Idea Vilariño: “No”, por Erlândia Ribeiro

Idea Vilariño (1920-2009) foi uma das poetas mais importantes do Uruguai, nasceu em 1920 em Montevideo e faleceu na mesma cidade em 2009. Já aos vinte e cinco anos de idade iniciou suas publicações com o poemário La suplicante (1945), seguida das obras Cielo, cielo (1947), Paraíso perdido (1949), Por aire sucio (1951), Nocturnos(1955), Poemas de amor (1957), Pobre mundo (1966) e No (1980), livro do qual me debrucei para esta tradução. A poeta também foi professora, tradutora e crítica literária, participando de importantes revistas uruguaias da época, contribuindo com autores e amigos como Angel Rama e Manuel Claps. 

Em No, obra integralmente aqui traduzida, os espaços em branco são maiores do que nos poemários do começo de sua carreira literária, Vilariño parece se permitir sintetizar sua poética e utilizar do vazio, do nada e do não, como uma forma de negação da própria vida. Assim se dá minha motivação em traduzi-los, em tempos tão obscuros como o que vivemos atualmente, esses poemas ressoam enquanto ecos que não queremos ouvir e nos deixam um gosto amargo na boca. Da solidão que todos atravessamos nesse período de isolamento, das reflexões que nos atravessam todos os dias ao lermos os noticiários; do asco, da revolta e vergonha que nos atinge só por sermos seres humanos. 

Vilariño acende esses sentimentos e nos faz olhar mais uma vez para dentro e nos perguntar: o que podemos fazer se não há delicadeza no viver? Ao mesmo tempo, por mais que digamos “não”, continuamos vivendo e seguindo a “sereia que nos leva ao fundo medonho e murmurante do mar”. Mesmo na negação resta a vontade de nomear as coisas, nomear os sentimentos. E porque não abrir os olhos de dentro e se permitir sentir? Esses doces aparatos que carregamos exaustivamente, que nos permite abarcar sensivelmente o mundo, sentir os outros e a nós mesmos é o mesmo que nos permite compreender o “não” como forma de resistência, não às injustiças, não aos padrões sociais, e não, principalmente, à falta de liberdade de ser quem se é.  

Erlândia Ribeiro

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Erlândia Ribeiro: Escritora, tendo publicado o livro de contos Superfícies irregulares (Kotter, 2019), também graduada em Letras Espanhol, Mestra no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários – PPG/MEL pela Universidade Federal de Rondônia e, atualmente, doutoranda em Estudos Literários no Programa de Pós-Graduação do PPGL-UFES pela Universidade Federal do Espírito Santo. Trabalha com os diários da escritora argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972), seu objeto de vida e de pesquisa. Acredita na escrita como necessidade, existindo sempre uma sintonia fina entre o que se vive e o que se escreve. 

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