caruru bravo | poesia no caribe

Ebony G. Patterson
…they were discovering things and finding ways to understand… (…when they grow up…), 2016 [detalhe]

se brasil é uma catástrofe que aconteceu a essa terra [sentença que tomo de assalto de Juliana Fausto, et caterva], também uma ideia conjuntural do que seja caribe ou antilhas possa ser lida de modo simétrico à primeira afirmativa. não quer dizer, contudo, que não sejam possíveis confluências, transfluências entre os espaços em suas injunções artísticas e culturais, bem como na força do pensamento interessado, principalmente mas não só, que tanja certo circuito dos planos contracoloniais e das discussões acerca da diáspora e da racialidade. bem certo que o uso dinâmico desses e outros conceitos sejam, eventualmente, problemáticos, mas não é só de chacrinha que são feitos os dispositivos de ação.
há tempos que o uso folclórico da captura radiofônica mais ao norte do país, apelidada de ondas tropicais, vem alimentando toda uma circulação musical e aparelhando as novidades cá mais ao sul das américas [américa, outra catástrofe]. não saberia, mesmo, dizer se acontece de modo similar, com força equivalente, entre as artes verbais. no campo da poesia, também do romance, nossos repertórios não me parecem tão bem resolvidos — salvo iniciativas universitárias, no campo das ideias, que alimentam as teorias decoloniais, também enfileiradas nas múltiplas entradas do pensamento racial e diaspórico, e do pensamento ameríndio, com latência mais abrangente, expandindo o pensamento transcontinental.
tomando como exemplo a circulação da poesia anglófona realizada naquilo que se convencionou chamar de caribe, temos, resguardada minha ignorância, a presença de um Walcott traduzido por aqui [no brasil, por paulo vizioli, e também na escamandro, por alberto pucheu] cuja recepção, assim me parece, foi mais morna que deveria, se comparada ao incensamento da poesia preta estadunidense. e não ousaria dizer que houve muito mais. na região francófona temos, exemplarmente, Césaire e algo e outra coisa de Chamoiseau e algo e outra coisa de Glissant, bem como a revisitada obra de Fanon, todavia não comparecem, tais autores, necessariamente na área de invenção [romance, poesia, etc]. evento recente vindo a público está ESTILHAÇOS — Antologia de Poesia Haitiana Contemporânea [Demônio Negro], organizada por Henrique Provinzano Amaral. as vozes hispana hablantes, por sua vez, tem encontrado melhor sorte, maior lastro, muito embora ainda seja terreno a ser explorado e, mais uma vez, o campo universitário conduza as ações mais prolíficas, como, pra ficar em um só exemplo imediato, o trabalho de Lucía González, Luciana di Leone e o Núcleo Poesía (Laboratório da Palavra – PACC – UFRJ).
o raio de influências entre os poetas no brasil ainda precisaria de maior vasculhamento, muito embora se sinta a presença forte de Brathwaite, entre outras vozes, em HOMELESS (2010, Mazza Edições) de Edimilson de Almeida Pereira [principalmente nas intervenções visuais e de disposições violentamente espatifadas na mancha gráfica], também a sombra de Césaire em seu Caderno de Retorno (2017, Ogum’s Toques) . Leo Gonçalves, com o seu livro Use o assento para flutuar (2018, Crisálida), ele mesmo tradutor de Césaire, também de Senghor (que não é caribenho, mas cabe a citação pelos influxos e diálogos), além de outros, a mim me parece dialogar frontalmente com essas linhas de força. algo do projeto de Eliane Marques, poeta forte em nosso cenário, em que pressinto alusões ao comportamento lírico-político de certa poesia nas antilhas em E se alguém o pano (2015, Après Coup – Escola de Poesia), bem como em Nina Rizzi, lembro especialmente de Quando vieres ver um banzo cor de fogo (2017, Patuá) a conversa se dar tanto com os cenários hispânicos, quanto anglófonos do caribe, considerando ainda seu trabalho de tradutora, junto das vivências de trânsito e de gênero e de raça dentro no brasil.
com justo interesse em colocar outras presenças em nosso repertório, começo uma série de poetas [homens & mulheres] nascidos nesse espaço complexo que é o caribe, muito embora a imensa maioria deles esteja em estado de migrância, outro tema caro às considerações teóricas & críticas em nosso cenário de aqui e do mundo, e, eventualmente, trarei também figuras que são mais diretamente dialogantes e/ou descendidas desse espaço. contribuições são bem vindas, em tempo próximo, considerando o que as novas proposições editoriais da revista escamandro tem colocado: traduções, dossiês, leituras largas, por aí vai.
entrego, como abertura dos trabalhos, algumas traduções de 3 poetas: Anthony McNeill (1941-1996), Delores Gauntlett (1949) e Kei Miller (1978), nascidos todos na Jamaica. espero que se divirtam. Jah Bless.


Anthony (Tony) McNeill (1941—1996) nasceu em Kingston, Jamaica. trabalhou por um tempo nos EUA antes de retornar à Jamaica em 1975. atuou também no jornalismo, produção de rádio, funcionário público, gerente de hotel, vendedor de enciclopédia fracassado e zelador. Entre 1975-1981 foi editor-assistente do Jamaica Journal. sua maior ambição era ser um pianista de jazz, mas, disse ele: “talento, talvez, não seja o bastante”.
publicou Hello Ungod, 1971; Reel from “The Life-Movie”, 1975; Credences at the Altar of Cloud, 1979 e, postumamente, Chinese Lanterns from the Blue Child, 1998, de onde saem os poemas traduzidos por mim, contando, ainda, com sugestões pontuais e precisas de Patrícia Lino e Guilherme Gontijo Flores. a série “apples & crosses”, dotada de um lirismo contido, de algum modo a mim me lembram breves orikis, muito embora, que se saiba, McNeill não tenha, precisamente, frequentado esses diálogos. aqui e ali tensionei questões em relação a certos desdobramentos, como no último movimento do primeiro poema, em que a implicação entre os termos pai/pena poderiam não ser perdidos, bem como numa tradução implicada de “blue”, cuja força adjetiva, a depender do enunciador, tenho tomado como uma ética traduzir por “banzo”, contudo, ainda mirando o desdobramento, bom, vocês vão chegar lá. também, coincidentemente no último movimento, no segundo poema faço uma opção por duplicar uma entrada para “lyrics”, retomando, primeiro, a volta à ideia de navegação do primeiro movimento, utilizando “loa”, dicionarizada como “toada de acento doce e melancólico composta por canoeiros e executada ao ritmo dos remos” e dobrando-a com “lira”, bom, creio que nesse passo não careça maior explicação — muito embora eu tenha querido recuperar a aliteração existente no original.

* * *

MAÇÃS & ENCRUZILHADAS

1_____Ainda não aconteceu
______Voar
______no desvanecer

2_____Se você não quiser ter má sorte no amor
______Case com meu poema
______Em vez disso

3_____Vejo além o futuro mais radiante
______O poema que esboço é
______Uma corruíra mágica

4_____Ofendi-me tão a sério, quanto assumi anos perdidos
______Nem ninguém podia me perdoar
______Agradeço, adorável outra, cujas cartas a fina-flor são flores de credo

5_____É evidente que minha mãe me vê como desviado
______Eu subo em palmas e desabo em pés
______Meu poema imune no sobrado

6_____Quando você vai parar no marmeleiro
______Corruíra
______Do silêncio dos pinheiros

7_____Você aparece também no meio da estação das flores
______Anjo
______da Morte, Alô

8_____Estou esboçando este poema para você, Anne adorável
______Pois a sua norma-carinhosa
______Já era

9_____É hora de largarmos nossas armas
______E partir o pão juntos
______Isto é do interesse das estrelas condenadas

10____Deus não tem nem pai
______Nem pena, por isso
______O céu é banzul

APPLES & CROSSES

1_____It hasn’t yet happened
______Wing
______on the fade

2_____If you want not to be unlucky in love
______Marry my poem
______Instead

3_____I can see beyond the most radiant future
______The poem I’m writing’s
______A magic wren

4_____I injured both badly and owned up years late
______One couldn’t forgive me
______Thanks lovely other whose letters are flowers are flowers of faith

5_____It’s apparent my mother sees me as lost
______I ascend in inches and topple in feet
______My poem immune at the loft

6_____When will you stop in the quince
______Wren
______From the winter-tree’s silence

7_____You appear in the middle of springtime as well
______Hello Death
______Angel

8_____I’m writing this poema to you lovely Anne
______For your paradigm-caring
______Gone

9_____It is time for us to lay down our guns
______And break bread together
______This in the interest of the doomed stars

10____God has no father’s
______That’s why
______The sky’s blue

§

LANTERNAS CHINESAS DA CRIANÇA BANZA

  1. [21/1/93 — 28/1/93]
    Esta noite no céu todas as estrelas se apagaram
    E eu estou navegando só
    Na jangada de meu corpo
    Sobre o mar noturno
  2. [28/1/93]
    Eu vago o mundo em busca de meu pai e mãe
    Eu vago a lua em busca de meus irmãos
    Eu vago a lua em busca de minhas irmãs
    Então alvorecem no vale
    Solitários feito deus
  3. [29/1/93]
    Um tempo atrás, em um vilarejo na China
    Um moleque lançava balões de papel
    Antes de atravessar o mar
    Passou o segredo
    da engenharia
    para mim
  4. [14/2/93]
    Não consigo me lembrar quem escreveu o verso
    Cantarolei, contudo, minhas correntes são tais como o mar.
    Que estupidez a minha
    Noite de Verão
    Mais que a beleza de loas & liras.

CHINESE LANTERNS FROM THE BLUE CHILD

  1. [21/1/93 — 28/1/93]
    Tonight all the stars in the sky have gone out
    And I’m sailing alone
    In the ship of my body
    Upon the night sea
  2. [28/1/93]
    I wander the world in search of my mother and father
    I wander the moon in search of my brothers
    I wander the moon in search of my sisters
    Then they dawn on the valley
    Lonely as God
  3. [29/1/93]
    Once long ago in a village in China
    A boy cast word-lanterns
    Before crossing the sea
    He passed on the secret
    of building
    to me
  4. [14/2/93]
    I cannot remember who wrote the line
    Though I sang in my chains like the sea.
    How stupid of me
    Summer night
    Beyond the beauty of lyrics.


Delores Gauntlett (1949) nasceu em St. Ann, Jamaica. tem publicados os seguintes livros de poemas: Freeing Her Hands To Clap (2001) e The Watertank Revisited (2005). Seu trabalho tem aparecido em antologias, revistas e jornais, incluindo: The Observer Literary Arts, The Caribbean Writer, The Gleaner, London Poetry Society’s Poetry News, Kunapipi, Hampden-Sydney Review, Magma, German-Bayswater Textbook, The Jamaica Journal, Bearing Witness, Anchor Books. o poema “a song for my father” foi retirado da antologia New Caribbean Poetry (2007), organizada por Kei Miller. “Writing a Poem in Metre”, um poema de seu segundo livro, é composto com um certo fantasma do iâmbico, jogando, polirritmicamente com aparições de pentâmetros e variantes a menor. Busquei, assim, reproduzir, quando possível, em decassílabos e dodecassílabos, majoritariamente. Para melhor efeito e identificação mais imediata, por exemplo, traduzo “pentameter” por “decassílabo”; quando Delores cita o espondeu [spondee], por ser difícil compreender prosodicamente a performatividade desse pé em nosso registro métrico, substituo por “anapesto”, criando uma consecução rítmica com 5 acentos marcados [em anapesto], brincando com a ideia do pentâmetro que em nosso registro poético tem previsto, então, apenas contagem silábica. Nesse mesmo verso, ainda, como perderia semanticamente o efeito onomatopaico de “splash”, crio uma alternativa que perde a repetição, mas cria a presença do som, mais um dos sentidos do termo da língua de partida.

* * *

Uma canção para meu pai

Contra o pé de cará do silente jardim
uma corruíra bole com meu pai: o sobe-
desce da picareta, a goela arfante
do pássaro oculto reclama
as sutilezas da canção.
Isso viria a ser lembrança do mato alto
roçando molhadinho as galochas escuras.

Não percebi que estava olhando ele
quando, como se num altar,
curvou-se com as mãos nuas cavando rápido
até a cabeça do cará surgir
como uma floração da terra;
a canção da corruíra empoleirou-se
sobre os sentidos, então flutuou
das folhas do pimentão orvalhado
e, como um perfume, se foi.

A Song for My Father

Against the yam-vine quiet of the garden
a nightingale stirred with my father: the lift
and fall of the pickaxe, the heaving throat
of the hidden bird exacting
the subtleties of song.
This would become the memory of high grass
brushing wet against the black waterboots.

I didn’t realize I was watching him
when, as to an altar
he bent with bare hands to a sudden digging
till the head of yam surfaced
like a flowering from the earth;
the nightingale’s song perched
upon the senses, then drifted
from the dewy pimento leaves
and, like a scent, was gone.

§

Escrevendo um Poema na Medida

Toma chuva, a algazarra
na cabeça de um doido,
e transforma essa coisa
numa sonata.

(Wayne Brown: ‘Crítico’)

Nada na página tinha sentido.
Estava muito pronta a desistir
de me gastar no decassílabo,
de me sentir um peixe puxado do mar
para a luz do sol escaldante,
quando não-quero-nada-sério é seu xaveco
e um correio do coração me dá trabalho.
Que cada verso deve deslizar na pele,
no sangue, materializado da nuance
de som sobre som, como bate um coração!
Me lanço para dentro da marola,
cruzando a nado a baía de pés jâmbicos:
com uma, duas, três batidas sob a água,
arrastada, arrastada contra a correnteza,
dando uma cambalhota no capote,
vendo a água espalhar-se em minhas mãos,
no chuá do respingo em que cada anapesto bem lento
estende minha ideia para além do mimo.

*

Chame isso música, a buzinaria,
divertindo cedinho de manhã a ideia,
ou subir a ladeira até fechar as contas
andando um metro quando um pé não entra.
Para quem me pergunta
“Qual vantagem se tira disso tudo?”
Eu só posso falar por mim,
descobre aí o que tenho a dizer,
pega na minha mão, me leva por veredas
nas quais posso perder tempo voltando.

Writing a Poem in Metre

Takes rain, the racket
in a madman’s head
and strains it
into sonata.
(Wayne Brown: ‘Critic’)

Nothing on the page made sense.
I was on the brink of giving up
fretting in pentameter,
feeling like a fish pulled from the sea
into the fierce sunlight,
when your no-fooling-around approach
and a direct heart sent me to work.
That each line should slip under the skin,
as in the blood, fleshed out from the nuance
of sound on sound, as in the beat of a heart!
I pushed off into the swell,
swimming across the bay of iambics:
three, four, five beats underwater,
pulling, pulling against the tension,
taking a turn on my back,
watching the water scatter from my hands,
splash, splash, each slow spondee
stretching my thought beyond recollection.

*

Call it the music in the traffic-hiss,
entertaining an early morning thought,
or the climb uphill to the first clearing
to move around in when a foot doesn’t fit.
To one who asks
“What’s the good of all that?”
I can only speak for me,
that it discovers what I have to say,
takes my hand and leads me down a lane
from which I can take my time returning.


Kei Miller (1978) nasceu em Kingston, Jamica. reside, atualmente, na Inglaterra e têm publicados livros de contos, romances e ensaios. sua poesia encontra, até o momento, os seguintes volumes: Kingdom of Empty Bellies (2006); There Is an Anger That Moves (2007); A Light Song of Light (2010) e The Cartographer Tries to Map a Way to Zion (2014), livro de onde saem 8 poemas de uma longa série que atravessa a obra. os poemas que seguem logo abaixo foram traduzidos conjuntamente por mim e Guilherme Gontijo Flores, experiência que temos realizado desde a confecção de Uma a Outra Tempestade [no prelo], a partir de Shakespeare & Césaire. Há um momento, entre nós, nessa experimentação tradutória, em que já não se sabe mais qual solução é de quem. nossa prática consiste em manter um documento aberto em que podemos manipular livremente as soluções de um e de outro, sem marcação de anterioridade, subtraindo, assim, a presença forte de uma mão tradutorautoral tão evidente. alguns movimentos na tradução de Miller são, com maior ou menor dificuldade, instigantes. há um uso, mais ou menos sistemático, de elementos prosódico-sintáticos oriundos do uso de patois, pigdin, iyaric e outras nuances da rotina da língua. a presença da figura do rastaman nos poemas é um indicador de que as coisas vão se complicar quando em contato com elementos locais, não apenas da paisagem, mas das linhas orais imbricadas na composição dos poemas. o jogo constante do léxico e sintaxe utilizadas pelo rasta não deveriam, a princípio, ficar entre a dimensão urbana de um rapper e a figuração rural de um preto-velho, muito embora sejam figuras reconhecíveis pela maioria de nós e, talvez, pudessem cumprir função. o uso de conceitos técnicos, como, por exemplo, “immappancy”, particularmente gerou trabalho. o termo, cunhado por Kai Krause, mixa “illiteracy” (analfabetismo) e “innumeracy” (não saber fazer contas, o analfabetismo dos números), com o sentido de “incapacidade de usar mapas”. tentaram-se inúmeras variantes e discussões, cujas conversas se ampliaram, ainda, entre as demais editoras e editor da escamandro [Nina Rizzi, Patrícia Lino e Sergio Maciel], além de conversa pessoal com Ricardo Domeneck e Paulo Henriques Britto. contando com o gosto duvidoso de todos nós, finalmente, chegamos em “amapabestismo”, donde há o prefixo negativando o conceito, a presença do mapa, a ideia de —betismo, como em analfabetismo, e um chiste com a ideia de “besta” e outro conceito meio idiota de “melhorismo” que traduz um “bestism”. parte boa da minha crença com a tradução é que todas elas, sem exceção, comparecem como ensaios, nunca fechadas, podendo, sempre, passar por revisões intermináveis. se alguém ainda sonha com transparência, precisão e termo exato no ofício, está no lugar errado, justamente por se negar à equivocação. outro problema, entre tantos, está em um certo uso pronominal, ligado à religiosidade rastafári na Jamaica. usam, de modo sistemático, duas entradas: “I-man” e I&I”. o primeiro termo significa algo como a pessoa interior de cada rastafári, no que decidimos, a princípio, por “eu-de-eus” [I-man]; o segundo termo, por sua vez, entrega uma complexidade, já que se refere à unidade de Jah e de cada ser humano. embora o primeiro termo, em certo aspecto [eu-de-eus], servisse e consumasse uma simetria maior com “I&I”, algo ali se perdia com a ideia de totalizar o conceito de unidade, como sendo unidade de duas pessoas [um eu, terreno, e o divino, que está em todos], donde Deus está dentro de todos nós e somos um só povo, de fato, o que gera uma ideia de vinculação intra & extramundana. resolvemos por usar, então, “eu-somos”, termo encontrado em HOMELESS de Edimilson de Almeida Pereira que, na consecução do poema [de Edimilson], torna-se “ambosomos”. a nota, que deveria ser breve, vai se alongando. talvez, em outra oportunidade, possamos voltar no desmonte desse patuá. nesse instante é apenas uma tentativa, entre as que virão, de um cartógrafo procurando um caminho até Sião. indico, por fim, que visitem um texto traduzido por thadeu c santos & vinicius melo, no blogue da Kza1, intitulado: “as inquietações de ser um poeta negro na grã-bretanha“, escrito pelo poeta.

* * *

i. EM QUE O CARTÓGRAFO SE JUSTIFICA

Dá pra dizer
que meu trampo não é
me soltar exatamente
porém imaginar
como se sente uma perda —
o súbito passo arrastando,
altos papos com árvores e cercas
em azul e todo o mais
podem render baliza.
Meu trampo é imaginar ampliação
do infamiliar e também
a sua ampla dor;
antecipar a irônica
questão: como encontrar
nós mesmos? Meu trampo é
desenlançar o enlaçado,
despreocupar os aflitos,
guiá-los pra fora do pela-saquismo
que por vacilo vocês se enfiaram.

i. IN WHICH THE CARTOGRAPHER EXPLAINS HIMSELF

You might say
my job is not
to lose myself exactly
but to imagine
what loss might feel like —
the sudden creeping pace,
the consultation with trees and blue
fences and whatever else
might prove a landmark.
My job is to imagine the widening
of the unfamiliar and also
the widening ache of it;
to anticipate the ironic
question: how did we find
ourselves here? My job is
to untangle the tangled,
to unworry the concerned,
to guide you out from cul-de-sacs
into which you may have wrongly turned.

§

ii. em que o rasta diverge

O rasta tem outro raciocínio.
Ele diz — já que o trampo do homem nunca é reta
dura ou no mole. O trampo dele é deixar magro e triturável
tudo da maior importância e tão real quanto a gente; é deixar plano
tudo que é alto e ondulante; é deixar insosso e invisível
uma pá de coisa que o povo pobre não dispensa — como
albergues, a mercearia onde Dona Catita vende
sua famosa sopa de pedra. E daí
o trampo do cartógrafo é deixar visível
toda coisa que nem devia de existir
tipo a conquista dos piratas, tipo fronteiras,
tipo a propagação viral dos governos.

ii. in which the rastaman disagrees

The rastaman has another reasoning.
He says – now that man’s job is never straight-
forward or easy. Him work is to make thin and crushable
all that is big and as real as ourselves; is to make flat
all that is high and rolling; is to make invisible and wutliss
plenty things that poor people cyaa do without – like board
houses, and the corner shop from which Miss Katie sell
her famous peanut porridge. And then again
the mapmaker’s work is to make visible
all them things that shoulda never exist in the first place
like the conquest of pirates, like borders,
like the viral spread of governments.

§

iii.

O cartógrafo diz
não —
O que faço é ciência. Mostro
a terra como é, sem agendas.
Nunca me apaixono. Nunca envolvo
o lamaçal com as transações da terra.
Paixão demais chilica a mão.
Miro mostrar a completude
de um lugar num só relance.

iii.

The cartographer says
no —
What I do is science. I show
the earth as it is, without bias.
I never fall in love. I never get involved
with the muddy affairs of land.
Too much passion unsteadies the hand.
I aim to show the full
of a place in just a glance.

§

iv.

O rasta pensa, traça-me um mapa do que tu vê
daí eu vou traçar um mapa do que tu nunca vê
e adivinha qual mapa será maior que o de quem?
Me adivinha de quem é o mapa que fala a verdade maior?

iv.

The rastaman thinks, draw me a map of what you see
then I will draw a map of what you never see
and guess me whose map will be bigger than whose?
Guess me whose map will tell the larger truth?

§

v. em que o rasta faz um convite

Vem dividir mais eu um caldo sem sal
um delirante caldo de guandu e caruru bravo
deixa eu falar pucê sobre as cidades de perto
as vias e os grilhões que eu-de-eus trilhei
como cada estrada te estropia o dedão
aqui na Babilônia.

v. in which the rastaman offers an invitation

Come share with I an unsalted stew
an exalted stew of gungo peas and callaloo
and let I tell you bout the nearby towns
the ways and chains that I-man trod
how every road might buck yu toe
down here in Babylon.

§

vi.
a partir de Kai Krause

Porque rasta — na real — se dispensa
muito de boa a mira cartagráfica;
crê-se diminuído
por esse olhar colonial. E o rasta diz
em Babilônia é muita treta
u amapabestismo embucetado desse mundo —
mapas que ao longo do tempo os têm espartilhado
deixando o povo dele mais nanico que já era.

vi.
after Kai Krause

For the rastaman — it is true — dismisses
too easily the cartographic view;
believes himself slighted
by its imperial gaze. And the ras says
it’s all a Babylon conspiracy
de bloodclawt immappancy of dis world —
maps which throughout time have gripped like girdles
to make his people smaller than they were.

§

vii.

Mas tem mapas
e daí também tem mapas;
e do que vamos chamar a fortuita
dança das abelhas voltando
pras colmeias senão mapas
que levam aos hibiscos
certos, seus suaves
armazéns de pólen?
E como vamos chamar o sangue
do beija-flor senão mapas
que pulsam os corpinhos entre
oceanos de ida e volta?
E com que nascem as tartarugas
senão com mapas que quebram
ovos e as tiram da areia
as guiam pro oceano em vez de terra.

vii.

But there are maps
and then again, there are maps;
for what to call the haphazard
dance of bees returning
to their hives but maps
that lead to precise
hibiscuses, their soft
storehouses of pollen?
And what to call the blood
of hummingbirds but maps
that pulse the tiny bodies across
oceans and then back?
And what are turtles born with
if not maps that break
eggs and pull them up from sand
guide them towards ocean instead of land?

§

viii.

eu-somos saco tudo, pois a real é que eu-de-eus
vejo linhas de mapas da grande mão de Jah
ele que puxou os cometas pelo céu
pra nos livrar da terra cruel do Faraó.
Quando o sol a pino amoita o elevado
diagrama de estrelas, o esquema cósmico
da liberdade de eu-somos, Jah nos aponta o olhar
ao poçofundo e diz pisquem, pisquem até
ver de novo a disseminação de galáxias guias.
A ciência da Babilônia confirma — astros também
são “corpos negros”. eu-somos já manjava
isso — lá em cima é o firmamento de Jah-Jah
cheio de luz e de vivacidade.

viii.

I&I overstand, for is true that I-man
also look to maps drawn by Jah’s large hands
him who did pull comets cross the sky
to lead we out from wicked Pharaoh’s land.
At noon when sun did hide the high
graph of stars, the cosmic blueprint
of I&I freedom, is Jah who point our eyes
to well-bottom an say blink and blink until
you see again the spread of guiding galaxies.
Babylon science now confirm — stars too
are ‘black bodies’. I&I did done know this
already — that up there is Jah-Jah’s firmament
full of light and livity.