Cena de: Uma A Outra Tempestade, por André Capilé & Guilherme Gontijo Flores (a partir de Shakespeare & Césaire)

fotografia de Cláudia Andujar

No dia 23 de setembro de 2020, ao fim do curso acerca da “Tradução-Exu”, compartilhado entre Guilherme Gontijo Flores e André Capilé, todo ele ainda disponível aqui: TRADUÇÃO-EXU, deu-se início à empreitada de refazer, em múltiplos cruzamentos, as tempestades de Césaire e Shakespeare. Se, em sua radicalidade, encarar Une Tempête, de Aimé Césaire, ela mesma uma tradução-exu de The Tempest, de William Shakespeare, ao cotejar as reentrâncias, inclusões e supressões realizadas, Flores e Capilé, por impulso, revisitaram as peças.
Se Césaire tornou agudas as discussões contracoloniais, desde uma perspectiva das índias ocidentais, de certo modo tornou plano, em certo contexto, convertendo em prosa a peça shakespereana. As intromissões de Guilherme e André retomam as intercorrências do verso da Tempestade do inglês, contudo, sob manejo da variedade no uso das medidas da versificação. Considerando que há uma tradição, de certo modo abandonada em terras brasileiras, de uma dramaturgia versificada, cujo maior expoente no século XX ainda é Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, a escolha por essa modalidade reconsidera as possibilidades prosódicas, as mais variadas, das possibilidades do verso.
A cena que a revista escamandro traz a lume é uma conversa entre Ariel e Caliban, que na peça de Césaire são indicados como “escravo etnicamente mulato” e “escravo negro”, respectivamente, traçando planos sobre as ações de Próspero, a língua própria da violência. Caliban, nesse momento, acaba de recusar o nome dado pelo colonizador, assumindo a alcunha de X, cujo interesse é dobrado: se numa primeira entrada entrega a figuração da incógnita, do apagamento, de outro cita, em direto, Malcom X. A linguagem estabelecida por toda peça, ao menos com essas duas personagens, procura um fino balanço entre uma língua créole no Brasil, bem como uma insistência urbanizada da prosódia, espécie de mix entre um preto-velho & um rapper, mas sem perder a invenção acutilada duma língua que inventa a si e uma ideia, para além de si, do brasileiro.
No dia 14 de outubro de 2020, Guilherme Gontijo Flores e André Capilé chegam a termo dessa peça que é, a um só tempo, tradução e não-tradução, invenção e apropriação, intervenção e suplemento, tradução-exu e autoria desbragada. Entre duas quartas-feiras, dias de devoção a Xangô e Iansã, começo e término da composição consolidada dessa Tempestade-Exu, UMA A OUTRA TEMPESTADE.


Outra lição gramática:
entre iguais diferensas

X, no barraco, canta trabalhando.
Quando, então, aparece Ariel,
que escuta por um tempo a cantiga.

X
[entoando a curimba]

O que come a canjica sem pensar
em Xangô, quando pisca o mal tá feito!
É Xangô que desliza sob as unhas,
logo as parte arrancando o seu pedaço.
Xangô, Nzazi, Sogbô!
Xangô, Nzazi, Sogbô!
Se ninguém oferece um assento a ele,
pois sobre seu nariz tomará posto…
Se quiser, sentará sobre um cágado.
É o rei que mata e come o rei deposto.
Xangô, Nzazi, Sogbô!
Xangô, Nzazi, Sogbô!
Se não der-lhe lugar sob seu teto,
lamento lhe dizer: problema teu.
Vai cobrir a cabeça com as telhas
do telhado que arranca à força em fúria.
Xangô, Nzazi, Sogbô!
Xangô, Nzazi, Sogbô!
Se tentar enganar, grande o trovão,
não esteja na casa em fogo santo.

Ariel

Fala tu, Caliban! Sei bem que não me tem
na tua querência, mas nós somos parceiragem,
como irmandade nesse mesmo barco,
atravessando o mar a nado nos barris.
No mesmo sofrimento, na mesma esperança,
guentando a escravidão nas mãos do mesmo monstro,
o da gramática da fome e do desterro.
Liberdade é o desejo só da gente,
embora nossos métodos difiram.

X

Quem fala tu, é tu. Diz aí mais suncê.
Num veio aqui ficar de lero-lero,
nem chegou só pra ver minha beleza tanta,
disso dou garantia. Cariá, diz logo!
Cá pra mim, quem mandou suncê, foi o veiúdo,
não foi, não? Tá bem de empresa, amizade,
um cão, criado pelo Cão, faz que obedece
até jeito que pensa o dono da matilha.

Ariel

Aí foi não, eu venho eu memo
trazer sirene que te atente em tempo. Próspero
tá de armação pa riba de suncê,
deu de veneta se vingar com mais terrível
só feiúra da terra. Achei por bem
avisar por dever a quem semelho.

X

Já cozinhei pau-de-resposta. Chegue ele,
que eu o sento no toco e dou raio que o parta.

Ariel

É pobre, pobre, pobre de marré-de-si,
a alminha Caliban, vai se estragar tudim.
Tu tem saber, de milha contada, que o cabra
é mais brabo, e que mais brabo suncê nem será.
Um boi te bota dentro, e a boiada não tira,
sei que a guerra tempera à vendaval sua hora,
mas diz pra mim, bem cá pertinho, vale tanto
e quanto guerrear nimbo civil de sonho?

X

Oxe, logo suncê vem falar disso?
Diz mais cá se adianta obedecer,
com paciência pai-joão de encosto,
com a lambida de lanhar a costa toda?
Ó bem lá o que vem desse um de aparente
ômi — bicho pió nem há — e toma escuta
que o exigido a maió vem de tropel.
A boca dele é grande, e todo dia,
santo e comum, mais qué, mais qué, mais qué
a botina que chuta e a bunda do criado,
a vara, o peixe, as margens e o teu nado;
mais vale um céu sem chuva pra quem lavra,
do que daná à ventura de um doido
que te deixa dançá a noite, e então te esfola.

Ariel

Cada um, cada dois, com seu cadinho.
o pelo nesse ovo já colhi.
Diz que, sim, logo, logo vento livre.
Fala de um ômi, claro: quando o cuco piar.
Porém, ave me vale, afirmou de bem firme,
como fruta de vez, madura é prometida.

X

Ê pangó véi! Vai prometer mil vezes,
e mil vezes, mais uma, vai trair fiado.
Mas nem não me interessa o amanhã,
o que eu bem quero, o que eu mais quero memo é:
FREEDOM — NOW [aos berros]

Ariel

OK. Mas tá ciente que na força
ele te ganha se suncê for lá tomar no já.
O ponto que escolhi mirar tem precisão
e o campo é bom pra vigiar o arsenal.

X

Então suncê achou de achar que ele é mais braço
na tomada do cabo? Que é mais força, o bruto?
De onde foi que tirou ciência, flor?
A mó de mil que há de ver o flanco fraco,
toda perna de calça mostra um pato manco,
mas se for de covarde olhar não bate a conta.

Ariel

Não sou de acreditar que a ressaca das ondas
educam se são coça em lombo de fedelho.
Violência não me cabe em vestimenta, não.
Nesse pé nem há crença…

X

[interrompe na brusquidão]
No que tem fé? Na covardia? Na renúncia?
Ajoelhar no milho, amarelar?
É de certeza, tá certim, cu no pudim!
Te dão bifa na fuça à direita, e suncê
sorri com a bochecha à esquerda pra mais;
na montada te espancam a bunda à esquerda,
cê rebola e oferece a direita pra mais;
assim nem tem ciúme nas tuas bandas.
Se assim que é, pra mim é muito pouco.

Ariel

Nem é assim que a minha ideia pensa, não.
Nem chega de muxoxo, boi domado,
nem vem de vezo em vesguice de zanga.
Ouve de mim, põe atenção, quem deve à muda
a semente plantada a viragem em flor,
tem nome: é Próspero. Do bem, fazer tormenta
nas cãs serenas do pesadelo peludo,
até saber de si o ser de tanto injusto,
que faz e é, tomando espelho à velha vida
e cerre o livro que não serve mais.

X

Ah, véi, é sério memo? Faz-me rir!
Se é que entendo o que diz, e não duvido,
tartamudo não fala, com sabença
que veiúdo tem lá, retidão nele
é papo que faz curva e justiça nem quer.
A consciência é puta, e ele, um cafetão.

Ariel

Mas não é por motivo assim, precisamente,
que se lavoura um campo só de sal?
É trabalho da gente ensinar outra via,
que caminho tomar na encruzilhada.
Sabe tu que não luto de livrar só eu,
demanda é liberdade toda nossa,
mas também acender a consciência em Próspero,
e quando nasça, pois, também livrar o ímpio.
Ai, Caliban, me ajuda a te ajudar.

X

Ai, ai, Arielzim, às vezes me pergunto
se endoidou, se bebeu sumo de erê!
Consciência nascer em Próspero?
É ver chifre em cabeça de cavalo,
acreditar que flor nasça do asfalto.

Ariel

Assim suncê me desespera. Sonho,
que só se sonha junto, estimulante,
que Próspero, suncê, também mais eu,
entregávamos comprometimento
de estar em sócia fraternidade, no encargo
de construir um milmaravilhoso mundo,
um cada qual, de qualidade sua mesma
na carga voluntária do fazer
a paciência, o ânimo, o desejo,
a firmeza e o amor, que bom seria…
à massa nem arrolo os sonhos, sem os quais
a humanidade morreria asfixiada.

X

Da letra que te dei, não pegou nada.
Próspero, esse um, não é do tipo
que acerta de subir a laje do vizinho.
É cãibra de sentir-se bem só se esmagar
pisadinho quem dê de atravessar na frente!
Brocador que tritura, caminhão perdido
pela ladeira do atropelo, e ele é isso!
E tu com ideinha de fraternité?

Ariel

Então, que resta? A guerra? Neste jogo
Próspero é próspero monstro imbatível.

X

Mió morrê que injusto açoite me carregue,
também humilhação, que eu não nasci pra isso…
Aqui te digo, pronta e verdadeira jura,
palavra dita, nem que seja a última,
será minha… a não ser que eu não pertença a nada.
Se acaso me faltar a pedra de Xangô,
e vir que nessa estreita via eu tô perdido,
deixa eu roubar alguns barris de pó do inferno,
e boto pelos ares esta ilha;
é meu trabalho, dela sou dono. E suncê
lá no tampo de azul no firmamento,
onde por gosto paira, vai só ver.
Quero a risada mais gostosa ao assistir
no meio dos escombros eu e Próspero.
Que o show de fogos de artifício ocê aprove:
será um X de chispa no céu do meu nome.

Ariel

Sinto que cada qual só escuta a própria ingoma.
Caminha ao som da sua.
Eu ando ao som da minha.
Desejo-lhe coragem, camará!

X

Dou adeus, Ariel,
a suncê eu desejo boa sorte,
camará!