XANTO | Poemas esparsos da Dinastia Tang, por Alessandro Palermo Funari

De início, um aviso: não sou conhecedor da língua ou poesia chinesas. As traduções aqui não são, portanto, o trabalho nem de um sinólogo nem de um sinófono, mas simplesmente a união incauta entre a oportunidade e um dicionário online chinês/inglês (yellowbridge.com/chinese/dictionary). A escolha de poemas e poetas pode, igualmente, parecer randômica, e realmente o é: tudo o que os une é o fato de pertencerem à Dinastia Tang (618 – 906). Assim, de sites na internet que disponibilizavam os poemas em chinês (e dos quais era possível copiar e colar caracteres individuais para utilizar o dicionário), retirei os poemas aqui reunidos e os tentei traduzir, cerceado apenas pela amplitude que a ignorância na cultura e na língua de origem me proporcionava.
No fim, os resultados se apresentam mais como “visões sobre tradução” do que “poesia chinesa da Dinastia Tang”, o que pode ser observado nas versões (há alguns com mais de uma) que os poemas originaram.
O processo tradutório de todos foi essencialmente o mesmo: transliteração (passagem para pinyin, escrita fonética em alfabeto latino), atribuição a cada caractere de sua tradução em inglês disponível no dicionário online (onde consta, igualmente, a etimologia dos caracteres) e tradução advinda de um (provável) entendimento adquirido a partir daí. Como poderá ser observado, os resultados variam imensamente.
Inicialmente temos o poema 画 (Huà), de Wang Wei, aqui traduzido como “À Pintura”.

…………………………………….huà


远看山有色, ……………………yuǎn kàn shān yǒu sè ,
近听水无声。 ……………………jìn tīng shuǐ wú shēng 。
春去花还在, ……………………chūn qù huā hái zài ,
人来鸟不惊。 ……………………rén lái niǎo bú jīng 。

Para exemplificar, com a atribuição de uma tradução literal a cada caractere, temos algo assim:

yuǎn…………kàn………..shān……………..yǒu…………sè ,
distante . . . .ver . . . . . . montanha . . . .ter/. . . .. . . cor
…………………………………………………….haver

jìn……………tīng…………shuǐ……………..………….shēng 。
perto………..ouvir/……….água/rio……..não (ter)…..som/
……………….escutar …………………………………………..voz

chūn………..…………..huā……………..hái…………..zài ,
primavera..ir/…………..flora…………….inda/… . . . ..existir
…………….retirar ………………………….. além
………………………………………………..não+andar

rén…………..lái…………..niǎo…………….……………jīng 。
pessoa……..vir/…………pássaro………..não………….assustar-se
……………retornar

A partir disso, podemos tecer algumas observações:

— trata-se da descrição dos efeitos de um quadro, bastante realista: a montanha à distância tem cores vivas, o riacho é silencioso, a primavera pode ter passado, mas as flores ainda estão abertas e exuberantes e a proximidade das pessoas não assusta os pássaros pintados;
— paralelismo bastante notável entre primeiro e segundo verso (advérbio, verbo, substantivo, verbo, substantivo), com relação entre palavras paralelas: distante (远) / perto (近), ver (看) / ouvir (听), montanha (山) / rio (水) etc.;
— paralelismo semelhante nos versos 3 e 4;
— possível rima entre 声 (shēng) no segundo verso e 惊 (jīng) no quarto.

Duas versões resultaram disso. A primeira:

À Pintura

De longe a montanha são cores,
De perto o regato é silêncio.
Primavera passou, há flores,
Me movo, as aves sem medo.

De início, nota-se: houve perda de paralelismo na metade final do poema, além do deslocamento da rima dos versos 2 e 4 para os versos 1 e 3 (cores/flores). Essa rima, no entanto, aqui se faz ressoar nos outros versos, em sua inversão vocálica. Os /o/ e /e/ de “cores” e “flores” são trocados em “silÊnciO” e “mEdO”. Relação semelhante entre as vogais se vê também em “lOngE” e “pErtO”. Visualmente, mantêm-se as quatro linhas, diferentemente da segunda versão, de mesmo título:

Montanha são cores
……..De longe,
Regato é silêncio
……..De perto.
Primavera passou,
……..Há flores.
Me movo, as aves
…….Sem medo.


Esse segundo poema, de Luo Binwang, soa como uma quadrinha infantil, dada a repetição de “ganso” no verso inicial, mas pode se tratar de um engenho ou efeito que desconheço. Eis o poema:

咏鹅………………………yǒng é

鹅,鹅,鹅…………….é, é, é,
曲项向天歌。………….qū xiàng xiàng tiān gē
白毛浮绿水,………….bái máo fú lǜ shuǐ
红掌拨清波。………….hóng zhǎng bō qīng bō

E uma tradução:

Canção ao Ganso

Ganso, ganso, ganso
Dobra a nuca rumo ao céu em canto.
Penas brancas fluem águas verdes,
Patas rubras fazem ondas claras.

Há alguns fatores relevantes a serem observados aqui. No segundo verso temos 曲, qū, que significa “torto”. Essa palavra caracteriza o pescoço (项–xiàng) do animal-tema do poema. Mas o mesmo caractere com uma pronúncia tonal diferente (曲, qǔ) significa “cantar”. A tradução visou manter essa dualidade com o verbo “dobra”. Deste modo, o ganso “dobra” o pescoço, mas mantem-se no poema a polissemia da palavra: segundo o dicionário Michaelis, “dobrar” também pode significar “executar dobrados (as aves); cantar, trinar, gorjear”.
Temos também a repetição de xiàng, no segundo verso, mas trata-se de duas palavras homófonas. O primeiro caractere, 项, significa “pescoço” enquanto 向 significa algo como “em direção a”. Na tradução, se esse elemento não está presente na mesma posição, foi empregado um cacófato ao fim do mesmo verso: “em canto” soa como “encanto”, que poderia ser uma caracterização das ações do ganso (houve uma versão intermediária em que, nesse verso, lia-se “Dobra a nuca rumo ao céu, seu canto”, jogando com a semelhança sonora entre “céu” e “seu”).
Além dessas características, e passando pela rima (em potencial) é/gē (traduzida pela rima toante entre “ganso” e “canto”), temos o paralelismo dos versos 3 e 4. Ambos os versos seguem a mesma ordem de adjetivo, substantivo, verbo, adjetivo, substantivo. Isso garante uma forte relação entre os versos, que a tradução tentou manter. Para além da ordenação das palavras, o poema em português manteve um ritmo idêntico entre os dois versos (troqueu) e trouxe relações sonoras bastante presentes em alguns pares paralelos: BRAncAS/RuBRAS; PenAS/PAtAS; FazEM/FluEM.
Por fim, esse poema engendrou outra tradução que, mantendo as mesmas palavras, buscou trabalhar a disposição das palavras na página.

Ode ao Ganso

……..ganso
……..ganso
……..ganso

dobra a nuca
……..rumo ao céu
………………..em canto

penas brancas…………….águas verdes
……………….. . . . . fluem

patas rubras……………..ondas claras
……………….. . . .fazem


A seguir, temos o poema Yuàn Qíng, do poeta Li Bai.

怨情……………………….Yuàn Qíng

美人捲珠簾………………měi rén juàn zhū lián
深坐蹙蛾眉………………shēn zuò pín é méi
但見淚痕濕………………dàn jiàn lèi hén shī
不知心恨誰………………bú zhī xīn hèn shuí

Nesse poema, uma mulher é observada enquanto chora – ou recém-chorava – por alguém, ainda que não se saiba o sujeito causador desse pranto carregado de ódio e ressentimento. O título já traria a informação de que se trata de um choro de raiva. O caractere 怨 significa “ódio”, “ressentimento”, “inimizade” e, etimologicamente, é o símbolo de “virar” sobre o de “coração”. O segundo caractere, 情, pode ser traduzido por “paixão”, “emoção”, “sentimento”, e é a combinação de “coração” com um símbolo que pode ser tanto “azul”, “verde”, “preto” ou “jovem”. É interessante notar que o símbolo para “coração”, isolado, se encontra centralizado no verso final do poema: 心. Essa relação entre as duas palavras, aliada a alguma relação sonora (/i/ e /n/), levaram à escolha do título: Amaro Amor. Esse poema também resultou em duas versões, mas, nesse caso, uma tradução tem um caráter mais fanopaico e a outra mais melopaico (com algo de make it new).

Amaro amor (versão fanopeia)

Levanta a bela seu véu de contas,
Franze, imersa, longas sobrancelhas.
Traz no rosto cicatrizes lágrimas.
Quem é que seu coração odeia?

Amaro amor (versão melopeia)

Bela, levanta o véu de pérolas,
Imersa, franze o fino cenho.
No rosto, rastros fluidos de sódio –
Quem ancora seus ruídos de ódio?

Alguns comentários pontuais:

— 深坐 – shēn zuò, profundo + sentada: me soou algo como “ensimesmada” ou “imersa em si”. Como “sentada em profundo pensamento”. Optei por “imersa” por causa da partícula “água” na esquerda de 深.
— 蛾眉 – é méi, mariposa + sobrancelha: me pareceu as longas “antenas” de algumas mariposas, por isso “fino cenho”. A moça teria traços delicados.
— 痕濕 / 恨誰 – hén shī / hèn shuí: A extrema relação sonora entre as palavras finais dos dois últimos versos levou a tradução melopaica à opção por “Fluidos de sódio / ruídos de ódio”. A moça estava chorando, mas, em português, ainda resmunga ou xinga por sob os dentes, como que em grunhidos. Altera-se um pouco a imagem direta, mas mantem-se que ela demonstra estar com raiva e mantem-se a grande identidade sonora paralela entre os versos.
— A opção por “sódio” acabou colocando a tradução num esquema um tanto make it new, o sódio sendo empregado no lugar das lágrimas (como por exemplo no título do último episódio da série Breaking Bad, intitulado FeLiNa, em que o Na é o “sódio”, do sal das lágrimas.
— 心 – xīn: a palavra “ancora”, na versão melopaica, coloca em jogo novamente a palavra “coração” presente no título e no centro do último verso, como resto/ruído de sua presença em “anCORa”, garantindo à imagem que os sentimentos da moça são pesados e profundos, ao mesmo tempo que recupera de certo modo a palavra “imersa”, acima.


Minha primeira incursão pela poesia chinesa, o poema 宫词 (Gong cí), de Bai Juyi. Primeiro, a transliteração:

宫词………………………….gong cí

泪尽罗巾梦不成 ………..lèi jìn luó jin mèng bù chéng
夜深前殿按歌声…………yè shen qián diàn àn ge sheng
红颜未老恩先断…………hóng yán wèi lâo en xian duán
斜倚熏笼坐到明…………xié yî xun lóng zuò dào míng

A tradução, com algumas liberdades, resultou assim:

poema do palácio

lenço todo choro, sono difícil
noite passa ao paço, sem voz audível
rosto jovem rubra, decoro roto
em jaula de fumo, a aluar o sol

Tentando manter ao mínimo os artigos e conectivos de todo o tipo, por serem ausentes no chinês, o som foi um guia importante para essa tradução. Assim, o primeiro verso, bastante sonoro no chinês, vê uma repetição quase incessante de /o/ e /s/ (ainda que pareça insuficiente). No segundo verso, 前 (qián – adiante) e 殿 (diàn – salão do palácio) motivaram “passa ao paço”. É possível observar também a repetição sonora ao final dos dois primeiros versos, mas que não é completa. Chén não possui o mesmo som que shēng por se tratar de uma língua tonal. Ainda assim, como são semelhantes, recorri a uma quase rima em português com “difícil” e “audível”.
O terceiro verso, esse sim, talvez consiga recuperar a força sonora do primeiro, com ROsTO/RubRa/decORO/ROTO, com “rosto” e “roto” recuperando a grande semelhança de “Lèi jìn luó jīn”, do primeiro verso.
Ainda no terceiro verso, temos 恩先断, traduzido aqui como “decoro roto”. 断 é a forma simplificada de 斷 que significa “cortar”; etimologicamente trata-se de um machado (斤) cortando um tecido. O que foi assim cortado, no caso do poema, é a “bondade anterior” (恩先) da moça em questão, sua virgindade. Esse símbolo que significa “bondade”, por sua vez, é composto por yīn, em cima, que significa “por causa de”, “motivo” e 心 (xīn), “coração”. Falso do ponto de vista etimológico, a escolha de “decoro” se deu porque, além de significar “recato no comportamento” e “decência”, contém a partícula “cor”, de “coração”, assim como foi empregado em “ancora” no poema anterior.
No fim, a moça espera (ideia passada por 坐, “sentada”) a “chegada” (到) da luz, do “brilho” do novo dia (明). Esse caractere, “brilho”, é a junção de sol e lua, ambos – claramente – brilhantes. Para fazer ver essa relação, considerei – ao modo do “fogoágua” de Haroldo de Campos em sua recriação da Bíblia, algo como:

Lenço todo choro,
………sono difícil
Noite passa ao paço,
………sem voz audível
Rosto jovem rubra
………decoro roto
Jaz, jaula de fumo,
………Um novo sol-lua.

Por fim, decidi acentuar o tom erótico do poema e optei por “a aluar o sol”, ou seja, “excitar, ficar no cio”; assim, “esperar/provocar” o sol até este chegar com seu brilho máximo. Desta forma, mantêm-se no papel as duas palavras que formam o último caractere (sol e lua). Além disso, considerou-se ainda outras versões para o verso final, que poderia também ser algo mais direto, como “jaz, forra em fumo, até vir a luz”.


Um poema sobre a dualidade/ambivalência das forças criativas e destrutivas da Natureza, em que a primavera criadora também tem o poder de trazer desolação e morte, escrito pelo poeta Meng Haoran.

春晓………………………(primavera + manhã)

春眠不觉晓,…………chūn mián bù jué xiǎo ,
处处闻啼鸟。…………chù chù wén tí niǎo 。
夜来风雨声,…………yè lái fēng yǔ shēng ,
花落知多少。…………huā luò zhī duō shǎo 。

Chūn…………….mián………..…………jué…………….xiǎo ,
Primavera…….Sono………..não………..desperto……manhã/
……………..(Olhos Fechados)……………………………………aurora

chù…….……chù…….…….wén………..………………..niǎo 。
lugar……….lugar………..ouvir………grito…………..pássaro
…………………………………..……………choro

..………….lái…….……….fēng……..….……………..shēng ,
noite……….chegar/………vento………chover……….som/
……….………vir……………………………………..………….voz

huā…………luò………….zhī….……..duō...…………….shǎo 。
flor…….…..cair…………saber…..…quantos…………menos/
………………………………………………muitos…….…….pouco

Aqui, um breve comentário sobre o início do segundo verso. Repete-se o caractere 处, chù, que significa lugar, local. Sua repetição parece indicar que se trata de algo como “em todo o lugar”, e assim tentei manter na tradução. Além disso, é possível observar que três versos parecem rimar, o primeiro, segundo e quarto (xiǎo, niǎo, shǎo). A seguir, as duas versões desse poema em português:

Manhã de primavera

Preguiçosa manhã de primavera…
Em torno o trilo de aves prolifera.
Na noite vieram ventos, tempestade,
Quantas flores tiradas de suas heras?

Manhã de primavera

Manhã de primavera…
……..Que preguiça!
Em torno o trilo de aves
……..Prolifera.
Na noite vieram ventos,
……..Tempestade —
Quantas flores tiradas
……..De suas heras?


Por fim, mais um poema de Li Bai, intitulado, 静夜思, (jìng yè sī). Na ordem, o significado de cada caractere seria “calmo”/“quieto”, “noite” e “pensar”/“refletir”. Assim, a tradução optou por “Pensamentos da noite muda”. Depois do significado individual de cada caractere, serão expostas quatro traduções.

chuáng….….qián…………….míng……..…..yuè……..guāng,
cama/………..em frente abrilhante……lua……..raio de luz
sofá…………………..…………..brilho

………………..shì….……..…..………shàng…….shuāng.
duvidar/……..sim/……….terra/……..acima…….geada/
suspeitar…….ser….……..solo…………..………….gelo

…………..…..tóu……….…..wàng…….….míng……..yuè ,
levantar……..cabeça……..lua cheia…..brilho….…lua
……………………………………esperança

………………..tóu……..…..………..………..…….xiāng
abaixar………cabeça……..pensar……..velho…….vilarejo
descer…………………………………………..antigo……cidade natal

E as traduções:

Pensamentos da noite muda

A lua alumbra meu leito,
O frio, talvez, cubra a areia.
Se olho o céu, vejo a lua,
Se olho o chão, minha aldeia.

§

A lua alumbra meu leito,
Quem sabe, neve no chão.
Se olho o céu vejo a lua,
Se olho o solo, solidão.

§

Talvez afora a neve cubra o chão,
A cama, frente à lua, claridade.
Levanto a cabeça ao céu, vejo a lua,
Rebaixo a cabeça ao chão, só saudade.

§

A lua alumbra meu leito,
Afora o frio vela o chão.
Se olho o céu vejo a lua,
Se olho o solo, o sertão.