essa língua tão áspera: “Gatas Selvagens” e a ~língua bastarda~ de Claire Finch e Élodie Petit, por Izadora Xavier

É manhãzinha e estou ouvindo as vozes de Claire e Elódie com risos ao fundo no ano de 2019. Costumava ter um ouvido difícil quando não olhava os olhos das mulheres antes desse ano de 2019, e então desde que o mundo passou a ser contado em a.p, d.p (antes da pandemia, depois da pandemia), meus olhos pedem descanso e ligo nuvens nos ouvidos. Ouço com essa atenção de quem vai para Paris, de quem entra nos timbres e ritmos e risos e tintins. Para o nosso prazer, continue a ler comigo ouvindo isso, assim como uma atenção partilhada: https://soundcloud.com/clarkefinch/jai-toujours-aimee-les-filles-sauvages-de-claire-finch-et-elodie-petit

Eu havia lido as “Gatas selvagens” primeiro em português sem saber quem eram suas autoras, apenas imaginando, e adorando sapatão – a história do desejo -, de onde pudessem ser e sem saber de onde eram e então somos eu e as gatas tantas que se arranham e se embrenham e assanham e viçam gostoso linguarudes (evoé, rafa miranda). O que tu chamas “tô ficando atoladinha” é tão somente a pomba-gira que giro minha língua. Ah, o que tu chamas tu somos.

Fiquei muito curiosa e fui lá brechar o texto, seu primeiro original antes do original em brasileiro, e olha, é uma zine. Eu paro aqui para as digressões dominicais  – de quando era uma selvagenzinha e estava começando a experimentar a cidade e a poesia de uma ~outra forma~ não escolarizada, fora das bibliotecas, através justamente das fanzines de punk-rock (e também do rap com a vizinhança e meus irmãos e primos), e isso foi fundamental para o meu entendimento de “eu sou poeta/ sou publicadora” et allie. – e fico atoladinha mesmo lendo meio molhadinha essa confusão de línguas e isso que sempre digo ~duas línguas dão mais prazer que uma~, e os vários rasgos e risos, embora inscritamente não leia risos, eu entendo os risos que ouço agora nessa nuvem, porque é essa coisa de entrelinhas, como a selvagenzinha que está ali e, penso agora, eu que sempre escrevo tão erradamente o português, hoje até que não, como forma de abastardar o texto que comento. 

Mas para quê comentar o que nossa tradutora comenta e traduz? Ah, sim, porque uma experiência individual é também coletiva, porque a selvagenzinha são tantas olhando-se num espelho de oxum e hoje erguendo a voz em saraus muito muito selvagens. Hoorray!

nina rizzi

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Claire Finch

é escritorx e pesquisadorx cujo trabalho sampleia teorias feministas e queer como formas de intervir na narrativa. Sua pequisa doutoral na universidade de Paris 8 explora as ligações entre a teoria experimental queer e o ativismo feminista acontecendo nos anos 70 na Universidade de Paris 8. Seus projetos mais recentes incluem a plaquete I Lie on the Floor(After 8 Books), o trabalho editorial na publicação da coleção dos primeiros textos datilografados de Kathy Acker em Kathy Acker 1971-1975 (Editions Ismael, 2019) e a tradução para o francês de Debbie: An Epic, de Lisa Robertson (Debbie une épopée, Joca Seria, 2021). [https://clairefinch.com/]

Élodie Petit 

é artista e poeta. Ela experimenta a literatura de um ponto de vista feminista e político sob o prisma das identidades de gênero e das relações sociais de classe. Ela publica regularmente em revistas literárias contemporâneas (Terrain Vague, Nioques, Mouvements, Féros etc.) e performa seus textos em bares lésbicos ou instituições de arte contemporâneas (CAC de Genève, Fondation Ricard Paris, Le Magasin des Horizons Grenoble etc.). Desde 2011, ela está à frente de um projeto de edição de zines que se consagra às escritas marginais e engajadas, Les éditions douteuses. Faz parte de diferentes coletivos de autorxs (RER Q, TON ODEUR) e organiza os sarais de poesia experimental-sapatão CANETTE. Publicou recentemente seu primeiro livro Fiévreuse Plébéienne pela Rotolux Press. Vive e trabalha em Paris. [http://elodiepetit.fr/]

Isadora Xavier – a tradutora

Nasceu em Fotaleza, Ceará e cursou relações internacionais na UnB. Fez um mestrado em sociologia em Paris, quando se tornou frequentadora assídua dos saraus de poesia experimental sapatão feminista. Desde então, tenta traduzir seu estado fronteiriço entre o Brasil e a França, entre a metrópole e a pós-colônia, entre o queer e o feminino em textos publicados nas revistas Raimundo, escamandro, Rosa e, mais recentemente, na coleção A Chama Depende do Combustível. É redatora do webzine queer militante Friction e performou um par de vezes na Station – Gare des Mines em Paris. 

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J’ai toujours aimé les filles sauvages é uma fanzine escrita a quatro mãos por Finch/Petit – em inglês&francês – publicada pelas edições Suck Campari Dyke, das quais xs autorxs são também xs iniciadorxs.

Uma parte desses textos — mais precisamente o manifesto de autoria dupla “O desejo forma toda escrita protege o teu desejo” — foi publicado na revista cheia do É selo de língua em novembro de 2020. Alguns poemas de Élodie, intitulados Arthur Rimbaud A Sapatão, foram publicados na revista Intempestiva n. 4.

Sobre a tradução, eu devo dizer que eu já nem sei mais porque eu fui embora do Brasil e, francamente, eu meio que não vejo a hora de voltar. Parece estranho, já que quando eu cheguei na França o Brasil estava na crista da onda e agora é o contrário. Ou talvez seja por isso mesmo. Imigrar é uma parada estranha, tão difícil de explicar, o estrangeiro ao mesmo tempo tão romantizado e tão vilipendiado (a estrangeira existe?). O lado positivo como o negativo apenas imagens invertidas do poder todo que se inventou para Estados e fronteiras. Acho que quero dizer que finalemente eu imigrei como gesto de rebeldia? Na continuidade dessa rebeldia, eu não apenas saí do Brasil mas, movimento contínuo de volta para uma casa que nunca conheci, saí da heterossexualidade também. O exílio quer dizer perder tanta coisa, mas quer dizer ganhar também.

Perder a própria língua, ganhar outras. Eu comecei a traduzir Élodie e Claire porque parecia estranho viver coisas tão incríveis quanto os saraus de poesia experimental-sapatão que elas organizam, Canette, beber cerveja no meio-fio com todas as minhas amigas mari-macho parisienses, e não saber falar de nada disso em português.

Eu comecei a traduzir Élodie e Claire porque queria transformar a minha língua materna em língua parente: quer dizer, recriar minha ligação com o português não como língua legada que segue uma lógica reprodutiva, mas como “língua bastarda” na qual eu reivento minha relação com o mundo e com as pessoas com quem sinto proximidade lusófona, para poder falar com elas da reinvenção do meu corpo e das minhas formas de amar. Queria compartilhar com essa parentada a ideia de ser minoria de gênero e de falar de prazer, de explodir todas as línguas, de pervertê-las, de salvá-las da redução ao papai-e-mamãe, como agorinha mesmo é isso aqui que está acontecendo quando você me lê. Para falar do que é existir no meu corpo marcado pelo sexo em português. Há para mim alguma verdade no português que eu não encontro em outro lugar e que eu preciso urgentemente desmentir. Por exemplo: que melhor hora para meter a língua nas fissuras do que quando o mundo parece desabar? No Brasil, ele está sempre desabando, e a gente está sempre lá, não? Com o dedo na fissura. Falemos disso. A partir dessas brechas permanente abertas e contra os adoradores da morte, gastaria de contribuir traduzindo/inventando algumas verdades gozosas de pós-mulher.

Além do mais, os textos em si já operam essa tranformação do parentesco com a língua, Claire et Élodie transformando cada uma sua língua materna em língua bastarda. Essa tradução é um jeito de forçar a amizade. E é feita de forma irreverente, e eu me permito, onde faz sentido para mim, trazê-la para o mais perto possível do meu corpo em português. É assim que “jemouillejemouillejemouille” vira “touficandoatoladinhatouficandoatoladinha”. Na hora de traduzir, foi a referência que me veio à cabeça, talvez porque eu estava pensando num bando de sapata bebendo cerveja no meio-fio e que tipo de som poderia estar saindo do carro de alguma delas? Bola de fogo talvez seja um imaginário muito hétero, mas achei que cabia pirateá-lo. Originalmente, jemouillejemouille não é referência à canção nenhuma, acho que nessa França nem o rapeiro mais sacana pensaria em ser tão explícito… “J’ai toujours aimé les filles sauvages” brinca muito, e brinca com um imaginário pornográfico cishet que é sempre meio zoado/subvertido, e é aqui que o funk entra e todas as outras “pombas-gira”, como me disse Nina (achei que no final de uma náite em que enchemos a cara, querer comer coxinha de padaria fazia mais sentido do que querer comer “tacos”) . A ideia aqui é que não há ponto de entrada e saída para as línguas que seja mais limpo do que o outro, mais adequado, correto. Procura a entrada e a saída que parecem mais gostosas, a alegria é a prova dos nove, vulgar sem ser sexy, essa é uma tradução safada, leia com suas amigas, roube as ideias das pessoas que você ama, deixe as pessoas que você ama roubar as suas, pirateie.

Izadora Xavier

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“LÉSBICAS criaram um pequeno mundo nas profundezas e ao largo desse mundo (…) Ou você está apaixonada por alguém ou não está. O principal de estar apaixonada é que você sabe que está apaixonada: ou você está voando ou você está a ponto de se matar.”

Kathy Acker, Eurídice no Submundo 

Eu sempre gostei das gatas selvagens

sumário 

Ressaca-recife é um momento vazio na beira de um cinzeiro cheio do suco dela, porque TUDO É CENÁRIO PARA O DESEJO, E SEU CORRELATO, DESESPERO, eu quis ainda assim a boca, no entanto Amar é difícil mas o amor é uma vaca, o que nos deu coragem e vontade de tirar toda a nossa roupa e de se juntar todas numa mesma sala NO QUAL ESSA MINA TROUXE POPPERS PRO GRUPO DE LEITURA: assim nasceu a  Língua bastarda 

[…]

Para preservar a formatação especial do texto optamos por disponibilizar o pdf para download. Clique para baixar, é realmente um acontecimento literário!


[Na imagem em destaque: étaïnn zwer, Camille Cornu, Rébecca Chaillon, Wendy Delorme, Élodie Petit & Claire Finch, da coletiva RER Q.]

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