XANTO|”Tite de Lemos: cortina de espelhos”, por André Luiz Pinto

Tite de Lemos - Poemas escolhidos

Como Dante Milano (1899-1991), Tite de Lemos (1942-1989), que participa emprestando sua belíssima voz no documentário em homenagem ao poeta modernista, já era um poeta maduro em sua primeira obra, Marcas de Zorro, de 1979. Tal como Poesias, a primeira obra de Dante, publicada em 1948, Marcas de Zorro era uma obra esperada fazia tempo por um círculo nada modesto, que ia de Ivan Junqueira a Armando Freitas Filho, algo raro para um primeiro livro de poemas. Figura carimbada do cenário cultural carioca desde os anos sessenta, seja como jornalista no Jornal do Brasil, e posteriormente n’O Globo; seja como diretor e autor de teatro em peças como A tempestade, de 1964, e Alice no país divino-maravilhoso, de 1970, período em que o futuro poeta édito estabeleceu uma das parcerias mais sólidas da MPB com a cantora e compositora Sueli Costa; seja ainda como o narrador de Macunaíma, de 1969, Tite de Lemos admitiu de fato só tardiamente a veia poética, ainda que, depois de assumida em 1979, ele nunca mais abandonaria a poesia, tornando-se cada vez mais sua atividade artística principal na década seguinte, quando veio a falecer. Se a cada uma das atividades artísticas que Tite exerceu (a de homem do teatro, ator, compositor, jornalista e poeta) caberia um estudo à parte, é a atividade de poeta que nos interessa aqui. A poesia de Tite de Lemos se mostrou nos poucos livros que publicou (três em vida e dois póstumos) uma combinação de elementos a princípio díspares, como o soneto italiano, as vanguardas dos anos cinquenta e sessenta, a irreverência da geração marginal (ainda que seus poemas nunca cheguem ao desbunde), certa predileção ao aforismo e à elipse. O poeta parece se preservar dos derrames de um eu lírico muito comum na geração marginal, ainda que esse eu escape de tempos em tempos na lira de Tite, como no poema “FIDÚCIAS. confissões”, em que ele escreve: “Meu grande pai morreu onde viveu, no mesmo quarto/ por toda parte/ havia um cheiro de charuto”. Se, por um lado, esses elementos são realmente dispersos, por outro, mostram-se unificados por dois aspectos de sua personalidade artística: em primeiro lugar, por uma elegância, quase aristocrática, tanto nos temas quanto na maneira de abordá-los. Nesse ponto, a adoção do soneto que já aparecia em Marcas de Zorro e Corcovado Park e depois, de forma decisiva em Cadernos de sonetos, seu último livro publicado em vida, não está em desacordo com o ousadíssimo poema “Corcovado Park”, que dá título ao livro, em que narra o universo dos hipódromos com seus alazões, numa matemática de velocidades e estatísticas, e que nos deixa algum sabor do que devia ser a vida da Gávea e do Jardim Botânico nos anos sessenta.

Outra marca forte de sua obra artística é o jogo de cena, comum em seus poemas, mas também em suas composições, devo dizer. Jogo de cena identificado numa poesia que esconde mais do que mostra, como um vestígio de pegadas, como uma cortina de espelhos que abduz. Em resumo, Tite de Lemos nos seduz com a grata impressão de que não entendemos nada do que escreveu, mas não veja nisso petulância; pelo contrário, não está aqui em questão exibicionismo acadêmico nenhum. A poesia de Tite causa desentendimento não por academicismo, excesso de referências e beletrismo; antes, ela se faz de desentendida pelo compromisso de Tite de Lemos em não mostrar completamente o assunto de que trata, como nos espetáculos de strip dos anos quarenta quando a dançarina nos filmes apenas descia a meia-calça para delírio dos espectadores. Distinto, porém, da intimidade encenada por Ana Cristina César em A teus pés, Tite não insinua como Ana C alguma confissão; pelo contrário, ele não insinua confissão alguma, não deixa rastro pessoal quase que nenhum, ainda que incite em muito o leitor a conhecer sua personalidade:

NÃO IDENTIDADE

floresces
escrevo
teu nome
sou meu escravo
nunca fui o que eu era
me dome
como a qualquer um animal bravo
ai quem me dera
ser eu

(In: Marcas de Zorro, 1979)

Por sinal, o erotismo, às vezes ambientado por Tite no universo dos prostíbulos e dos encontros casuais, só aparecerá mesmo de forma decisiva na obra póstuma Bella Donna, em poemas como “Rita de Cássia”, “Leda Sara Diva”, “Renata Rex” e o encantador “Nancy 16 às 22h”:

uma blusa de seda
uma joia, uma obra de arte
como eu queria, sim, e quero dar-te
uma blusa de seda
uma linda blusa.
Se eu te der você usa?

e se mais tarde eu dedilhar
as cordas, primitiva lira,
do coração descompassado
e te encontrar a minha música
será que a blusa você tira?

(In: Bella Donna, 2010)

O voyeurismo de Bella Donna já começa com a fotografia da capa, em que se estampa um belo pescoço de mulher, tirada de costas. É nesse jogo de insinuações que a poética de Tite parece se intrometer, mesmo em seus sonetos, mais preocupado em nos envolver do que em acertar as regras esperadas da metrificação:

Nuvem é nuvem nunca, já desfaz-se
apenas um segundo após formar-se.
Sua forma presente é só disfarce,
face que fosse face sem ter face,

traçado que o olhar não decifrasse
embora o olhasse a ponto de cansar-se.
Seu contorno se furta de alcançar-se
e nem está mais lá. Foi-se, fugace.

Ninguém sabe se teve mãe ou pai
– d’Onde venho, aOnde vou, quem sou, existo?
Então a nuvem se transforma em chuva,

casa no céu com o céu inteiro e cai,
volúvel noiva, lágrimas de Cristo
que o sol e os outros astros enviúva.  

(Caderno de sonetos, 1988)

Falando em nuvens, talvez por ser do signo de Aquário, o mais aéreo dos signos, que a imagem do ar seja uma constante na imagética desse poeta, o que o elege, desculpe a brincadeira, de um concretismo impossível. Sua poética, contudo, não nega o experimentalismo; pelo contrário, é uma das poéticas mais experimentais que já se produziu nesse país. Tite descortina a palavra numa imaterialidade difícil de ser conhecida. O que é explorado por ele não é mais a disposição espacial, mas outros suportes da linguagem, tais como a respiração que a fala exige, em exercício quase de iogue: deste modo, é na virada das páginas do poema “Um pássaro” que você identifica o movimento do animal, o que torna sua ars poetica muito mais próxima de uma atividade como o cinema em comparação às artes plásticas.

Em Novembro de 1985, pouco depois de lançar Corcovado Park ao lado de Armando Freitas Filho com seu 3×4, futuro ganhador do Jabuti de 1986, Tite de Lemos participou do evento Eletropoesia no Centro Cultural Cândido Mendes. Nele, era passada uma mensagem que corria sem parar através de um vídeo-play. De forma sintética, quase hermética, o poeta postou o seguinte poema de título “Poisia-tri-quadri ou tentalingue”:

Kungfucius said: no vayas jamás por questa via. Inutile! Ele “o discípulo” foi e não voltou.?

Capacidade de síntese e experimentalismo é o que não falta nesse fazer poético. No atinente ao experimentalismo de Tite de Lemos, o que há de concreto na sua palavra é o desenho que se rabisca. Chama, por exemplo, atenção o poema “Suíte Yhab”, que se encontra em Corcovado Park, nas palavras do poeta, “para barítono, cordas e percussão”. Nele existe apenas o registro cursivo, suave, a ponto de não ser possível determinar se o objeto em questão se trata de um desenho ou de uma escrita. Mas se objeto se trata de algo escrito, é a escrita do que exatamente? E a resposta é óbvia: daquilo mesmo que se vê, como que a estragar a velha distância entre o significante e o significado. A obra de Tite de Lemos é feita de ciladas, de desvarios vãos, que só enriquecem um talento desaparecido tão cedo.

André Luiz Pinto