Arsêni Tarkóvski, por Irineu Franco Perpétuo e Guilherme Gontijo Flores

Arseny Tarkovsky | Explore Tumblr Posts and Blogs | Tumgir

Nove anos atrás, Bernardo Lins Brandão fez um post sobre a poesia de Arsêni Tarkóvski (Arseny Tarkovsky em grafia anglófona, 1907-1989); foi um post modesto em resposta ao nosso encantamento pela poesia desse russo que segue sendo mais conhecido como pai do cineasta Andrei Tarkóvski do que como poeta de força fora do comum. Andrei, de modo muito explícito, usou trechos de poemas do pai em vários filmes, como Stalker, O espelho, por exemplo, e também como um eco de uma das cenas mais marcantes de Nostalgia. Isso tudo está dito com todas as palavras no belo ensaio de Esculpir o tempo.

À época, Bernardo postou dois poemas em tradução lusitana de Paulo da Costa Domingos, publicada pela Assívrio & Alvim em 1987, feita a partir da tradução inglesa de Kitty Hunter-Blair para Esculpir o tempo, onde estão oito poemas do mestre. Foi ali que conheci seus versos e fiquei imediatamente fascinado, desejoso de traduzir diretamente do russo, o que era impossível à época, mesmo que eu pudesse conferir um ou outro detalhe do texto original. O fato é que a poesia de Arsêni é tão forte, que mesmo uma tradução sem grandes procupações formais já é capaz de criar impacto. É o que acontece com a tradução de Jefferson Luiz Carmargo, também a partir do inglês de Hunter-Blair, na edição brasileira de Esculpir o tempo. Uma dessas pode ser encontrada no blog Modo de Usar & Co., num post preparado por Ricardo Domeneck, outro admirador tupiniquim.

Bom, foi diante dessa lacuna, isto é, da falta de reconhecimento de Arsêni Tarkóvski como poeta por si só, que eu e Irineu Franco Perpétuo começamos a preparar uma antologia de sua poesia. Irineu é tradutor do russo com estofo mais do que preparado; eu, bem, eu estudei um semestre da língua, em priscas eras, o que me permite pronunciar com dificuldade o texto e reconhecer efeitos sonoros. Enquanto vamos traduzindo a poesia de Joseph Brodsky, graças ao incentivo de Cide Piquet e ao apoio de Maria Vragova e de Luiz Gustavo Carvalho, entramos também nessa aventura, ao modo de um laboratório de tradução. Irineu faz uma primeira versão direta do russo, que eu contrasto com todas as traduções que puder (em português, inglês, francês, alemão, espanhol etc.), a fim de recriar o sopro vital da poética de Arsêni, sua escultura de alento denso, que convoca a voz e invade o afeto.

Começamos pelos oito poemas citados em Esculpir o tempo, como reconhecimento antológico no gesto do filho, mas seguiremos numa antologia maior, que espero logo ver à luz no Brasil. Estes três poemas abaixo são apenas um prenúncio de um trabalho que nos revigora, no empenho de manter a singeleza densa dessa poesia, seu corpo todo atravessado de imagens.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

               Я в детстве заболел
От голода и страха. Корку с губ
Сдеру — и губы облизну; запомнил
Прохладный и солоноватый вкус.
А всё иду, а всё иду, иду,
Сижу на лестнице в парадном, греюсь,
Иду себе в бреду, как под дуду
За крысоловом в реку, сяду — греюсь
На лестнице; и так знобит и эдак.
А мать стоит, рукою манит, будто
Невдалеке, а подойти нельзя:
Чуть подойду — стоит в семи шагах,
Рукою манит; подойду — стоит
В семи шагах, рукою манит.
                           Жарко
Мне стало, расстегнул я ворот, лёг, —
Тут затрубили трубы, свет по векам
Ударил, кони поскакали, мать
Над мостовой летит, рукою манит —
И улетела…
             И теперь мне снится
Под яблонями белая больница,
И белая под горлом простыня,
И белый доктор смотрит на меня,
И белая в ногах стоит сестрица
И крыльями поводит. И остались.
А мать пришла, рукою поманила —
И улетела…

1966

                          Quando criança adoeci
De fome e medo. Arranco então a pele
Do lábio – o lábio lambo; lembro aqui
Desse sabor salgado e frio dele.
E sempre vou, e sempre vou, e vou,
Sento na entrada principal, me aqueço,
Deliro no flautim do encantador
De ratos, e me sento – e ali me aqueço,
na escadaria; e um calafrio cego.
E a mãe, de pé, acena a mão no espaço,
Parece perto, mas lá não chego:
Me achego um pouco – está a sete passos,
Acena a mão; então me achego – está
A sete passos, mexe a mão.
                                                   Calor
Senti, soltei a gola e deitei lá;
Soaram os clarins, a luz tocou
As minhas duas pálpebras, a mãe
Voa sobre a calçada, acena a mão –
E sai voando…
                      E então estou sonhando
Nas macieiras, um hospital branco
E branca uma coberta sobre a cara,
E branco um médico que ali me encara,
E branca uma enfermeira revirando
Asas ao pé da cama. Eles ficaram.
E vem a mãe, e a mão acena – quando 
Saiu voando…

1966

Andrei Tarkóvski diz que o usou em Nostalgia e que gostaria de fazer um curta.
Aqui o poeta lê o poema:

§

Вот и лето прошло,

Словно и не бывало.

На пригреве тепло.

Только этого мало.

Все, что сбыться могло,

Мне, как лист пятипалый,

Прямо в руки легло,

Только этого мало.

Понапрасну ни зло,

Ни добро не пропало,

Все горело светло,

Только этого мало.

Жизнь брала под крыло,

Берегла и спасала,

Мне и вправду везло. 

Только этого мало.

Листьев не обожгло,

Веток не обломало…

День промыт, как стекло,

Только этого мало.

1967

Hoje o verão passou,
Feito um nada se afasta.
No sol está calor.
Mas só isso não basta.

Tudo que se passou,
Corola de cinco hastas,
Na minha mão pousou,
Mas só isso não basta.

Nenhum mal fracassou,
Nenhum bem se desgasta,
Tudo em luz se abrasou,
Mas só isso não basta.

A vida me abraçou,
Com sua asa vasta,
A sorte não falseou.
Mas só isso não basta.

Nenhuma folha assou,
Nenhum galho se gasta.
O dia é vidro e sol,
Mas só isso não basta.

1967

* Citado em Stalker: https://www.youtube.com/watch?v=y0KFVgTxCiQ

§

Меркнет зрение — сила моя,

Два незримых алмазных копья;

Глохнет слух, полный давнего грома

И дыхания отчего дома;

Жестких мышц ослабели узлы,

Как на пашне седые волы;

И не светятся больше ночами

Два крыла у меня за плечами.

Я свеча, я сгорел на пиру.

Соберите мой воск поутру,

И подскажет вам эта страница,

Как вам плакать и чем вам гордиться

Как веселья последнюю треть

Раздарить и легко умереть,

И под сенью случайного крова

Загореться посмертно, как слово.

A vista turva – minha força é neste instante
Dois dardos invisíveis de diamante;
Falha a audição, cheia do estrondo arcaico
E do alento do lar do pai;
O músculo travado se desdoura
Tal como bois grisalhos na lavoura;
E à noite não cintilam mais em brasas
Por trás dos ombros duas asas.

Sou uma vela, ardi no festim.
Recolha de manhã a cera em mim,
E esta folha vai lhe dizer num só mergulho
Como chorar e do que ter orgulho,
Como distribuir o terço extremo
Das alegrias e morrer sereno

E, à sombra de um abrigo casual,
Arder, como a palavra, além da luz final.

Mote para a cena final de Nostalgia.
Aqui o poeta lê o poema: