tradição aguda, afiar delicadezas — Jericho Brown, por Stephanie Borges; Warsan Shire, por Laura Assis

Jericho Brown, por Stephanie Borges

O que pode ser considerada uma tradição quando pensamos em experiências negras?
A partir da premissa “o poema é um gesto em direção ao lar” que se repete na série de poemas Duplex, Jericho Brown observa vários aspectos das vidas negras ao longo da história como a pilhagem de terras, a disputa pela linguagem que fale da vivência negra com suas palavras, a valorização da identidade de pessoas negras apenas como trabalhadoras e a importância dada a família nuclear que reproduz a somente a violência patriarcal heteronormativa.
A investigação Brown contempla agressões que atravessam gerações desde o tempo colonial e nos questiona: quais lares podem ser criados por corpos negros que insistem em amar, dançar, criar, escrever, brigar e plantar construindo um jeito próprio de estar no mundo?
A “tradição” são as muitas formas de habitar o próprio corpo, gozar, amar, inventar outras relações fora das normas, perdoar quem nos feriu e fazer poesia, pois o gesto em direção ao lar é a criação desse novo lugar onde pode podemos ser inteiros. Onde amamos e somos amados, onde podemos ser humanos sem ter que provar nada a ninguém, pois produzimos várias artes que inventam os nossos espaços: na cozinha, na música, na pintura, na literatura, nos afetos. A nossa tradição é criar várias possibilidades que nos permitam enfim, estar em casa. O poema é um começo.


Como um ser humano

Há a felicidade que você tem
E a felicidade que você merece
Elas se sentam longe uma da outra
Assim como você e sua mãe
Se sentaram nas pontas do sofá
Depois que uma ambulância veio para
Buscar seu pai. Algum bom
Doutor vai remendá-lo, e
Em breve uma tia vai chegar e levar
Sua mãe para o hospital
Onde ela sossegará ao lado dele
Para sempre, como prometido. Ela aperta
O braço da poltrona como se pudesse
Cair, como se fosse a única coisa firme,
E é, uma vez que você fez o que
Sempre quis, você brigou
com seu pai e venceu, fez um estrago nele.
Ele terá uma cicatriz visível tudo isso
Só por sua causa. E sua mãe,
A única mulher pela qual você já chorou,
Deve cuidar disso como uma noiva cuida
De seus votos, abandonando todos os outros
Não importa o quão doída a ferida
Não importa o quão doído a ferida
Te deixou, você senta se entendendo
Como um ser humano enfim
Livre agora que ninguém tem que amar.

As a Human Being

There is the happiness you have
And the happiness you deserve.
They sit apart from each other
The way you and your mother
Sat on opposite ends of the sofa
After an ambulance came to take
Your father away. Some good
Doctor will stitch him up, and
Soon an aunt will arrive to drive
Your mother to the hospital
Where she will settle next to him
Forever, as promised. She holds
The arm of her seat as if she could
Fall, as if it is the only sturdy thing,
And it is, since you’ve done what
You always wanted, you fought
Your father and won, marred him.
He’ll have a scar he can see all
Because of you. And your mother,
The only woman you ever cried for,
Must tend to it as a bride tends
To her vows, forsaking all others
No matter how sore the injury.
No matter how sore the injury
Has left you, you sit understanding
Yourself as a human being finally
Free now that nobody’s got to love you.

§

Aurora da madrugada

Minha mãe cultivava glórias-da-manhã que se espalhavam pelo caminho
. . . . que levava até sua varanda
Porque ela era uma mulher dona de seu chão mostrava isso dando lhe
. . . .. cor.
Ela me disse que eu poderia ter qualquer coisa desde que trabalhasse. Aquilo queria dizer que ela era
. . . . .uma americana.
Mas ela diria que é porque ela acreditava
em Deus. Tenho vergonha da América
e Deus me confunde. Dou graças a Deus pela minha cidadania apesar
do tempo contado em minha vida para escrever
Essas palavras: Eu amo minha mãe. Eu amo mulheres pretas
que plantam flores acanhadas como seus filhos. No momento em que os botões
desabrocham por umas poucas horas de luz, as mulheres que cuidam deles
já estão no trabalho. Triste. Nunca saberei quem inventou a mentira que nós
. . . . . somos preguiçosos.
Mas adoraria acordar o filhodaputa
Na aurora da madrugada, enfiá-lo num caminhão, e levá-lo por
. . . . . Deus
Por todos os pontos de ônibus da América para ver todo aquele povo preto
Esperando para ir trabalhar por qualquer coisa que eles queiram. Uma casa? Um garoto
para manter a grama cortada? Alguma cor no quintal? Meu Deus, a gente torna
. . . . . as coisas verdes.

Foreday in the Morning

My mother grew morning glories that spilled onto the walkway
. . . . toward her porch
Because she was a woman with land who showed as much by giving it
. . . . color.
She told me I could have whatever I worked for. That means she was
. . . . an American.
But she’d say it was because she believed
In God. I am ashamed of America
And confounded by God. I thank God for my citizenship in spite
Of the timer set on my life to write
These words: I love my mother. I love black women
Who plant flowers as sheepish as their sons. By the time the blooms
Unfurl themselves for a few hours of light, the women who tend them
Are already at work. Blue. I’ll never know who started the lie that we
. . . . are lazy,
But I’d love to wake that bastard up
At foreday in the morning, toss him in a truck, and drive him under
. . . . God
Past every bus stop in America to see all those black folk
Waiting to go work for whatever they want. A house? A boy
To keep the lawn cut? Some color in the yard? My God, we leave
. . . . things green.

§

Duplex

Um poema é um gesto em direção ao lar.
Faz exigências sombrias que tomo por minhas.

A memória faz exigências mais sombrias que as minhas:
Meu último amor dirigia um carro da cor do vinho.

Meu primeiro amor dirigia um carro da cor do vinho.
Ele era rápido e terrível, alto como meu pai.

Inabalável e terrível, meu pai alto
Batia forte como uma tempestade. Deixaria marcas.

Chuva leve bate suave mas deixa sua marca
Como o som de uma mãe chorando outra vez.

Como o som de minha mãe chorando outra vez,
Nenhuma surra barulhenta termina como começa.

Nenhum dos surrados acaba como começamos.
Um poema é um gesto em direção ao lar.

Duplex

A poem is a gesture toward home.
It makes dark demands I call my own.

Memory makes demands darker than my own:
My last love drove a burgundy car.

My first love drove a burgundy car.
He was fast and awful, tall as my father.

Steadfast and awful, my tall father
Hit hard as a hailstorm. He’d leave marks.

Light rain hits easy but leaves its own mark
Like the sound of a mother weeping again.

Like the sound of my mother weeping again,
No sound beating ends where it began.

None of the beaten end up how we began.
A poem is a gesture toward home.


Jericho Brown é autor de The Tradition (2019), pelo qual recebeu o Prêmio Pulitzer. Recebeu bolsas da Guggenheim Foundation, do Radcliffe Institute para estudo avançados em Harvard, do National Endowment for the Arts além de ganhar o Whiting Award.
O primeiro livro de Brown, Please (2008) recebeu o American Book Award. Seu segundo livro, The New Testament (204), recebeu o Anisfield-Wolf Book Award. Sua terceira coletânea de poemas, The Tradition, também recebeu Paterson Poetry Prize e foi finalista dos prêmios the National Book Award e the National Book Critics Circle Award. Brown é professor e diretor do programa de escrita criativa na Emory University, em Atlanta, Georgia, no sul dos EUA.
Os poemas traduzidos fazem parte de The Tradition. Neste livro, os poemas tratam de relações familiares e afetivas, no passado e o presente, lidando com contrastes entre o carinho e a violência, o trauma e uso da linguagem para elaborar a experiência. As imagens de flores e jardins são recorrentes em diversos momentos como um elemento da vida negra, pontuando a relação com a terra, o trabalho e o cultivo, sem esquecer da presença de flores em funerais.

Stephanie Borges é jornalista, tradutora e poeta. Traduziu prosa e poesia de autoras como Audre Lorde, bell hooks, Alice Walker e Claudia Rankine. Seu livro de estreia, Talvez precisemos de um nome para isso (2019), venceu o IV Prêmio Cepe Nacional de Literatura.


Warsan Shire, por Laura Assis

As primeiras traduções de Warsan Shire que realizei eram de poemas que versavam principalmente sobre abandono, problematizando, mais especificamente, o lugar do feminino em dinâmicas de relacionamentos afetivos. Parecia haver ali um campo de significados para o qual palavras como “empoderamento”, “superação” e “autoconhecimento” poderiam ser facilmente convocadas, mesmo que não textualmente, como ocorre em “for women who are difficult to love” e “the unbearable weight of staying”, entre outros textos que figuram na plaquete de estreia da autora.

O trabalho seguinte de Shire, entretanto, começa a aprofundar temas que até já eram apontados anteriormente em sua obra, como ancestralidade e imigração, mas que agora passam a figurar de modo mais complexo na poesia dessa autora, ao lado de questões referentes a assuntos como violência doméstica e abuso sexual. Os poemas de Her Blue Body (2015) não abandonam a reflexão e o questionamento sobre o lugar social da mulher: pelo contrário, parecem empreender uma busca ainda mais densa, interessada em investigar os mais crueis e incontornáveis desdobramentos da violência de gênero, do patriarcado e da misoginia, como ocorre em “Backwards”, poema de Shire que traduzi ano passado e foi publicado no site da iniciativa Mulheres Que Escrevem.
(https://medium.com/mulheres-que-escrevem/uma-tradu%C3%A7%C3%A3o-de-e-um-reencontro-com-warsan-shire-212e44870cd6)

Sobre esse poema, gostaria de fazer ainda duas observações: 1) Na segunda estrofe, a autora utiliza um provérbio somali (“Nin soo joog laga waayo, soo jiifso aa laga helaa”) que, em tradução livre, significa “aquele que não escuta avisos acaba entrando em confusão”. Shire já tinha usado provérbios dessa língua em outras ocasiões, como no título de sua plaquete de estreia publicada em 2011, Teaching My Mother How to Give Birth, que significa “Ensinando minha mãe a dar à luz”, e é uma tradução direta de um provérbio somali geralmente usado para censurar jovens que se julgam mais sábios que seus pais. 2) Quando lidos pela poeta em eventos, os dois primeiros versos da terceira estrofe costumam ser modificados: no lugar de “Pode ser que ela tenha um plano,/pode ser que ela tenha levado ele de volta pra casa (…)”, Shire lê “Pode ser que Rihanna tenha um plano,/pode ser que ela tenha levado Chris de volta pra casa (…)”, fazendo referência ao conhecido episódio em que o rapper Chris Brown agrediu fisicamente sua então namorada, a cantora Rihanna.

A tradução aqui apresentada é inédita e foi revisada por Larissa Andrioli, a quem agradeço.


A casa

i

Minha mãe diz que dentro de toda mulher
existem cômodos trancados: a cozinha do desejo
o quarto da tristeza, o banheiro da indiferença.
Às vezes os homens trazem chaves,
às vezes os homens trazem martelos.

ii

Nin soo joog laga waayo, soo jiifso aa laga helaa,
Eu disse pare, eu disse não, e ele não ouviu.

iii

Pode ser que ela tenha um plano,
pode ser que ela tenha levado ele de volta pra casa
só para fazê-lo acordar horas mais tarde,
numa banheira cheia de gelo, com a boca seca,
encarando sua nova e linda cicatriz

iv

Eu aponto pro meu corpo e digo Ah, isso aqui? Imagina, vesti correndo.

v

Você vai comer isso aí?
Eu pergunto pra minha mãe, enquanto aponto pro meu pai, servido na mesa com uma maçã inteira na boca.

vi

Quanto maior meu corpo, mais cômodos trancados e mais homens chegando com chaves. Artur não forçou a entrada até o fim e eu ainda penso em tudo que ele poderia ter inaugurado dentro de mim. Bruno veio e ficou três anos na porta. João, o dos olhos azuis, chegou com a caixa de ferramentas que ele costumava usar com outras mulheres: um grampo, um vidro de alvejante, um canivete e um pote de vaselina. Vitor chamou por Deus pela fechadura e ninguém respondeu. Alguns imploraram, alguns me escalaram buscando uma janela, alguns disseram que já estavam saindo, que estavam a caminho, e nunca vieram.

vii

Mostra pra gente, aqui na boneca, onde te tocaram, eles dizem.
Eu não sou uma boneca, eu sou uma casa, eu digo,
e eles dizem: então mostra na casa.

Assim: dois dedos enfiados na geleia
Assim: um cotovelo submerso na banheira.
Assim: uma mão dentro da gaveta.

viii

Preciso te contar sobre meu primeiro amor: ele achou um alçapão embaixo do meu seio esquerdo há nove anos, caiu e ninguém nunca mais o viu. De vez em quando sinto algo se arrastando pelas minhas coxas. Se ele aparecesse por aqui, eu provavelmente o deixaria sair. Espero que ele não tenha esbarrado nos outros caras lá esquecidos, meninos do interior, agora sumidos, filhos de mães simpáticas, que fizeram coisas erradas e se perderam no labirinto dos meus cabelos. Até que os trato bem, dou uma fatia de pão ou uma fruta quando se comportam. Menos João, o dos olhos azuis, que arrombou minhas fechaduras e se esgueirou aqui para dentro. Menino mau, acorrentado no porão dos meus medos, escuto música para não escutá-lo.

ix

Toc toc
Quem é?
Ninguém.

x

Nas festas eu aponto pra mim mesma e digo
É aqui que o amor vem pra morrer.
Bem-vindo, entre, sinta-se em casa.

Todo mundo ri.
Eles pensam que estou brincando.

The House

i

Mother says there are locked rooms inside all women; kitchen of lust,
bedroom of grief, bathroom of apathy.
Sometimes the men – they come with keys,
and sometimes, the men – they come with hammers.

ii

Nin soo joog laga waayo, soo jiifso aa laga helaa,
I said Stop, I said No and he did not listen.

iii

Perhaps she has a plan, perhaps she takes him back to hers
only for him to wake up hours later in a bathtub full of ice,
with a dry mouth, looking down at his new, neat procedure.

iv

I point to my body and say Oh this old thing? No, I just slipped it on.

v

Are you going to eat that? I say to my mother, pointing to my father who is lying on the dining room table, his mouth stuffed with a red apple.

vi

The bigger my body is, the more locked rooms there are, the more men come with keys. Anwar didn’t push it all the way in, I still think about what he could have opened up inside of me. Basil came and hesitated at the door for three years. Johnny with the blue eyes came with a bag of tools he had used on other women: one hairpin, a bottle of bleach, a switchblade and a jar of Vaseline. Yusuf called out God’s name through the keyhole and no one answered. Some begged, some climbed the side of my body looking for a window, some said they were on their way and did not come.

vii

Show us on the doll where you were touched, they said.
I said I don’t look like a doll, I look like a house.
They said Show us on the house.

Like this: two fingers in the jam jar
Like this: an elbow in the bathwater
Like this: a hand in the drawer.

viii

I should tell you about my first love who found a trapdoor under my left breast nine years ago, fell in and hasn’t been seen since. Every
now and then I feel something crawling up my thigh. He should make himself known, I’d probably let him out. I hope he hasn’t
bumped in to the others, the missing boys from small towns, with pleasant mothers, who did bad things and got lost in the maze of
my hair. I treat them well enough, a slice of bread, if they’re lucky a piece of fruit. Except for Johnny with the blue eyes, who picked my locks and crawled in. Silly boy, chained to the basement of my fears, I play music to drown him out.

ix

Knock knock.
Who’s there?
No one.

x

At parties I point to my body and say This is where love comes to die. Welcome, come in, make yourself at home. Everyone laughs, they think I’m joking.


Warsan Shire nasceu no Quênia em 1988, mas cresceu em Londres. Estudou escrita criativa na London Metropolitan University. É autora de Teaching My Mother How To Give Birth (flipped eye, 2011) e Her Blue Body (flipped eye, 2015). Em outubro de 2013, Shire foi selecionada como a primeira poeta jovem laureada de Londres. Teve alguns de seus versos usados por Beyoncé em canções e videoclipes de Lemonade (2016) e colaborou com o roteiro de “Black Is King”, álbum visual lançado por Beyoncé em 2020.

Laura Assis (Juiz de Fora, 1985) é doutora em Literatura pela PUC-Rio e atua como poeta, editora, tradutora e professora. É autora do livro Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014) e de três plaquetes de poesia. Participa do coletivo editorial Capiranhas do Parahybuna, é uma das editoras da revista ADobra e professora de Língua Portuguesa e Literatura no CAp. João XXIII/UFJF.