Concretas como frutos nítidas como pássaros (II): Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira

“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia contemporânea portuguesa no Brasil.

Leia os posts anteriores e seguintes da série aqui: Parte I e Parte III.

REGINA GUIMARÃES (PORTO, 1957)

Correio do Porto: — Como se situa no panorama da poesia portuguesa contemporânea?
(A cena literária, mas também, muitas vezes, as cenas literárias…)

Regina Guimarães: — Não me situo.

Correio do Porto, 2020

Em “Maria Lúcia Alvim, esse golpe eterno” (2020), prefácio que escrevi para a edição portuguesa dos poemas da poeta brasileira Maria Lúcia Alvim [1], incluí o nome de Regina Guimarães (Porto, 1957) na lista das(os) autoras(es) portuguesas(es) que, não lhes tivesse falhado redondamente a crítica literária das últimas décadas, precisamos de ler e conhecer [2].

Regina escapa à definição. Multifacetada, é mais do que não é: tradutora, dramaturga, letrista [3], performer, cineasta, videógrafa, ativista, organizadora de eventos [4], escritora de literatura infantil, guionista, professora, editora, produtora [5], crítica de cinema [6] ou poeta. Entre os ofícios, que parecem ser as várias partes de um todo, este último foi um dos que mais passaram indiferentes às atenções da vida cultural portuguesa.



Regina Guimarães em Três Tristes Tigres, “O mundo a meus pés”, 1993. Detalhe.
Vídeo de José F. Pinheiro.

De facto, quando Regina regressa às livrarias portuguesas em agosto de 2020, com Antes de Mais e Depois de Tudo — antologia de poemas organizada por Rui Manuel Amaral —, fá-lo depois de um percurso extenso e regular de publicações, marcado pela edição do seu primeiro livro, A Repetição (1978), e pelo lançamento de outros volumes, como Tutta (1994) ou Caderno de Regresso (2010), que reúne 433 poemas escritos ao longo de um ano. A voracidade com que Regina produz, “[combatendo] com a língua/ para não sufocar disto e disso” [7], antecipa a pergunta: quanto do que Regina escreve não está ainda inédito?




Tutta (1994) e Caderno de Regresso (2010, capa de Alberto Péssimo).

A coragem e a postura diligentemente política com que Regina sempre ocupou a vida, avessa ao espetáculo da poesia ou “[ao] banqueiro que há em todo o poeta” [8], o hibridismo do seu percurso [9], o cunho oracular, bíblico, semanticamente indisciplinado, fragmentário, surrealista ou até indecifrável dos seus primeiros livros que, sem perder-se, se aclara com o tempo, bem como a dimensão oral, performática e visual do seu trabalho, contrária às idiossincrasias e exigências da palavra escrita, podem explicar por que razão volumes como os mencionados Tutta e Caderno de Regresso não receberam a atenção que mereciam ter recebido nos anos 90 e 2000. Ao mesmo tempo, a autora, que explorou intensamente as múltiplas possibilidades da palavra a partir das memórias da infância, das imagens, do corpo e das minúcias da fala, não tem correspondentes no passado (não sabemos efetivamente de onde vem, em que tradição incluí-la; e porquê? E para quê?) nem no presente. Regina é uma voz sem-par.       

Fui expulsa da casa do mundo
por um irmão desconhecido.
Vendou-me os olhos e levou-me
à saída de todas as saídas.
Nunca mais achei o caminho
do meu claro quarto crescente
onde se nascia todo o dia.
Só me lembro de nascer, nascer, nascer
como uma labareda a pão e água.

________________________________________[10]

Como se regressa de um espaço poético trans-histórico? A variedade temática dos poemas de Regina forma-se anacronicamente, como um cosmos de verdades paralelas, e reinventa-se de modo contínuo e contíguo. Há nesta cabeça ginasta, não-binária e atemporal, a inteligência de quem atravessa os tempos, entre antepassados e conhecidos, animais, criaturas fantásticas e objetos inanimados, “[desenhando] atalhos entre realidades” [11] e engolindo, desde dentro, o discurso vigente: “Precisas mais da conversa no café/ou dos tweets dos poderosos analfabetos?” [12].


Poemas inéditos

“Os céus distribuidores”, “Tudo tão belo e inexacto”, “Hora de carbono e bónus”, “Do uso da usura em poesia”, “Coragem e coração”, “Explicação da cabisbaixeza”, “Dever geral do recolhimento”, “O jogo do desconfinamento” e “Vieille cuisine” são os 9 poemas inéditos que Regina me entregou recentemente. Os 2 primeiros, escritos nos anos 70, antecedem 7 poemas escritos entre 2019 e 2021. Regina chamou ao documento que inclui estes textos “sou ou não sou antigamente velha”. Não me posso esquecer de dizer-lhe que, para mim, ela é sobretudo “antigamente jovem”.


[1] Maria Lúcia Alvim. Antologia Poética, org.: Ricardo Domeneck e Guilherme Gontijo Flores, Lisboa, Douda Correria, 2020.
[2] A seu lado, Salette Tavares, António Aragão, o próprio Fernando Lemos (Poesia só foi editado em junho de 2019 pela coleção elogio da sombra), António Maria Lisboa, Luiza Neto Jorge, Silvestre Pestana ou Fernando Aguiar.
[3] Recomendo-lhes o trabalho da banda Três Tristes Tigres, formada atualmente por Regina Guimarães, Ana Deus e Alexandre Soares, e autora dos seguintes álbuns: Partes Sensíveis (1993), Guia Espiritual (1996), Comum (1998), Visita De Estudo (2001) e Mínima Luz (2020).
[4] Dos quais destaco a Leitura Furiosa.
[5] Fundou, com Saguenail, as produções editoriais, artísticas e de espetáculo, Hélastre.
[6] Que publicou, sobretudo, n’O Primeiro de Janeiro (1868) e n’A Grande Ilusão (1984).
[7] Caderno de Regresso, Hélastre, 2010, p. 48.
[8] “Do uso da usura em poesia”, inédito, disponível aqui.
[9] “Talvez a popularidade que a banda rapidamente alcançou tenha afinal contribuído para a diluição da imagem da poetisa na imagem da letrista”, Maria de Lurdes Sampaio, Primeir@ Prova, Revista Electrónica de Línguas e Literaturas Modernas, Departamento de Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, abril de 2004, p. 2.
[10] Tutta, Amalteia, 1994, s/p.
[11] “Dever geral do recolhimento”, inédito, disponível aqui.
[12] “O jogo do desconfinamento”, inédito, disponível aqui.



OS CÉUS DISTRIBUIDORES

falando ainda da visibilidade
só a aragem de habilidades do curral se exprime como o amor agudo

ambição sem ambiguidades como o lince da peixeira dos instantes
o prolongado ponto do divino delta
ambição sem limites como o ardil duma crina obesa
assim a sabedoria do vexame

nem sempre a luz se assume por isso enfurece o peregrino
de causa a causa o cotovelo recolhe o mastro

mas a peregrinação é uma harpa em que a mestria dos sons não é possível
e no entanto a sua harmonia é imensa
como ervilhas soluçando na vagem firme

para não contrair dívidas temos as mãos troçando de vazias
por isso os pastores escolhem para cão o lobo, satisfeitos com a semelhança

a vastidão festeja a pausa

1976

TUDO TÃO BELO E INEXACTO

(canção asfixiada)        a casta dos conteúdos alarga a sua câmara ardente

mas as nossas carruagens continuam atulhadas de seres aspirando à perfeição instigada da espuma. contornos abstinentes enfiam agulha na linha, como animais enevoando a clareira a idade atravessa-lhes o corpo. os outros que sabem de cor o caminho e não podem partir sozinhos

é o sono que salva o náufrago. olho cego como um nó, um longo aperto de mão de árvore

quando a ursa lambe as crias todos os santos te acusam de lacrares o sol
todos os santos te ajudam
tudo tão belo e inexacto como a expiação

1978

HORA DE CARBONO E BÓNUS

A criança estranha
que os bonecos lhe obedeçam
muda surda e cegamente
Mestre em seu mundo
primitivo
só lhe resta decretar
a disciplina
da indisciplina

Seu lado copa e cozinha
seu lado armário e alcova
fundem-se numa só casinha sem paredes
onde se roubam bolachas e sonhos
enquanto os monstros vão às compras
A criança estranha
encontrar habitantes na casa
que desconhece desde sempre
Por isso se sobrepõe
às sombras suas
verificando
de vez em quando
que continua a ser ela mesma

O lar cheira-lhe a cebolas e colchão
mas ela decidiu que viveria na copa das árvores
tendo com elas aprendido
o jogo
ora infantil ora infernal
da fotossíntese

Mas à hora de enfrentar castigos
espalha desmentidos informais
chispando com os olhos
até que o céu se apague entre as folhas
tão profundamente verdes
como a noite que existia
antes de jamais existir dia

2019

DO USO DA USURA EM POESIA

O banqueiro que há em todo o poeta
praticante da contenção
– mesura, cesura, doçura, censura –
exultará quando lhe mostrarmos
que na terra dos mortos-vivos
Sísifo empurra o peso da sua riqueza
e não apenas um descomunal penedo
uma vez finado de velhice duvidosa.

O banqueiro que há em todo o poeta
teórico-praticante da poupança
‒ baixeza, pureza, grandeza, proeza –
jubilará quando lhe demonstrarmos
que o sovina e o esbanjador
se reconciliam em pé de página
sempre que o poema estende os braços
à corte, ao salão, à academia.

Diz-nos Shylock
que bem sabia do que a casa gasta
a pretexto de um certo viver
de amor morno e água fria
na arcádia das entrelinhas:
«A vileza que me ensinais, pô-la-ei em prática,
e custe o que custar, melhor serei que os meus mestres.»

Ao que responderemos
respeitosamente
e em defesa do apego ao pão duro:
para bom entendedor,
a palavra de sobra
é justamente aquela que magoa
e faz obra.

2019

CORAGEM E CORAÇÃO

com pouco mais que serrim e aparas
dirão que está pronta a língua do carpinteiro
cujo único fito é perguntar-me
se podem pagar-me a pronto
e em géneros

dirão da oficina dirão da tão luz amarela a oficina
deste poente dilatado na retina
e na ampulheta
que só será sinal de decadência
para os que já decadentes são

debaixo da mesa
a ternura e a tremura
da criança subtraída à companhia dos seus
transformou-se no gesto preciso e felino
de arranhar pele até a carne ser guitarra

onde escondeste a coragem
o coração e a completude
nestas horas de ouro interminável?
aquela  que mostraste o que só a ti pertencia
e era quase casco do navio língua?

ó pai que me abandonaste
nessa idade de se ser abandonado
de se ficar infinitamente só
por entre gentes, lentes e dentes,
ó pai que horas são na tua eternidade?

2020

EXPLICAÇÃO DA CABISBAIXEZA

ela pede para ser adormecida
com histórias de heroínas a dormir
ela pede para ser embalada
com palavras do agora sempre dantes
ela pede para ser acordada
com olhares fixos como estrelas
e estrelas movediças como olhos

ela pede para ficar mais um pouco
diante do bailado das sombras
ela pede que lhe entreguem a carta em mão
e lhe emprestem a mão por algum tempo
ela pede que lhe recordem o nome do presente em fuga
e apaguem a data do instantâneo a cores
ela pede a mentira e o desmentido
dentro de uma caixa do tamanho da boneca
com a boneca a tornar-se falante

ela pede para ser levada em braços
adormecida até à outra margem do repouso
ela pede para ser levada pelo nariz
até à origem do perfume embriagante
ela pede para não ser reconhecida  como sonhadora
mas antes como expressão da penúria sublime
ela pede para ser espanejada
como aquela pequena biblioteca
composta pelos livros a levar
para a tal ilha certa e deserta

ela pede tudo o que a perde
paragens, paradeiros
ela pede o que não tem parança
dança quando arde, arde enquanto dança
ela pede para esquecer muito
até se lembrar de tudo
ela pede a festa do estudo
até adormecer sobre a fuga das letras
e sobre o fulgor da noite analfabeta

2020

DEVER GERAL DE RECOLHIMENTO

Na cozinha do rouxinol
toda a música é agora incestuosa
e até o metal dos velhos tachos
se queixa da facilidade
com que ela desenha atalhos entre realidades

A cozinha tornara-se o quarto de brinquedos
com o seu tabuleiro de xadrez  sem casas brancas
com a sua pantera fixada ao comprimento das pestanas
com as suas buzinas a anunciar a sessão de cinema
nem falante nem visual

Era na cozinha que se aperfeiçoavam os excrementos
que se colavam asas às costas dos anjos domésticos
que se alimentava a esperança de matar com um simples insulto
que por fim se admitia a confusão entre ilícito e ilegível
que pelo cheiro se reconhecia a voz inicial da culpa

Pela frincha da porta deixada entreaberta
pelas novíssimas divindades do lar
vejo que na cozinha das insónias
se recebe o segundo cérebro como um rei
em redor de caldos quentes e poções a fumegar
confeccionados por crianças sabedoras de seus herbários
hesitando entre veneno e ambrósia, peçonhas e manjares

E pelo postigo
atrás do qual o coração treme e teme
imagino a cozinha comum reconstruindo-se
graças à argila quente das palavras estranhas
que incorporam as crias e os crimes
como se fossem sinónimos da grande cama onde se nasce
sempre prematuramente
mas sempre

2020

O JOGO DO DESCONFINAMENTO

                                                      um jogo de escolhas a jogar a solo e à suivre
______________________________em que o jogador joga com e contra si mesmo

Precisas mais duma carta de amor
ou dum extracto mensal de conta?
Precisas de mais uma noite de verão
ou de mais um candeeiro design?
Precisas mais de sopa de legumes
ou de suplementos alimentares?
Precisas de mais um parque arborizado
ou de mais um parque de estacionamento?
Precisas mais da conversa no café
ou dos tweets dos poderosos analfabetos?
Precisas de mais uma mercearia gourmet
ou de mais um mercado de frescos?
Precisas mais dum consultor de imagem
ou duma consulta no médico de família?
Precisas de mais escolas livres e gratuitas
ou de mais coaching e de gestores de talentos?
Precisas mais de hospitais públicos
ou de bancos de investimento?
Precisas de mais dramaturgos sem travão
ou de mais opinion makers?
Precisas mais de prados e florestas
ou de cenários virtuais sofisticados?
Precisas de mais filósofos na rua
ou de mais influencers na net?
Precisas mais de serras e oceanos
ou de paisagismo planificado?
Precisas de mais companheiros
ou da companhia de mais hipsters?
Precisas mais de diversidade biológica
ou de transumanismo galopante?
Precisas de mais geografias rebeldes
ou de mais geolocalização dos párias?
Precisas mais do conto a cada encontro
ou do story-telling da netflix?
Precisas de mais do teu preciso tempo
ou de mais tempo para money-making?
Precisas mais de ler e andar nas nuvens
ou de alimentar o éter da tua cloud?
Precisas de mais companheiros de estrada
ou de mais likes no facebook?
Precisas mais do saber-fazer do lavrador
ou das performances do analista de big data?
Precisas de mais instantes inimagináveis
ou de mais fotografias no instagram?
Precisas mais de ideias para mudar mundo
ou dos softskills dum Scrum master?
Precisas de mais professores talentosos
ou de mais horas de e-learning?
Precisas mais da fantasia duma horta louca
ou de roupa trendy e acessórios tendance ?
Precisas de mais ver melhor o que te olha
ou de mais selfies em toda a parte e hora?
Precisas mais do café do teu bairro
ou duma casa de chá rétro na baixa?
Precisas de mais gente a bater à tua porta
ou de mais aplicações no teu smartphone?
Precisas mais da sombra das árvores
ou dum bunker com todas as comodidades?
Precisas de mais bancos de jardim
ou de mais garantias de sigilo bancário?
Precisas mais de paraísos fiscais
ou de mais paraísos artificiais?
Precisas de mais saltimbancos
ou de câmaras de vídeo-vigilância?
Precisas mais de cantinas comunitárias
ou de templos da nouvelle cuisine?
Precisas de mais contraditores ferozes
ou de mais animais de estimação?
Precisas de mais funambulismo na mioleira
ou de mais arame farpado na fronteira?
Precisas mais de ver crianças a brincar na rua
ou de visitar dreamlands e parques temáticos?
Precisas de mais razões para uma longa vida
ou de mais lazer e escapismo organizado?
Precisas mais de quem te ouça e console
ou dos videojogos da consola?
Precisas mais de brincar aos cozinhados
ou de oscilar entre low-food e fast-food?
Precisas de mais memória para pensar
ou de mais ram para te esqueceres disso?

2020

VIEILLE CUISINE

Recordando a convicção
cansada
com que as mulheres destinavam comida
na penumbra da cozinha
na escuridão da despensa
ao sabor da sucessão dos dias
percebo
precisa e cirurgicamente
porque me amargura o não ser
não ter sido
amada como matéria oferecida
destino e alimento confundidos num só tempo de oferenda

Na pedra de mármore gelada
escolhia-se o arroz.
Retiravam-se as pedrinhas e as palhinhas intrusas
dum lado o montículo a examinar
do outro os grãos já inspeccionados.
Entre mãos de criança
grão a grão
se cumpria a aprendizagem da carícia
seu crivo
e
ao mesmo tempo a ternura selectiva

A tarde calçava finíssimas meias
e entre dissídios e receitas de geleia
aproveitava para se evaporar
como sorriso entre rugas
a título de contra-exemplo

2021



MARGARIDA VALE DE GATO (VENDAS NOVAS, 1973)

É-me indiferente: poeta, poetisa
dependerá do ritmo ou da medida –
prefiro tradutora, mas admito
que por vezes não dobro e sou narcisa.

Margarida Vale de Gato, “Texto de apresentação”, 2017

Margarida Vale de Gato (Vendas Novas, 1973) traduz textos literários desde 1996. Entre as(os) autoras(es) que traduziu, constam W. B. Yeats, Herman Melville, Charles Dickens, Edgar Allan Poe (cf. Edgar Allan Poe em Portugal, 2009), Christina Rossetti, Sharon Olds, Tim Burton, Oscar Wilde, René Char, Marianne Moore, Henry James, George Sand, Nathalie Sarraute ou Henri Michaux. O ofício de tradutora não só antecede como parece marcar a escrita de Margarida que, entre vozes como as de Emily Dickinson ou Sylvia Plath, cria e recria poemas encíclicos, mordazes, escutatórios.

Margarida Vale de Gato.
Fotografia de Vitorino Coragem.

Um dos ouvidos mais afinados da sua geração, Margarida, que relê e responde à história (“Há outras coisas, Horácio,/ e a tua filosofia é barata” [1]), encena, a partir de um exercício de apropriação [2] e crítica, as vozes variadas e ancestrais das mulheres (“corada invoco a imagem mal tirada/ da fêmea recortada ao macho que a conforma” [3]) e do amor prático e simples (“Portugal/ é enorme eu preciso de ti” [4]). Depois de Mulher ao Mar (2010), livro reeditado e expandido em 2013 como Mulher ao Mar Retorna, Margarida publicou, além da peça Desligar e Voltar a Ligar (em parceria com Rui Costa, 2010), Lançamento (2016) e Mulher ao Mar e Grinalda (2018).

Mulher ao Mar Retorna, Lançamento e Mulher ao Mar e Grinalda vêm confirmar o que Mulher ao Mar, o início do todo, já adiantara. À medida que o poema avança e mais mulheres aparecem para acompanhá-la, Margarida convida à releitura continuada e atenta do seu trabalho — um tráfego de línguas ou circunferência sem começo nem fim —, à reflexão sobre o posicionamento da mulher ou da construção literária da(s) voz(es) femininas e das suas possibilidades no contexto da poesia portuguesa contemporânea, à revisão aguçada e emocional do cânone (“Fernando, tu dizias, da brevidade da vida” [5]), da mitologia nacional (“a comichão/ da caravela portuguesa” [6]) ou à perfeita coincidência entre forma, imagem física e significado.

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu 
à frente sem reparar deixava 
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.

____________________________________[7]

Em “Aniversário”, o corte limpo e sistemático do verso reproduz não só a inquietação do movimento do primeiro corpo caminhando na frente do segundo ou a agitação de quem se divide entre a subida e o corpo detrás, mas também o avanço irregular dos pés nos degraus, um depois do outro, até ao telhado.

Também por este domínio técnico os poemas de Margarida, que existem autonomamente em si e para si, desarmam e dilaceram a(o) leitor(a) mais experiente: “o atirador/ rechaça a corda/ do arco terso/ a flecha/ corta” [8]. Desarma-nos, igualmente, o modo incontestavelmente satírico, pontiagudo e perspicaz com que Margarida contesta a tradição e reverte o cânone, tocando-o sem licença, receio ou remorso. A contestação e a desconfiança da autora diante das premissas e do mundo partem tão-só de um imenso exercício de empatia: “não há cais nem margem não há cá piedade/ que chegue para os povos das partes baixas do mapa” [9]. E o poema é, em alguns casos, uma casa de desconforto de onde se expande o olho, o ouvido e a mão.


Poemas inéditos

“Jasmin”, “Chamar puta durante o sexo”, “Seja um agente de saúde pública”, “Maior idade”, “Atirar para o torto” e “Perdão” são os 6 textos inéditos que Margarida me entregou.


Mariposa Azual. 2018.

[1] Mulher ao Mar Retorna, Lisboa, Mariposa Azual, 2013.
[2] Este exercício de apropriação criativa assenta sobretudo no domínio e releitura permanente de várias tradições e vozes literárias, das portuguesas às de língua inglesa, e na minúcia de quem, ao mesmo tempo, traduz e escuta.
[3] Mulher ao Mar, Lisboa, Mariposa Azual, 2010.
[4] Idem.
[5] Idem.
[6] “Atirar para o torto”, inédito, disponível aqui.
[7] Op. cit., 2010.
[8] Idem.
[9] “Atirar para o torto”, inédito, disponível aqui.

JASMIM

                        para a Regina Guimarães

outros têm solas fortes cascas
como anéis por anos de árvores—
mas tu és de pé só
flexível quanto quebrável
à inclemência de fora

perene amareleces o inverno
raspa-te tu reflores em pontas
mudas suscetível e valente
o teu perfume é ébrio
e após tempo maças

difícil transplante passas
o vaso todo sentes tanto
armado contra a barreira
com fisga de atilho e cana
em prumo à brisa te lanças

pouco exigente de solo
fito de insídia e tisana
rompida renda            invasora esperança

CHAMAR PUTA DURANTE O SEXO

Coito e dividendo: cara queca

de socorro, o prolema é
distinto da justa luta legal da classe
profissional mais velha do mundo.
É que li Engels demasiado
em nova e dá tanto dó
ver um homem entesoar-se
mais com mulher comprada, ou borla
além do que ordinariamente pagaria, em vez
de com gaja livremente gozada —
Questão de afluência e jugo, de influência
e mando, de macho membro que endurece
(ainda, quem diria após tanto bruáa
e viril introjeção) doloroso — digo, da
flatulência; então tiro-o, dedo
do gatilho desse furo, por mais
que entre nós o jogo fosse fogo
limpo, ponta pura, é coisa de disparo
direto na cabeça, num nó estancando tudo
o que baixo corria, e fico toda só, não
sendo, não dando, a tal fantasia
(não vale endemonhar, sei, entre nós
algumas gostam) ­— e vem a ideologia
pregar moral? em dita relação
consensual? seja, nisto eu mandava:
o ideal da posse, livre entrega 

a fundo sem retorno capital.

SEJA UM AGENTE DE SAÚDE PÚBLICA

ao fim a solidão também se soma
como experiência em caixa por dias
circunscrita a câmaras arredias
de operador em off,só se nota

em certos frames frágeis: a tabela
diária da arritmia, feita à escala
de casos por milhão—e mais, se cale
a cisma com serenatas de janela

e a morte com lives de poesia;
a cólera com mordaças de compressa.
Ardem torres, contraditas teorias

da puta da virose propagada
por receosa causa incontroversa
lá fora, se garante, não há nada.

MAIOR IDADE

teu rouco sopro muda meu vaso em arco lá
suspensa a fenda fácil bruxa do momento
de tal espanto neutralizo atritos prescindo
de repelir forças eu velha barca voadora
isenta de peso te singro em torno o rosto
torso e antebraços o rabo seda rude bojo

leite leve risco semi-escuro e a boca onda
e a prazerosa espuma divertindo outubro
que não te pedi me colhe abrindo e corre
e retribui meu corpo inteiro a ser o meio
de uníssono assomo e sumo e fogo e os
soluços do que subiu e não sucumbe logo

ATIRAR PARA O TORTO

Quando eu nasci a última guerra mundial tinha sido há vinte e oito anos
a colonial ainda tinha minas
a minha idade é já o dobro desse tempo nesta paz
sinceramente agradeço mas as coisas não convencem
como a tosse sempre na garganta o escorrega acentuado
da esperança e viver como julho temporão quando passou
já o dia mais longo custa trabalhar o vento tem grão a lua
zomba amarela cada hora mais matrona as melgas rondam todas
as atividades parecem besuntadas de creme contra
a exposição solar as picadas do peixe-agulha a comichão
da caravela portuguesa não é a sabedoria que se ganha
a ternura que se conquista uma ova é esta película
de gordura entre nós e o mundo os tornozelos
inchados no lodo do mar morto
a sabedoria aliás não tem nada que a recomende

eu que o diga que fiz estudos
ganhei uma cadeira de armar à sombra da academia
e quando o rei faz anos espremo as tetas
da poesia de cada vez o leite é mais ralo
o soro nem vê-lo de resto dane-se para quê
a inoculação? já agora o direito internacional que nos vale
as costas direitas para dizermos que não cabem
não há cais nem margem não há cá piedade
que chegue para os povos das partes baixas do mapa
felás infantis logo querulentos garotos famélicos
grávidas desidratadas gente que nos olha
por cima da burra com pragas e mil vícios
isso não é bonito

vêm com o pacote agora desembrulhe-se
tanta hubris esta bílis se calhar é o valor fiduciário
sei lá eu sou das letras tudo passa
sem os meus palpites a minha pieguice pouco faz
em justiça nem sequer dá alívio o que eu devia
não era reclamar era convocar o imoderado dilúvio
quando não a fé da indecorosa juventude
inundada cheia que valha nos esparza
nos faça anfíbios entre os anjos e os bichos
sei lá eu fácil saída fraco remédio
para a catástrofe
unguento inócuo da nossa dor
se calhar faz parte do problema
o pejo conservador que no poema se cante
um exultante afogamento


PERDÃO

e este o poema ainda no trabalho
de o completar:
pôr em palavras o que leva
semanas meses gestações
para que num dia já não pese
e leve se despetale

assim da ferida se destapa
a pedra
se encara seu brilho de fogo
de granada estancando em vidro

e o belo então diário efémero
relevo—é isso—ou uma respiração
de rosa:
tal desvelo de paixão para vingar
tal abandono de florir
para se despir, entrega de si
mesma destituída, e murchar


MARIA BRÁS FERREIRA (LISBOA, 1998)

Vim porque o anonimato falou mais alto


assim abre Hidrogénio. Manual de Desoxidação, o livro de estreia de Maria Brás Ferreira, publicado em novembro de 2020.

Hidrogénio condensa, de modo fragmentário, certos temas que não podem dissociar-se. A memória, materializada pelas fotografias dispostas ao longo do livro, que “nos devolvem os mortos” [1], abre espaço para um texto como “Mar a mar”, em que infância e morte conduzem circularmente um ao outro a partir de Deus. Deus, ou a lembrança sistemática da finitude, é o lugar contrário ao do poema: “Eu prefiro os lugares recolhidos, por onde Deus não se aventure e de onde se possa tão-só imaginar, infinitamente” [2]. O poema, arma mortal e das(os) mortais, que não existe, como a casa, “senão em regresso”, condensa, com recurso à imagem, as partes de um corpo que, além de “desaparecer no/ quarto branco” [3], existe no feminino: “Romper a virgem,/ requerer a virgindade./ Dois duros tempos — só podem ser três” [4]. Há, de facto, nos poemas de Hidrogénio, um interesse crítico, que não deixa de ser cru e voraz, nas mulheres que “submissas/ falam muito entre si,/ isto é/ para si” [5] e que, entre mais corações, carregam o peso da reminiscência (“O que desconheço: o corpo,/ O que mais recordo: a voz” [6]).





Flan de Tal, 2020.



Maria Brás Ferreira. 2019.


“Nota ao Leitor”, que interrompe propositadamente o ritmo conteudístico do livro, define Hidrogénio como “um livro da vida”, que “[a]lguns, generosos e ávidos leitores, acharão tratar-se de poesia” [7]. A delimitação do que Hidrogénio é, que não tem outro propósito senão desviar-nos até à indagação, porque ele efetivamente não é, adianta a segunda parte do livro, linear e quotidiana. Aqui, em comparação às que as antecedem, as fotografias que surgem intermitentemente entre os textos não só se aclaram em termos de luz, como nos transportam para o espaço físico e concreto da cidade e do amor. Lisboa, Berlim: “Das duas,/ as duas” [8].

Os dias correm velozes,
cheios de afazeres,
por vezes desempoeiradamente despreocupados,
e à porta dos edifícios obrigam-nos a dizer bom-dia,
como quem cava uma cratera inteira,
a esgarçar um poço cuja estranha profundidade
penhora a hipoteca
ao final do mês.

_________________________________________________[9]


Entre as cidades, as ruas, as casas e a constelação de referências para que Maria aponta (Jorge Luis Borges, Herberto Helder, Mário Cesariny) surge, no final, Maria Gabriela Llansol advertindo: “Não [sic] olhes os bordos de um texto” [10]. Maria parece substituir intencionalmente “nunca”, incluído na versão original do texto de Llansol, por “não”, o que lhe permite terminar Hidrogénio desejando-nos

— Bom descanso,
olhem os bordos do texto.

————————————————[11]



Poemas inéditos

Llansol reaparece junto de Ovídio, Fiama Hasse Pais Brandão, Rui Caeiro, Manuel Resende ou de um poeta tão jovem como Nuno Azevedo em Rasura [12], livro inédito que Maria me entregou, prestes a ser publicado em Portugal. Rasura estende tematicamente o cunho amoroso de Hidrogénio, ao apostar no poema longo, narrativo e arrisca-se, em termos de forma, consideravelmente mais. Trata-se de um poema grande à juventude.

Dele, selecionei 6 textos.

[1] Hidrogénio, Lisboa, Flan de Tal, 2020, p. 13.
[2] Idem, p. 14.
[3] Idem, p. 20.
[4] Idem, p. 21.
[5] Idem, p. 23.
[6] Idem, p. 34.
[7] Idem, p. 29.
[8] Idem, p. 52.
[9] Idem, p. 42.
[10] Idem, p. 61. O texto original de Maria Gabriela Llansol, incluído em Um Beijo Dado Mais Tarde, foi publicado em 1991.
[11] Idem, p. 62.
[12] “Sismógrafo”, Rasura, livro inédito, p. 28.


JASMIN

Fingi os mortos de vivos para melhor estar com eles.
Estão mortos, são mortos e não podem ser outra coisa que não mortos.
As desavenças não se travam mais com eles.
Eles são os soldados que serviram um combate, mas que estão esquecidos,
à força de haver outras contas a pagar.
As desavenças serão agora travadas com a vida.
A vida que não fica morta, a vida que dinamita os arranques certos,
as mãos cegas, conquanto rápidas,
os cristos ressuscitados: como os pais que sempre regressam
à escola após a náusea da manhã, a náusea de ser cedo demais
e estar-se mesmo assim atrasado para todos.
Os mortos estão mortos, como motorizadas em grandes escândalos
pelas ruas, chiando avenidas.
E no sonho da casa dentro da casa encontrei um peso:
era a morte a levar-me ao pátio,
o bestiário dos contos em vida,
os animais, as mulheres, os pais, os filhos, as areias, os cafés,
os perfumes, as sedas, a arte coleccionada, tão tonta na parede,
tão maravilhosa em arcadas no meio do espaço, balas rolando sobre o piso,
as escadas sem chegar à tijoleira empoeirada, acrópole de água e grito,
e os desejos pintados de espuma,
tudo o que sempre quisera no pátio do meu prédio tosco
numa rua que ninguém sabe, pois a ninguém deve interessar.
E subitamente arranco o corpo à asa do vento
e anseio a tudo poder galopar.
Respirar por entre juncos à beira de uma piscina,
livrar-me da boca, doar as mãos para quem as usar com maior precisão.
Era a morte a tratar do jardim, e eu mirava, perguntava-lhe dos mortos,
e ela respondia:
o jasmim precisa de muita água para crescer, toda a água que lhe deres,
muita,
todos os dias,
e não ultrapassa nunca o metro e meio de altura.

DESSERT

Fechou a minha entre as suas mãos e
traçou com a língua:

a sina lê-se de dentro das coisas tocadas.

EPÍSTOLA FURTADA OU PERVERSA A GRAMÁTICA DOS OBJECTOS

I

Crescer desconsolada
com as palavras
metricamente
histéricas.

II

Ter na sede o saciar
dos dias quentes.

III

Ler os teus poetas
fazer-te tradição
na certeza de que o silêncio
a argila da garganta
singrará.

Medir com a ponta dos dedos a amplitude da pele
que na calada te como a besos.


REVERBERAÇÃO SOLAR

A noite a querer avançar
e os teus dedos a empurrarem a luz
para o fundo do meu sexo.


A SOLIDÃO QUASE LOUCURA

I

o presente
mordendo feroz, sondando
sempre atrasado o futuro

                                                             — mas como ter-te sem que fosse agora?

II

Até amanhã,
a noite abisma-se provação fraterna:
vive um, morre outro.

III

As gargantas nos cafés partem sempre,
a vela por içar, a voz por atiçar — a recordação telúrica do principio dos tempos,
tragando fulgor a peso.
Elas não têm, pobres gargantas alcatroadas,
dor maior que as religiões inventadas,
que será o mesmo que dizer:
não têm elas amor.

IV

Demasiadamente é o céu azul,
o vinho, as estrelas, teu savoir sobre a elegância
feminina, incomportável, incendiária.

______________________________Penoso o luxo leve da preguiça, enfim.

V

Alegria maior de um erro a morte
o canto em seu cantor
o Tejo gorgolejado de sóis em fás a dós em rés
o requiem para a língua quebrada
teus seios dolentes sugando a boca indeclinável desfiladeiro
cair dentro para ser o improvável caminho de volta
túnel probatório purgatório.

VI

Amar é perder o passado para o futuro.

 
ENO ALTO

Se eu não tivesse chegado nunca
a tua canção seria o meu tédio nocturno.
Se não tivesses chegado nunca
os ossos teriam quebrado a ruína da língua.
Se não nos tivéssemos chegado nunca
velida seria a fome, alva a boca espantada.