Yves Bonnefoy, por Leila de Aguiar Costa

Yves Bonnefoy (Tours/1923- Paris/2016) é autor de extensa obra poética – em verso e em prosa, nas suas mais variadas fisionomias – e de textos sobre artes visuais, com predileção pela pintura italiana do Renascimento.
Se há um motivo a caracterizar sua poética, esse é aquele que o próprio Bonnefoy chama a “presença”: trata-se do mundo, ou melhor, da relação com o mundo e com seus objetos, suas coisas, suas figuras. Não por acaso, o poeta advogará pela causa de certa “realidade, simples, plena que carrega em si uma terra – “a terra que é vida”, dirá ele em um entrevista concedida a um de seus exegetas mais conhecidos, John E.Jackson, na revista L’Arc (1976, nº 66). Terra que se descola da abstração e que convida ao hic et nunc. Poesia que se insurge contra o conceito e que por isso mesmo se dissemina no mundo, graças a ele e nele se abrigando. Basta simplesmente prestar atenção, ser todo ouvidos para que ele aconteça, apareça desembaraçado de tudo quanto é orquestrado pelo espírito.
Os poemas para os quais proponho uma tradução ­ ─ o primeiro, em versos; o segundo, em prosa poética ─ encenam essa presença, deambulam pelo mundo e pela terra em busca de certa res que logre convidar aos sentidos e, sobretudo, à escuta.

Leila de Aguiar Costa é professora de Teoria Literária do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP). Além de seu interesse pela poesia de Yves Bonnefoy – seu atual projeto de pesquisa faz dialogar as poéticas do poeta francês e do poeta mato-grossense Manoel de Barros –, dedica-se a estudos de escritas de si contemporâneas francesa e brasileira, às relações entre texto e imagem e, ainda, às relações entre poesia e infância [da poesia]. É, enfim, há muitos anos, tradutora de textos literários franceses e de expressão francesa, dos séculos XVII ao XXI.


“Passante, são palavras” (Les Planches Courbes. Paris: Gallimard, 2006, p.40; primeira edição Mercure de France 2001)

Passant, ce sont des mots. Mais plutôt que lire
Je veux que tu écoutes : cette frêle
Voix comme en ont les lettres que l’herbe mange.

Prête l’oreille, entends d’abord l’heureuse abeille
Butiner dans nos noms presque effacés.
Elle erre de l’un à l’autre des deux feuillages,
Portant le bruit des ramures réelles
À celles qui ajourent l’or invisible.

Puis sache un bruit plus faible encore, et que ce soit
Le murmure sans fin de toutes nos ombres.
Il monte, celui-ci, de sous les pierres
Pour ne faire qu’une chaleur avec l’aveugle
Lumière que tu es encorre, ayant regard.

Simple te soit l’écoute! Le silence
Est un seuil où, par voie de ce rameau
Qui casse imperceptiblement sous ta main
. . . .qui cherche
À dégager un nom sur une pierre,

Nos noms absents désenchevêtrent tes alarmes,
Et pour toi qui t’éloignes, pensivement,
Ici devient là-bas sans cesser d’être.

Passante, são palavras. Mais do que ler
Eu quero que você escute: essa frágil
Voz que possuem as letras que a relva come.

Aplique o ouvido, ouça para começar a feliz abelha
Visitar nomes quase apagados.
Ela erra de uma para outra das duas folhagens,
Carregando o rumor dos ramos reais
Para aquelas que trespassam o ouro invisível.

Em seguida, perceba um rumor ainda mais fraco, e que isso seja
O murmúrio sem fim de todas as nossas sombras.
Ele sobe, esse aqui, de sob as pedras
Para fazer um só calor com a cega
Luz que você ainda é, que possui olhar.

Simples seja para você a escuta! O silêncio
É um limiar onde, pela via dessa ramagem
Que quebra imperceptivelmente sob sua mão que
. . . .Busca
Des-cobrir um nome sobre a pedra,

Nossos nomes ausentes desemaranham suas inquietações,
E para você que se afasta, pensativamente,
Aqui se torna lá longe sem deixar de ser.


“La sente étroite vers tout, II”. Remarques sur le dessin. La vie errante suivi de Remarques sur le dessin. Paris: Gallimard, 1999, p.168-169 ; primeira edição Mercure de France, 1993)

La sente étroite vers tout, II

Notre expérience de ce qui est, à tout un premier niveau : du langage. Nos mots puisent, là au-dehors, ce dont ils vont faires des choses, qu’ils ordonnent, qu’ils interprètent, ainsi se met en place le monde, ainsi parurent et disparurent les univers que chaque civilisation à rêvés : somptueuses figures, riches de dimensions et de mouvements, mais qui ne sont que les pages, dissipées si tôt que tournées, d’un livre que l’on n’a donc que peu de raison d’appeler la réalité.

Celle-ci n’en survit pas moins, à cet horizon dans les choses où les mots ne peuvent atteindre, ou dans l’espace qui est entre elels : semblable à ces frondaisons d’au-dessus la muraille des jardins clos. Disons que le réel, c’est l’arbre comme on le voit avant que notre intellect ne nous dise que c’est un arbre ; ou ces dilatations lentes de la nuée, ces resserrements et déchirements dans le sable de sa couleur qui défient le pouvoir des mots.

Et poésie, c’est ce que devient la parole quando on a su ne pas oublier qu’il existe un point, dans beaucoup de mots, où ceux-ci ont contact, tout de même, avec ce qu’ils ne peuvent pas dire.

A senda estreita em direção de tudo, II

Nossa experiência do que é, em um pleno primeiro nível: linguagem. Nossas palavras haurem, lá fora, aquilo com o que farão coisas que organizam, que interpretam. Assim constituem o mundo, assim apareceram e desapareceram os universos sonhados por cada civilização: suntuosas figuras, ricas em dimensões e em movimentos, mas que não são senão as páginas, dissipadas assim que viradas, de um livro que se tem pouquíssima razão de chamar a realidade.

Essa não deixa, entretanto, de sobreviver, a esse horizonte dentro das coisas onde as palavras não podem alcançar, ou no espaço que está entre elas: semelhante àquelas copas por sobre a muralha dos jardins fechados. Digamos que o real é a árvore como a vemos antes que nosso intelecto nos diga que é uma árvore; ou aquelas dilatações lentas das nuvens, aquelas retrações e aqueles rasgões na areia de sua cor que desafiam o poder das palavras.

E poesia é o que se torna a palavra quando se soube não esquecer que existe um ponto, em muitas palavras, onde essas têm contato, apesar de tudo, com o que elas não podem dizer.