Concretos como frutos nítidos como pássaros: Miguel-Manso

EXPLICAÇÃO

Apesar de partilharem a mesma língua e poder assumir-se que isso facilitaria a circulação constante e ininterrupta dos trabalhos poéticos das(os) poetas portuguesas(es) no Brasil e das(os) poetas brasileiras(os) em Portugal, esta lógica não corresponde à realidade das últimas décadas.

As razões pelas quais os trabalhos das(os) poetas vivas(os) ou mortas(os) não circulam num e outro país não são necessariamente claras. Esta falha pode talvez dizer respeito à falta de contato entre as(os) poetas de ambos os países, possivelmente sustentada pelo seu passado colonial, à conformação com a circulação dos nomes literários mais tradicionais e escolares (Luís de Camões ou Fernando Pessoa de um lado, Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade do outro) ou, a nível do estilo, da forma e do conteúdo, às óbvias divergências entre os fazeres poéticos de ambos os países.

Ao mesmo tempo, a imigração em que Arnaldo Saraiva reparava em 2003, no âmbito do II Congresso Português de Literatura Brasileira (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), cresceu: nunca houve tantas(os) brasileiras(os) a estudar e a imigrar permanentemente para Portugal e a oportunidade de viajar até ao Brasil nunca foi tão familiar para as(os) portuguesas(es).

Se, por um lado, o fenómeno imigratório poderia garantir o cruzamento entre ambos os universos poéticos, por outro, é necessário lembrar que nenhum dos dois sistemas poéticos depende estritamente do outro. Seria, aliás, inocente partir de um princípio de familiaridade entre os dois, já que, a partir do início do século XX, com a empreitada modernista, o corte anticolonial entre os sistemas se fez pela apropriação linguística, interdisciplinar, humorística e paródica do fazer do poema. Um ato voluntário contra um linguajar forçadamente imposto.

Não esqueço, igualmente, que este debate continua a excluir os países africanos de língua portuguesa que, além de dialogarem menos com os meios literários português e brasileiro, tampouco integram, com a mesma evidência e regularidade dos primeiros, os curricula das Universidades portuguesas e brasileiras e os planos de publicação de ambos os mundos editoriais [1].

Regresso, porém, ao primeiro ponto.

Com efeito, o diálogo entre poetas e editoras(es) portuguesas(es) e brasileiras(os) só se evidencia a partir dos anos 90. Entre as revistas que não estão mais em funcionamento e que publicaram poetas brasileiras(os) em Portugal e poetas portuguesas(es) no Brasil, constam, por exemplo, Colóquio/Letras (1971-), Revista Nova (1975, 1976), Inimigo Rumor (1996-2008), Bumerange (n. 4, anos 90), Zentral Park (anos 90), Terceira Margem (1998-2004), “Vozes da poesia” (CULT, 2006), Modo de Usar & Co. (2007-2017) ou Virada. Literatura e Crítica (2019-2020).

O diálogo nunca foi, de resto, tão fluído como hoje. Entre as que as(os) continuam publicando, podemos, por exemplo, listar Telhados de Vidro (2003), Revista Pessoa (2010), 7faces (2010), Cão Celeste (2012), a própria escamandro (2011), Enfermaria 6 (2013), Flanzine (2013), Gratuita (volumes 2 e 3, 2015), Caliban (2016), Ruído Manifesto (2017), Dobra (2017), Gueto (2017-2020), A Bacana (2018), Meteoro (2019), Despacho (2019), o volume 4 da revista Bacuri, publicado pela editora Jabuticaba em agosto de 2020 e organizado pelo poeta brasileiro Daniel Francoy ou casos mais pontuais como a revista Sibila (2009) [2] ou o Suplemento Pernambuco (2009) [3].

Inspirada pela iniciativa destas revistas, bem como pelo foco luso-brasileiro de certos projetos editoriais [4], começo esta série, “Concretos como frutos nítidos como pássaros”, com o objetivo de, em diálogo e colaboração com as(os) próprias(os) autoras(es), publicar e partilhar os seus trabalhos no Brasil.

[1] Idealmente, precisaríamos de mais projetos como a revista cabo-verdiana TXON que acaba de estrear-se (2020) reunindo autoras(es) brasileiras(os), portuguesas(es) e cabo-verdianas(os).
[2] Que publicou, em 2014, uma entrevista com o poeta experimental português Fernando Aguiar.
[3] Que, por sua vez, tem vindo a dedicar-se, cada vez mais, à publicação de artigos sobre poetas portugueses como Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Manuel António Pina, Ruy Belo, Adília Lopes e publicando, além disso, resenhas como as de Priscilla Campos sobre Cerimónias (Chão da Feira, 2017) de Maria Filomena Molder, filósofa portuguesa que, neste caso particular, se dedica, entre outros temas, a escrever sobre Herberto Helder e Ana Hatherly.
[4] Entre eles, Chão da Feira, Edições Macondo, Editora 34, Jaguatirica, Moinhos, Oficina Raquel, Corsário Satã ou Selo Demônio Negro; Averno, Caminho, Douda Correria, Glaciar, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Mariposa Azual, Relógia d’Água ou Tinta-da-China.

MIGUEL-MANSO (Portugal, 1979)

Nasceu em Santarém, em 1979, e mora numa aldeia do concelho da Sertã. Estreou-se em 2008 com o livro Contra a Manhã Burra (edição de autor) e Quando Escreve Descalça-se (edição Trama Livraria). Santo Subito, de 2010 (edição de autor), pertence, como os anteriores, à coleção “Os Carimbos de Gent”, à qual acrescentou outros dois títulos em 2012: Ensinar o Caminho ao Diabo e Um Lugar a Menos (edições de autor). Também em 2012, publica Aqui Podia Viver Gente, com ilustrações de Bárbara Assis Pacheco (Primeiro Passo). Seguem-se, em 2013, Tojo: Poemas Escolhidos (Relógio D’Água), Supremo 16/70 (Artefacto). Persianas (Tinta-da-china), de 2015, antecede Rosto, Clareira e Desmaio (Douda Correria, 2017) e Mortel (Do Lado Esquerdo, 2018). Miguel-Manso também publicou, em 2019 e em colaboração com Vitorino Coragem, Andar para Dentro. O mais recente dos seus livros, Estojo, foi lançado pela Relógio d’Água em novembro de 2020.



TUDO COMEÇA COM O PESO

com que tudo começa
o chão cogita os seus minérios e raízes
um eco pedregulha no silêncio
pendurado nas alturas
no fio desatado deste instante

a tarde inclina tantos graus
oura ao sopro brando
toca de leve a tontura
e à tortura dá abaulo rente e raso
o peso que ao livre-arbítrio desconvém

movem-se as massas de ar
as furnas encerram cada fenda cada furo
tudo tomba por dentro zunindo
de vertical vertigem atingido
porque é no próprio saltar que se pousa
porque é no próprio pouso que se cai

mas de que outra coisa falaria este poema
se não da mais pálida ideia que não faço


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Uma potência deve resplandecer. Como se faz? Pelo brio e pelo deleite. O bom sacerdote tem um corpo fixo e outro fluido radiante: com o primeiro pratica o mundo nas coisas segundas, com o segundo pratica o mundo nas coisas primeiras.

Afazeres para hoje: escavar na rocha uma igreja etíope.



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Um búfalo caminha para a água. Céu e Terra ligados pela flauta da manhã. Rompe e emerge o dia sem autor, a um só sopro. As plantações celestes clareiam e encobrem, uma música extingue, outra música floresce. Este é o misterioso momento de uma vida delicada e primitiva. Água para um búfalo amanhecido. Iluminado. O gelo estala sob os cascos enlameados e um bando de estou‑fracas dispersa ao primeiro pó. A densa escuridão perfumada do animal, a sua estrela, o edifício mínimo onde se ergue a noção, o ângulo e grau com que respira, tudo reflecte a ecologia de um núcleo sagrado perdurante por linha ao mesmo tempo agnática e uterina. É o dote bovídeo deste organismo calado.
A sua língua enorme toca o frio do pequeno lago, o lago estremece, a sua estrutura adapta‑se à sede matutina do búfalo, dedica‑se‑lhe. É o dom mineral e aquático do lago. A manhã cresce em complexidade. É também ela um organismo vivo com a sua nomenclatura matrilinear. Estende as suas extensões. Reagrupa, redefine, reforça, delineia sistemas e padrões, identifica o que precisa de ser corrigido no mundo. Embora circunscrita, a manhã transcende o espaço e o tempo e abrange com a sua toalha todo o Multiverso.



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As mulheres massais. O mercado de fruta em Libreville. Os prados do Burundi com seus longos chifres erguidos, lentos e braqueados do calor. Os nomes gerais e negros, os nomes enormes. Um gorila está sentado no Congo, tal‑qual um poeta neste lugar da Europa e urdem, um e outro, no seu próprio idioma inaudível, uma espécie de treno, entrecortado de suspiros. Nas terras altas e verdes, nos planaltos interiores, nas áridas savanas despidas, nos cónicos vulcões adormecidos, no leito seco dos rios, no oco ocre das termiteiras, dentro das termiteiras, fora das termiteiras e em volta do pêlo amarelo das leoas, na ramela triste dos tristes olhos dos poucos elefantes, nos arredores de Merca, no desenho dos rebanhos vistos do céu no Jibuti (nómadas de muito grau) em tudo isto atravessa um vento fóssil, fictício, sonhado, que tudo greta e tudo destapa. Como no eco das tribos e na fogueira das noites. Como no bater quadrupede de um coração rinoceronte dormindo sobre a erva do Parque Nacional. Mas igualmente como esse coração furtivo, encoberto, ávido de um humano caçador de troféus. E como o pigmento vermelho com que cobrem os corpos os Samburus, o povo‑borboleta. E como se come algures o sorgo e o painço que amadurece no Outono. E também como o fumo confuso dos grandes aglomerados. Mas sobretudo como o esforço de Sísifo com que o escaravelho empurra a sua bola de esterco, também eu vou levando estas palavras.



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SENTADO COM A MARIA JOSÉ
NA ANTIGA MESQUITA DE MÉRTOLA

botão de sintonia é o coração
faz correr sobre a escala do Silêncio
o fino ponteiro da escuta

o templo exala (juro, prometo) estranhas
salmodias, ladainhas fundas
corpos sonoros há muito percutidos
e que pedem pelos tempos captação

o sinal expande em toda a geometria
emana os seus perfumes
as abraâmicas modulações que tem um jardim
à sombra

e dentro dele uma espera
e dentro da espera (prometo, juro) um olhar
perguntando

que século fará lá fora?



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AINDA SONHO QUE NOS TOCAMOS

rente ao penhasco dos ombros e postos
entre o pasto dos cabelos
dedos meus pairam como libélulas sobre
lóbulos
mamilos
a maxila
————sem tocar

_________e tocando
garças em ti levantam no folhedo
das pestanas
os minutos alastram campo aberto
a cortina azula nos desvãos
da madrugada

uma buzina estronda ao fundo da aurora
enxota a barbatana do sono que arava à tona
um fio de luz vaza pelo rasgão da memória

————escuto

qualquer coisa neste silêncio
te soletra


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PRANTO PELO FIM DA JUVENTUDE

ó gloriosa senhora que tudo atinge
esquecei minha puberdade em algum Verão
passai os anos mui sucessivamente ao longe
esteja eu sempre rodeado de beleza e são

ponde depressa esta chuva no sequeiro
trazei a costumada amante soalheira
que ela enxugue meu destroço caloteiro
de uma antiga suavidade mais costeira

responde‑me, quantas maldades te fiz
que não passo de um poeta a meia haste
se te traí foi por supor, foi por um triz
que era meu o que agora me apartaste

não subtraias mais este meneio, a eficácia
em que cultivo o escândalo com que protelo
até hoje fui raro freguês de uma farmácia
queria daqui p’rá frente continuar a sê‑lo

seja eu claro enfim: não quero morrer
peço‑o com mesuras, rainha, não é para agiotar
conquanto a eterna questiúncula de nascer
pareça pior que os custos de me ausentar