“Ode — Indícios de Imortalidade”, de Wordsworth, por Ricardo Neves

A poesia aparece em lugares inesperados. Encontrei-me com a “Ode” de Wordsworth lendo um dos livros do conhecido autor de divulgação científica Stephen Jay Gould, “Ever since Darwin”, capítulo “The Child as Man’s Real Father”. Como contraponto à argumentação puramente científica do seu texto, Gould cita um trecho da Ode:  

Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;

Essa passagem me comoveu e atiçou minha curiosidade pela Ode e por Wordsworth. Sua leitura me revelou várias passagens que confirmaram minha impressão inicial, por exemplo essa expressão tão bonita do último verso: “Thoughts that do often lie too deep for tears”. Então comecei a traduzir.

No meio do caminho, encontrei este blog e uma tradução já existente da Ode para o português, mas mesmo assim resolvi continuar na empreitada e fui até o fim. Na realidade, evitei ler a tradução existente até completar a minha porque, pensei, consciente ou inconscientemente ela teria uma influência sobre mim.

Durante a tradução, que foi feita tão pouco a pouco que durou meses, recebemos em casa a visita de um casal amigo que veio com sua filha Ezguy, que não conhecíamos ainda. Ela teria uns três anos. Durante sua breve passagem por casa, Ezguy iluminou nosso jardim: “ah, uma flor!”, referindo-se a uma pequeníssima margarida no meio da relva, “ah, uma borboleta!”, “ah, uma framboesa!”. Tudo era descoberta e esplendor, exatamente como no poema de Wordsworth. Coincidência ou sincronicidade, o fato é que Ezguy me deu alento para prosseguir na tarefa.

Do ponto de vista mais formal, a Ode tem uma estrutura bastante irregular no que se refere à métrica dos versos e ao esquema de rimas. Sendo o inglês uma língua tão sintética e às vezes quase monossilábica, resultou-me impossível guardar a métrica original dos versos. Usei então versos dodecassílabos quando os versos em inglês eram decassílabos, o que ocorre em boa parte do poema, e nos demais tomei bastante liberdade com a métrica. Quanto às rimas, guardei o esquema usado por Woodsworth em cada estrofe.

Ricardo Neves

* * *

Ode – Indícios de Imortalidade, a partir de Reminiscências da Tenra Infância
(William Wordsworth)

Houve um tempo em que bosques, rios e pradaria,
A terra, a mínima coisa natural,
A mim me parecia
Envolta em luz celestial,
O esplendor de um sonho ou fantasia.
O mundo não é mais como era outrora;
Onde quer que eu esteja,
Noite ou dia seja,
As coisas que eu via eu já não vejo agora.

A visão do arco-íris, grandiosa,
E a pura beleza da rosa;
A lua no céu passeando
Nas noites claras, serena;
As águas do mar cintilando
Na noite estrelada e amena;
Luz do sol, nascer de um novo dia;
Mas sei que onde quer que eu for,
O esplendor da terra passou, que eu antes via.

E agora, enquanto as aves cantam com alegria,
E os cordeiros e o pastor
Dançam ao som do tambor,
Apenas a mim veio um pensamento triste;
Mas alguma coisa forte em mim resiste,
Me reconforta e me alivia.
Do alto da escarpa ressoam as cataratas, –
Meus pesares já não obscurecem o mundo:
Ouço seus ecos vindo do vale profundo;
Os ventos vem a mim de plagas abstratas,
E é feliz a terra inteira;
Os campos e o mar
São pura frescura e cantar,
E ao romper da primavera
Se acalma também a fera; –
Tu, alegre pastor,
Dança ao meu redor, quero ouvir teu canto,
Menino pastor!

Sim, abençoadas criaturas, bem distinto
Ouço como vos estais a falar;
Vejo os céus sorrir convosco a jubilar;
Meu coração se une à vossa festa,
As guirlandas coroam minha testa,
Sinto essa vossa benção, sim, na carne eu sinto.
Dia aziago! se eu estivesse sombrio
Enquanto adorna a Terra inteira
Essa doce manhã trigueira;
E os meninos colhem com brio
Por lugares distantes
Em mil vales verdejantes
Flores frescas; e o sol esquenta com bonança,
E nos braços da mãe salta e brinca a criança: –
Eu ouço, eu ouço, eu ouço com alegria!
Mas há uma árvore, que só conheço eu,
Um campo que uma vez eu contemplei,
Ambos me falam de algo que se perdeu:
A meus pés o amor-perfeito
Repete a seu modo e jeito:
Aonde fugiu o visionário fulgor?
Onde se esconde agora o sonho e o esplendor?

Nosso nascer é apenas sono e esquecimento;
A alma que se eleva, a Estrela da nossa vida,
Trazida por distante vento
Noutro lugar foi concebida;
Não de todo inconscientes,
Nem totalmente indigentes,
Chegamos, mas em meio a nuvens de esplendor
Saídos de Deus, nosso Senhor:
O céu nos cerca em nossa infância!
Sombras da prisão começam a se fechar
Quando o Menino cresce,
Mas ele contempla a fonte de luz jorrar,
E se alegra e floresce;
A Juventude é o sacerdote celeste
Da natureza, que desde o longínquo leste
Viaja cada dia, e em sua caminhada
Pela visão do esplendor vai amparada;
Ao longe o Homem percebe-a fenecer, sombria,
E se esvaecer na escuridão do dia a dia.

Os prazeres que a Terra busca são mistério;
Seus desejos nascem no seu âmago interno,
E, mesmo se algo tem de amor materno,
E alguma intenção honrada,
Essa ama de casa lança seu feitiço
Para que o Homem, seu filho postiço,
Esqueça o esplendor do seu primevo império,
E os palácios em que viveu, na sua chegada.

Contemplai a Criança em sua doce primavera,
Um pigmeu queridinho de seis anos!
Debatendo-se entre seus brinquedos e panos
Dos assaltos de beijos da mãe, que o venera,
E sob o olhar complascente do pai, ufanos!
Olhai, a seus pés, como esboça em filigrana
Mapas e planos, com arte aprendida agora,
Fragmentos de seu sonho de vida humana;
Uma boda ou um festival,
Um luto ou um funeral;
E seu coração nisso se afaina,
E a isso modela sua canção:
Afiará sua língua, então,
A discursos de amor, contendas ou penhoras;
Mas sem tardar, serão
Esses discursos postos de lado,
E com orgulho renovado
O pequeno ator forja um novo papel
E sai à luz um novo personagem
Nessa comédia que, em sua viagem,
A vida traz consigo em sua equipagem;
Como se fosse a imitação
Sua exclusiva vocação.

Tu, cuja aparência exterior desmente
Da tua alma a imensidade;
Tu supremo filósofo, que a tua herdade
Ainda guardas, tu entre os cegos a lucerna,
Que lês, surdo e mudo, a eterna verdade,
P’ra sempre enfeitiçado pela Mente eterna, –
Poderoso Profeta! Vidente abençoado!
Dessas verdades o guardião sagrado
Que toda a vida buscamos sem cessar,
Perdidos nas trevas, na escuridão da cova;
Tu, sobre quem senta a tua Imortalidade
E choca como o dia uma Presença nova,
Uma presença de vida e de esperança;
Para quem a cova
Não passa de um leito solitário e proibido
Na baça luz de um dia nunca amanhecido,
Paragem do pensar, onde o corpo descansa;
Tu, pequena criança, embora nascido
Em glória e poder da celeste liberdade,
Por que provocas os anos, incansável,
Para trazer ao fim o jugo inevitável,
Lutando às cegas contra a bem-aventurança?
Breve tua alma pagará a penalidade,
E a rotina cairá sobre ti com frialdade,
Profunda como a vida, aguda como a lança!

Ah, alegria! Que algo de vivo
Em nossas cinzas subsista,
Que esse fátuo fogo fugitivo
Na natureza ainda resista!
A lembrança de anos passados gera em mim
Uma perpétua bendição : mas não assim
Pelo que mais merece ser abençoado,
Deleite e liberdade, o simples credo, enfim,
Da infância, quando adormecido ou acordado
Flutua no ar um sonho sempre renovado :
– Não para essas coisas levanto
Minha gratidão e meu canto ;
Mas para esses obstinados questionamentos
Sobre sentido, mundo externo, fundamentos,
Derrocadas, desaparecimentos,
Receios confusos de uma criatura
Movendo-se em mundos não concretizados,
Altos instintos, ante os quais nossa natura
Treme, surpresa, como os condenados :
Mas para esses primeiros afetos,
Obscuras recordações, objetos
Que, seja qual for sua moradia,
São ainda a fonte de luz de nosso dia,
Os senhores da luz de nosso olhar ;
Nos sustentam – nutrem – e nos libertam ;
Fazem anos parecer momentos no altar
Do eterno Silêncio : verdades que despertam
Para não perecer jamais ;
Que nem homem ou menino mortais,
Nem indiferença, nem empreitada demente,
Nem nada que impeça de estar contente,
Pode anular ou destruir completamente !
Por isso quando o tempo está calmo e em paz,
Embora estejamos longe terra adentro,
Nossa alma avista esse mar, o mar de dentro,
Que aqui nos trouxe recém,
E pode num momento viajar além –
E ver o Menino brincar na areia,
E ouvir a eterna vaga que a golpeia.

Cantem, pois, aves, cantem a alegre canção !
E que os cordeiros e o pastor
Dancem ao som do tambor !
Me uno à vossa multidão,
Sim, essa gaita, sim, esse recreio,
Sim, tudo que hoje abriga o vosso seio
Sinta de Maio esse alegre gorjeio !
E embora essa luz antes tão resplandecente
Fuja de meus olhos agora eternamente,
E já nada possa trazer de volta a hora
Do esplendor na relva, da flor encantadora ;
Em vez de aflição, acharemos paz
E força no que ficou para trás ;
Na simpatia original e infinda
Que tendo sido deve ser ainda ;
Nos suaves e tranquilos pensamentos
Que brotam dos humanos sofrimentos ;
Na fé que mais além da morte mira a paz,
No tempo que a mente filosófica traz.

E, sim, fontes, pradarias, bosques e flores,
Prenúncio não sejais do fim de meus amores!
Meu coração vosso poder ainda sente ;
E sinto ainda, de maneira diferente,
Esse mesmo deleite que antes eu sentia ;
Amo o regato que rio abaixo se agita
Até mais do que quando, como ele, eu corria ;
A pura claridade de um nascente dia
É sempre tão bonita ;
Em torno ao sol poente as nuvens dele emprestam
As mais sóbrias cores, se essa visão emana
De um olho atento à mortal condição humana ;
Outros desafios virão, e outros triunfos restam.
Coração humano, fonte de nossos alentos,
Rendo graças a ti por rir, amar, chorar,
A ínfima flor me inspira às vezes pensamentos
Profundos demais para a lágrima expressar.

(trad. Ricardo Neves)