Maria do Carmo/Carminha Ferreira (1938—)

 

Todos sabemos, e já venho ficando rouco de falar (ou tendo LER de tanto escrever) esta paráfrase de Roman Jakobson sobre a Rússia: este país esbanja os seus poetas; porém, à diferença da URSS de então, o Brasil por vezes os deixa morrer à míngua, por vezes nem percebe sua existência; no mais das vezes até os deixa trabalhar aos trancos e barrancos, mas os relega a um canto qualquer. Não vou repetir nomes, que já mencionei demais. Hoje é dia de falar de Maria do Carmo Ferreira, ou, como é mais conhecida, Carminha Ferreira. Estamos falando de uma poeta que nasceu em 1938 e continua inédita em livro, apesar de ter escrito com bastante regularidade desde os anos 60. Irmã da também poeta Celina Ferreira (esta sim publicada), Carminha teve uma vida ligada às artes por um longo período, dentro e fora do país. É também dona de uma obra variegadíssima, com rasgos de riso ferino ainda um tanto raros (poderíamos dizer que nossa poesia satírica segue pouco apreciada, a começar pelo fato de que o Sapateiro Silva volta a estar há anos sem reedição, além de ficar fora de antologias, como eu já escrevi na R.Nott anos atrás), uma autoironia por vezes virulenta, e um domínio de linguagem fora de série: dos lances surtojoyceanos de “Meretrilho”, passando pelos latinismos de “Seqüênciaconseqüencia”, ou pelo papo reto de “A quem interessar possa”, mas também momentos de lirismo familiar dolorido, como em “Dia das mães”, ou pela contração de “Contratual”. Nesse meio de caminho, vemos poemas em quadras, como “Anticorpo”, em decassílabos geniais com rimas retorcidas, como “Auto-retrato”, na anti-terça-rima de “Torna-viagem”, no gosto marginal de “As lesbianinhas” (peça talvez fundamental para performances de gênero na poesia brasileira, embora pouquíssimo lembrado), sempre flertando com os diálogos poéticos bem humorados ou quase delirantes, como em “Telecarlos”, ou mesmo nas séries de emails alucinados de “Poemails”, compilados e organizados por Ronaldo Werneck na Chicos; isso sem falar na curiosa metapoesia de “Anúncio”, “Dois poetas” e “Rimbaud et l’air (que funde em seu título os sons dos nomes de Rimbaud e Baudelaire). Enfim, houvesse livros, quiçá veríamos fases de sua poética; na ausência deles, é um verdadeiro caleidoscópio de uma figura fascinante e esquiva.

Ela mesma se descreve assim no site de Elson Fróes:

“Maria do Carmo Ferreira (Carminha) natural de Cataguases, a princesinha da zona da mata mineira. Aos 14 anos se tornou poeta por excesso de amor. Morou em Belo Horizonte, São Paulo, radicou-se no Rio por mais de duas décadas e finalmente mudou-se para Niterói.
De 1969 a 1973 morou 2 anos na Europa e dois nos EE.UU, cursando mestrado em Literatura Comparada e lecionou língua e literatura brasileira no Colégio dos Graduados, Universidade de Illinois.
Hoje, aos 61, mestranda em Literatura Comparada, aposentada da Rádio Mec, onde serviu 30 anos como criadora, tradutora, redatora, produtora e coordenadora de programas litérários e lítero-musicais, como Técnica em Assuntos Culturais MEC/Demerg.
Inédita em livros, CAVE CARMEN será o primeiro.”

Isto foi há 21 anos atrás, em 2000: CAVE CARMEN que até hoje não veio. Não veio o livro reunindo essa obra de décadas e atravessamentos. Mais adiante, no mesmo site, ela nos conta de outras obras inéditas no baú:

“Publicações Literárias: inédita, aos 62, em livro, tenho, contudo, a um passo do prelo:

CAVE CARMEN (40 anos de poesia): poemas reunidos desde a década de 60 até hoje, 2001)
Jogos Florais & Animais (poemas soltos, infantis)
A Flor que sofria de pensamento: uma estorinha só em versos (idem)
O Delfim que não sabia morrer (idem)
O Sacristão e a Miss (idem)”

No entanto, seria exagero dizer que se trata de uma obra absolutamente esquecida. Na verdade, além de ter contribuído com revistas e jornais impressos ao longo das décadas (Invenção, nº 5; Ímã, nº 5; Poesia Para Todos, nº 2; Suplemento Literário do Minas Gerais, vários números; Revista Dimensão; Correio do Sul; ANE/Associação Nacional de Escritores; O Cataguases; Pensaminto; Chicos, nº 56, etc.) também se aventurou em colaborações na internet: Blocosonline, Jornal de Poesia, Notívaga, O Cisco Tonitruante, REBRA, Germina e por aí vai.

E mais, Carminha já recebeu elogios efusivos de nomes variados e importantes, tais como Décio Pignatari, Augusto de Campos, Carlos Ávila, Ronaldo Werneck, Ana Elisa Ribeiro, Fabrício Marques, Alvaro A. Antunes, Ronaldo Cagiano, Silvana Guimarães, Júlia Eléguida etcétera etcétera. Ela é um caso que mostra como o livro ainda é o instrumento fundamental de reconhecimento simbólico (veja-se, por exemplo, como a recepção dos poetas estritamente orais ou digitais tende a ser lentíssima dentro do ambiente da poesia tradicional). É uma obra vasta, dispersa, que nos diz CAVE, “cuidado”, CARMEN, “com o poema”, ou mais precisamente “com a Carminha”; mas que poderia, num ato de destradução, ser um “cuidem dos cantos de carminha”, CURATE CARMINA, que é o que tento modestamente fazer aqui com uma coleta dos dispersos ainda acháveis. Agradeço a todos os nomes acima citados, que me ajudaram muito a encontrar caminhos, sobretudo Alvaro A. Antunes, que me apresentou sua obra, Ronaldo Werneck que generosamente me passou vários textos, por meio de Ana Elisa Riveiro, e Silvana Guimarães, que finalmente me informou que Carminha passa bem, vive em Niterói, onde se dedica a uma vida resguardada e agora dedicada à religião católica. Cuidamos de Carminha, como ela merece.

Segue abaixo a lista de sites onde encontrei informações ainda disponíveis:

Elson Fróes;
Germina, aqui e aqui;
Jornal de Poesia;
Blocos Online;
Carlos Ávila sobre ela, na Dom Total
Chicos, 56, com um dossiê e coleta de Ronaldo Werneck;
Suplemento Literário de Minas Gerais, também organizado por Ronaldo Werneck;
Mulheres na poesia brasileira, organizada por Maria Augusta da Nóbrega Cesarino;
Carlos Ávila sobre ela, na Dom Total;
Felipe Paros escreve sobre ela na revista Circuladô, no. 11;

Gostaria ainda de lembrar que Carminha já apresentou um trabalho refinado de tradução, também dispersos, mas que está representado também no site de Elson Fróes, com os seguintes autores (devidamente linkados): Emily Dickinson, Paul Éluard, Frederico García Lorca, Alfonsina Storni e Pablo Neruda. Talvez este também merecesse uma boa recolha ampliada, com a devida análise crítica. Fica para outro tempo.

O que apresento abaixo é uma modesta reunião de poemas a partir do que já está disponível online, mais umas poucas coisas que consegui graças à gentileza e generosidade dessas pessoas acima mencionadas, com o intuito de apresentar Carminha a mais gente interessada. Espero que uma nova união de parte do disperso possa ser o gatilho para o passo tanto tempo travado: o livro.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

ESTADO RESIDUAL DA DOR

Aos quarenta e dois anos soo inédita
estrela decadente ao rés-do-chão.
Erra a maturidade entre as paredes
que ergui aos dezessete. E não ruirão.
Que diria eu de mim que fui vedete
plumas e prêmios em pés de pavão?
Espadanava o espírito nas redes
e eu peixe escorregava-me das mãos.
Pássaro cego dardejei parábolas
que se empalharam num museu de sons.
Tornei-me objeto. Abjeta. Prefixada
à guisa de artefato eu disse NÃO.
Palavras que eu mastigo em pensamento
são malas artes química que intento
como animal que urina para dentro:
gaveta/arquivo morto/armagedon.
Ah não me amei me armei me desmascaro
quero escapar de mim perder meu faro.
Adentrei-me demais no labirinto
e quanto mais me sinto mais me sinto
eu revolvida em livro de memórias
errática ficção fingida história
eu me arrancando páginas de medo
eu recolhida às pressas já no prelo
eu censurada imprópria intransmissível
eu bomba-H na hora-D eu míssil
em pânico de ser e estar comigo
eu me engolindo em seco em meu degredo
camelo cobra cabra capivara
catatônica ao toque da palavra
desertora de mim. Desativada.

§

A QUEM INTERESSAR POSSA

Um pessoa
do sexo
feminino
38 anos
1,65
66 kg
sem lar
sem filhos
sem família
sem negócios
sem esperança
com 108 contos
na poupança.

Garante que possui
matéria-prima
para literatura
teatro
baby-sitter
trabalhos manuais.
Gosta de música.
Chega a tocar
de ouvido.
Conhece inglês
e línguas neo-latinas.
É boa datilógrafa.
Cozinha o trivial.
Prefere a natureza
à vida na cidade.
Amor, quase não faz
porém se adapta sem-
pre ao item men-
cionado.

Falta-lhe alma
um sopro que a reanime.
Se veleidades tem
é de sentir-se real.
Vive
por força
de viver
mas corre o risco
de se deixar morrer
sem que se dê

POR ISSO
oferece-se a quem
interessar possa
uma coisa
uma causa
uma pessoa
alguém
um problema social:
o caso dessa moça.

§

UM CARMA, UM CARME, UM CARMIM

Capineira capinei
meu caminho ora-pro-nobis.
Vassourinha vassourei
e me arranhei de reimosa
lenhosa lenhificada.
Quando fiquei flores alvas
deitei dormi sosseguei.

Caminheira caminhei
seguindo rutácea rota
sem lei nem grei rei nem roque
e em me plantando me dei
com os costados nos espinhos
e grinalda no cangote
de flores que laranjei.

Netrodórea pubescente
em cataguá! me encantei.
Virei limoeiro-do-mato
hermafrodita ge(ra)niale
vegetei campos gerales
perseguida de esmeraldas
por turmalinos parentes.

Nasci princesa da mata.
Fui coroada. Coroei
de penas cabeça e pés
nas coitas de amor e catre.
Carmelina carmeei
coita por coito e fiquei
em penúria e mais coitada.

Minha avó, me desentronca
do fundo dessa masmorra.
Ruminei tanta esquivança
que tartamudo em desova.
Ui ui ui morro de medo
de dentro da minha cova.
Cataguá! me desencanta.

Que o meu avô não me ouça
farejando outras paisagens.
Vou segregando sementes
translucidaglandulares
que aferrolho de alto a baixo
em carmona hereditário
para semear noutras bandas.

Levo o meu fruto na cápsula
e cato outra cataguases.
Oi oi oi belo horizonte.
Perdi a esperança. E o bonde?
Vi meu noivo atrás dos montes
além muito além das serras
que ainda azulam no horizonte:

num tempo nunca-será.
Atravessei mar oceanos
de perdas lucros & danos
embrulhada em meu papel.
Avistei a torre eiffel
(cataguá! que desencanto)
desde o fel da babilônia.

Carmanhola carmanhola
quem me canta é quem me chora.
Embarquei nessa emboscada
dançando a canção da moda
vertiginosa parada.
Meu reino pelo que eu era:
tudo por meia-pataca.

Cataguá! quebrou-se o encanto.
Quem volta atrás vira estátua.
Quem não, volta à estaca zero.
Na memória assento praça.
No vento assento as memórias.
Vida, noves fora, nada.
Amor: vida noves fora.

§

EMERGÊNCIAS

Quando eu tinha 10 anos
minha irmã casada
me chamou no quarto.
Tinha parido o seu primeiro filho
e, entre relaxada e displicente,
pediu que eu lhe pegasse
um vestido no armário.
Deu pra eu notar, de soslaio:
estava só de calça e sutiã.
Tinha uma pele branca e flácida,
barriga intumescida,
em nada a minha irmã
de fantasia de havaiana,
divina, entre os fiapos
das matinês dos filmes
de final de semana.
Um mal-estar só de alma
me invadiu por inteiro
e fui chorar na sala.

Depois outra irmã pariu,
e eu, já nos meus 12,
tomei o trem e fui,
entre vaidosa e grave,
ser madrinha no Rio.
Olhei meu afilhado
roxo e de tantas peles
que me assombrava o tato
visual. Bem mal retive
aquele horrendo flash.
Fui chorar no banheiro.
Não quis saber de festas e retratos,
voltei as costas pra eles
e, só, no meu quintal de Cataguases,
nas grimpas da mangueira,
chorei e vomitei minha orfandade.

Aos dezessete, uma colega
do curso colegial
me ensinou fatos da vida.
O que meus pais tinham feito:
tremenda porcaria
pra que eu fosse parida.
Fiquei chocada.
Se nunca os vi de abraços, beijos,
e cada qual tinha o seu quarto…

Alguma coisa se quebrara em mim
como a cabeça do bebê de porcelana
que o meu primo Juquinha me trouxera
nos seus troféus da Itália
quando pracinha entre guerras.
Aprendi a fazer bruxas de pano
bolas de meia, petecas de folhas
de milho ou bananeira
e penas de aves.
Mesmo em Belo Horizonte pulei corda,
jogava amarelinha com cacos de telha,
e até os meus 19,
por fora, bela viola,
por dentro era uma moça retardada.

Não me casei, não pude
desfrutar de namoros mais ousados
até completar os 30,
já fora e longe de casa.
Nunca respostas para tais perguntas
que ainda me sufocam
neste sem tempo/espaço.
Jamais a ratificação do doce, terno,
baldado romantismo lido em livros
e telas
na pauta da memória
de alguma sinfonia inacabada.

§

AS LESBIANINHAS

Mancomunadas
conluiadinhas
mãozinhas dadas
maquiavelinhas
colaçam tretas
do arco-da-velha
roçando os arcos
das íris delas.

Lá vão as duas
uniduninhas
no bole-bole
de suas barquinhas
passeando embaixo
do arco-celeste
jurando laços
bem-casadinhos.

Priscas pupilas
saficazinhas
mesmando-se ilhas
de amor-perfeito
dentro de espelhos
em que se miram
no acende-aplaca
de suas pocinhas.

Cheios de dedos
seus segredinhos
se encarrapicham
quando se tocam
(liras? safiras?
pirilampejos?):
pêlos nos pêlos
olhos nos olhos.

§

ÀS MARGENS PLÁCIDAS

O mar desborda em minhas costas
e eu sentada.

O sol saltando das órbitas
e eu de costas.

Condomínios desagregam-se
e eu secreta.

Mulheres desovam povos
e eu apátrida.

Lá longe a lua acabala
mel & merda.

Serão na Casa da Moeda
e eu lunática.

A enchente maior do século
e eu sem pressa

telefono impulsos-extra
& ordinários.

O país em chaga aberta
e eu coberta.

Mais perto ratos por labs
deca/p/tados.

Ao som & imagem de guerras
sob controle

remotamente tremores
terr/e/motos.

Trilhões de dívidas-déficit
e eu sonego

gastrites porque hoje é sábado
entre sábanas.

Metalúrgicos meninos
desemperram

parafusos de uso infusos
honorários.

Violência gera violência:
o orbe em greve.

A urbe em promiscuidade:
a par th aids.

Livre îvre o livro-árbitro
escorrega

do colo ao chão por sinais
testamentários.

O despertador dispara
e eu desperto.

A televisão matraca
e eu desligada.

Na cozinha a iogurteira
de olho aceso

apita que o leite fresco
agora é coalho.

Do banheiro peças mudas
pregam à cesta

que roupa suja se lava
na automática.

§

MERETRILHO

MICHELALÚMIA
      PROTIBULUTA
            GLANDULAMULA
                  JEREBAGLÚTEA

                        CLORIFURBANA
                              CLOACLORANTA
                                    MARAFANCHONA
                                          PLURALITANTA

                                                EGUAERVOEIRA
                                                      CLEPSUICIDRA
                                                            PERONIAÔMIA
                                                                  BISCAVOBISCA

                                                                         MOSCAMENISCA
                                                                               MENINGEPÚBIA
                                                                                     VAGIPENÍSOLA
                                                                                           CLITÓRISPUTA

§

FAUNAFLORGESTA

mandágora
teu corpo
ágora

agorafobia
meu corpo
agora

minhalmaexplora
magmamálgamas

teucorpoaflora
minhanimalma

densa floresta
devororosa

fálica festa
em polvo’rosa

§

PEIXE FRITO: UM PRATO FEITO
(DO IDIOTISMO AO IDIOLEITO)

-Aracaroba praquaquerum

-Araka’tu quaquerora
cabiçudo xaréu branco
quando evém vem na desova

-Pra mim tu num prega história
pirada bruaca piranha
nem praísca tu num presta

-Carimbamba: :-Num provoca

-Minhoca de areia quente
roncador budum de bode

-Guaracema Guaracema
te passo a vara na cara
te faço vará essa vera

-Ara vem guiará essa intanha
marmotinha… Aracimbora!

§

ROCK RURAL

Ruminei o amor platônico
do cotovelo à omoplata.
Cavalguei nua em seu lombo
mas rocinei meu cavalo.

Emplaquei o amor idôneo
com selo e certificado.
Do cio ao ócio um patrono:
comi mais que o sal de um saco.

Do amor que não ousava nomes
ousei ódios e odes sáfaras:
pela índole, indo às fontes,
pelo síndrome, indo aos fatos,

toquei safira e sanfona
e escapuli dessa escápula.
Avaro, unha-de-fome,
toureei o amor, unha-e-carne.

Persegui o amor na planta
com foice e cabo de enxada.
Levei luas me embrenhando:
posseira, meeira, escrava,

dei com rocha e areia rocha
cavuquei mandioca brava
deitei calcanhar em ramas
(em maus lençóis desaguava).

Ah o amor… coronelando
sobre as patas, sob os cascos,
pisava de borra-botas
meu chão sem raiz. Meu charco.

Afoguei o amor no fosso.
Por cima uma cruz de tábuas.
Adestrei-me égua-amazona.
Coração, sei-o apartado.

§

SEQÜÊNCIACONSEQÜÊNCIA

Dies irae, dies illa,
nada será como d´antes:
doravantesma só cinzas.

Revolve-se a poeira humana.
Por ínvios caminhos, roma.
Na cama, o lot das filhas.

A natureza se espanta
com o fogo que prometeu:
libertas quae sera tamen.

Bárbaro belo horizonte,
haja sermão nas montanhas
quando ismália enlouqueceu.

Marcados com pedras brancas
vão-se os anéis aos diamantes
in albis…lento festina.

Olhai o lírio dos campos:
cui bono? Arcades ambo.
Teste dirceu cum marília.

Lacrimosa dies illa,
chora bárbara heliodora
do norte estrela sem guia.

Transidos de eterno sono
quem rogaturus patronum?
Tudo será cinza fria.

Vivos voco, mortuos plango.
Dormindo profundamente
ab aeterno, aeternum vale,

onde eram neves d´antanho
diadorins… dinamenes…
sub rosa (cum grano salis).

Vão-se os anéis, fincam os dedos
finos como lã de cágado
limpando as mãos à parede:

um no papo, outro no saco,
por baixo, por trás dos panos
tutti son fatti marchesi.

Litterae bellorophantis
entre amazonas, quimeras,
cumpro o destino a que vou:

res, non verba, hominem quaeso:
no me saques sin razón,
no me embaines sin honor.

A césar o que é de césar:
rei da lídia ou rei da lécia,
questão de lana-caprina.

Até aí morreu o neves:
que a terra lhe seja leve,
com o pão-de-açúcar por cima.

Vão-se os anéis de saturno
et campos ubi troya fuit:
cinzas do princípio ao fim.

Revertere ad locum tuum.
Não compro mais ave alguma.
Perdi o tempo e o latim.

Com suas rosas de malherbe,
com seus beijos-lamourette
e os seus anéis nibelungos,

sicut umbra dies nostri:
ubi flores de retórica,
ibi cravos-de-defunto.

Dia de todos os santos,
de quebradeira e quebranto,
dia miserere nobis:

num pass-a-nel delirante
entre um anão e um gigante
cavalo e valquíria explodem.

Um livro há de ser escrito
e o homem passado a limpo
bem no nariz do patrão:

quando o tumor vem a furo
de que servos dedos duros
os que se forem, assoarão?

Metendo a mão na cumbuca,
geme e estertora a criatura
numa sinuca de bico.

Em represália ante o trono,
ao som de tripas e trompas
todos pedindo penico.

Apocalíptico dia!
Dia do tombo, hecatombe,
ingemisco tanquam reus.

O que é do homem o bicho come:
vamos que zebra, ou que bode,
quem sabe o bicho que deu’s?

Ante diem, sê benigno,
juiz do justo castigo
cui salvandos salvas gratis.

Ovelha negra inter oves,
correm comigo: eu, contíguo,
cost to cost & the day after.

§

CONTRATUAL

os ciúmes que
palavrearam
AMOR

os cumes que
palavram
aMo

os umes que
param o
m

a contração
sexu
AO

§

AUTO-RETRATO

Nasci no rame-rame das abóboras.
Meu plano é horizontal. Vivo de cócoras.

Se me ergo, me espatifo. A gravidade
colou meu ser ao chão: cresço à vontade.

A crosta é dura. No corpo volumoso
a polpa é só fartura e paga o esforço

de rastejar como uma tartaruga
e refletir ao sol minha armadura.

Uma fome objetiva me devora
como a dos porcos que não comem pérolas

ou a dos pobres que não comem porcos.
Com ou sem sal, metáfora ou pletora

viro alimento no momento justo.
Ao fogo brando e lento mais me aguço.

Não sinto a tentação das ramas altas:
maracujá, chuchu, nada me exalta.

Nem mesmo a solidão das uvas verdes
quando o desdém dos homens as prescreve.

No ventre universal ocupo um espaço.
A vida faz-se em mim. Vegeto, e passo.

§

TORNA-VIAGEM

Muros altos do abandono.
Bati com punhos cerrados:
não havia entrada em teu sono.

Céu claro, turvo, que importa?
Não havia entrada em teus sonhos,
sonhando a portas fechadas.

Siderada de promessas,
de telefonemas, cartas,
busquei consolo em tua sombra.

Consolo, encontrei nas pedras.
Sofri desespero, raiva,
solidão, mágoa, suborno.

Vaguei sem mim uma década.
Ingenuamente esperava
que viesses em meu socorro.

Teu jardim não deu pousada
à fadiga com que vim.
Não havia entrada em teu horto.

Enlouquecida, exaltada,
já de ciúmes incendiada,
tomei distância. Escalei-te.

Transpus-te: não havia entrada.
Não havia entrada em teu corpo
alheio às minhas pegadas.

Não havia nem mesmo frestas.
Não havia sequer saída
em tua vida escancarada.

No espelho em que eu te mirava
nenhum reflexo havia.
Não havia, de resto, nada.

§

TELECARLOS

Ao completar quarenta
num dia de são-tomé
véspera de são-nunca
de porre de coragem
e algum fogo nas ventas
telefonei pra você.
Você me disse: aguenta.
Aguentei como pude
desde os meus dezessete
com suas cartas na mesa
e um papel de bombom
(colomba adolescente)
nos porões da gaveta.
Eu tinha a língua presa
e você gaguejava
anedotas concretas.
Antenas de pestanas
(ou era Pentecostes!)
acendiam mil velas
na soirée da Colombo.
Quem me viu, quem me crê.
Comi gatos por lebres
exilada do vale
e haja ainda uvas verdes
nestes quarenta e sete.
De quem ouvirei?: aguenta,
que o tempo ainda é de fezes
alucinações maus poemas…
Te passo um encefalograma?
Te ausculto em fitas-kassete?
Uso o meu telecarlos?
Código morse ainda se usa?
Seus livros autografados
impassíveis na estante
remetem ao dicionário
de palavras gestantes
sob sua própria égide
de sonhos contrariados.
De carona em seu Halley
levo uma carraspana
no arremate de males.
De repente me vejo
(ainda vivo de vales)
indo a Copacabana
para um acerto de contas.
Esbarro em seu cheque-ouro
Banco por banco assento
a inesperada chance
(comprará Roupa Nova
ou fará em Pessoa
um amigo presente?).
Entre aids e apartheides
você me reconhece
água vai tir-te e guar-te
sem mais aviso prévio:
– Os mesmos olhos verdes!
Ando farta de carnes,
vigilante de peso.
Você, com tudo, é o mesmo
que visitei há séculos:
– O mesmo ardor modesto!
Seu perfume me agarra
na griffe desse abraço
sem tratamento, quase:
mineiro cem por cento,
gauche de lado a lado.
E falamos de nada
como se, como sempre.
Sem poesia sem piadas
vamos nos esfolando

na memória calçada
de outro tempo suspenso.
E de repente rimos
(no último andamento)
de amarelinhas sombras.
E já nos despedimos:
como um menino antigo
e uma menina tonta.

§

ANÚNCIO

Frias e frívolas pessoas…
Ando sedenta, faminta,
exausta a não ter mais como,
mas vocês acham
(me passam
num silêncio de abandono)
que isso não tem nada a ver.

Por sorte não me verão
no inverno, na primavera,
colhendo de grão em grão
o que outoneio na pressa
de lhes dar o que comer
além do pão com manteiga
ou com caviar,
depende
do paladar de vocês.
De mim nada vão saber.

Nem dos bichos que alimento,
tirando da minha pena
e, muitas vezes, da boca
o indispensável sustento
que nem mesmo me faz falta,
pois vivo do pensamento
de lhes dar, caras pessoas,
o que em sua mesa transborda

mas carece ao coração:
amizade à toda prova,
fraternidade, igualdade
por uma existência nova
em que todos tenham à mesa
fartura do mesmo pão
cultural, por excelência,
voz e vez para os carentes
que são, de direito e fato,
seus consangüíneos irmãos:

nossos irmãos, com certeza,
ou vocês se acham melhores
por portarem pedigree?
Muitos dos meus
cães e gatos o
su’portam, e abandonados
por ex-enfarados donos…

Se aos animais me devoto,
como não me ocuparia
dos próprios seres hu’manos
que vejo batendo às portas
com fome, com sede, insones,
exaustos, como me encontro
(por outro tipo de banho)?

Ainda sonho com cascatas
dentro dessa mata virgem
que, de bandeiras e entradas,
ou vice-versa, persiste
mas como selva selvaggia,
de pedra, se me permitem
(a contrapelo) o sermão
da montanha, que fez Cristo
clamar bem-aventuranças
para os pobres em espírito.

Essa pobreza comporta,
em simples poça, um oceano
com toda sua fauna e flora
e arrecifes de corais!

Distintas, mas tão simplórias
pessoas que não se importam
com o que se passa à sua volta
e o que já ficou pra trás…

Além, muito além das serras
que ainda azulam no horizonte,
entre o céu, a terra
e a árdua
batalha de um dia-a-dia,
mais mistério há do que possam
sonhar suas vamps personas
de VIPs filosofias.

§

DIA DAS MÃES

Meu pai era um sujeito estanho
encastoado
baixo moreno-tacho
filho de Vovó-Rita
índia de laços.

Tinha um temperamento instável
sujeito a chuvas e trovoadas.
Seus olhos miúdos
faiscavam chispas
de um limpador de para-brisa
sempre ligado.

Quando xingava a gente era de
filhos da puta
seus miseráveis
corja de canalhas.
Quando ficava alegre assoviava
valsas de antigamente
cantava em falsete
tocava flauta.

Uma vez me pôs sentada
na sua cadeira de dentista.
Disse filhota, olha o que eu fiz
e me confiou seu tesouro:
uma caneta-tinteiro
toda folheada
de mil cachinhos de uva
(papai era um artista!)
em filigranas de ouro.

Fiquei fora de mim
olhando aquilo. Papai
de costas
improvisava um anel de correinha
e brinquinhos de flor — resto de solda.
Furou minhas orelhas arredias
e tauxiou de lágrimas douradas
a sua cinderela por um dia.

Então me ergueu ao colo e me chamou de Mimo.
Nesse momento herdei o seu destino
mais secreto
tantos anos depois:
um dicionário de rimas
alguns sonetos dispersos
e tudo o que podia não ter sido
e sempre foi.

Quando morreu eu estava na Inglaterra.
Soube por carta alcoviteira
tarde demais.
O ódio de suas fêmeas carpideiras
ainda hoje assoma açula assola
com sua matilha de cães
o amor que me impedia e sinto agora
que chora por meu pai
neste Dia das Mães.