Louis Zukofsky, por Arthur Lungov

PDN Photo of the Day | “[Louis Zukofsky],” 1976. © The Estate of Ralph  Eugene Meatyard/Courtesy Blanton Museum of Art

Louis Zukofsky (1904 – 1978) foi um dos poetas estadunidenses mais inventivos e instigantes do século XX. Poeticamente, Zukofsky segue na linha dos grandes vanguardistas norte-americanos, em especial Pound e T. S. Eliot. Zukofsky vê no poema um objeto linguístico que deve ser manipulado e composto a fim de levar a linguagem e a tradição poética ao máximo de suas tensões. Sua maior obra, o poema épico A, escrito durante 41 anos e composto por 24 cantos, é considerado um dos mais difíceis e herméticos já escritos em inglês, e desafia os estudiosos de sua obra até hoje.

Traduzi seu poema “Julia’s Wild”, de 1960, por considerar que ele condensa habilmente parte significativa de suas preocupações poéticas. O poema parte de um verso da 4ª Cena do 4º Ato da peça shakespeariana Dois cavalheiros de Verona, de uma fala da personagem Júlia, que na peça se fantasia de pajem para surpreender seu amado em Milão, que estar apaixonado por outra mulher. A partir desse verso (“Come shadow, come, and take this shadow up,”), Zukofsky passa a fazer um jogo permutacional com as palavras, gerando significados ambíguos e novas sonoridades, fatiando o verso para entender suas potencialidades. O próprio título do poema se vale desse procedimento: pode ser lido graficamente como “a selva de Júlia” (o que faz sentido no contexto da peça, uma vez que a personagem convence sua rival a fugir da cidade para a floresta, onde é capturada e quase morta); quanto sonoramente como “Júlia é selvagem” (representando sua coragem e sua obstinação).

A tradução que realizei incorpora graficamente e sonoramente essas questões. As ambiguidades geradas pela alteração de lugar da palavra “shadow” (que pode servir tanto como substantivo quanto como verbo, às vezes como os dois ao mesmo tempo) estão representadas pelo tamanho das fontes, que criam uma simultaneidade das palavras sombra/sombreia/sombrear que não compromete o jogo semântico do original. Ainda, seguindo o impulso do poeta em brincar com a linguagem ao máximo, na tradução colori as palavras que se reptem assim como suas variantes, para destacar o caráter reiterativo, quase musical que vem com essa repetição dos mesmos sons, e com os diferentes sons que se formam por sua interação. De maneira que podemos ver as palavras repetidas como temas ou notas musicais em uma partitura, que vão se alternando para gerar uma melodia (sugestão que tirei de procedimento parecido que Augusto de Campos faz em seu “Poetamenos”).

Zukofsky segue sendo um poeta infelizmente pouco traduzido para o português, ainda que sua obra possa ser comparada em magnitude e complexidade a toda a gama de modernistas que inspiraram seu trabalho, desde Joyce até WCW, passando pelos já mencionados Pound e Eliot. Com essa pequena contribuição, espero poder ajudar em sua divulgação no Brasil.  

Arthur Lungov

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