Abecedário #1

Ano passado, propus um projeto que consistia num conjunto de ensaios poéticos na forma de um abecedário. A cada uma das letras do alfabeto, uma palavra. A cada palavra, um(a) poeta, crítico(a). A ideia era emular o famoso abecedário proposto ao Deleuze. Infelizmente, o projeto não pode ser levado a cabo na sua forma inicial, em livro. No entanto, remodelando às necessidades do momento, transfiro-o para uma série aqui na revista a ser iniciada por quatro ensaios.

Não se seguirá qualquer ordem na escolha das letras e dos vocábulos. Sendo que uma letra, agora, poderá conter mais vocábulos. Viva o caos!

A esperança, entretanto, que havia no começo do projeto se mantém: evidenciar certo presente através de certas palavras.

Sem mais, passo aos quatro ensaios.

* * *

MORTE, por Marcos Visnadi

Os túmulos
estão gastos de um lado pelos passos
dos vivos, e do outro
pelo esforço dos mortos.

Herberto Helder

– Tá pensando no quê?
– Na morte da bezerra.

Diálogo popular

tenho nos ossos
essa história
também nos tecidos moles
intestinos até na pele
tudo grita vida
e busca a morte
sussurra
pra que não acorde
que nem ver um homem bonito dormindo
você tem medo que ele te largue
mas se largasse
como é fácil o fim
e como gostoso começo

tem tantas mortes quanto tem gente no mundo, e muitas mais. de morte morrida, de morte matada. tem homicídio matricídio suicídio feminicídio genocídio fratricídio etnocídio. etc. a morte é dissídia.

trocentas mil pessoas morreram de sars cov 2 no brasil. dava pra evitar?

sars cov
essa cova
só jogo
de palavras

“grande coisa”, dizem os homens. “e daí?”, eles respondem. “é a vida”, vaticinam. e estão errados?

(vaticídio)

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Minutos depois do enterro de Fulano, um sujeito vira pro outro e pergunta solene:
– Sabe o que Fulano estaria fazendo agora, se estivesse vivo?
– Não, o quê?
– Arranhando o caixão.

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O cu da bicha ficou tão largo, tão largo, que a morte passou e chegou do outro lado

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A mãe da Morte chorava e puxava os cabelos:
– Você me mata de desgosto!
E era verdade.

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Nos anos 80, no Programa do Silvio Santos, uma criança contou a piada:
– Sabe por que o papagaio não morre de aids?
– Porque ele só dá o pé.

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Contando o dinheiro, o prefeito do Rio de Janeiro disse pra Morte que ela podia abrir quantas filiais quisesse na cidade.
– Se começa com Morro, o lugar é todo seu!

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No leito de morte, o prefeito se arrepende. Republicana, a morte peida.

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A Morte e a Vida são irmãs siamesas. Uma é boa, a outra é ruim. Nada as distingue.

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Cavalheirismo

Um velho e uma velha chegam pra visitar o cemitério. O velho para na frente do portão e faz um gesto com a mão:
– Primeiro as damas.

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Manchete

Comediante britânico faz piada sobre derrame e morre no palco.

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O Sergio falou:
– A gente quer um texto sobre a Morte e acho que você é a pessoa certa.

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Bullying

Com a Morte não se brinca.

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Um judeu, uma bicha e um homem hétero branco cis entram num cemitério. Os três estão mortos. Não pergunte por quê.

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O que é, o que é? Uma chuva de purpurina.
– Explodiu um avião cheio de bichas.

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A professora pergunta pro Joãozinho:
– Se eu tenho 25 bichas e uma delas morre, com quantas bichas eu fico?
E o Joãozinho, soltando um risinho:
– Com um número engraçado.

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A Morte entrou no bar e pediu um rabo de galo. Um sujeito de apelido Galo, já muito bêbado, ouviu e gritou:
– Só por cima do meu cadáver!

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Sem graça

A Morte bateu na porta da velha, que já tinha enterrado os pais os irmãos os maridos os filhos os netos. A velha ergueu as mãos pro céu e exclamou:
– Graças a Deus, você veio me buscar!
Rindo, a Morte pegou o cachorrinho da velha e saiu correndo.

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Trocadilho

Foi crime. Foi acidente. Foi vontade. Foi a hora. A Morte solta um risinho e diz:
– Foi-se.

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A Morte não é uma pessoa. É uma empresa. Tem vários braços, organograma e departamentos especializados. Terceiriza todos os trabalhadores pra aumentar o lucro. O colaborador que não sorri quando ceifa uma vida é imediatamente dispensado. Sempre com um sorriso.

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Última da bichinha

A bicha pergunta desconfiada:
– Você é a Morte?
O ser andrajoso, sujo, segurando uma foice desproporcional com seus dedos cinzentos e ossudos, responde:
– Não, só trabalho pra Ela.
Ainda desconfiada, a bicha levanta os trapos procurando a neca. Uma cova lustrosa e veiuda pende do meio dos gambitos. O olhinho da bicha até brilha!

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Essa piada
me mata

de tédio
de rir.

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Mas nem tudo são flores. Cronologia da decomposição (segundo a Wikipédia, baseada em porcos em uma temperatura média de 26,1 °C do solo):

Fresco (dia 0): estágio inicial, basicamente nenhuma característica forte da decomposição é visível. Aqui é exatamente onde se encontra a dificuldade de dividir o intervalo perimortem e o postmortem. O cheiro ainda é o presente no animal (ou pessoa) quando vivo. Depois de um tempo (minutos ou horas, varia de acordo com a localidade), as primeiras moscas da família Sarcophagidae.

Inchado (dia 1): o nome é dado pela principal característica do estágio, o inchamento do corpo devido à concentração de gases liberados pela ação de bactérias ligadas à decomposição. O cheiro forte de putrefação começa a estar presente, assim como outros grupos de moscas, formigas e também alguns besouros necrófagos. Meu pai, que foi enterrado nesse dia, durante o velório tinha a pele fria e úmida como a de um sapo. Ele trabalhou muito tempo como motorista no Velório Municipal de Jundiaí e de vez em quando contava histórias de transporte de cadáveres em cada um destes estágios e talvez nuns tantos mais.

Decomposição ativa (dia 3): as larvas de insetos começam a penetrar em orifícios, pele e outros tecidos. Assim, os gases e fluidos corpóreos são liberados em grande quantidade no ambiente, atraindo ainda mais outros animais e acelerando o processo de decomposição.

Decomposição avançada (dia 5): nessa fase, boa parte das vísceras foram devoradas pelos insetos e outros organismos presentes. Os ossos são expostos pouco a pouco, o corpo perde volume e o forte cheiro começa a diminuir, assim como a diversidade de insetos.

Seco (dia 7): somente pele, cartilagem e osso são encontrados. Todas as pessoas que conheço que morreram encontram-se neste estágio ou adiante. Outros artrópodes aproveitam a diminuição da competição para obter recursos, como centopeias, caracóis, piolhos-de-cobra, entre outros. Estágios anteriores nos aguardam.

Restos mortais: é difícil determinar quando inicia a última fase, porém é bem provável que dentro de duas semanas a carcaça já esteja nessa categoria. O cheiro é bem fraco, porém bastante impregnado no solo e em pedras próximas. A carne e a pele já não se encontram presentes, somente ossos e cabelo, e os animais presentes são do ambiente, e não ligados ao processo de decomposição. Descanso. Inexistência. Esquecimento.

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Promessa: “Quiseram nos enterrar. Não sabiam que nós éramos sementes.”

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Vivemos agora a morte dos sonhos e das espécies. A nossa no centro. A gente estertora e teima em não morrer. Manchete: um jacaré queimado de ponta-cabeça indica que ele pode ter morrido se debatendo, dizem especialistas. A morte é crônica. Muito bicho e planta morreu com as queimadas do Pantanal. Da Amazônia. Do Círculo Polar.

E dava pra evitar? Não sei. A Morte dá de ombros. Manda um memorando. Jacaré morreu?

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Você merece uma missa, um cenário, uma memória bem solene. Solipsa. Você merece uma morte tranquila: dormindo, vão te olhar e dizer: o rosto transmitia uma paz. Você merece que enfiem dedos e algodões e jornais nos seus buracos. Com manchetes sobre a bolsa de valores e a morte de outras gentes. Ninguém merece morrer sozinho. Por isso você merece: um anfiteatro lotado. Uma videoconferência. Multidões entoam cânticos de amor. E expiram exultosas quando a lâmina cai. Depois da morte, os espíritos se dissolvem. Remunere bem o seu coveiro. A menina cresce e vai se lembrar pra sempre, mesmo que não se lembre: da sua cabeça surpresa rolando através da praça. A Morte vai usar essa máscara quando vier buscar ela. Velha, a menina vai te reconhecer e encontrar no reflexo dos seus olhos o sorriso dela mesma, criança, divertida enquanto te via morrer. No meio da plateia, o suspiro de susto e de alívio se repete pra sempre. E o corpo dela fica mais leve quando, fatalmente, a urina cai.

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SAUDADE, Por Patrícia Lino

Para ver todas as variações, clique aqui.

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VIOLAÇÃO[1], por Bruna Mitrano

Não é apenas ocupar um lugar – incluindo o lugar-corpo, como primeiro território e, portanto, espaço de disputas – que não lhe pertence, mas destituir esse lugar de sua memória. Porque a memória é o que, de fato, o faz habitado.

Não é invadir o quintal do vizinho para roubar manga. Isso é ousadia e, eu diria, até um pouco de noção marxista de anti-propriedade.

Violação é acreditar que a grama do vizinho é a mais verde, quando não necessariamente é, ou se é um pouco de água resolveria, e não se conformar com isso. A ponto de sair à noite, escondido(a), tomado(a) pela vergonha – aquilo que nos difere dos animais –, para espalhar pó ácido nessa grama.

Vejam que tal ação, articulada e perversa, não se ampara no Desejo, mas na Destruição. O ácido, além de matar a grama, deixa a terra improdutiva.

A terra infértil é o corpo violado, devastado, que não se recupera ou se recupera lentamente, porque a memória inconsciente, a memória da pele, única capaz de gerir afetos, dá lugar ao trauma.

Diante da experiência do trauma, da permanência das marcas, a presença se faz ausente e a ausência, presente. A memória afetiva se perde na medida em que não cria nem ressignifica imagens, mas reproduz aquela, de dor, num constante e, por vezes, incessante retorno ao momento de morte em vida.

Assim, o que é ou quem é violado adoece. Mas essa doença não lhe pertence.

Adoecemos, pois, pela doença do outro.

O(a) violador(a) é guiado(a) pelo ressentimento, pelo ódio de si. E destrói o que é incapaz de ser: alguém desejante.
Já a pessoa violada é como eu ou você. Alguém que ri, chora, grita. A vítima padrão não existe. Se ela ou ele está, de algum modo, vulnerável, não é por fraqueza, mas porque se distraiu no movimento natural de manutenção de sua história. E um gesto incisivo pode acabar com toda perspectiva de futuro.

Violar direitos ou espaços é matar a vida em vida, é anular a vida viva, comprometendo, se não toda a composição do ser, uma parcela significativa: a sua dignidade. E quem faz isso está plenamente consciente de seu ato, porque age em contra-movimento.
A pulsão violadora é essencialmente reativa. O(a) violador(a) nunca dá o primeiro passo. A ação o(a) incomoda. O movimento do outro, sobretudo o distraído, isto é, aquele de simples intuição, o(a) perturba.

Por quê? Porque seus passos são calculados e vazios; e se deparar com alguém que consegue se alastrar como grama verde e forte, sem precisar roubar a cor e a força de jardins alheios, o(a) leva ao sentimento de impotência (autoimposto) e ao ódio (de si, do mundo).

Imaginem que sou, por exemplo, uma mulher que ama/deseja mulheres, e vive numa comunidade comandada por um poder paralelo, na qual não é permitido ser sexualmente dissidente, por risco de estupro corretivo. Ora, se não posso ser quem sou, nem deixar de ser quem sou, serei quem?

Outro exemplo. O homem com quem me relaciono faz “sexo” comigo desacordada, enquanto sangro, pois, horas antes, abortei um feto seu. Serei ainda eu, após esse rasgo?

Para finalizar, mais uma situação hipotética. Ofereço lugar na minha casa a uma amiga. Ela precisa de ajuda. Eu a ajudo até esgotar minhas energias. Exausta, peço para ela ir embora. Ela se recusa a sair e convence as pessoas à minha volta de que 1. sofro de problemas mentais e 2. é necessário me manter isolada, internada num manicômio. Na minha ausência, ela cuidaria da casa, garante. Após avaliação psiquiátrica, não sou internada, mas perco minha rede de apoio.

Quantas vezes fui violada?

Notem que a violação é um jogo de perdedores. Há a ilusão de vitória do(a) violador(a). Porém, seu otimismo é tão oco quanto quaisquer de seus afetos. Ele(a) não se alegra pela suposta conquista. Nem se culpa. Então, por que prossegue? Por hábito. Sim, por puro hábito. Por ser um(a) autômato(a). Erva daninha, parasita, planta infrutífera.

E nesse ponto, esbarramos na inevitável pergunta: como reconhecer, de antemão, pessoas perversas?

Violadores(as) dificilmente se expõem. Embora não haja culpa, há a vergonha (já mencionada, o motivo de agirem às escuras).

Afinal, vale lembrar, eles(as) têm total consciência do ato. E nada pior para um(a) violador(a) do que ter sua imagem pública abalada.
À vítima cabe esperar por, talvez, alguma justiça dos tempos. E acreditar na renovação. Seja pela chuva que restaura até a terra mais ressequida. Seja pela potência inviolável daquilo que arde.

[1] Antes de escrever este breve texto, googlei o verbete e minha primeira opção de busca foi “Violação dos direitos humanos”, o que me levou ao Art. III da Declaração Universal dos Direitos Humanos – “Toda pessoa tem direito à vida […]” – e a pensar que conseguimos infringir o direito mais básico que há, o de nos manter vivos, o de não matar os nossos (ou permitir que eles morram), seja qual for sua cor de pele, raça, religião, gênero, orientação sexual, classe social etc.

§

ÉTICA, por Guilherme Gontijo Flores

  1. Ética, do grego ἦθος,
    o caráter, o costume,
    o hábito de alguém.
  2. Certamente vinculada ao sânscrito स्वधा
    (svádhā, “hábito”, “costume”,
    mas também um “poder inerente”).
  3. Dá na raiz hipotética do proto-indo-europeu
    *swe-dʰh₁-sḱé-ti,
    que por sua vez vem da raiz
    dʰeh₁-, com o sentido de
    “fazer”, “colocar”, “posicionar”.
  4. Esse rio tem ambages muitas, tortíssima,
    vai, por exemplo dar em latim
    no verbo suesco — “ter o costume”.
  5. Mas melhor,
    muito melhor,
    vai dar em sodalis,
    que é o “camarada”,
    “parceiro”,
    “cúmplice”,
    “companheiro” e mesmo um
    “conspirador”
    (penso quem conspira
    como quem respira
    junto, partilha
    um alento).
    Ora, sodalis é quem costuma estar junto,
    partilha e respira.
    Eis um bom costume.
  6. É delicioso como ἦθος
    varia também em ἔθος,
    um é longo ἦ, trocado
    em e breve, ἔ,
    um acento tonal circunflexo, que sobe e desce,
    também deslindado numa só subida.
    Quem vem primeiro importa menos
    que esse costume
    introjetado em variações.
    O costume varia, dá suas voltas.
  7. Mas esse ethos grego,
    ao menos ali no velho Homero
    blind as a bat, Homero
    na Ilíada, canto 6, verso 511,
    quando aparece no plural
    ἤθεα ἵππων,
    (cláusula hexamétrica, éthea híppon)
    designa “os lugares costumeiros dos cavalos”,
    que poderiam ser seus habitats.
    Costume, hábito, habitat.
  8. Aqui podemos formular algo:
    ética é o hábito que habito.
    Mais que isso —
    a partilha de um ar que conspira.
  9. Mas ética não vem direto
    de ἦθος
    ou ἔθος,
    palavras têm seu truques
    e feito rios
    nunca seque retas.
    Vem de ἠθικός,
    o adjetivo que designa
    a moralidade, o que é relativo
    a um caráter moral.
    (Ó que a moral e a ética, no fundo se confundem).
    E vem sem gênero masculino ou feminino,
    vem sem singularidade,
    do adjetivo neutro plural:
  10. τά ἠθικά,
    e também ἐθικά.
    Coisas morais.
    Normas de vida. Ação
    no jogo da partilha.
  11. Mas isso tudo, em grande parte
    vocês estão cansados de saber.
    Repito o mesmo, o velho, o mesmo,
    porque o costume é um hábito em que invisto,
    e nunca um rei esteve verdadeiramente nu,
    se não na guilhotina.
  12. Outro caminho trilhado é o da política.
    Disse Aristóteles
    que o homem é um animal político
    πολιτικὸν ζῷον
    sendo ζῷον a vida
    bruta e neutra
    como o gênero da ética
    em oposição à vida política
    βίος πολιτικός,
    sendo βίος vida
    organizada em seu sentido,
    um ideal ético da vida política
    que ninguém sabe onde fica.
  13. Reparem como a coisa se deriva. A ética
    quando escrevo a palavra poética num livro
    engana as etimologias, ποιητικἠ nada tem
    com ἠθικά, que falta faz um mero θ (theta)
    singular presente na αἰσθητική (estética),
    e ainda assim distante por seu αἰ (ai) e η (eta).
    E no entanto, a contrapelo desses étimos,
    toda poética é uma est-ética é uma política:
    a vida bruta abraça sem parar a vida organizada.
  14. E tudo aqui conspira quando escrevo,
    mesmo negando o cerne em meu estilo,
    tudo conspira e assim é que me entrego
    a contrapelo do costume dado,
    e tudo que aqui vive está sagrado,
    e tudo que conspira é também sacer
    e vive no limite do profano
    e intocável, o impuro em puro mundo,
    e tudo que convive no profano
    aqui conspira sacer no sagrado,
    e a minha ação sozinha nesta escrita
    está desdita em tudo que atravessa,
    sodalis, solidário à solidão
    e diz a cada dia: aqui habito.