In memoriam: Maria Lúcia Alvim (1932-2021)

Maria Lúcia Alvim, data e autor desconhecidos.

Já tivemos dois posts na escamandro sobre Maria Lúcia Alvim, o primeiro deles acabou dando o pontapé para uma aventura que culminou na publicação de Batendo pasto, livro inédito de 1982, que estava na gaveta de Paulo Henriques Britto, sob juramento de só ser publicado após a sua morte. Felizmente, Ricardo Domeneck conseguiu convencê-la de que nós e ela o merecíamos em vida. Durou pouco. O livro saiu pela Relicário em meados de 2020, com o generoso acolhimento de Maíra Nassif; no comecinho deste ano saiu sua primeira Antologia poética, pela Douda Correria, em Portugal, com as graças de Nuno Moura, uma edição selecionada e organizada por mim e por Domeneck, com apresentação da Patrícia Lino, a nova coeditora da nossa casa. Tudo isso graças a Luciana Oliveira Dias, amiga e cuidadora da poeta, que mediou a conversa com generosidade para todos os lados, e o apoio precioso de mais algumas pessoas. Tristemente no dia 3 de fevereiro de 2021 Maria Lúcia faleceu por complicações decorrentes de Covid-19, entre atrasos e incompetências de um governo que sublinha e abraça os piores adjetivos (cada um escolha o seu).

O objetivo deste post é fazer duas coisas: em primeiro lugar, construir um primeiro catálogo de imagens de Maria Lúcia Alvim, para ampliar o repositório na rede; em segundo, oferecer uma pequena reflexão sobre a doença do compadrio na cultura brasileira.

O catálogo que vocês podem ver abaixo é uma seleta de imagns que chegaram até mim por mãos diferentes e que preciso agradecer, pela ordem que vieram de quatro pessoas. O poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, além de recolher dois livros inéditos de Maria Lúcia Alvim (Batendo pasto, já mencionado, e Rabo de olho, ainda inédito), tinha uma das colagens. O também poeta e tradutor Alvaro A. Antunes, que há décadas mora no Reino Unido, apresentou o escorpião de argila e a caixa de Fósforos e, graças a amigos dele, também as fotos pessoais; o poeta e editor Ricardo Domeneck apresentou uma colagem; o poeta e editor Augusto Massi (que editou a fundamental reunião de Vivenda em 1989, pela coleção Claro Enigma) apresentou todo o resto, entre capas de livro, pinturas, colagens, desenhos e o projeto de um livro que não pudemos consultar em seu estado final, mas que está sob os cuidados de Umberto Alvim, sobrinho da poeta. Somos imensamente agradecidos aos quatro, de verdade. E também a Maria Lucia Verdi, que cedeu a imagem de mais uma colagem.

A cada imagem ponho uma breve informação para contextualizar a partir dos dados que tenho, e pretendo incorporar ao post outras imagens que receber, bem como eventualmente corrigir possíveis erros.

Importante é ressaltar o caráter proteico da produção de Maria Lúcia Alvim. Segundo o mesmo Massi, Maria Lúcia teria começado a pintar aos 14 anos, a escrever aos 19 e a fazer colagens aos 33. Essa sequência me parece fundamental para entender sua produção: trata-se de uma obra que parte da imagem, concentra-se na língua e depois explode nas colagens, modulações, experimentos entre texto, combinação e intervenção. Os exemplos abaixo, que espero aumentarem logo, mostram que estamos diante de uma poeta-pintora-colagista com requintes em todas as frentes. E quero frisar que, em janeiro de 2020, quando pesquisei por uma imagem de Maria Lúcia Alvim, só encontrei duas coisas: a capa de Vivenda 1959-1989 e a capa do Romanceiro de Dona Beja, sem qualquer fotografia da pessoa — era um nome sem rosto. Ao longo de 2020 esse repertório aumentou um pouco, e espero que o repositório que aqui faço sirva como uma modesta renovação de perspectiva e de visualidade. Maria Lúcia Alvim merece, e nós também.

Quanto ao compadrio, há que se pensar de que modo a cultura brasileira como um todo, em suas várias frentes, parece padecer de uma verdadeira doença afetiva. A assim chamada “vida literária”, entre nós, tem peso maior do que a noção de obra, de jeito que quase tudo que se faz costuma partir das amizades e amores, para só aí expor e dispor e contrapor as obras. Explico-me. Se observamos historicamente o circuito de apresentação, resenha, crítica e revisão das obras, percebemos dois comportamentos sistemáticos.

Por um lado, cada grupo tende a se fechar na troca elogios que vão mútua e sucessivamente gerando a impressão de obras respaldadas, quando em geral isso é mais efeito da difusão de mídias do que propriamente de uma repercussão entre pares de fora do grupo. Por exemplo, e talvez o mais característico: uma vez que por décadas os principais jornais de circulação nacional estiveram em SP e RJ, criou-se uma literatura brasileira que é basicamente o espelho de grupos internos tratando por brasileiro o que era e é local (sem qualquer julgamento de valor), daí que os escritores que não nasciam por essas bandas, acabavam indo passar as vidas por lá (Bandeira, Drummond, Cabral, Gullar, a lista é imensa) ou então períodos mais curtos (Leminski fez isso, o que ajuda a explicar como circulou nacionalmente, apesar da vida quase toda em Curitiba). Em outras palavras, na nossa história literária a mesa de bar tende a ser mais decisiva para a circulação de obras do que a própria obra.

Por outro lado, os grupos antagônicos tendem a trocar farpas nessas mídias, num esforço de suprimir correntes contemporâneas com visões divergentes: creio que não preciso gastar saliva retomando as mil e uma polêmicas de que vivem os embates literários — o século XX teve sua pletora; e o XXI amainou, preferindo a retórica da damnatio memoriae (apagamento do nome dos adversários pelo simples silêncio), o que, convenhamos, tem sua elegância, em parte mais destrutiva. Isso merece ainda uma discussão mais detida.

Para citar apenas alguns nomes que ficaram de fora nas últimas décadas e que bem mereciam receber mais espaço (a lista poderia ser muito maior): Adão Ventura (MG), Arnaldo Xavier (PB/SP), Terêza Tenório (PB), Sérgio Blank (ES), Sergio Rubens Sossélla (PR), Carlos Ronald Schmidt (SC), Paulo Colina (SP), Eustáquio Gorgone de Oliveira (MG), Ruy Barata (PA), Max Martins (PA), Pio Vargas (GO) etc. Cito apenas a lista abreviada dos poetas mortos, de recepção variada, mas quase sempre ainda periférica, sem entrar nos vivos…

Digo isso tudo pra contar duas conclusões que ando tendo para vocês.

1. Provavelmente o apagamento do nome de Maria Lúcia Alvim de 1989 para cá se dá por um motivo muito simples: em algum momento dos anos 80 ela parou de frequentar a vida literária (por ora, pouco importam seus motivos); com isso, por um lado se ausentava dos afetos, por outro deixava de ser negócio de barganha; em outras palavras, não podia devolver elogio e o reforço simbólico. Como se não bastasse, saiu do Rio de Janeiro e foi morar no interior, outro ponto relevante e que lembra o caso de Leonardo Fróes, por exemplo, que vem recebendo mais leituras nos últimos anos. O fato é que, apesar de Vivenda ter saído em 1989, com o cuidadoso trabalho de Massi, nesses mais de trinta anos, pouco se voltou a falar publicamente de Maria Lúcia Alvim, exceto por um ou outro artigo acadêmico e a dissertação de mestrado de Juliana Veloso Mendes de Freitas, defendida em 2015, um acontecimento de grande relevância.

2. O ato de generosidade gratuita sofre um problema de profundo equívoco tradutório. Isso quer dizer que, quando um determinado artista gasta sua energia para promover outro artista, sem dar a entender que tem algo específico a ganhar com sua ação, a nossa doença do compadrio tende a ler a cena segundo sua lógica interna. Isso porque historicamente até mesmo as revisões tendiam a servir para reforçar o próprio grupo que a realizava; para ficar num só exemplo, pensemos em como um livro de importância incontornável, como a Revisão de Sousândrade dos concretos, servia para reforçar as teorias da poesia dos próprios concretos tanto quanto para lermos mais Sousândrade, que estava fora dos debates da época. Não é precisamente compadrio, reconheço, mas reforça os vínculos e promove um curto-circuito similar, portanto é compreendido dentro do modelo de leitura da cultura do compadrio.

Soube há pouco que, em burburinhos do disse-que-disse, já se circulou que uma figura que considero notavelmente generosa em suas intervenções públicas (falo aqui de Ricardo Domeneck) teria feito os recentes trabalhos de recuperação de Hilda Machado e de Maria Lúcia Alvim para promover a si mesmo. Mas pergunto: se Domeneck é poeta com enorme projeção nacional, carreira de circulação internacional, como é que uma Hilda Machado quase inédita e sem grande respaldo poderia promover seu nome? Ou então uma Maria Lúcia Alvim quase esquecida? Ora, é o contrário que acontece: Domeneck usa seu “capital simbólico” para jogar alguma luz no que considera importante, e faz isso de modo sistemático com maior ou menor sucesso há pelo menos quinze anos. E mais: se promove dois nomes como esses, não é para afirmar que sua poética está historicamente mais acertada (esse tipo de disputa permanece morto e enterrado), e sim para pluralizar a experiência da poesia produzida no Brasil. Não é só ele, claro, mas permanecem raros entre nós os nomes com esse tipo de dedicação; parece-nos verdadeiramente estranho perder tempo com as produções alheias, e nisso matamos muitas obras e artistas. Enquanto isso, na ética do compadrio, o ato gratuito se traduz em artimanha.

Escolho o caso de Domeneck porque está agora vinculado ao de Maria Lúcia Alvim, e tudo aqui é para girar em torno dela. Em vida, sua obra estava quase morta até 2020; agora, morta, parece uma das figuras mais vivas da nossa poesia. Que viva então. Mas não é o único nome que mereceu e merece uma revisão séria, outras e outros demandam seu viver.

Guilherme Gontijo Flores

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CAPAS DE LIVROS PUBLICADOS ANTERIORES A VIVENDA (Fotos de Augusto Massi)

XX Sonetos, SP, 1959.
Coração incólume, RJ, Editora Leitura, 1968.
Pose, RJ, Editora Leitura, 1968.
Romanceiro de Dona Beija, RJ, Fontana- INL, 1979.
A rosa malvada, RJ, Editora Clarim, 1980.

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PROJETO DE LIVRO SALA DE BRANCO/VINTE VARIAÇÕES (Fotos de Augusto Massi)

Venho de saber que o livro existe numa forma finalizada e está em mãos de Umberto Alvim, sobrinho de Maria Lúcia Alvim.

Maria Lúcia Alvim Capa para projeto de livro Sala de Branco.
Maria Lúcia Alvim, Notas para projeto de livro Sala de Branco/Vinte Variações.
Maria Lúcia Alvim, Notas para projeto de livro Sala de Branco/Vinte Variações.
Maria Lúcia Alvim, Notas para projeto de livro Sala de Branco/Vinte Variações.
Maria Lúcia Alvim, Notas para projeto de livro Sala de Branco/Vinte Variações.

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COLAGENS

Maria Lúcia Alvim, Colagem sem Título, 1965 (foto de Augusto Massi).
Maria Lúcia Alvim, Colagem, sem título 3, 1965 (foto Augusto Massi).
Maria Lúcia Alvim, Colagem, Soleil, s/d (foto Paulo Henriques Britto).
Maria Lúcia Alvim, Colagem e poema, 2013 (foto de Augusto Massi).
Maria Lúcia Alvim, Poema-em-colagem, Abre-alas entre abelhas 2013 (foto de Augusto Massi).
Maria Lúcia Alvim, Colagem, “O aguardadado”, s/d. (Foto de Ricardo Domeneck).
Maria Lúcia Alvim, Colagem “Amor, pássaro que põe ovos de ferro”, tirada do livro “Maria Lúcia Alvim – retratos e colagens”, Petite Galerie, Rio de Janeiro, em 1980 (foto de Maria Lucia Verdi).

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OBJETO-COLAGEM (Fotos de Alvaro A. Antunes)

Maria Lúcia Alvim Caixa de fósforos. Frente (pintura sobre foto de Virginia Woolf). Anos 80.
Maria Lúcia Alvim Caixa de fósforos. Verso. Anos 80.

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PINTURAS (Fotos de Augusto Massi)

Maria Lúcia Alvim, Pintura sem título, 1980. (foto Augusto Massi).
Catálogo da exposição Retratos e colagens, na Petite Galerie, RJ, 1980. Texto de Darcy Ribeiro. (foto Augusto Massi).

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O ESCORPIÃO (Fotos de Alvaro A. Antunes, ? Anos 80)

Faço aqui um pequena nota: Antunes conta que Maria Lúcia Alvim o presenteou com uma pequena peça em barro: um escorpião (signo dele, o que pra ela sempre teve conotações profundas). Antunes afirma que não se lembra mais se a obra é mesmo dela, ou não. Poderia ser, por exemplo, do pai dela, ou de Zé Pavão; ou mesmo algo que ela tenha comprado/ganho/encontrado.) Para publicação oficial seria preciso confirmar. Entendo que, quando falamos de uma poeta que incorpora traduções de obras alheias como próprias e uma artista plástica que trabalha com o método da colagem, a ambiguidade da autoria é parte constitutiva, sua curadoria é também ato artístico.

Escorpião, s/d, Maria Lúcia Alvim (?, autoria duvidosa).
Escorpião, s/d, Maria Lúcia Alvim (?, autoria duvidosa).
Escorpião, s/d, Maria Lúcia Alvim (?, autoria duvidosa).

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IMAGENS (Fotos de Carlos T. Moura)

Maria Lúcia Alvim, Além Paraíba, 1996.
Maria Lúcia Alvim, Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1996.
Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), Esculturas de Fausto Alvim (pai).
Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1998.
Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1996.
Zé Pavão, Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1996.
Zé Pavão com gato no colo, Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1996.
Maria Lucia Alvim, Hotel São Luiz, Juiz de Fora, 2013.
Maria Lúcia Alvim, seu quarto no Hotel São Luiz, Juiz de Fora, 2013.
Maria Lúcia Alvim, Juiz de Fora (Foto de Luciana Oliveira Dias), 2020.

RETRATOS DA POETA (Fotos de Augusto Massi)

Retrato de Maria Lúcia Alvim por Enrico Bianco, in XX Sonetos, 1958.
Maria Lúcia Alvim em bico de pena de Cárolus, in A rosa malvada, 1979.