Abecedário #2

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HISTÓRIA, por Dirceu Villa

a história é um pesadelo de que estou tentando acordar, diz stephen dedalus numa conversa com seu avaro empregador [defensor do reino unido sobre a irlanda], que lhe paga pouco e lhe dá uma lição, diga-se, gratuita sobre economizar. no princípio, história [histor: o sábio que conta] era narrar o atribuído ao atribuível; hoje, via marx, é economia política. a história como o sentido ordenado do tempo observável tem acompanhado a aventura humana no ocidente de extração europeia. a mesoamérica & as culturas pré-incaicas pensavam de modo compressivo: a porta do sol, da cultura tiahuanaco, tem uma abertura monolítica com o deus sol chorando seus raios, com cabeças de condor & puma; o relógio de sol, em pedra, de machu picchu; plumas, o sol; quetzalcóatl: serpente de plumas dos equinócios; o mapa das estrelas, como sabiam babilônios & egípcios, ou uma calçada em los angeles.

narrar os eventos por memória & para a memória: a anedota ciceroniana sobre o poeta grego simônides, que cantou um louvor ao rico scopas, comissionado pelo rico scopas, em um banquete oferecido pelo rico scopas. o louvor tinha algumas linhas dedicadas aos gêmeos castor & pollux, de modo que o rico scopas disse que pagaria apenas metade do contratado, & que se simônides quisesse o resto, que fosse cobrá-lo aos gêmeos. simônides é chamado à porta, dizem que há dois rapazes procurando por ele, mas, chegando lá, não há ninguém; no ínterim, o teto desaba sobre o rico scopas & seus convivas. quando é preciso identificar as pessoas nos lugares do desastre, simônides, voz das musas por ser poeta, sabe de memória onde cada um estava. a memória é um lugar.

& a mãe das musas. mnemosyne, a memória, preside sobre a poesia, a história & todas as artes, como entendiam os antigos gregos & latinos. em tupi, o tempo não se encontra registrado nos verbos da língua, mas nos substantivos, ensinando-nos que a ilusão do tempo não se encontra nas ações, mas é carregada por cada criatura, cada coisa; cada um traz um tempo em si. o tempo que aconteceu & acontecerá está acontecendo no que acontece. a memória se derrete & volta a se depositar na terra. dissera o sacerdote egípcio a sólon, como registra platão no timeu: “vocês gregos lembram de um dilúvio só, embora muitos tenham ocorrido antes, & disso vocês nada sabem porque gerações de sobreviventes morreram sem a capacidade de se expressar por escrito”.

a origem da sociedade tal como a vivemos no ocidente nasce com pólemos entre os gregos, a guerra que lhes dá civilidade em versos homéricos, as disputas da ágora em retórica persuasiva; a origem do ocidente não surge na filosofia ateniense togada, mas nos campos de batalha retratados em vasos bicolores. a suméria havia visto seus heróis deixar os muros sagrados de uruk em busca da imortalidade, quando a prostituta shamhat ensina todo o ensinável do bem-viver & da sabedoria ao então grosseiro herói enkidu, que aprende sobretudo a respeitá-la, filha de ishtar, deusa da noite.

poder, & não partilha, é a história humana: o que traz a um ponto focal victor hugo, stendhal, beethoven, abel gance, stanley kubrick, a pala d’oro, velázquez, & espalha numerosos cadáveres pela europa é napoleão, empinado nas costas de marengo, ou main dans le gilet, mas ainda não jaune. o fascínio da força do fascio, o feixe de gravetos que, enfeixados, são mais difíceis de quebrar.

o tempo se curvava a feiticeiros dentro de suas pedras de obsidiana, interrogando anjos em língua angélica, ou mergulhando os olhos numa água inquieta de futuro. menocchio, moleiro que sonhou a heresia da terra como queijo, & anjos como vermes, executado pela inquisição. a ciência nos afastou do escuro da superstição do passado em direção às luzes dos futuros fornos nazistas — dialética do iluminismo —, ou, arrematando francisco de goya y lucientes, que escreveu entre suas corujas de pesadelo, el sueño de la razón produce monstruos, pode-se dizer: e a insônia também. ibm se troca em letras como hal, o supercomputador que previne, por assassinato, as inevitáveis, indesejáveis falhas humanas.

a história portanto se contaria pelo lado vencedor — sublinha este nosso conto de guerra. a fama de comedores de criancinhas dos cartagineses [delenda est carthago]. o regime que lançou as bombas atômicas sobre hiroshima & nagasaki raramente é chamado totalitário. & a história assim envergonhada foi buscar nos farrapos dos vencidos a honra da coragem de perder, que lhes foi negada. se isso é a vitória, diria emily dickinson [67], sabem os que perdem. “vencer”, como disse mussolini & ainda há quem o repita, vincere. allende fala ao povo chileno em sua derrota de 11 de setembro, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo, & sobre o castigo moral que implicará a consequência de seu assassinato pelos militares, resumindo, la historia es nuestra y la hacen los pueblos.

ou “saio da vida para entrar na história”, disse antes getúlio vargas, dentro da longa tradição golpista de seu país, o brasil, golpista ele mesmo, vargas, & então golpeado [passeio vendo os fantasmas pelo museu da história, como o marquês de custine fez com a história russa vagando pelo museu hermitage, em são petersburgo, ao longo do neva, murmurando às sombras, seguido pela câmera insistente de sokúrov]. “come ananás, mastiga perdiz: teu dia está prestes, burguês”; e então, stálin.

derrubar a prisão da bastilha abriu o céu para o sol; robespierre pedindo a cabeça do rei aos cidadãos, que de sangue em sangue dão o trono aos carrascos. “as outras revoluções não exigiam senão a ambição, a nossa impõe virtudes” [8 thermidor, discours de robespierre]. virtù, a palavra intraduzível de maquiavel para se chegar ao poder, & para mantê-lo; ser magnânimo; lorenzo de’ medici massacra os assassinos de seu irmão, & rola no chão brincando com as crianças, escreve versos de filosofia platônica: la grandezza de’ nimici ch’egli aveva avuti l’aveva fatto grandissimo.

os tupinambás devoravam seus — dizemos — inimigos para devorar neles a ancestralidade anteriormente devorada pelo inimigo, & trazer de volta a tradição, ambígua, porque o herói guerreiro retorna trazendo em si também o inimigo: festejado & afastado. agora é o mesmo & o outro; “a imanência do inimigo”, demonstrou viveiros de castro, o que nos demonstraria um bom espelho & o bom-senso que nunca tivemos [ou seríamos como “meu tio, o iauaretê”].

a culinária, assim, conta a história. piero camporesi lembra, sobre o século XVIII: “laranjadas e limonadas (além, é claro, do café que, juntamente com o chocolate, tornou-se o líquido emblemático da nova sociedade de duas faces, nervosa e frouxa, álacre e lânguida, engenhosa e voluptuosa, que acordava tarde ou de manhãzinha) campeiam sobre a mesa iluminista”, aquela que condenou a magia como superstição, e cedeu tolerância àqueles que olhava do alto, embora não os compreendesse ou apreciasse.

[posso passar mil & uma noites entretendo os fios da história, desfiando-a pela manhã novamente]: virginia woolf o fez sob os bombardeiros da luftwaffe que passavam sobre sua casa, mas se recusava a participar de qualquer modo do esforço de guerra britânico: “ela (a mulher inglesa) não irá se comprometer a tomar parte em demonstrações patrióticas; nem vai assentir com forma alguma de auto-elogio nacional; não irá integrar nenhuma claque ou audiência que encoraje a guerra; estará ausente de desfiles militares e de cerimônias que encorajem o desejo de impor ‘nossa’ civilização ou ‘nosso’ domínio sobre outro povo”, pois a estrutura que leva às guerras vem de uma sociedade dos homens, & para os homens.

von clausewitz, oficial prussiano, tem um capítulo inteiro em seu tratado de estratégia militar para falar dos “fatores morais” numa guerra, sem saber, no século XIX, que woolf imaginaria que a única ajuda possível ao mundo dos homens seria libertá-los dessa mentalidade, porque “hitlers são gerados por escravos”, gente que tem medo, e não autonomia de pensamento. tucídides supunha a guerra inevitável entre o poder já existente e o poder emergente, & assim uma sociedade exclusiva; darwin entretanto propôs ao fim de seu descent of man o passo evolutivo da cultura, da compaixão & da partilha, quando a aptidão não for mais a força, mas o alcance de percepção, que é colaborativa [jung & frobenius igualmente o sabiam].

“isto é o que vocês acham que é a áfrica. tudo isso está errado: agora falaremos da civilização africana”, abrevio frobenius quando compilou em três páginas os clichês que um europeu razoavelmente educado estocaria em sua mente sobre aquele continente. frederick douglass, nos eua, escreveu que o mistério da leitura o convocava, em especial porque seu senhor [douglass fora, como milhões, escravizado] punha grande energia em puni-lo com extrema violência a cada esforço secreto de aprender a ler um livro. lemme tell you about black history: we are the original men [malcolm x ; spike lee]. filhos de cam, que leitura ainda pior da bíblia fez filhos do cão, & que george washington conservava em sua posse, & que thomas jefferson conservava em sua posse, & sobre o que o abolicionista joaquim nabuco escreveu: “cada ventre escravo dava ao senhor três ou quatro crias que ele reduzia a dinheiro; estas por sua vez multiplicavam-se, e assim os vícios do sangue africano acabavam de entrar na circulação do país”.

james baldwin, já no século XX, sobre a situação de ser negro nos eua [mas o tempo & o espaço se dobram]: “estou horrorizado com a apatia moral — a morte do coração que ocorre no meu país. essas pessoas vêm se iludindo há tanto tempo que realmente não acham que sou humano. baseio isso em sua conduta, não no que dizem, o que significa que se tornaram, em si mesmos, monstros morais”.

apatia moral fez da civilidade [ciuis, ciuitas] em países como portugal & brasil só mofo, azulejo quebrado, esquecimento. portugal por causa de d. sebastião, “rapazola tresloucado” [o disse antónio sérgio] & brasil pela vergonha de ser o que é, decidido a matar-se antes [subflor e mais flor, definiu sousândrade]. instrumento de morte, a reguladora “mão invisível do mercado”, de adam smith, que em the wealth of nations [1776] disse que pode pegar “os grupos inferiores de gente” e, por meio da “escassez de subsistência, pode pôr limites à subsequente multiplicação da espécie humana; e pode fazê-lo de nenhum outro modo senão por destruir uma grande parte das crianças”. porque, diz no capítulo VIII, “os salários do trabalho”, o homem é como “qualquer outra mercadoria”. ou o banqueiro rothschild: “que eu emita e controle o dinheiro de uma nação, daí não me importa quem faça suas leis”.

marx [1844], em “trabalho alienado”, propunha que a sociedade industrial operaria três afastamentos catastróficos no homem: 1) o da natureza; 2) o dos outros homens; 3) o de si mesmo. a invisibilidade do mercado industrial, a invisibilidade dos inimigos: o terrorista, o vírus pandêmico. o fim da história já foi anunciado, pela suposição de que a história possa ser interrompida por decreto. a história pode ser incômoda, aponta a cia chamando klaus barbie, o açougueiro de lyon, para ensinar torturas depois aplicadas em manifestantes da oposição às ditaduras, nas veias abertas da américa latina; mostra wernher von braun trabalhando para a nasa, entre milhares de nazistas que perderam a guerra & ganharam os eua. ler propaganda [1928], de edward bernays: “a manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. aqueles que manipulam esse organismo ignorado da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder decisório de nosso país”.

hoi áristoi (os poucos) e hoi pollói (os muitos): plutarco, nas vidas paralelas, emparelha alexandre, o grande, & júlio césar. contando a história de alexandre, lembra que ele foi aluno de aristóteles & que admoestara o mestre por publicar seus tratados para os não-iniciados, com o seguinte argumento: “o que agora nos resta para superar os demais, se essas coisas em que fomos particularmente instruídos se acham franqueadas a todos?” aristóteles imaginou o ser humano como o politikón zóon, & foi tão mal compreendido quanto sérgio buarque de hollanda, que imaginou o brasileiro como o homem cordial. não obstante, hermes trimegisto, na oitava parte do pimandro, definiu o ser humano como logikón zóon, um tipo feito, portanto, de uma parte mental, uma parte espiritual, uma parte racional, porque história é também lógos, o conceber, o discurso.

confúcio, perguntado por que alguém deveria conhecer as odes, respondeu: “para saber os nomes dos pássaros, das árvores, para saber fazer a corte amorosa, para poder ter a linguagem pronta para os encargos públicos e a filosofia”. quem o cita é ezra pound, que apoiou os fascistas, & cujo amigo, o poeta judeu-americano louis zukofsky — cuja primeira língua nem era o inglês, mas o iídiche — disse-lhe coisa pungente sobre a defesa do fascismo, “seja lá o que for que você desconheça, ezra, você deveria conhecer vozes”. a história cíclica da perda de empatia pelo próximo. surkov ou bannon. o historiador mario losano diria de autômatos japoneses, o ningyō, “semelhante ao humano”, & que philip k. dick veria revertido numa parecença do humano com a máquina, em 1968, o ano de um mês [maio] & uma cidade [paris].

para roland barthes, na revista cahiers du cinema, pier paolo pasolini se equivocara em usar os 120 dias de sodoma, livro do marquês de sade, como base para seu filme sobre a desumanização fascista, porque, segundo barthes, o fascismo é perigo grande demais para que venha simplesmente tomar o lugar dos libertinos: eu diria que há libertino & libertino, sade & casanova. sade: homem cioso das prerrogativas de seus privilégios; casanova: orgulhoso de seu próprio engenho & de sua luta para ser admitido entre os do andar de cima. sade quer apanhar do papai deus, casanova tem seu deus nas mulheres. pasolini focalizou o privilégio, o poder. poder: história até agora. partilha? nossa evolução, nova história.

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LUCIDEZ, por Marcelo Ariel

Ao contrário do que diz Cioran, não é igual ao nada. Qual seria essa luz do nada? Como o nada é improvável e sempre há algo, onde pensamos não haver nada, a pergunta se converte em ‘Qual é a luz de algo?’ A lucidez de Lúcifer ‘ parece uma boa frase mas é sutilmente redundante, é o mesmo que dizer ‘A luz da lâmpada’. A lucidez é um entrave para a fruição do topos intuitivo? Sinto que não. Qual relação entre ela e a revelação? É nula, quem confundiria marcas com sinais? Uns são guiados pelas marcas, outras por sinais. A lucidez dos animais não é um mito e talvez explique a opção de muitos pelo silêncio estratégico e de outros pelo silêncio transparente, ambos impenetráveis. A lucidez da poupa em ‘A reunião dos pássaros’ de Farid Attar. A concretude do quadrado da lucidez em oposição ao círculo de linhas quase apagadas da sabedoria. O hábito da lucidez nas crianças e nos loucos unindo de modo irreversível e original a lucidez e a franqueza criando o fatídico senso de outra realidade. A lucidez que deixa escapar o tempo presente e seus mecanismos internos. A lucidez das pessoas de cem anos diante do espelho: um tipo de luz que foge, sem origem e sem destino.

§

UTOPIA, por Ana Cláudia Romano Ribeiro

1 Vocábulo capcioso, polissêmico e elástico.

2

elas contaram
uma grave doença assolou a cidade
todas tiveram que permanecer em suas casas
mesmo que fossem minúsculas
e não tivessem jardim

uma delas permaneceu na banheira por meses
ali seus pés começaram a formigar
ela tirou uma foto e viu
(não acreditou)
não estava sozinha
seu pai no pé direito
sua mãe nos joanetes
nas unhas sua avó materna
de quem seriam as memórias dos sesamoides que não mais sustinham
seu corpo?

na banheira escrevia comia dormia
as plantas já entravam pela porta, que nunca era fechada
encomendaram-lhe um verbete
(ela amava dicionários, principalmente os inúteis)
sobre uma palavra de que não gostava
palavra melosa, que, aos desprevenidos contorcia
o rosto de quem a pronunciava dirigia
as sobrancelhas para o alto e para as laterais do rosto içava
leve as beiradinhas da boca em sorriso beatífico
praticamente lacrimejante
em cabeça quase inclinada

utopia

o verbete lhe irritava
a ninguém interessava saber de um narrador
mentiroso disfarçado e
ao mesmo tempo
atenção
ao mesmo tempo
um aniquilador de mentiras
ela só via isso
isso e sentia seus pés formigarem na água
da banheira
e olhava as plantas

um dia, depois de uma noite bem dormida na banheira
olhou seus pés
e não os encontrou
para onde fora a família?

havia nadadeiras
com grandes e leves beiradas
experimentou movê-las
em duas horas constatou que funcionavam
e que a faziam levitar
era ótimo e não atrapalhava

voltou ao verbete
ao cansaço no coração
e disposta escreveu
é uma bola de fogo
é barrada, mas vaza
tem porão e sótão
é boa pras pessoas, não é boa pras pessoas
é mofo e secação
sua incandescência depende da polissemia que nela se percebe
é quimera que devora a univocidade

utopia é pergunta com múltiplos pés
disse ela, nadejando
sereia voadora

O texto que colocou a palavra utopia em circulação veio ao mundo em finais de 1516, saído das máquinas da oficina tipográfica de Dieryck Martens, em Lovaina, sob os cuidados editoriais de Pieter Gillis e Erasmo. Chamou-se Libellus uere aureus nec minus salutaris quam festiuus de optimo rei publicae statu, deque noua insula Utopia (“Livrinho verdadeiramente de ouro, não menos salutar que divertido, sobre a melhor forma de república e sobre a nova ilha de Utopia”). Antes de tornar-se livro, na correspondência de seu autor, a terra inventada chamava-se Nusquama (palavra formada a partir do advérbio latino nusquam, “nenhum lugar”), mas isso não durou: ele logo a substituiu por um topônimo mais estimulante que traz em si a ambiguidade perturbadora de ser tanto não-lugar (ou-topia) quanto bom-lugar (eu-topia). Seu autor, Thomas More, amante de letras gregas e latinas, advogado, parlamentar, diplomata, foi um profundo conhecedor das mazelas sociais de seu país, a Inglaterra, e da política internacional, chegando inclusive a tornar-se chanceler em 1529 (e santo em 1935, mas isso são outros quinhentos). Sendo modelar, a Utopia moreana fecundou inúmeros textos a ela assemelhados, em que o funcionamento de cada instância de um agrupamento humano (terra, país, cidade, república) com variados graus de idealidade é descrito em detalhes: urbanismo, leis, educação, saúde, cultura, relação com os meios de produção, com a natureza, com metafísica, causas das misérias, etc. Está implicada na descrição não apenas o conhecimento dessas instâncias na vida empírica por parte de quem as descreve como também a crítica qualificada de seu funcionamento, que desperta a figuração de possíveis alternativas. Chegamos a uma primeira definição de utopia: ficção política que mimetiza o funcionamento de uma organização social ou comunitária provocando a exercitação do espírito (Montaigne pensava assim) de um modo específico; é, portanto, instrumento crítico com suas especificidades (André Prévost a vê como novidade epistemológica, ainda que ela tenha como ponto de partida a República platônica), cuja leitura coloca em funcionamento um crivo que peneira o justo e o injusto, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível nas diversas instâncias da organização social – a empírica e a ficcional; construto literário que mastiga todos os compartimentos do formigueiro humano com o mel da invenção; ao cidadão-leitor, sua digestão.

O verbete “Utopia” do Vocabulario Portuguez e Latino (1728) de Raphael Bluteau relaciona essa palavra ao título de uma “obra política, dividida em dous livros, composta por Thomás Moro, Chanceller mòr de Inglaterra, em que o dito Autor falla de Povos, que só na imaginação existem”. Apõe, em seguida, uma citação entre parênteses retirada da “Escola das Verdades, p. 475”, que sugere o uso metafórico do termo: “Tenho muito que admirar nas agudezas dos Políticos, mas com tudo isto as Utopias bem ordenadas, até agora fora dos livros se não tem achado”. Essa citação ecoa uma passagem do livro I do libellus aureus em que se coloca lado a lado a afirmação de serem já amplamente conhecidos os mais variados e terríveis monstros (“cilas e celenos rapaces, lestrigões populívoros e portentos imanes de mesmo teor”) e o fato de ainda serem desconhecidos “cidadãos organizados sã e sabiamente” (traduções minhas).

A Utopia, as obras que dela tiraram sua matriz composicional e o termo utopia tensionam ficção e realidade empírica de muitos modos que, a cada novo emprego, não cessam de contaminar-se, estender-se, reduzir-se, às vezes diluir-se – é na diferença e na especificidade de cada uso que o vocábulo merece ser escrutinado, pois é aí que o galo canta. Esse processo elástico de distensão e retração semântica da palavra utopia deu a ela mil nuances, inclusive, vale lembrar, negativas.

No século XVIII, junto a uma acepção positiva, a palavra é usada em sentido negativo, de projeto de reforma irrealizável, prospecção viajandona que suscita reprovação (Diderot, nesse sentido, emprega o adjetivo “utópico” para designar um raisonneur abstrait que pouco se ancora na realidade empírica). No século seguinte, quando se instalam os conflitos políticos que colocam em campos opostos o socialismo pré-marxista e burguesia (liberal ou conservadora), o termo torna-se por vezes, sinônimo, por vezes antônimo de comunismo ou de socialismo e, em 1848, vira xingamento. Nessa época, em que surge o movimento operário, o significado tão variável da palavra utopia depende do ponto de vista ideológico de quem a enuncia e em certos casos designa algum tipo de outro. Resumindo, os burgueses chamam de utopistas (em acepção negativa) os socialistas pré-marxistas e referem-se ao comunismo (sempre em acepção negativa, claro) como sendo uma utopia; os socialistas e comunistas da época não se entendem utopistas porque para eles utopia (irrealizável) é antônimo de socialismo e de comunismo (realizáveis); Louis Blanc vê a utopia como “idéia militante”, “a verdade de amanhã e, consequentemente, a verdade em estado revolucionário”; Lamartine, na mesma linha, considera as utopias “verdades prematuras”; Proudhon e Marx reprovam socialistas e comunistas por serem utopistas, ou seja, pessoas que improvisam sistemas que não têm a mínima chance de tornarem-se efetivos. Alguns dos “socialistas utópicos” chegam a definir utopia (em acepção positiva) sublinhando sua natureza exclusivamente ficcional, para diferenciá-la de suas próprias convicções, formulações e planejamentos. É o caso de Charles Fourier que, em 1822, escreverá: utopia é rêve d’harmonie sociale en pays fabuleux (“sonho de harmonia social em país fabuloso”) e, em 1841, c’est le rêve du bien sans moyen d’exécution, sans méthode efficace (“é o sonho do bem sem meio de execução, sem método eficaz”). Em 1845, Robert von Mohl propõe o termo Staatsroman (algo como um “romance sobre o Estado”) para designar as utopias literárias. Enquanto isso, continua-se a descrever o alhures que, nessa época, muitas vezes toma forma de projeções futuras de matiz eutópico (por exemplo, textos em que um personagem sonha com seu país no futuro, como A História do Brasil escrita pelo Dr. Jeremias no ano de 2862 e as Páginas da História do Brasil escrita no ano de 2000, do mineiro Joaquim Felício dos Santos).

Dito de outro modo, a utopia é uma batata quente.

É de suma importância ter em mente que há uma tendência permanente de reavaliação do termo utopia, de suas implicações e que, para formar uma ideia mais elaborada a respeito dessa palavra e não submergir no pântano da indiferenciação, é preciso investigar cuidadosamente cada ocorrência que esteja em apreço, caso contrário a palavra estoura como uma bola de sabão. Universal abstrato não tem serventia.

O verbete utopia no paradigmático Dictionnaire de l’Académie Française mostra uma evolução semântica que certamente relaciona-se com os acontecimentos e debates do contexto da revolução francesa, depois, do socialismo e, em seguida, com os acontecimentos em torno da primeira guerra mundial. Da quarta edição (de 1762), quando a palavra aparece pela primeira vez, até a oitava (de 1932), as definições vão acentuando a ideia de quimera e perdendo de vista a obra de Thomas More até o ponto de ela não ser mais citada na oitava edição. Na quarta edição, a palavra indica a obra de More, o plano de governo imaginário concebido segundo o modelo platônico. A edição de 1798 tira a referência à República de Platão e acrescenta a felicidade de todos como objetivo do plano de governo imaginário, acrescentando: Chaque rêveur imagine son Utopie (“Cada sonhador imagina sua Utopia”). A definição de 1835 continua praticamente a mesma, contendo um acréscimo: des vaines utopies (“utopias vãs”), que acentua o caráter de inutilidade, irrealidade e impossibilidade. A edição de 1932 reforça mais ainda esse caráter, além de retirar a menção à obra de More: Conception imaginaire d’un gouvernement, d’une société idéale. Par extension, il se dit d’une Chimère, de la conception d’un idéal irréalisable. Beaucoup de gens estiment que l’organisation de la paix universelle n’est qu’une utopie. (“Concepção imaginária de um governo, de uma sociedade ideal. Por extensão, diz-se de uma Quimera, da concepção de um ideal irrealizável. Muitos pensam que a organização da paz universal é tão somente uma utopia”). A segunda guerra mundial explode em seguida.

No século XX, observa-se uma tendência à reavaliação do socialismo pré-marxista e, junto com ela, uma reavaliação da palavra utopia. Gustav Landauer, por exemplo, entende o processo histórico como uma sucessão de topias (épocas relativamente estáveis) e de utopias (revoluções): reaktionärer Topie e revolutionärer Utopie. Karl Mannheim seguirá por aí, opondo ideologia e utopia e, dentro dessa última categoria, distinguindo utopias relativas (futuramente realizáveis) e absolutas (irrealizáveis). A palavra nada então no tanque da utopisches Bewußtsein (“consciência utópica”) ou utopisches Denken (“pensamento utópico”) e encontra seu desenvolvimento máximo em Ernst Bloch, que verá no marxismo uma utopia em curso. Para ele, a utopia é um sinônimo positivo de marxismo, é a matéria de que é feito o real, incompleto por natureza. A utopia nomeia a incompletude.

O Vocabulaire technique et critique de la philosophie de André Lalande talvez seja o primeiro a diferenciar utopia (todo projeto de estado ideal irrealizável) e método utópico (estratégia de pensamento que elabora hipóteses científicas). A ideia de utopia como método de análise da realidade empírica é retomada por André Prévost, que em 1978 traduz e lê a Utopia de More entendendo-a como instrumento crítico que fabula segundo uma lógica própria, possuindo uma poética específica que lida com o disfarce e a ironia e produz hipóteses, ou seja, é uma ferramenta crítica.

Note-se que, no geral, na bibliografia acadêmica, as especificidades retóricas, estilísticas, linguísticas de cada utopia literária parecem ter sempre ficado obnubiladas pela candência do tema da melhor república até 1950, quando Raymond Ruyer estabelece a diferença entre modo utópico (pensamento utópico), o exercice mental sur les possibles latéraux (“exercício mental sobre os possíveis laterais”), e gênero utópico (utopia literária), ou seja, a descrição de um mundo imaginário fora de nosso tempo e espaço, que funciona a partir de princípios diferentes daqueles da sociedade de quem os concebe.

Se no século XX as acepções positivas do vocábulo utopia prevalecem, o gênero se transforma e ramifica-se para dar conta da imaginação dos desenvolvimentos negativos do progresso técnico e científico. Brota a distopia (Nós, de Evgenin Zamiatin, é um marco), que será também fertilizada pelo fascismo e pelo estalinismo. Corta. Isso é assunto para outro verbete.

No século XXI, o último texto que li a respeito de utopia, fascinante como um vulcão, está disponível no site da editora Chão da Feira: “Utopias mapuche não binárias para um presente epupillan”, um texto escrito pela comunidade Catrileo+Carrión, traduzido por Bru Pereira e Lucas Maciel. A autoria desse texto, coletiva, está vinculada ao que é pillan (“mais-que-humano”), à itrofilmongen (“biodiversidade”), ao não-binarismo e ao mapu (“fluxo de matéria”) que está e toda vida animada e inanimada – ela é em si utopia realizada. É a própria comunidade autodesignada utópica que descreve seu funcionamento e suas razões de existir: ela reúne pessoas pertencentes aos mapuche, comunidade tradicional que bania quem acusavam de práticas homossexuais, baniam seus nomes e seus corpos, jogavam suas cinzas ao vento para que nunca regressassem. O presente epupillan desta comunidade é uma eutopia em pleno funcionamento que visa resgatar os banidos, condenados ao não-lugar distópico do vento apátrida. Visa também recuperar as memórias das experiências não-binárias pregressas vividas pela comunidade mapuche tradicional. Visa dar-lhes um lugar. Topia.

3 Coda. Não há muitas traduções da Utopia de Thomas More feitas por tradutoras. As filhas de More, Margaret, Elizabeth e Cecily, estudaram latim e inglês (além de grego e das ciências do cuidado com o corpo, com a alma e com a natureza: medicina, lógica, astronomia, matemática, teologia – essas coisas também estudou John, o bendito-é-o-fruto), mas não traduziram a Utopia. Margaret (“my dearest Meg”, dizia More), a filha preferida, escreveu cartas e traduziu uma obra de Erasmo (do latim ao inglês) e outra de Eusébio (do grego ao latim). Um tratado devoto sobre o Pai Nosso e um volume de história eclesiástica, respectivamente. Ela é, quase certamente, a primeira mulher não pertencente à nobreza a ter exercido o ofício de tradutora na Inglaterra. Mas ela não traduziu a Utopia e talvez nem pudesse sair do campo devocional cristão. Além disso, para ela, publicar não estava no horizonte possível feminino: para a autoridade paterna, as mulheres deviam manter na esfera doméstica qualquer fruto do estudo. A utopia das mulheres que conseguiam estudar tinha limites bem demarcados. Margaret é uma ilha acantonada em uma cena interior.