XANTO | Adam Zagajewski: In Memoriam, por Marcelo Paiva de Souza

Em meio a tantas, em toda parte, nos tempos que vamos vivendo – quantas mais, em nosso país, sob as torpezas de um necrogoverno desabridamente aliado à pandemia? –, a morte do poeta polonês Adam Zagajewski (1945-2021) em Cracóvia no último dia 21 de março não chegou de pronto a meu conhecimento. Ao contrário da suspeita que já acorre quase que num reflexo, a causa mortis não foi a covid-19. Como quer que seja, porém, o sentimento de perda não se atenua por isso. Para expressá-lo, Anna Arno, jovem ensaísta, tradutora e escritora polonesa, lançou mão das palavras de outro grande poeta de sua nação, Leopold Staff (1878-1957): “I rośnie, rośnie pustka dokoła olbrzymia” – “E cresce, cresce em redor um vazio imenso” (o verso pertence a “Martwa pogoda” – “Tempo morto”, poema de livro homônimo, publicado por Staff em 1946; o breve e tocante texto de Anna Arno toma emprestado o mesmo título – ver Martwa pogoda – wydawnictwoproby).
Deixo aos obituários a difícil tarefa de apresentar sinoticamente vida e obra de Zagajewski a quem delas não tenha notícia (entre outros, vale conferir Muere el poeta polaco Adam Zagajewski, premio Princesa de Asturias de las Letras 2017 | Cultura | EL PAÍS (elpais.com) e Adam Zagajewski obituary | Poetry | The Guardian; para um texto com acento mais pessoal, ver Adam Zagajewski ist tot: Ein Nachruf von Michael Krüger – WELT). Meu propósito aqui é apenas render um pequeno tributo à memória do autor, compartilhando um punhado de seus versos em tradução para o português do Brasil. A maior parte dos poemas que se seguirão leva minha assinatura como tradutor. Mais ou menos perto de um resultado que me satisfizesse, os textos estavam na gaveta há vários anos e foram retomados e concluídos (?) agora, para que viessem a lume no Escamandro. Mas me pareceu oportuno, igualmente, que o gesto de tributo a Zagajewski se desdobrasse também em uma homenagem a seus primeiros tradutores entre nós, aos colegas de métier que envidaram esforços, em iniciativas pioneiras, para incorporar a poesia zagajewskiana ao acervo literário brasileiro.
Datadas de meados e de fins dos anos 1980, essas investidas tradutórias inaugurais infelizmente (ainda) não culminaram no que seria preferível: a publicação em livro de poemas de Zagajewski em versão brasileira. Ambas tiveram seu impacto, decerto, não obstante a veiculação limitada. Achando-se em evidência para além do meio impresso, poderão quem sabe chegar a mais leitores – e ampliar, assim, pouco a pouco, a incipiente recepção do autor polonês em nossas letras (no mundo, ela já vai longe, sem excluir Portugal — em 2017, em Lisboa, uma antologia da produção poética zagajewskiana foi dada à estampa pela editora Tinta-da-china: Sombras de sombras; selecção e trad. de Marco Bruno, revisão de Jorge Sousa Braga).
Salvo engano, devemos à parceria de Grażyna Drabik e Ana Cristina Cesar os primeiros versos de Adam Zagajewski traduzidos e postos em circulação no Brasil. Os textos foram publicados – juntamente com obras de Czesław Miłosz, Anna Kamieńska, Anka Kowalska e Ryszard Krynicki, entre outros – em “Poemas da greve e da guerra”, quarta e última parte do volume Polônia: o Partido, a Igreja, o Solidariedade, nº 15 dos Cadernos do ISER, organizado por G. Drabik e Rubem César Fernandes (Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos da Religião; Marco Zero, 1984, p. 321-341). Enriquecendo o material enfeixado no volume, que se propôs o objetivo de “fornecer elementos para a compreensão […] do Solidariedade” (p. 7), os “Poemas da greve e da guerra” trazem uma seleta de versos que prestam testemunho, conforme arrazoa Drabik, da “importante presença” dos poetas no bojo do movimento, em desafio aos órgãos de repressão do Estado, “às mentiras oficiais, à propaganda ufanista, ou ao cômodo silêncio” (p. 324). A dicção ríspida e alerta de “Espinhos” (p. 339), característica da poética zagajewskiana até aquela altura (o poema é de 1982), fornece um bom exemplo da gama de vozes reunidas na seleta – e do engenho tradutório que as recriou:

Se os ditadores quisessem
ler os nossos poemas ferozes, raivosos
e bem trabalhados, a poesia
certamente mudaria o mundo. Mas
as rosas também não conhecem os versos
que lhes são dedicados. Os espinhos
não bebem sangue.

Originadas em um contexto conturbado, um movimento corajoso e arrebatador de protesto, com maciça adesão social, a que o regime então em vigor respondeu com máxima violência – cassetetes, tanques e lei marcial –, as vozes poéticas vertidas por Grażyna Drabik e Ana Cristina Cesar repercutiram num Brasil também turbulento, de manifestações multitudinárias pelas “Diretas Já” e uma ditadura que, muito embora estertorante, teimava em não acabar… Hoje, em vista de tudo que restou do Brasil daqueles dias – e teima em não acabar, a leitura de “Espinhos” guarda suas arestas e ganha nova pungência.
Na Polônia e no mundo, eram bem outras as circunstâncias quando Zagajewski constituiu objeto de mais uma empreitada de tradução entre nós. Em fins de 1989, em Brasília, dá-se à estampa no Suplemento nº 3 da revista Aproximações – Europa de Leste em Língua Portuguesa, em inspiradíssima versão brasileira de Henryk Siewierski, com revisão de José Santiago Naud, “Eliade” (p.13-14):

Romênia, melancolia, longos passeios
a pé ou de canoa (a tempestade no Danúbio
podia terminar em tragédia),
depois a viagem à Índia, Lisboa, Londres,
afinal Paris – rue Vaneau – e Chicago.
Quis ser como Buda ou Sócrates –
tirar-nos dos porões da história.
Centelha dos deuses – conjurava –, ensina-me o riso da alegria!
Centelha dos deuses, põe de pé os combalidos
refugiados da Moldávia, que dancem, que esqueçam
as casas arruinadas, a enchente, os túmulos.
Judeus, já não tenhais medo das perseguições,
espera-vos um momento de êxtase, a felicidade.
Centelha dos deuses, livra-nos da tirania trivial
dos Neros, dos Tibérios modernos;
ar, abre as comportas da magia.
Pois se até objetos miúdos – alfinetes,
correias, pentes – conhecem o sabor da eternidade.
Os arqueólogos acaso não os encontram
na poeira e no barro onde repousam, em paz,
como se fossem sonhados pelos grandes pintores?
Pensionistas deste século, não sabeis
que por toda parte há lumes de júbilo,
que os bons espíritos seguem-nos na ponta dos pés
e que seus corações invisíveis batem levemente
como os pequenos martelos numa ária de Mozart?
O historiador da religião – escreveu sobre ele
Cioran – não sabe rezar.
A salvação é uma onda alta, cega, quebrando
em costa de areia, se houver costa, oceano,
nuvem negra e lua, governadora do céu.
Os demônios da Europa do Leste, que eram sua paixão,
vieram ao seu funeral no cemitério americano
e riram inaudíveis, com admiração.

Siewierski recria em português um poema que, à primeira vista, sequer parece obra do mesmo autor de “Espinhos”. Esculpindo em verso uma notável estela funerária para Mircea Eliade, Zagajewski adota uma dicção grave e caudalosa, que intercala, com arte requintada, rememoração e reflexão, notas elegíacas, mas também luminosas. Assim, entre serenidade e arroubo, o autor polonês evoca não apenas o estudioso romeno; em relances, vão emergindo paisagens e dramas daquela outra Europa, que experimentou tão de perto tantos cataclismos da história no século XX.
Mais um deles, aliás, estava em curso na altura em que “Eliade” é publicado em nosso idioma. Recordemos que 1989 assinala um ponto crítico na desintegração do antigo bloco socialista: a cortina de ferro afinal ia se rompendo (no caso polonês, em particular, avançam decididamente ao longo daquele ano as transformações no sistema político do país). O signum temporis da operação tradutória, de novo, merece destaque, sem mencionar o fato de que ela é levada a cabo por um europeu do Leste radicado em solo brasileiro. A “centelha dos deuses” do texto zagajewskiano não havia justamente se deixado conjurar? Não era hora do “riso da alegria” e de intensos “lumes de júbilo”? “Centelha dos deuses, livra-nos da tirania trivial/dos Neros, dos Tibérios modernos”! Do seu presente ao nosso, o traslado de Siewierski assume inflexões singulares, reverberando – lá e cá – em inesperados, sugestivos efeitos de sentido.
Quanto aos poemas que traduzi, algumas observações apenas, para que não tarde mais o momento da leitura dos próprios textos. A diretriz de escolha tentou combinar os caprichos do gosto pessoal e critérios básicos de representatividade: abrangência cronológica, por um lado; por outro, diferenciação temática e formal. O conjunto de obras é quantitativamente modesto, mas a despeito disso contempla distintas etapas e facetas do verso zagajewskiano. “Plany, sprawozdania” (Planos, relatórios) e “Komunikat” (Comunicado) pertencem a List (Carta), que tem uma primeira edição clandestina em 1978; “W cudzym pięknie” (Na beleza alheia) pertence a Oda do wielości (Ode à multiplicidade), cuja primeira edição, também clandestina, data de 1982 (o volume incluiu uma versão ampliada de List); “Oglądając Shoah w pokoju hotelowym, w Ameryce” (Vendo Shoah em um quarto de hotel, na América), integra a coletânea Płótno (Tela), de 1990; por fim, “Spróbuj opiewać okaleczony świat” (Tenta cantar este mundo machucado), é de Anteny (Antenas), livro publicado em 2005. “Planos, relatórios” e “Comunicado” são poemas que remontam aos inícios da trajetória criativa de seu autor (Zagajewski estreia em fins dos anos 1960, no contexto da assim chamada “Nowa Fala” [a Nova Onda] – mais detalhes em Adam Zagajewski – Biography | Artist | Culture.pl); “Na beleza alheia”, “Vendo Shoah em um quarto de hotel, na América” e “Tenta cantar este mundo machucado”, por seu turno, fornecem amostra de levas posteriores da produção poética zagajewskiana, em seu estilo maduro.
A edição de que me vali para as traduções é a antologia Wiersze wybrane (Poemas escolhidos; Kraków: a5, 2010), com exceção de “Plany, sprawozdania”, texto não incluído na obra e para o qual recorri a uma recente reedição em e-book de List. Oda do wielości (Warszawa: Biblioteka Narodowa, 2021; disponível gratuitamente em List ; Oda do wielości – Zagajewski Adam | Polona). A discussão de problemas do processo tradutório – e das soluções que dei a eles – seria demorada; terá de ficar para outra ocasião. Tampouco me permiti o acréscimo de notas aos poemas em português, fossem elas de cunho tradutológico ou tão-só informativo. Cabe todavia alertar que nos versos assombrosos de “Vendo Shoah em um quarto de hotel, na América” o diálogo interartes com o filme de Claude Lanzmann envolve claras referências biográficas: Zagajewski passou a infância e a adolescência em Gliwice, cidade a cerca de 60 km de Oświęcim.
“Tenta cantar este mundo machucado” encerra a breve sequência de textos aqui reunidos. Como é o caso no original e nas muitas línguas em que está traduzido, que seus versos sejam também para nós uma espécie de memento. E, talvez, um pouco de consolo.


Plany, sprawozdania

Naprzód są plany,
potem sprawozdania
Oto jakim językiem
umiemy się porozumiewać
Wszystko musi być przewidziane
O wszystkim trzeba
później opowiedzieć
To, co zdarza się naprawdę
nie zwraca niczyjej uwagi

Planos, relatórios

Primeiro são os planos,
depois os relatórios.
Eis a língua em que
conseguimos nos entender
Tudo tem de estar previsto
Mais tarde é preciso
relatar tudo.
O que acontece mesmo
não chama a atenção de ninguém.


Komunikat

Jeśli żyjesz w państwie deficytowym,
w którym wielka ilość przemówień
równoważy wszystkie niedomówienia,
w którym ogrody botaniczne i zielniki
są wzorem poprawności językowej
a ulubioną potrawą ludności
są gołąbki pokoju, jeśli mieszkasz w kraju,
w którym płoną róże, ulice są coraz szybsze,
miasto pochyla się jak słonecznik
i jednomyślnie rosną lasy,
gdzie każdy nosi przy sobie swoją fotografię
i imiona zmarłych, gdzie wyznaje się
ironiczną religię wspomnień i podwójnej wiary,
napisz do mnie; zbieram widokówki,
interesuję się muzyką, malarstwem,
filatelistyką, sportem i poezją.

Comunicado

Se você vive em um Estado deficitário,
em que o grande número de discursos
compensa tudo que não é dito,
em que jardins botânicos e herbários
são um modelo de correção de linguagem
e o prato predileto da população
são as pombas da paz, se você mora em um país
de rosas que queimam, de ruas cada vez mais rápidas,
em que a cidade se curva como um girassol
e os bosques crescem unanimemente,
onde cada um traz consigo sua foto
e os nomes dos mortos, onde se professa
uma irônica religião de lembranças e de dupla fé,
me escreva; coleciono postais,
me interesso por música, pintura,
filatelia, esporte e poesia.


W cudzym pięknie

Tylko w cudzym pięknie
jest pocieszenie, w cudzej
muzyce i obcych wierszach.
Tylko u innych jest zbawienie,
choćby samotność smakowała jak
opium. Nie są piekłem inni,
jeśli ujrzeć ich rano, kiedy
czyste mają czoło, umyte przez sny.
Dlatego długo myślę, jakiego
użyć słowa, on czy ty. Każde on
jest zdradą jakiegoś ty, lecz
za to w cudzym wierszu wiernie
czeka chłodna rozmowa.

Na beleza alheia

Só na beleza alheia
há consolo, na música
alheia, na poesia alheia.
Só nos outros há salvação,
embora saiba a ópio estar
sozinho. Os outros não são o inferno
quando os vemos de manhã e
têm a fronte limpa, lavada pelos sonhos.
Por isso penso longamente
na palavra a usar, ele ou você. Cada ele
é traição de algum você, mas
em troca o poema alheio espera
para uma conversa certa e serena.


Oglądając Shoah w pokoju hotelowym, w Ameryce

Noc bywa delikatna jak sierść źrebaka,
ale my wolimy szachy lub karty: oto
goście hotelowi śpiewali happy birthday to you
a jednooki telewizor obojętnie tasował obrazy.
Drzewa mojego dzieciństwa przepłynęły ocean
i pozdrawiały mnie oschle z ekranu.
Polscy chłopi wdawali się w teologiczne spory
z jezuicką swadą, tylko Żydzi milczeli,
zmęczeni długim umieraniem.
Strumienie moich wakacji płynęły ostrożnie
przez nieznany sobie, obcy kontynent.
Wozy drabiniaste wiozły włosy zamiast siana
i skrzypiały ich osie pod puszystym ciężarem.
Jesteśmy niewinne, oświadczały sosny.
Esesmani zamienili się w kruchych starców,
lekarze walczyli o ich serce, życie, sumienie.
Było już późno, czułem podstępną falę senności.
Chciałem zasnąć, zasnąć, ale goście hotelowi
coraz głośniej krzyczeli happy birthday to you
(wołali głośniej niż umierający Żydzi).
Wielkie ciężarówki zwoziły gwiazdy z firmamentu,
pociągi jechały melancholijnie w deszczu.
Jestem niewinny, usprawiedliwiał się Mozart,
tylko osika drżała jak zawsze,
przyznając się do każdej zbrodni.
Gdzie jest mój dom, śpiewali czescy Żydzi.
Nie ma domu, domy płoną, w domach gwiżdże zimny gaz.
Byłem coraz bardziej senny i niewinny.
Telewizor zapewniał mnie: my obaj
jesteśmy poza wszelkim podejrzeniem.
Urodziny stawały się coraz bardziej huczne.
Usypane w sięgającą nieba piramidę
buty Oświęcimia skarżyły się cicho:
niestety, przeżyłyśmy ludzkość.
Śpijmy, śpijmy, nie mamy dokąd pójść.

Vendo Shoah em um quarto de hotel, na América

A noite costuma ser suave como o pelo de um potro,
mas preferimos o xadrez ou o carteado: alguns
hóspedes do hotel entoavam happy birthday to you
e o olho da televisão, indiferente, embaralhava imagens.
As árvores da minha infância cruzaram o oceano
e me saudavam secamente da tela.
Campônios poloneses se metiam em disputas teológicas
com uma verve de jesuítas, só os judeus calavam,
cansados de sua longa morte.
As correntezas das minhas férias fluíam cautelosas
em um continente desconhecido, estrangeiro.
Carroças carregavam cabelos em vez de feno
e seus eixos rangiam sob o peso macio.
Somos inocentes, declaravam os pinheiros.
Os SS se transformaram em frágeis idosos,
médicos lutavam por seu coração, vida, consciência.
Já era tarde, eu sentia uma onda ardilosa de sono.
Queria dormir, dormir, mas os hóspedes do hotel
berravam cada vez mais alto happy birthday to you
(clamavam mais alto que os judeus agonizantes).
Grandes caminhões traziam estrelas do firmamento,
trens seguiam melancolicamente na chuva.
Sou inocente, justificava-se Mozart,
só o choupo tremia como sempre,
pronto a confessar quaisquer crimes.
Onde é minha casa, cantavam os judeus tchecos.
Não há casa, as casas queimam, sibila nas casas um gás frio.
Eu me sentia mais e mais sonolento e inocente.
A televisão me assegurava: nós dois
estamos além de toda suspeita.
O aniversário era cada vez mais ruidoso.
Amontoados em uma pirâmide beirando o céu,
os sapatos de Oświęcim se queixavam surdamente:
eis, então, sobrevivemos à humanidade.
Durmamos, durmamos, não nos resta aonde ir.


Spróbuj opiewać okaleczony świat

Spróbuj opiewać okaleczony świat.
Pamiętaj o długich dniach czerwca
i o poziomkach, kroplach wina rosé.
O pokrzywach, które metodycznie zarastały
opuszczone domostwa wygnanych.
Musisz opiewać okaleczony świat.
Patrzyłeś na eleganckie jachty i okręty;
jeden z nich miał przed sobą długą podróż,
na inny czekała tylko słona nicość.
Widziałeś uchodźców, którzy szli donikąd,
słyszałeś oprawców, którzy radośnie śpiewali.
Powinieneś opiewać okaleczony świat.
Pamiętaj o chwilach, kiedy byliście razem
w białym pokoju i firanka poruszyła się.
Wróć myślą do koncertu, kiedy wybuchła muzyka.
Jesienią zbierałeś żołędzie w parku
a liście wirowały nad bliznami ziemi.
Opiewaj okaleczony świat
i szare piórko, zgubione przez drozda,
i delikatne światło, które błądzi i znika
i powraca.

Tenta cantar este mundo machucado

Tenta cantar este mundo machucado.
Lembra-te dos longos dias de junho
e dos morangos silvestres, gotas de vinho rosé.
Das urtigas que tomaram, metodicamente,
as casas abandonadas dos exilados.
Tens de cantar este mundo machucado.
Viste navios e iates elegantes;
um tinha pela frente uma longa viagem,
por outro, esperava apenas um salgado nada.
Viste refugiados seguindo para parte alguma,
ouviste carrascos cantarolando alegremente.
Tinhas de cantar este mundo machucado.
Lembra-te dos instantes em que, juntos
no alvor do quarto, a cortina se alvoroçou.
Volta na mente ao concerto, quando a música eclodiu.
No outono, colhias no parque os frutos dos carvalhos
e as folhas esvoaçavam sobre as cicatrizes da terra.
Canta este mundo machucado
e a peninha cinza perdida pelo tordo,
e a luz delicada que vagueia e se vai
e regressa.