Miguel Martins (1969—)

Miguel Martins nasceu em Lisboa, em 1969. É poeta, prosador, crítico, tradutor, letrista de canções, arqueólogo, músico. Este é o seu 27º livro desde 1995. Traduziu, entre muitos outros, Rabelais, Lorca, Luigi Russolo, E. M. Forster, Henry Roth, Aminata Sow Fall e Heather McDonald. É membro do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura (Lisboa) e do Conselho Editorial da revista Gândara, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É colaborador da revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, desde 2009. Foi editado em Portugal, no Brasil, na Sérvia, em Espanha, em Itália, na Alemanha, na Bulgária, no México, em Cabo Verde e na Escócia.

Os poemas que seguem foram selecionados e organizados por Ricardo Domeneck para o livro São Miguel da Desorientação, editado pela Edições Macondo (2020).

* * *

As minhas ideias têm ideias próprias. Há muito
que é assim. Desde que perdi o coração, triturado
por uma máquina de fazer dias sem remorso
nem consideração pelas fragilidades que inventaram
o cristal e os versos. Tenho a língua coberta de musgo
e raiva, tenho uma moeda na algibeira e não telefono
nem ao Céu nem ao mar. Vou tendo mulheres
mas só dos olhos para fora. Sonho em matar
o tempo e caio para trás à beira do precipício
de todas as contingências. Como. Como-me.
Sozinho com as estrelas sem luz ou ainda tão distante
que só alumia o passado. Há-de haver um verbo
para isto. Desconheço-o. Desrecordo-o. Hoje
é dia de festa. Festa de São Miguel da Desorientação.
O Diabo mostra a sua cara no sono das crianças
e na falsa simplicidade dos frutos. As minhas ideias
impedem-me de estar presente. Logo hoje
que tanto queria dançar a vida numa malga de vinho.


Devíamos limpar os pés descalços na terra alagada com o suor
dos outros, com a boca pegar os gatos pela nuca e inoculá-los
com o vitríolo das canções mais devassas que nos fermentam
nas gengivas, preguiçar estirados sobre as algas que arribaram
cobertas de crude até termos o diabo pirogravado nas costas,
mimetizar os mortos em quanto os assemelha aos chimpanzés
e comer-lhes as flores emurchecidas, porque não há melhor
colónia balnear do que um bom cemitério de província, claro,
nem cão mais vigilante do que um padre depois de marinado
em cuspo e alhos e levado ao forno numa central atómica,
que para este efeito tanto pode ser a mais imunda cona
de um bordel de Karachi como o altar da catedral de Ávila,
onde a estátua de Teresa, de olhar esgazeado, procura ver os céus
como se tivesse comido qualquer coisa estragada ou acabasse
de entregar o seu corpo a um tremendo solo de guitarra eléctrica
embrutecido por um vendaval. Deveríamos manifestar, depois,
uma indisponibilidade total para tudo o que não esteja em chamas
e, sobretudo, para as crianças e outros pastéis de massa tenra,
como seja, por exemplo, a poesia, massagem catatónica das frases.


Sei que, por vezes, confundo a astrologia e a dinamite,
mas a minha carta astral jura-me morto e asfaltado,
como um cão que, de vísceras de fora, teima nas suas
inabaláveis convicções topográficas. Que se confunde,
também ele, com o lugar onde, sem que o soubesse,
voluntariou o seu último batimento cardíaco, na grande
batalha contra o cauchu e a cobiça do horizonte.
(Não há nisto qualquer surrealismo, nem sequer vislumbre
de demência ou intoxicação, mas, apenas, aquela lucidez
característica de quem, em vida, doou todo o realismo
à sopa dos pobres e a melhor parte do sangue à baixela
dos ricos). Estou, portanto, morto, ainda que a mão insista
nestes pequenos desenhos de forma arrevesada e conteúdo
tenso, que apenas corroboram uma insuportável propensão
para a imobilidade e para a insolência. Para a insolvência,
diria. Para o sacrificialismo das cerimónias mais sacrílegas
e superficiais. Desdenho-me, como o roto ao nu, e paro,
de repente, para alisar uma madeixa de cabelo incolor,
certo de que nisso se joga o grande destino do mundo.
A 1 de Setembro de 1939, Hitler invadia a Polónia. Mas
o que menos sabem é que, nessa mesma noite, Luigi Rossi,
napolitano de profissão indefinida e proventos irregulares,
se viu, subitamente, de posse de uma grande maquia
e decidiu tentar a sorte além-mar, como proprietário
de um bordel e cantor autoproclamado. E entre as duas coisas,
uma real e outra acabada de inventar, à pressa, a distância
é tão grande ou tão pequena como todo o absurdo de estar
vivo e ser bípede e não conseguir parar de pensar. Termino,
nem por isso mais leve, acrescentado que, apesar de tudo,
para vanglória de ambas as partes envolvidas, Hitler nunca
sequer aventou a hipótese de invadir o bordel de Luigi Rossi.