Rachel Hadas (1948—), por Rodrigo Gonçalves

Rachel Hadas é autora de mais de vinte livros de poesia, ensaios e traduções. Poems for Camilla foi publicado em 2018 pela Measure Press, que lançará Love and dread ainda em 2020. Uma coleção de seleções de prosa, Piece by piece, será publicada por Paul Dry Books em 2021. Rachel Hadas é Board of Governors Professor of English na Rutgers University-Newark, Nova Jersey, EUA, onde leciona há muitos anos.

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POEMS FOR CAMILLA (2018), Rachel Hadas

The Mothers on the Wall

stant pavidae in muris matres oculisque sequuntur
pulveream nubem et fulgentes aere catervas
Aeneid VIII. 590-1

The fearful mothers standing on the wall,
the cloud of dust they follow with their eyes:
millennia pass, and nothing’s changed at all
of our self-inflicted miseries.
Young men stamping; clouds of dust their feet
Stir up; the gleaming weapons and the heat –
the women, poised and fearful, gazing down
as the squadron marches out of town,
keep following its progress even when
nothing is left to see of all the men,
horses, lances, banners. Only air
trembles and registers that they were there:
dust devils, horse manure blown on the wind,
a fume of sweat are all that’s left behind.
Nothing more; the life has passed. But still,
Stricken, the mothers stare down from the wall.

As mães na muralha

stant pavidae in muris matres oculisque sequuntur
pulveream nubem et fulgentes aere catervas
Aeneid VIII. 590-1

As mães, com medo, no alto da muralha,
com os olhos seguem as nuvens de poeira:
milênios passam, nada nunca calha
mitigar nossa autoimposta miséria.
As nuvens de poeira aos pés batidas
dos jovens; o calor, armas polidas –
as mulheres, tremendo, olhando abaixo
enquanto o esquadrão se põe em marcha,
saindo da cidade, o seu progresso
perseguem até que, enfim, desaparecem
insígnias, lanças e cavalos; só
o ar registra, trêmulo, com pó
em remoinho, esterco, e mais, no vento,
a névoa de suor: tudo que resta.
E nada mais; passou a vida, olham
as mães, feridas, do alto da muralha.


Painted Full of Tongues

fama, malum qua non aliud velocius ullum:
mobilitate viget virisque adquirit eundo,
parva metu primo, mox sese attollit in auras
ingrediturque solo et caput inter nubile condit
monstrum horrendum, ingens, cui tot sunt corpore plumae,
tot vigiles oculi subter (mirabile dictu),
tot linguae, totidem ora sonant, tot subrigit auris.
Nocte volat caeli medio terraeque per umbram
stridens, nec dulci declinat lumina somno;
luce sedet custos aut summi culmine tecti
turribus aut altis, et magnas territat urbes,
tam ficti pravique tenax quam nuntia veri
Haec tum multiplici populos sermone replebat
gaudens, et pariter facta atque infecta canebat…
— Aeneid IV. 174-90

Fast-moving Rumor, growing as he goes,
timid and small at first, gains strength in motion
until he bumps his head against the clouds.
Swiftest of evils, flitting through the night,
Rumor never shuts his countless eyes.
He has as many eyes, tongues, ears as feathers;
flies, watches, talks, and listens all at once,
incessantly. He’s everywhere. He’s growing.
Broadcasting dappled bulletins all day
from a high tower, filling people’s minds
with bubbling streams of babble
where true and false inextricably blend,
panicking whole cities, full of glee,
gigantic, disembodied, all hot air,
he goes about his tasks: unmaking meaning
and sowing terror. He can’t be controlled
or ignored, he doesn’t stop, relentless.
Nor do his crowds of lackeys ever sleep.
Pariter facta atque infecta — reportage
in a steady stream. He never tires.
We are tired. What should we believe?
Fear, confusion, anger — all exhausting.
Crouching in his tower, he pouts and glowers,
angry and happy, happy to be angry,
and keeps on putting forth a froth of words
true and false mixed — but falsehood trumps the truth.
Virgil’s Fama is female. Not this time.

Pintado cheio de línguas

Nem ha contagio mais veloz que a Fama.
Mobil vigora, e fôrça adquire andando: 195
Tímida e fraca, eis se remonta ás auras;
No chão caminha, e a fronte ennubla e esconde.
Da ira dos deuses Terra mãe picada,
Posthuma a Celo e Encelado, he constante,
De pés leve engendrou-a e de azas lestes: 200
Horrendo monstro ingente, que, oh prodigio!
No corpo quantas plumas tem, com tantos
Olhos por baixo véla, tantas linguas,
Tantas bôcas lhe soam, tende e alerta
Ouvidos tantos. Pelo céo de noite 205
Revoa, e ruge na terrena sombra,
Nem os lumes declina ao meigo somno:
De dia, em celsa tôrre ou summo alcaçar,
Sentada espia e as capitaes aterra;
Do falso e ruim tenaz, do vero nuncia. 210
Vária e palreira então com gaudio os povos
Aturde, e o feito e por fazer pregoa:
(Eneida, IV, 174-90, Trad. Odorico Mendes)

Mais rápido entre os males, voando pela noite,
o Rumor nunca fecha os inúmeros olhos.
Tem mesmo tanto de olho, língua, orelha e pena;
ao mesmo tempo voa, espreita, fala e escuta,
sem cessar. Ele está por todo lado. E cresce.
Transmite o dia todo boletins manchados
de cima da alta torre, enchendo as nossas mentes
de um fluxo borbulhante blablabla
no qual o vero e o falso se imiscuem com força,
em gozo, põe cidades inteiras em pânico,
gigante e incorpóreo, inteiro ele é ar quente,
persegue suas tarefas: desfazer sentidos
e semear terror. Ninguém mais o controla
ou ignora, ele é imparável, implacável.
Também não dorme nunca o seu rebanho, gado.
Pariter facta atque infecta – reportagem
em fluxo estável. Ele nunca está cansado.
Nós estamos. Em que se pode acreditar?
Medo, confusão, raiva – tudo nos exaure.
Enfurnado na torre, beicinho, brabinho,
tem raiva e está feliz, feliz de estar com raiva,
e segue, escarra esturro, espuma de palavras,
verdades e mentiras mistas: ganha a trampa.
Fama é feminino em Virgílio. Agora não.


The Source of Thoughts

Nisus ait: ‘Dine hunc ardorem mentibus addunt,
Euryale, an sua cuique deus fit dira cupido?’
— Aeneid IX. 184-5

Tell me, do the gods implant
this ardor in our minds — is it an add-on?
Or flip it: maybe we ourselves
attribute to the gods
our hearts’ dear direst wishes?
Or take it one step further: could it be
that what we wish becomes a god to us?
Do things work outside in or inside out?
Top down or bottom up?
The passage I have fixed on — did it fly
from some high dusty shelf, some mottled page
straight into my mind
or did I rather, happening to revisit
the second half of the Aeneid
for the first time in more than fifty years
pluck the waiting words
fresh from the page like immemorial fruit?
Or (on the third hand) did my own
fears and wishes conjure up the passage?
Oh my beloved, where do thoughts come from?

A fonte do pensamento

Nisus ait: ‘Dine hunc ardorem mentibus addunt,
Euryale, an sua cuique deus fit dira cupido?’
— Aeneid IX. 184-5

Me diz, os deuses é que implantam
esse ardor na nossa mente – é um add-on?
Ou inverte: talvez nós mesmos
atribuímos aos deuses
os desejos mais selvagens dos nossos peitos?
Ou mais longe ainda: poderia ser
que o que desejamos vira um deus pra nós?
As coisas funcionam de fora pra dentro ou vice versa?
Top down ou bottom up?
A passagem em que eu me fixei – ela voou
de alguma prateleira empoeirada, a página manchada
direto pra minha mente
ou por acaso eu, ao revisitar
a segunda metade da Eneida
pela primeira vez em mais de cinquenta anos
colhi as palavras que esperavam
frescas na página como frutos imemoriais?
Ou (terceira margem) foram meus próprios
medos e desejos que conjuraram a passagem?
Oh, meu amado, de onde vêm os pensamentos?