caminho de muito caminho, exu gira njila, eiá macumba

Sophia de Mavambo, iniciada para Pambu Nzila na Tumba Junsara, por Manoel Ciriaco [Nlundi ia Mungongo]. Fotografia de Verger.

um divino de muitos nomes, truqueiro como só, dotado de toda sorte de contrariedades, vem passeando há muito entre nós e, na diversidade de seus múltiplos caminhos, toma posto, desde sempre muito seu, de inúmeros cruzamentos discursivos no presente-já dos dias que correm. salvo o meme, reproposto na figura de Paulinho recentemente, folha de fortuna, hortelã-pimenta & palma-miúda, padê de mel, padê de cachaça, padê de dendê, proponho aqui mais uma gaveta no já bem fornido repertório de assuntos em se tratando de Exu.
há, decerto, uma variada entrada dessa divindade nos turnos das poéticas no Brasil e, também, fora dele. Kamau Brathwaite, por exemplo, tem lá seu Elegguas; também Christian Campbell, outro jamaicano. aqui e ali, também acolá, em múltiplos ventos há Audre Lorde. Césaire coloca Eshu em um casamento, na sua revisão da Tempestade em Une Tempête. e por aí vai. o plano não é arrolar antologia interminável com o boca que tudo engole. por aqui sugiro que empurrem o barco para que Entre Orfe(x)u e Exunouveau, de Edimilson de Almeida Pereira, seja reeditado, reimpresso e até lido, constando, além de uma fortíssima epistemologia e proposição de leituras a partir das chaves, mais abertas e arejadas, do pensamento negro e da diáspora das inúmeras áfricas, bem como do que há de áfrica nas américas todas, entrega também uma forte antologia comentada do que, até o momento em que defende sua tese de titularidade na UFJF, há sendo feito cá no país nessa gruta de temas infernos. Recomendo, ainda, o trabalho pioneiro das antropólogas que, também, abriram picadas, tais como Juana Elbein dos Santos, Monique Augras, Ruth Landes. também o livro de contos de Cidinha Campos, Um Exu em Nova York, o “poema-ebó” de Lívia Natália, as discussões amplíssimas de Stephanie Borges no Benzina, com seu parceiro de ações Orlando Calheiros, e por aí a via vai, interminável com seus múltiplos cruzamentos. importante, óbvio, visitar o que tem feito Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino, bem como o sempre necessário Muniz Sodré, entre vários. as coisas estão aí no mundo, com suas múltiplas encruzilhadas. então, atravesse.
dentre as variadas coisas contadas acerca de Exu no Brasil, particularmente gosto de alguns aspectos ditos quando da primeira iniciada, que se saiba, por aqui. quando Manoel Ciriaco foi dar cabo da iniciação de Dona Sophia, depois conhecida com Sophia de Mavambo, toda a comunidade de santo em Salvador disse que o homem estava doido, posto que ia fazer Diabo na cabeça da mulher. uma parte da literatura acerca das práticas litúrgicas do candomblé apontam que Exu não deve ser iniciado na cabeça de ninguém, sendo objeto apenas de culto. eu, sei lá, mas se Exu não pode ser iniciado, Pambu Njila pode, dado que Dona Sophia foi iniciada, justamente, na Tumba Junsara, por Manoel Ciriaco, conhecido como Nlundi ia Mungongo e é um terreiro de Angola, logo, outro entroncamento, não nagô. Mais pra diante é iniciado, no Rio de Janeiro, Djalma de Lalu… mas a história já tinha tomado outro e variado curso.
Guilherme Gontijo Flores, e eu, demos ano passado um curso na Teoria da Tradução da UFPR, chamado Tradução-Exu, todo ele ainda disponível no Youtube. o conceito, ou dispositivo tradutório, já vinha sendo tratado por ele já há algum tempo. o curso, então, serviu para maiores alinhamentos de algumas outras questões e uma reflexão mais demorada sobre o tema. além de produzir um fortíssimo conceito de traduzibilidade, Guilherme ainda ensaia o que chamou de “recantamento”, ou, dito de outro modo, apostou em traduções rítmico-semânticas de alguns orikis e itans. o corpus da prática nagô é enorme, tanto em inglês, quanto em francês e, também, em português.
por outro lado, as dinâmicas das mambu [ou muimbu] não são encontradas com tanta facilidade. há, de imediato, um problema de fixação dos cantos. não bastasse o sequestro e travessia do atlântico, a consolidação das práticas bantu, o candomblé Angola/Kongo, em suas variadas raízes encontra pequenos turnos de diferença. o Tombenci encontra pequenas diferenças com o Bate-Folha, da Mata Escura, encontra pequenas diferenças com a Gomeia, que encontra pequenas diferenças com a Tumba Junsara, que encontra pequenas diferenças com o Beirú, e por aí vai. há, por óbvio, inúmeros pontos de contato e semelhanças, sendo identificados, de imediato, os cantos rituais, mas como ponto é ponto, pingo é pingo, há muitos is em cena. outra nuance que estabelece distorções é a variedade de línguas intrusas e milongadas. ora canta-se em quimbundo, ora canta-se em quicongo, ora há variantes interferentes do tchokwe e outras. há semelhanças estruturais entre essas línguas, principalmente o sistema de usos das dinâmicas prefixais. mas não são as mesmas, nunca. um exemplo que gosto é o termo “maza”. quando em cerimoniais fúnebres o termo comparece em várias cantigas. muito embora a vida seja “água” passada, canta-se, na verdade, o “ontem”, a “passagem”, dado que “maza” em quicongo é água, mas em quimbundo é algo como “ontem”, sendo água o termo “menha”.
não é o plano entrar em grandes tratados linguísticos, a ideia é apresentar algumas mambu de Pambunjila, também dois orikis de Exu, como maneira de repertoriar, com mais uma nota de rodapé, tudo aquilo que nunca foi sorte, mas tradução da fortuna [e suas crises]. das cantigas do Angola que chegam por aqui, algumas delas encontram um viés mais antropológico das traduções, beirando a literalidade [só que não], sendo algumas recantadas em parceria com Guilherme. importante apontar que anoto as cantigas do Angola na ordem e como são cantadas aqui em minha inzo, salvo pequenas variantes. e os orikis são traduzidos por Guilherme Gontijo Flores.


MAMBU IA PAMBU NZILA [Cantigas de Pambu Nzila]

1.

mpambu njila ae
mpambu njila ae
mpambu njila ja mukange
mpambu njila ae

mpambu njila ae
mpambu njila ae
mpambu njila ja mu-kénge
mpambu njila ae

mpambu njila ae
mpambu njila ae
mpambu njila ja mukangi
mpambu njila ae

Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Senhor da encruzilhada e dos caminhos
A via encruzilhada é sua máscara
Senhor da encruzilhada e dos caminhos

Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Da via encruzilhada, o mensageiro
Senhor da encruzilhada e dos caminhos

Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Da via encruzilhada, o salvador
Senhor da encruzilhada e dos caminhos

(Recantamento)

Mpambu-Njila aê,
‘Ncruzilhada aê.
Bombogira o mascarado
Mpambu-Njila aê,

Kongojiro aê
Mpambu-Njila aê.
‘Ncruzilhada o mensageiro
Bombogira aê

‘Ncruzilhada aê
Bombogira aê.
Mpambu-Njila o manguaceiro
‘Ncruzilhada aê

2.

mpambu njila ja mukange
kia unene
mpambu njila ja mukange
ialá ionene

mpambu njila malembe

mpambu njila ja mukange
kia unene
mpambu njila ja mukange
ialá ionene

mpambu njila kujia kujianjo

a via encruzilhada é sua máscara
e é muito grande lá
a via encruzilhada é sua máscara
são enormes suas garras

senhor da via encruzilhada traga paz

a via encruzilhada é sua máscara
e é muito grande lá
a via encruzilhada é sua máscara
são enormes suas garras

senhor da via encruzilhada vai beber
vai beber em sua casa

(recantamento)

‘Ncruzilhada o mascarado,
grande pra valer
Mpambu-Njila bebe e guarda…
garra grande ê

Bombogira, malembe

Mpambu njila o mascarado,
grande pra valer
Bombogira bebe e guarda…
garra grande ê

‘Ncruzilhada no teu lar já curiou
‘Ncruzilhada a curiar bebeu guardou.

3.

mpambu njila
mpambu njila
mpambu njilê

Senhor da encruzilhada e dos caminhos
Senhor da encruzilhada e dos caminhos
É dele a encruzilhada e os caminhos

(recantamento)

‘Ncruzilhada
Mpambu-Njila
Bombogirei

4.

yànnda sisa
sisa lukaya
yánnda sisa
sisa lwa nganga

ê lukaya
yánnda sisa
sisa lwa nganga

yànnda sisa
sisa lukaya
yánnda sisa
sisa lwa nganga

o alegria manifesto
manifesto vai dançar
o alegria manifesto
manifesto líder há

ele vai dançar
o alegria manifesto
manifesto líder há

enfeitado ele se excita
e excitado vai dançar
enfeitado ele se excita
forte o mestre vai mostrar

(recantamento)

O alegria
cria na dança
o alegria
cria e mandará.

Nessa luanda
o alegria
cria e mandará.

E se excita
fita na dança
e se excita
dita e mostrará.

5.

byôle byôle
mbi o nata
mbimbi
kwa kwa ko

a criança balbucia
de posse da malícia
diante da malvadeza
sorrindo cacareja

(recantamento)

Fuzuê fuzuê
cambalacho
pros maus
já gargalhou

6.

ma-wile ma-uângu
nkwálu méeso e
rá-rá-rá
nkwálu méeso e

ma-wile ma-uângu

ao fortuna seu culto
na estrada põe teus olhos
a gargalhar
na estrada põe teus olhos

o fortuna tem culto

(recantamento)

Mavile tem culto
na via dana a ver
rá rá rá
na via dana a ver

Fortuna tem culto

7.

ma-wile ma-wile
ma-wile ma-uângu

ma-wile ma-wile
ma-wile ma-uângu

sorte grande, sorte maior
celebrai a fortuna

sorte grande, sorte maior
celebrai o fortuna

(recantamento)

Mavile, Fortuna,
Mavile tem culto

Fortuna, Mavile
Fortuna tem culto

* * *

Orikis de Exu, por Guilherme Gontijo Flores

1

Eṣu laroye arogbo
Tabiribangban o b(a) oni (i)ja wá kumọ
O kọ Ọyọ bọ́ lọjọ
O dé lõró sùn lọdun mẹta
Bi elekun sunkun, li Laroye loṣoro
Eṣu b(i) o ye lọ l(i) ala bò mi
Ẹnu (pu)po lara mi
Ajigberede akiri wa apan kiri

Exu laroiê ancestral
forte que pega porrete pro guerreiro
que vai a Oió e já voltou
que chega ao portal e dorme três anos

Se um chorão chora, pra Laroiê não rola
Exu se quer partir
vou me cobrir de branco
muita má língua sobre mim
Ajigberede akiri wa apan kiri

2

Labọralinde, li o ba de bode ti o kò ba bá
Ni ẹnu odi ni nro (o)ko
On na ni o da oko nibiti arugbo le de
On nikan ni o sẹ oko wọ̀rọ̀kọ̀-wọ̀rọ̀kọ̀ bi il awurèbé
On na ni binu sọ igikigi ki o wó
Ti o ba binu ti o ba la okuta (i)gbó
Okuta na a si ma ṣẹjẹ
Ti o ba nbinu ti fi awọ kanyinkanyin joko

Laboralinde é bem na barreira da porta
o campo que ele cava
ele cultiva o campo que um velho alcança
ele semeia o campo em ziguezague que nem casa de awurèbé

Na raiva abate uma árvore qualquer
na zanga pisa uma pedra no mato
e a pedra é que sangra
na zanga senta em pele de formiga