Felipe Ribeiro (1992—)

Felipe Ribeiro é carioca, mineiro e baiano – assim agrada todos os lados da família.
É escritor, cronista, tradutor e curador na Revista Toró. Possui dois livros de poemas publicados: Amargo Embargo e Tijolos de Silêncio, de 2017, pela Editora Cândido. Seu terceiro livro está no prelo e o título é O suor que sucede a febre.
Mora só, aos 27 anos, no Rio de Janeiro, com o cãozinho Heitor e estuda Letras/Literaturas na UFRJ.

* * *

A ILHA

Não precisa construir uma voz.
Toma emprestado das ondas.
Em seu litoral — cada vaga um som
diferente, como se de repente
a ilha libertasse grito ancestral.

Às custas de seu flanco, ondas lambem a orla.

Sequer necessita criar-se.
O fogo — porra vulcânica —
dá-lhe forma: baleias, tartarugas.
A qualquer momento podem
submergir, içadas de seus corpos.

As ilhas estão grávidas do apocalipse.

A vegetação estoura nas horas
incontáveis, morrem. E a ilha — no dia dia —
perde a memória da pele, não transpira,
desértica. Antes das navegações
antes de vozes claras gritarem

Terra à vista!

Sua língua de ventos ainda comunicava
a linguagem do sal.
A ilha não tinha mais vozes roubadas,
mas o tiboom das âncoras, da pena
arranhando rubra restos de mortos.

Muitas vozes.

As embarcações planam sob a língua
e a comunicação.
Com elas: ideias, baús, ouro e prata.
Mas não se trata,
a vida da ilha, da biografia dos barcos. Mas da voz.

Enquanto as ondas quebram na praia.

§

A morte de Lázaro

Habituado estava à escuridão como as massas da Galileia.
E à ausência de coisas, do sol, das manchas que chamam
Enfermidade – mas sabia, oh sabia, ser produto do desejo.

À ausência do homem de garras afiadas sob a aldeia
De minha velha pele e que, lá dentro, talhou nos cantos
Um pedido de isolamento: registros de quem está preso.

Minhas irmãs nada podiam fazer, não sabiam do corpo
Que ardia como a sarça e pedia por água.
Já me habituara à ausência de movimentos ao abrir as vistas.

E ainda era o mesmo que mantê-las fechadas: meu olho
Era viciado como nascentes. A pálpebra, calma margem,
Impedia o dilúvio rumo à cidade. Claridade, agora.

Ouço moendas não de grãos, mas de terra ao vomitar pedras.
A fresta revela um velho que veio ter comigo, de costas à luz,
Por breve instante antes de voltar à caverna e à fome.

Levantei-me aos poucos: tentei segui-lo, mas já se fora.
Restara apenas moscas, ataduras, mau cheiro.
Venha para fora, Lázaro! Pensei ser este o meu nome.

Caminhei como no milagre que ouvira pela primeira vez.
Um paralítico que se ergueu. Apoiei as mãos no moinho.
Os olhos da multidão embriagavam-me como filhos.

Por reter a mortalidade, a esmagamos como uvas.
Olhar esses rostos e já não lembrar — voltar ao torvelinho
Dos fatos e do trabalho que irá outra vez levar-me à força.

Às doenças que irão rondar-nos como formigas, à vulnerabilidade
Que nos vigia e ver que somente o corpo pode vir à vida
Enquanto a alma se junta à memória e aos sentidos.

No grupo de palavras que jamais receberão novas carnes e corpos.
Nem mesmo ao serem escritas — eu gostaria de ser escrito.
Assim teria eu uma forma, algo que delimitasse

O que sou e o para onde irei além dos limites
De uma caverna, além do homem que agora acena
Enquanto multidão aplaude e chora e grita o que pensa ser

O meu nome. Morrer é perder o nome e não fui rebatizado.
Nasci para testemunho, farol, anteparo aos que perderam
E ficaram, aos que choram mas não tocam, aos que perecem

Mas não voltam, aos que enxergam ritos ao invés de leis.
Oh, queridas irmãs, a mortalidade desmente a crença.
Quem não crê, ainda que viva, morrerá.

De tão hospedeiro da solidão, corro como um porco
Na multidão e atiro-me do topo do desfiladeiro.