçado pelas inflexões da voz de Ilessi, é certeiro: a começar por uma aparente identificação com o homem assustado com o tipo de mulher, o canto vai modulando até encontrar-se no ponto oposto, do da própria mulher que troca de macho, tem opinião, que na hora da cama matam um homem de sede. Ridículo sai o macho amedrontado com o fim do imaginário do sexo frágil.

Outras parcerias são com Jorge Andrade, na lírica “Mar de amar”, com  Gonzaga da Silva na dissonante e perturbadora “Vagalume” (que se inicia com os versos “foram-se os dedos / ficaram os anéis”) e com Simone Guimarães,  na sutil e complexa “Brejeira flor”. Eis a letra de Guimarães, musicada por Ilessi e que já tinha sido apresentada em vídeo ainda em 2014, como ensaio sobre o disco Mundo afora, da qual ela acabou ficando de fora:

É da terra seca que nasce essa linda flor
Estrada de calanga minhota, mato cerrado.
Um céu de toda cor

Solidão, estrela, caminho, música e amor.
A vida vai surgindo baixinho no coração
Feito a voz de um cantor

Araticum
Quem te plantou?
Foi o Conde, na Bahia?

História é tanta, menina, que tenho pra contar.
Na vida não falta alegria e fatos comuns dos dias.
Faz de conta que eu sou uma sereia do Oceano, vim de longe!
Faz de conta!

E se lhe vier a tristeza
E você ficar sem caminho, procure os meus olhos
Ouça uma canção, faça uma prece.

No mínimo curioso perceber que compositora Ilessi já era há tantos anos, revelando-se pouco a pouco, até chegar na maturidade expressiva do presente. Talvez possamos dizer que seu modo de escolher composições de outros era já sinal de sua própria poética composicional. Isso se pode perceber pelas três obras alheias que estão no disco: uma é “Vivo ou morto”, de Thiago Thiago de Mello e Edu Kneip, que já tinha sido gravada em vídeo em 2016, mas também ficou de fora de Mundo afora, para agora reaparecer com maior maturidade interpretativa, e “Ilê de Luz”, de Suka, que fecha o disco com o refrão certeiro:

Negro é sempre vilão
Até meu bem provar que não
É racismo meu? Não.

Dama de espadas é, portanto, um disco todo tensionado pelas discussões do presente no Brasil, as questões de gênero, o feminismo, o recrescimento dos movimentos negros. Grande parte disso é lido num tom de batalha, porém com um refinamento reflexivo e estético muito acima da média. É o caso da terceira interpretação para obra de outrem neste disco, falo da genial “Ladra do lugar de fala”, composição Thiago Amud, com versos irônicos e violentos que cabem perfeitamente na performance de Ilessi, como se fossem compostos por ela própria:

Eu sou
Eu sou a ladra do lugar de fala
Da ladra do lugar de fala    
Da preta preta suburbana
Mana barraqueira

Eu fui
A voz do samba, não serei sua cloaca
Lá vai um bloco deitado na maca
Atravessando a Lapa
Na manhã da quarta-feira

Vem cá
Me dá um beijo, meu fascista preferido
Vem cá
Me dá um beijo, meu feitor, meu inimigo
Que eu quero ver o mundo velho se acabar
De tanto não saber amar

Eu sou
Eu sou quem lacra quem me simulacra
Pra me perpetuar escrava
De sua alforria lavrada só de brincadeira  

Eu fui
A voz do bamba, não serei sua mordaça          
Tem branca insossa arrumando arruaça    
Mas eu não sou dessas
É outra a minha bandeira

Por que
Sinto saudade tão doída do futuro?
Por que
Sinto vontade de escutar a voz do mudo?
Acho que espero um novo samba se ouriçar
Na hora em que Zambi voltar

Eu sou
Eu sou Dandara e fui psicografada
Por um branco um pouco pancada
Que rouba o meu lugar de fala
E me revela inteira
Eu sou
A flor da nova abolição
Na manhã brasileira

A complexidade do conceito de lugar de fala, hoje tão em voga, é aqui reapresentada em suas contradições, que talvez sejam mais notáveis na última estrofe, quando ela se apresenta como uma Dandara piscografada por um branco pancada que, num só gesto, rouba seu lugar de fala e a revela por inteiro.Daí que ela própria possa ser “a ladra do lugar de fala da ladra do lugar de fala”, num jogo de furtos e encenações que podem construir subjetividades entrelaçadas.     

Essa canção de Amud já vinha sendo veiculada na voz de Ilessi desde abril de 2019 como videoclipe, com roteiro e direção de Paulo Almeida. Numa das cenas, vemos a placa com o nome “Rua Marielle Franco” na rua onde morava o então governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel. Por causa de seu viés político, o clipe foi censurado pela Rede Globo, quando deveria ser apresentado no canal Bis. A reação deprimente da rede televisiva diante da força da música e do clipe nos lembra de pelo menos duas coisas: em primeiro lugar, vivemos mesmo tempos sombrios, num flerte cada vez mais descarado com o autoritarismo desbragado e genocida; em segundo, que a arte tem e terá sempre ação de impacto no enfrentamento do horror. Ilessi é das vozes que fazem o enfrentamento ser um verdadeiro palco de modos de vida possíveis, sem cair no puro lamento, mas aceitando a arte como lugar da disputa do presente.

Dama de espadas foi gravado ao vivo em estúdio com um grupo basicamente montado como banda de rock, com Ilessi na voz, Elísio Freitas e Vovô Bebê nas guitarras (e também na produção musical), Guilherme Lírio no baixo e Uirá Bueno na bateria, o que garante certa crueza orgânica no resultado final que também dá um ar de improviso, quando sabemos que tudo vem sendo gestado, maturado minuciosamente na voz de Ilessi, há alguns anos. É, de fato, um álbum de quarentena, mas aberto ao que vinha de antes e se anuncia para depois, que, por apostar em composições complexas mas de realização sem grandes roupagens nos arranjos, nos faz ficar imersos no ponto mais singular da interpretação de Ilessi: sua agressividade impressionantemente técnica. Quero dizer com isso que Ilessi, apesar de demonstrar em vários momentos uma verdadeira virtuose vocal, é capaz de fazer algo raro, explodir como corpo cantante e visceral, jocoso, extramusical.

Esse vigor performático, aliado à complexidade e refinamento das composições, pode aproximar à primeira vista Ilessi de Elis Regina ou de Gal Costa na época de A todo vapor , por exemplo; e a comparação não seria nada vã. Porém é importante frisar que o diálogo, que se apresenta sobretudo no blues da primeira faixa, logo vai dando lugar a outros modos de abordagem dessa violência vocal, que abrem lugar pra pensarmos também as contribuições de outras cantoras, como Cássia Eller, para podermos pensar as poéticas da voz brasileira hoje.

Ilessi é, portanto, uma cantautora hoje desbravando as possibilidades da canção no Brasil; . Seja em parcerias singulares, seja na escolha de músicas alheias que podem imediatamente aceitar sua cocriação performática, seja nas – ainda poucas – peças que compõe sozinha. Essa versatilidade é também o que a marca ao longo dos anos, pois cada um de seus discos parece reorganizar do zero a tradição em que se insere. Nesse sentido, a crueza da Dama de espadas faz contraste com a singeleza de voz e violão com Diogo Sili para cantar obras de Manduka, mostrando as várias frentes de uma mesma figura. Ilessi segue firme, espada de fogo na mão e olhar duro para o presente. É realmente uma potência da MPB, um ato vivo da canção.  

Guilherme Gontijo Flores

PS: Este texto foi escrito em outubro de 2020, pouco depois de sair o álbum, porém ficou preso na gaveta por todo este período.