Anne Sexton, por Júlia C. Rodrigues

Anne Sexton é uma poeta que desperta fascínio. Nos retratos, encontramos uma bela mulher que sempre parece à vontade diante da câmera. Nos registros audiovisuais de suas entrevistas e leituras, encontramos uma autora eloquente, uma notável oradora. Nos poemas, encontramos uma voz provocante, perspicaz, disposta a tratar da intimidade sem meias-palavras. Frequentemente associada ao controverso rótulo da “poesia confessional”, junto de figuras como W. D. Snodgrass e Sylvia Plath, Sexton acabou conquistando uma aura mítica. Seu consumado suicídio, em 1974, consolidou de vez a imagem de poeta intensa, que se rende inteiramente à arte. Mas a fotogenia, o desembaraço e a irreverência são apenas fragmentos de Sexton – poeta dedicada, séria, talentosa.
Em entrevista ao blog Conversa entre ruínas em novembro de 2019, a filha de Anne, Linda Gray Sexton, destacou a importância de pensar em sua mãe como uma mulher também dada à leveza. “Isso com frequência é negligenciado em prol dos poemas da ‘Anne maluca’, que certamente eram parte dela e uma parte importante de como ela fez seu nome”, ela aponta, compreendendo que uma certa ousadia performática é parte do legado de Sexton. No entanto, sua poesia não é pura melancolia: ao contrário, transita por diferentes emoções e temperaturas. “Um lado tão grande da minha mãe era alegre”, disse ainda Linda Sexton, que escreveu memórias calorosas de sua infância.
Trazemos aqui um pequeno espectro desses contrastes de Anne Sexton. Na carta que ela escreveu a Snodgrass, em janeiro de 1959, menciona uma crise depressiva recente. No entanto, também é possível encontrar ali uma voz divertida, auto irônica e otimista com a possibilidade de publicar seu primeiro livro logo após o aceite de dois poemas em revistas literárias, uma validação que significava muito para ela. Sexton menciona ainda as aulas que teve com o poeta Robert Lowell, também associado à poesia confessional. Eles desenvolveriam proximidade nos anos seguintes, mas, ainda em 59, a inteligência insubordinada de Sexton se rebelava em sala.
Em “Said The Poet to The Analyst”, Sexton diz que seu negócio são as palavras, enquanto o do analista é observar as palavras dela. O trabalho do tradutor é também uma espécie de vigia das palavras da poeta. Por um lado, Sexton raramente investe em intrincadas construções formais que obrigam o tradutor a um duro estudo de versificação (“The Ballad Of the Lonely Masturbator” pode ser considerada uma gloriosa exceção). Por outro, seus poemas exigem uma atenção minuciosa para certas escolhas surpreendentes. A linguagem de Sexton contém uma fluidez característica, mas suas associações estão longe de serem óbvias. Diversas lacunas permeiam suas lúcidas observações, imagens enigmáticas atravessam seus poemas. Em “Housewife”, é interessante perceber o distanciamento com que o eu-lírico trata o tema (“some women marry houses”, lemos, sem muita certeza do lugar onde se encontra a observadora), o que nos lembra que nem sempre os poetas confessionais empregavam a primeira pessoa, mas encontravam maneiras diversas de abordar questões pessoais. No mesmo poema, é complexa a construção da dona-de-casa como o própria imóvel que ela habita: um jogo sagaz com a palavra inglesa, como se housewife pudesse querer dizer, literalmente, a esposa de uma casa. Em “To My Lover Returning to His Wife”, também, Sexton desenvolve essa alternância de tom. Enquanto o envolvimento do eu-lírico com um homem casado, em si mesmo, é tratado de forma casual, a poeta imagina a esposa a partir de ricas e imprevisíveis associações: a outra mulher é, a um só tempo, uma mãe exemplar em sua rotina caseira, uma criadora tão extraordinária quanto Michelangelo, uma companhia tão empolgante quanto fogos de artifício.
Esses três poemas são uma pálida superfície de uma obra rica e variada. Sua estreia na poesia foi em 1960 com To Bedlam And Part Way Back – no qual “Said The Poet to The Analyst” aparece. “Housewife” foi publicado em All My Pretty Ones (1962), um de seus livros mais conhecidos. Com Live or Die (1966), Anne Sexton seria agraciada com o Pulitzer Prize, um dos principais prêmios literários de seu país. “For My Lover Returning to His Wife” é de Love Poems (1969). Merece ainda destaque o livro Transformations (1971), que se aventura pelas histórias dos irmãos Grimm com bastante sarcasmo e morbidez, sem prescindir da beleza característica dos contos de fada.

Júlia C. Rodrigues é leitora, professora, poeta e tradutora. É mestra em Teoria e História Literária pela Unicamp, onde atualmente cursa doutorado. Traduziu A terra devastada, de T. S. Eliot, em 2016 pela Lumme Editor. Contribui regularmente para a revista Mallarmargens, na seção Nau Corsária. Alimenta o blog Conversa entre ruínas e apresenta o Poemo Podcast.


11 de janeiro de 1959

Querido, Querido Sr. W. D.,

Espero que tenha corrido tudo bem em Nova York. Eu meio que andei procurando uma carta sua — mas, agora que nossas cartas se cruzaram, não estamos devendo nada um ao outro. E claro que amo você. E às vezes me preocupo com você. No geral eu só me preocupo comigo. Porém, hoje eu levantei a cabeça depois de três semanas de uma porcaria de depressão e agora percebo que existem mesmo outras pessoas. Tem alguém lá. Eu só me esqueci (Não esqueci mesmo de VOCÊ — isso é impossível).
Eu recebi uma carta gentil da Poetry Northwest e eles estão considerando as coisas que eu enviei. Obrigada por escrever pra eles sobre mim e tudo mais. Eu estou começando a ficar sem material bom (não tanto mas quase o melhor eu já liquidei)… Mas estou escrevendo coisas novas — ou estava, antes da depressão tomar conta. Agora mesmo preciso escrever enquanto tenho alguns zunindo na minha cabeça. Mas antes queria enviar palavras a você (sou a doida que acredita que as palavras tocam as pessoas).
Eu juntei meus poemas como se eles pudessem virar um livro e o Lowell está vendo isso. Eu cometi um erro? Não sei. Mesmo assim, ele pareceu receptivo à ideia e falou que ia me dizer francamente se há quantidade de coisa boa o suficiente para um livro (mas só Deus sabe como você faz pra publicar). Parece que ele se impressionou porque a Hudson aceitou “The Double Image”. Tão comprido e tal (240 versos). Mas então no minuto seguinte ele disse, “Mas eu sabia que eles iam aceitar. Era só uma questão de para onde enviar” ??? Ele é difícil de entender. A aula é boa. Eu estou aprendendo super rápido. Mas eu fico agindo que nem uma vaca em sala. Não sei por que mas fico muito na defensiva com o Lowell (acho que tenho medo dele)…então me comporto feito uma vaca com umas tiradas sarcásticas…. a turma fica lá sacudindo a cabeça que nem uns cachorrinhos a cada declaração dele. Por exemplo, ele vai dissecar algum grande poema e dizer “Por que esse verso é tão bom? O que o torna bom?” e há um silêncio mortal. Todo mundo tem medo de falar. E finalmente, porque eu não aguento mais, eu levanto a voz e digo “Eu nem acho que seja tão bom assim, você jamais iria permitir que usássemos uma linguagem desleixada desse jeito”… e por aí vai. Não faço isso pra causar. Mas é porque o verso não é bom. O que você faz — fica lá, faz que sim com a cabeça e não fala nada? Como você diz, minha atitude é agressiva. Eu acho que o problema é que minha cabeça, minha cabeça pensante, é agressiva. Sou uma máquina de ideias. Adoro (de um jeito engraçado) pensar. Quero dizer, numa aula daquelas fico muito estimulada… mas, na verdade, não quero muito ficar lá depois de falar. Penso com frequência em sua análise. Gostaria de falar, mas sem estar lá. Seria como o seu “Red Studio”. E acaba que isso explica VOCÊ. Eu gosto de entender você. Você é tão humano e intrigante e meu esplêndido bobalhão.
O que você está escrevendo? Se você me mandar eu prometo que vou manter A MÁQUINA em silêncio. Eu só vou amar e pensar nisso e ficar feliz que suas palavras estejam latindo no topo do céu.
Eu ganhei uma mistureba de livros no Natal, entre eles o do Philip Larkin — que eu gostei, e Randall Jarrell e Frost e outros. Cadê seu livro? Eu quero comprar!!! Quero comprar logo pra você ficar rico e famoso e mergulhado em luxúrias e passeando pelo mundo com Jan a seu lado. E também parando em algum lugar para ser o estudioso noturno, como sempre.
Em meios aos destroços dessa casa minhas filhas ainda brincam com os ratinhos (Kayo fez uma casa para eles) e a aura de você permanece, permanece, permanece …
Argh, acho que sinto sua falta & agora! Não sei por que — você é uma criatura tão contrária. Mas eu sinto. Nós sentimos. Devo convidar vocês outra vez? Quer dizer, vocês sabem que são sempre bem-vindos aqui, não é?
Se eu tiver uma cópia, vou mandar junto — de um poema recente que vou fechar. Pra você ler ou não ler??
Só pra você saber que continuo escrevendo.
E Feliz Ano Novo, querido, tudo de bom pra você e pros seus,

Com carinho,
Anne


Disse a poeta ao analista

Meu negócio são as palavras. Elas são como rótulos,
moedas, ou, melhor ainda, um enxame de abelhas.
Confesso que apenas a fonte das coisas me arrebenta,
contar palavras como se fossem abelhas mortas no sótão,
desprovidas dos olhos amarelos e das asas secas.
Preciso esquecer sempre como uma palavra consegue
pegar uma outra, manejar uma outra, até que eu tenha
algo que poderia ter dito…
mas não disse.

Seu negócio é observar minhas palavras. Mas eu
não admito nada. Faço o meu melhor, por exemplo,
quando escrevi o elogio do caça-níquel
aquela noite em Nevada; contando como o prêmio mágico
veio no tintinar de três sinos, na tela da sorte.

Mas se você disser que não é bem assim,
então fico fraca, lembrando como minhas mãos estavam estranhas
e ridículas e carregadas com todo aquele
dinheiro de faz-de-conta.

Said The Poet To The Analyst

My business is words. Words are like labels,
or coins, or better, like swarming bees.
I confess I am only broken by the sources of things;
as if words were counted like dead bees in the attic,
unbuckled from their yellow eyes and their dry wings.
I must always forget how one word is able to pick
out another, to manner another, until I have got
something I might have said…
but did not.

Your business is watching my words. But I
admit nothing. I work with my best, for instance,
when I can write my praise for a nickel machine,
that one night in Nevada: telling how the magic jackpot
came clacking three bells out, over the lucky screen.

But if you should say this is something it is not,
then I grow weak, remembering how my hands felt funny
and ridiculous and crowded with all
the believing money.

§

Dona de casa

Algumas mulheres se casam com casas.
É uma outra espécie de pele; têm coração,
boca, fígado e movimentos intestinais.
As paredes são permanentes e cor-de-rosa.
Veja como ela senta nos joelhos o dia todo,
se lavando tão lealmente.
Homens entram à força, atraídos como Jonas
de volta às suas mães carnudas.
Uma mulher é sua própria mãe.
Isso é o mais importante.

Housewife

Some women marry houses.
It’s another kind of skin; it has a heart,
a mouth, a liver and bowel movements.
The walls are permanent and pink.
See how she sits on her knees all day,
faithfully washing herself down.
Men enter by force, drawn back like Jonah
into their fleshy mothers.
A woman is her mother.
That’s the main thing.

§

Para meu amante, voltando para a esposa

Ela está toda lá.
Ela foi fundida com cuidado para você
E moldada a partir da sua infância
Moldada a partir das suas cem colegiais favoritas.

Ela sempre esteve lá, querido.
Ela é, de fato, um primor.
Fogos de artifício num fevereiro tedioso
e tão real quanto uma panela de ferro.

Vamos admitir, eu fui momentânea.
Um luxo. Um veleiro vermelho brilhando no porto.
Meu cabelo subindo feito fumaça pela janela do carro.
Pequenas ostras fora de época.

Ela é mais do que isso. Ela é o que você tem de ter,
amadureceu em você seu lado prático, tropical.
Isso não é um experimento. Ela é pura harmonia
Ela cuida de remos e forquetas para o barco,

colocou flores silvestres na janela pro café
sentou-se no oleiro ao meio-dia
fez sentar os três filhos sob a lua
três querubins de Michelangelo

feitos com as pernas arreganhadas
nos meses terríveis na capela.
Se você espiar, as crianças estão lá,
como balões delicados descansando no teto.

Ela carregou cada uma pelo corredor
depois do jantar, as cabeças meio caídas,
duas pernas protestando, corpo a corpo,
seu rosto corado por causa do ninar e do soninho delas.

Eu lhe dou seu coração de volta
Eu lhe dou permissão —

para o fusível dentro dela, pulsando
com raiva na sujeira, para a cachorra nela
e o enterro de suas feridas —
para o enterro de sua feridinha vermelha, viva —

para o pequeno clarão abaixo das costelas dela
para o marujo bêbado que aguarda no pulso esquerdo dela
para o joelho de mãe, a meia-calça,
a cinta-liga, para o chamado -—

o curioso chamado
quando você se afunda em peitos e braços
e puxa a fita laranja do cabelo dela
e responde ao chamado, ao curioso chamado.

Ela é tão nua e singular.
Ela é a soma de você e seu sonho.
Escale-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.

Quanto a mim, sou aquarela.
Lavável.

For my lover, returning to his wife

She is all there.
She was melted carefully down for you
and cast up from your childhood,
cast up from your one hundred favorite aggies.

She has always been there, my darling.
She is, in fact, exquisite.
Fireworks in the dull middle of February
and as real as a cast-iron pot.

Let’s face it, I have been momentary.
A luxury. A bright red sloop in the harbor.
My hair rising like smoke from the car window.
Littleneck clams out of season.

She is more than that. She is your have to have,
has grown you your practical your tropical growth.
This is not an experiment. She is all harmony.
She sees to oars and oarlocks for the dinghy,

has placed wild flowers at the window at breakfast,
sat by the potter’s wheel at midday,
set forth three children under the moon,
three cherubs drawn by Michelangelo,

done this with her legs spread out
in the terrible months in the chapel.
If you glance up, the children are there
like delicate balloons resting on the ceiling.

She has also carried each one down the hall
after supper, their heads privately bent,
two legs protesting, person to person,
her face flushed with a song and their little sleep.

I give you back your heart.
I give you permission –
for the fuse inside her, throbbing
angrily in the dirt, for the bitch in her
and the burying of her wound –
for the burying of her small red wound alive —

for the pale flickering flare under her ribs,
for the drunken sailor who waits in her left pulse,
for the mother’s knee, for the stocking,
for the garter belt, for the call —

the curious call
when you will burrow in arms and breasts
and tug at the orange ribbon in her hair
and answer the call, the curious call.

She is so naked and singular
She is the sum of yourself and your dream.
Climb her like a monument, step after step.
She is solid.

As for me, I am a watercolor.
I wash off.