Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (V): Patrícia Lino conversa com Tiago Alves Costa



“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série aqui: Parte IParte IIParte III & Parte IV.








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VOZES EM CORO

________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
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isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito mau
________________________________________________________________________isto está muito bom (voz desconhecida)


_______________________________________________________________Tiago Alves Costa. Žižek Vai ao Ginásio. 2019-20.

1. Tiago, publicaste, até à data, 3 livros: W.C. Constrangido (2012), Mecanismo de Emergência (2016) e Žižek Vai ao Ginásio (2019, Galiza, Portugal; Brasil, 2020). Como explicarias esta sequência a um(a) leitor(a) brasileira(o) que não conhece o teu trabalho?

Diria com toda a sinceridade que é uma sequência sem um plano prévio. Escrevo normalmente para investigar e portanto gosto muito de não saber o que vou fazer, isso para mim é essencial, escrever sem saber o que vou fazer em busca de todo o novo que se abre sob os nossos olhos, tudo aquilo que supõe uma ruptura com a ordem das coisas. Para mim aquilo que realmente importa dá-se melhor em liberdade ou como dizia a Clarice Lispector “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. É evidente que os livros têm muita relação entre si, considero até que são como animais completamente opostos que não podiam existir um sem o outro. O w.c constrangido foi o meu primeiro livro e, verdade seja dita, hoje sinto-me distante dessa obra. No entanto, confesso-te que foi um livro importante para chegar a outras sonoridades, outros ritmos, outras formas de potencializar o pensamento. Lembro-me que por aquela altura estava muito influenciado pelos contos do catalão Quim Monzó e procurava incessantemente uma ponta de sarcasmo, uma espécie de ângulo insólito da banalidade. Os dois últimos surgem numa fase distinta da minha vida, estão profundamente afetados pelo tempo que lhes tocou viver. Este constante adiar do futuro, uma espécie de depressão generalizada que consiste em perceber que sempre que o alcançamos, o futuro, ele não nos convence. São livros que possuem valores operativos que fazem parte do meu ser corporal e psíquico e de uma experiência imediata com o mundo, com atividades do quotidiano, uma operação rumo ao improvável.

2. Dirias que o que te tocou e toca viver está ligado ao facto de viveres fora de Portugal? Como é, para ti, a experiência de escrever a partir de outro lugar? 

Sim, absolutamente. Na verdade tudo começou com uma ida anterior para os E.U.A e já na Galiza produziu-se esse abalo profundo no meu real, uma fenda, uma espécie de demolição do eu, passou a existir uma outra sensibilidade perante as manifestações que se colocavam diante de mim; no fundo, passas a ver aquilo que de outra forma parecia invisível, não dizível. Quiçá uma outra percepção das coisas, um distanciamento até, que, curiosamente, te aproxima de tudo. E isso afectou-me indelevelmente na forma de pensar, nos meus hábitos, nas rotinas, no entendimento comigo mesmo e com o mundo, de tentar perceber o que é isso de ser português (o que é isso de ser português?), e na escrita claro, aliás, sobre isto que refiro há uma frase do Gonçalo M. Tavares com a qual me identifico muito:“Se o mundo não interfere na tua linguagem: muda de cidade”. E respondendo à tua última pergunta, conto-te um episódio com uma amiga romancista que um dia aqui na Corunha me confessou que achava que eu escrevia para Portugal. Nunca me tinha passado pela cabeça o facto de que, de alguma forma, eu pudesse escrever a pensar nesse lugar de origem, mas isso fez-me refletir sobre o meu processo criativo e é certo que de alguma forma os meus livros têm sempre algum texto relacionado com Portugal, embora sejam sempre em tons satíricos, mas, de forma quase instintiva, gosto muito de tornar Portugal numa pessoa, um Portugal antropomórfico. No entanto, não sinto que escreva de outro lugar. Talvez o lugar seja mesmo a escrita, uma espécie de animal antiquíssimo, faminto, que quer constantemente farejar o impossível, estourar de afectos. E a Galiza é isso tudo também, uma enorme aprendizagem, um regresso a mim mesmo, numa (re)descoberta dessa galeguidade que sempre existiu em mim; a cultura, as amizades, as falas, a própria geografia, essa Galécia que ia da Corunha até às margens do rio Mondego.

Macondo. 2020.


3. É precisamente o tom satírico que percorre o teu último livro, Žižek Vai ao Ginásio, publicado no Brasil pela Macondo em novembro do ano passado. Desde do título até poemas como “Vozes em coro” que nos cruzamos, de modo sistemático, com vários exercícios de auto-paródia que não só dizem generalizadamente respeito à cultura portuguesa, como materializam algumas críticas acesas ao meio intelectual. Costumas refletir sobre o exercício do humor, dentro e fora do contexto da poesia escrita em português? 

Para te dizer a verdade não penso muito no exercício do humor, é algo muito espontâneo no meu processo criativo, normalmente é ele que me procura, não o contrário. Mas sem dúvida que a ironia é a melhor forma de combater o absurdo da vida, a imbecilidade, a avareza de espírito. As “Vozes em Coro”, que referes, representam isso mesmo, uma espécie de sistema-nervoso de onde emerge uma multiplicidade de Eus que tentam, de alguma forma, imiscuir-se nesta sociedade actual, esta prurida confusão, nesta aceleração cada vez mais histérica dos acontecimentos que se estende a todos âmbitos da nossa vida. De igual modo, o humor é também uma forma de justiça perante o desânimo que nos assola, uma verdade poética também. E sem dúvida que a literatura escrita em português tem uma forte tradição neste género, Machado de Assis, Lima Barreto, António Vieira são referências vitais. Nós somos filhos/as de contradições e de contrastes, dessa atávica relação com a dificuldade, ou com a impossibilidade, e que se combate com engenho, com criatividade, com a habilidade de reconduzir situações difíceis e suscitar a inteligência de saber rir do próprio absurdo. Eu gosto muito de me rir de mim mesmo, esse mecanismo também me ajuda a enfrentar os imprevistos. E sobre essa crítica acesa ao mundo intelectual que mencionas, ou ao mundo literário, parte também dessa desconstrução, uma espécie de objeção frontal à desordem do possível com que se parte para o texto, colocar palavras a destruir auditórios, poemas sem autor que se apresentam a concursos de poemas, livros que são lançados a mais de sete metros, escritores que são amados pelo seu rosto, ou livros que são entrevistados. Claro que posso ser apanhado na armadilha que eu mesmo montei, mas isso faz parte do jogo, ou da brincadeira, que tudo quer e nada mede.

4. Uma forma de justiça certamente política, e usada também e cada vez mais pelas mulheres. Diz-me, Tiago, se o poema desconstrói um certo conceito de autor(a) e, consequentemente, de leitor(a) [“O fim da literatura”], de que modo encaras, então, a função social do poema? Como podem expandir-se socialmente as tuas críticas humorísticas à mercadologia, à superficialidade e à capitalização do próprio mercado literário?

Sim, sem dúvida uma forma de justiça política. A filósofa Maria Zambrano defendia que todos os tempos são de crise, e a crise, ou as crises que vivemos actualmente, estão a introduzir novas formas de poder que parecem querer reclamar esse domínio sobre novos territórios, até agora inexplorados do humano, forças impulsionadas por novos imperativos económicos anulando inclusive e perigosamente direitos sociais que são imprescindíveis em sociedades ditas democráticas. A função do poema será a de abrir uma linha de fuga, às forças obscuras, aos fascismos que se avizinham ou que já estão aí, à porta de casa, e será sempre essa possibilidade de potencializarmos o pensamento, de encarar o imponderável, de mergulharmos em algo onde não queremos operar de acordo com os trâmites do normal, de chegar também à alteridade do outro, e, claro, criar comunidade. Eu gostaria que o meu ponto de vista, ou as minhas críticas, se pudessem traduzir numa retirada do próprio autor que é essencial em termos de justiça, sob esse exterior que ele recria, assumindo uma posição lateral, em vez de se impor sobre o caminho, passando a ser ele mesmo uma figura que se retira em benefício dessa mesma comunidade, indo assim contra o predomínio narcísico dos nossos dias, indo contra a mercadologia, a superficialidade, que referes. Julgo que o “Fim da Literatura” aborda esta ideia.

5. Em Žižek Vai ao Ginásio, o cuidado com a disposição dos caracteres e do verso é evidente. A sua disposição, bem como o seu grafismo, são, mais do que sonoros, visuais — o que, aliás, me parece ser cada vez mais comum na poesia que se faz hoje em português. Como descreverias a construção da visualidade do poema a partir da acomodação do verso na página e em relação à cadência do texto?  

Eu deixo-me quase sempre levar não tanto pelo que as palavras querem dizer gramaticalmente mas sim pelo seu ângulo sonoro. Tateando as palavras como se estivéssemos no escuro, confrontando até a própria língua, a ditadura da língua. Todavia, as palavras chicoteiam, “Aqui, texto, sentado!” afirmava Maria Gabriela Llansol. E dá-me muito gozo essa construção mais plástica, ser surpreendido na subida e descida das palavras e admitir que o inesperado irrompa como uma solicitação violenta que tudo exige. A sensação de tranquilidade, de alguma maneira para mim não excita a linguagem, a linguagem tem de ser afectada por algo que a perturba. Uma espécie de sismógrafo onde se mede a vida. Uma dança onde a maioria das vezes sabemos que vamos ser dominados e que só nos resta farejar, intuir essa cadência que corresponda com aquilo que mais nos aproxima do mundo. Uma cadência, por exemplo, como a do pianista Thelonious Monk, singular, revolucionária e sensual. 



Tiago Alves Costa. Žižek Vai ao Ginásio. 2019-20.
Vídeo publicado originalmente na Revista Caliban.


6. A par do exercício humorístico, a apropriação é outra das bases formais de um livro como Žižek Vai ao Ginásio. Aproprias não só o esquema do anúncio publicitário, mas também a estrutura da carta, da entrevista, do manual de instruções ou das notificações das redes sociais. Como te posicionas num período onde se fala cada vez mais de não-originalidade e reciclagem literária?

Talvez o drama, pelo menos para mim, é saber que escrevemos quando todas as grandes obras da humanidade já foram escritas. E escrevemos, mais e mais e mais. Contudo o facto de, e citando um dos textos do livro, aumentarmos cada vez mais o número de escritores no mundo torna quiçá cada vez mais difícil a tarefa de encontrar essa singularidade, a não-originalidade, e com tantas lutas literárias, temos depois lutadores de boxe que escrevem livros e que ganham prémios literários [risos]. Mas estamos constantemente reescrevendo, ou reciclando, o que já foi escrito, adaptando-nos ao tempo que nos tocou viver e antecipando-o, quem sabe. Talvez há algo que nos perturba e é por isso que escrevemos. Se tudo estivesse bem, não precisaríamos de escrever. Por um lado não deveríamos escrever, por outro, não se pode não escrever.

7. Em “O vazio da página”, texto de Žižek Vai ao Ginásio, a expressão “sou escritor” é o resultado da equação “jamais serei pintor” + “jamais serei bailarino”. O poema está sempre em contacto com as outras artes?

Sim. Para mim é vital a relação com as outras artes. Convivo muito com amizades do mundo do cinema, pintura, música, dança, e sempre que posso, procuro perscrutar os seus pensamentos, os processos criativos, inclusive criar colaborações. Nos últimos anos tenho trabalhado com o cineasta e criador transmedia Roi Fernandez; fizemos uma sessão de live-cinema e dois filmes-poemas, o último para o Žižek vai ao Ginásio. É extremamente instigante poder fusionar o poema, a sonoridade, a cadência com a linguagem cinematográfica, através da criação de um imaginário em tempo real com manipulação de materiais (cut-ips, cera derretida, kamishibai). Neste último projecto as gravações foram realizadas no Centro Comercial Stop, no Porto, estes míticos shoppings dos anos 70 que estão praticamente abandonados e que representam de alguma forma as próprias ruínas do capitalismo. E foi uma experiência incrível poder gravar ali, e também continuar a aprender com outros olhares e sensibilidades e completar quem sabe esse vazio da página ou o facto de não ser bailarino, ou pintor.

8. Se o humor e a apropriação são as bases formais de Žižek Vai ao Ginásio, o emprego é certamente um dos seus pilares temáticos. 

Sim, sim, é insistir nessas contradições do capitalismo, o ritmo circular do tempo para quem estiver a vender a própria força de trabalho ou a não conseguir vendê-la. Há uma tentativa de explorar o cansaço da sociedade de produção, o esgotamento do corpo, uma espécie de Bartleby 2.0 que está dopado e ao mesmo tempo desprovido de mundo, ausente e apático, e penso que ele surge nessas personagens insólitas do livro: críticos de sonhos, vendedores de sofás especialistas em preguiça, carpinteiros existencialistas; que no fundo querem no seu íntimo rebelar-se contra os dispositivos de rentabilidade, aumentando a voltagem, tensionando tudo ainda mais.

9. Gosto particularmente do fim da entrevista imaginária de Žižek Vai ao Ginásio. Podes comentar esta “coisa de portugueses” a partir da própria poesia portuguesa? Que relação tem ela com o teu trabalho?

Imagino então que esteja desempregado?

Morto-Vivo.

Como assim?

Ao estar desempregado estou morto para o mundo; vivo dentro de mim, à solta, em aparente liberdade. Como um bicho doméstico.

Vive muito então?

Absolutamente, isto é coisa de portugueses, não propriamente de poetas. De quem morre muito, claro está.”


Entusiasma-me muito esse tipo de diálogos-entrevista. Volto aos nossos contrastes, penso que “a coisa de portugueses” é extraordinariamente criativa. Talvez por isso somos mais fadados para a rima do que para a prosa. E eu preciso duma certa (des)ordem, das margens, dessas vozes que tensionam constantemente. Por exemplo, os cães vadios a perseguir uma criança que tenta afugentá-los ao passar de bicicleta, uma ignota voz que grita desde uma janela para o meio da rua, os velhos que protestam de mansinho no centro das praças. Eu acho que continua a ser uma “coisa de portugueses” e que é lindo poder ser revigorada pela poesia ou por outra forma de arte. O diálogo-entrevista explica isto muito melhor do que eu: “Ser português está obviamente naquilo que eu considero ser digno de me representar como português. Mas é muito mais sensível e complicado do que imagina. Ser português foi condição a que naturalmente me obriguei por natureza. E estudei muito para isso! Estudei aquilo que me faltou de algo que nunca quis deixar de ser pela minha vontade de querer ser tudo. Parece-lhe confuso?…”

10. Como foi a experiência de publicar Žižek Vai ao Ginásio pela Macondo no Brasil? Conta-me sobre os projetos em que estás a trabalhar agora.

É uma experiência magnífica, chegar ao Brasil, a um país e uma cultura que eu admiro e onde sempre cultivei amizades. O facto de fazer parte de uma coleção de poetas que muito aprecio e ter a oportunidade de conhecer o trabalho da Macondo e do seu editor, o Otávio Campos, todo o cuidado que têm com autores/as e com as suas obras e a seleção aprimorada que fazem da poesia contemporânea parece-me digno de enaltecer. Quanto aos meus projetos actuais, tenho estado envolvido com o teatro, a trabalhar na peça de teatro o “CUBO” com a companhia de Teatro Elefante Elegante e que estreou no passado mês de maio na Galiza. Em termos mais pessoais continuo escrevendo, mas confesso-te que o teatro parece estar a ganhar cada vez mais preponderância no meu processo criativo, tenho uma obra que está praticamente concluída e que se manifesta como uma espécie de híbrido com vários géneros, assente num cenário burlesco dos nossos tempos. Estou a ver se ganho coragem para a publicar.



6 POEMAS DE ŽIŽEK VAI AO GINÁSIO. MACONDO. BRASIL 2020.


A REALIDADE – DECLARAÇÃO

Para os devidos efeitos se declara que a Realidade se encontra internada no Serviço de Cuidados Intensivos deste Livro-Hospital por neoplasia em estado terminal, estando actualmente em cuidados paliativos, por um período imprevisível de tempo.

Por ser verdade e me ter sido pedido, passo a presente declaração, que dato e assino:

UM MEMBRO DO CORPO
DE GENTE AINDA COM CORPO
QUE PASSOU POR CÁ
POR ACASO


O FIM DA LITERATURA

Há escritores que escrevem para que outros escritores deixem de escrever.
Há escritores que deviam deixar de escrever e que por soberba ou falta de dinheiro
nunca deixam de escrever e tornam-se eles em escritores que escrevem
para que outros escritores deixem de escrever.
Há leitores que quando se apercebem que os escritores nunca deixam de escrever,
e que tudo não passa afinal de um mecanismo contínuo e eficaz de aumentar
o número de escritores no mundo, deixam de ler, e passam a amar o rosto dos escritores.
Há escritores que passam a dedicar-se somente ao seu rosto.



*

depois de ler 4 páginas do seu curriculum
o poeta leu 2 palavras do seu maior poema

a plateia ovacionou sentada



*


VIVA-O-POETA-MORTO

O poeta morreu há muito

______a sua palavra vive

______— VI Congresso Internacional do Poeta
______— Cátedra de Poesia e Transcendência do Poeta
______— Estudos dinâmicos do Poeta-Morto
______— Jornadas de introdução ao estudo da vida do Poeta-Morto
______— Vida-obra e morte do poeta (4 dias de passeio + música ao vivo)

O corpo do poeta morreu há muito

______a sua palavra vive feérica______radiante______produtiva

__________________poeta-morto_______palavra-vida


_____________________________________VIVA-O-POETA-MORTO!



AO POETA INIMIGO

O teu número de ISBN
é tão parecido com o meu





CICLOTÍMICA ARTE DE SER PORTUGUÊS E/OU POETA-MORTO

Mas é poeta?

Sou português. No entanto não quero com isto dizer que não tente representar-me como um autor de desconfianças. Um inquilino de mim mesmo. Um poeta com todas as contas por pagar. Um empregado das palavras, portanto. Alguém que escreve de olhos fechados ou sem aquecimento prévio; sem pensar, como é óbvio.

Mas é português ou é poeta?

Ser poeta está obviamente naquilo que eu considero ser digno de me representar como português. Mas é muito mais complicado e sensível do que imagina. Ser português foi condição a que naturalmente me obriguei por natureza. E estudei muito para isso! Estudei aquilo que me faltou de algo que nunca quis deixar de ser pela minha vontade de querer ser tudo. Parece-lhe confuso? É mais simples do que parece. Digamos que ser poeta foi algo que inventaram um dia para eu poder passar na porta de um bar onde só era permitia a entrada a estrangeiros; estrangeiros, diga-se, com um bom comprimento de onda. Com um bom nível de altura.

Imagino então que esteja desempregado?

Morto-Vivo.

Como assim?

Ao estar desempregado estou morto para o mundo; vivo dentro de mim, à solta, em aparente liberdade. Como um bicho doméstico.

Vive muito então?

Absolutamente, isto é coisa de portugueses, não propriamente de poetas. De quem morre muito, claro está.