Frederico Klumb (1990—)

Frederico Klumb é escritor e cineasta. Nascido no Rio de Janeiro em 1990, graduou-se em Cinema pela PUC-RJ e hoje cursa o mestrado em Teoria da Literatura na Universidade Federal Fluminense (UFF). Publicou Máquinas mancas da manhã (Edições Garupa), Cinema Circular (7letras), bichos contra a vontade (7letras), entre outros. Participou de antologias, colaborou com revistas especializadas como Continente, Modo de usar & Co, Dusie e Saccades e exibiu o curta-metragem Agharta no Festival Internacional de Curta-metragens de Hamburgo. Um pouco de seu trabalho com vídeo pode ser visto em: https://vimeo.com/user43080611.

* * *

Olho meu rosto no espelho do hospital:
quando me barbeio ele se torna cinza

1.

dentro de mim uma multidão de crianças luta
para que o dia nasça outra vez, invadindo o quarto
por entre as cinzas de um museu na janela (ele agora
parece o meu país) e o ranço líquido que se acumula
lentamente nos lençóis, o suor e as gotas de chá
em copos plásticos, falsas sobras, Accattone perdido,
esnobe em sua gargalhada de doente, rindo por nada
como se tivesse tudo.

2.

todos os dias agora tenho observado um pequeno
incêndio, além desse que mostra o passado atrás
das persianas. as pobres crianças do meu corpo
lançadas à guerra contra a febre que teima:
teimar é a própria febre.

3.

quarto branco de hospital, como qualquer quarto
decente. a vida mostra um pouco mais seu apreço
por horários.

4.

uns poucos vêm visitar e o corpo cinza reage
feliz como pode: do tamanho que pode ter o dia.

5.

nada a dizer depois das 23. é estranho
que os olhos consigam jogar fora as imagens.
nem tudo cabe na vida.

6.

estar quente como o asfalto no instante
da derrapagem. ser os pneus dos carros,
uma estrela ignorante e lúcida,
a mão que ordena o não a si mesma.

§

Manhã/tarde/noite
(para Zacca)

6:00 da manhã e algum automóvel varre, aos poucos, o sol
na estrada. Os cigarros deslizam sobre a mesa, me dizem:
você também envelhece, pode cair um dia e não se dar conta.
Na janela que divido com um desconhecido duas árvores
projetam-se para os lados e parecem abraçadas como estátuas
perdidas, personagens a quem me escapam os nomes. Penso
na distância entre os vivos e num desenho que ganhei há dois dias,
um enorme círculo amarelo bem no meio da folha. Amanhã,
quem sabe, seu menino imóvel na seção de doces do mercado.
A infância é uma gangorra nos olhos quando pulam de prateleira
em prateleira? Ou as crianças são mais como folhas, um dia claro
e algum vento, quando brincam nos quintais nos fins de semana?
A enfermeira acaba de me chamar, estou longe assistindo ao cinema
na vidraça do posto médico. E talvez esteja um pouco aí.

§

O gosto do travesseiro

1.

mais um pouco e passa o dia,
continua o amor em sua viagem
de vento, balançando levemente
os cachos de uma mulher, caso haja
no mundo um, um apenas basta,
que sofra por não poder tocar-lhe
a nuca com as pontas dos dedos.
o vento tudo sabe, de todas as paixões,
dos nomes que as bocas carregam, 
das temperaturas dos colchões
e dos corpos. e sabe dos cheiros
das frutas silvestres, da terra boa
e fértil: brisa leve que entrega
aos amores: somente se estiverem
frescos. as amoras e hortelãs
apenas aos que amam a dúvida,
a impossibilidade da razão
num mundo de lençóis e riso.

2.

um Deus traído, o vento:
com temporais e rajadas movendo
em lâminas as lágrimas do mundo,
aceita pela metade a tarefa de transportar
a falta. ser fantasma, querendo ser rio, 
e viver às escondidas, sempre invisível.
brisa no verão, suave calor nas costas
dos banhistas, navalha violenta
nas velas dos navios, uma criança
gigante batendo com as mãos na cidade:
furacão incompreensível. lhe fizeram
o assassino de aluguel, o banqueiro, 
e lhe deram um orgulho que não sente.
talvez por isso nunca saia nos retratos.

3.

outra manhã na janela.
ele agora me toca, surge
sem fazer força, um operário
dentro de um trem com cem
operários, caminha o ar
com o balanço repetitivo
e tedioso dos programas de tv.
vem como um dia qualquer
num calendário.

4.

agora apenas me olha, 
seus olhos me enchendo
de ciscos, poeira, inchando
meus olhos. e vejo, sem
qualquer dúvida, vejo
como fosse água:
também ele chora.

5.

são minhas as olheiras dele,
descubro que é um maltratado
espelho. e pelo som da minha voz
seu lento sussurro de tempo,
como falasse de enlatados,
alfaces feias hoje na feira,
segredos feitos órfãos, bom dias
a padeiros, conversas de elevadores,
tudo sem força o quase inaudível
de vontade nenhuma, a ausência 
da raiva do assassínio
ou da tristeza
dos que perdem filhos.

6.

com meus olhos de vento 
miro agora essa manhã
tudo cabe nesse dia 
e nada nele me interessa.
miro o vento com coragem
e indago com raiva, dizes
seu nome, grito, enquanto
revolve meus cabelos,
dizes seu nome. responde:
de novo

§

Estou em busca do coração transbordante,
eles dizem: afastem-se, aí vem uma bomba-relógio,
mas eu estou procurando a doçura. Seria melhor
talvez pôr-me o ponto final de um balaço.
Aconselham-me perenemente que tenha medo
das palavras, mas eu estou em busca do coração
transbordante. Pergunto aos operários refestelados
em pratos feitos que gosto teve hoje o trabalho
do metal. Aos poetas pergunto: quando foi a última vez
que lhes ocorreu vararem as ruas com pressa
porque caía do céu um poema, feito um raio
que escolhesse suas cabeças. Urgência é quando a fala
se completa no corpo, palavra é quando escrevemos
mentalmente o silêncio ou as pernas. Estou em busca
dos rostos que perdi: Aí vindes outra vez inquietas sombras.
Hoje necessito inteligência. Procuro mil rostos
e meu coração é um cavalo.

§

Cavalos selvagens em letreiros néon

Como são feias as arcadas dentárias
deste tempo, como são brancas.
Já não há lugar para cavalos selvagens.
Procuramos Li Po em feiras de hortaliças,
procuramos as múmias de antigos generais,
e as túnicas balançam desde o Egito,
e invadem os sonhos incautos
dos que acreditam na Terra boa e mansa.
E assombram os sonhos dos que não
acreditam em nada. Somos um rebanho
sem sinos, somos o filho perdido, somos
a luz que talha e cega o leite, somos o fim
estampado no vidro, somos a carne
só-ferida, somos nenhuma língua.
Mas se é cobrado a quem vive o preço
da fala, quero dizer: não há mais os cavalos
selvagens. Talvez por isso os versos
sem rimas, talvez por isso a pobreza
de cada indivíduo ou a solidão
desses quartos, que mais se parecem
com catres, talvez por isso os acessos
de fúria nos bares e bancadas plenárias,
talvez por isso os tiros e os filhos
sem pais e o medo que inspiram
os filhos sem pais. Talvez por isso
não sabermos os nomes das plantas,
talvez por isso o garimpo ilegal,
talvez por isso as multas de trânsito,
talvez por isso a assepsia e os santos
em miniatura, talvez por isso
a primeira comunhão dos bons
meninos, talvez por isso os romances
não lidos, talvez por isso mendigos
em chamas, talvez por isso a vertigem
da casa, talvez por isso o governo
pastiche de tudo e de nada, talvez
por isso esse velho parado (um cego?)
e lúcido no meio da praça, talvez
por isso as mães e os bebês
superprotegidos, talvez por isso
– cidade – o que não pode ser dito:
Já não há cavalos selvagens.
Mesmo assim, o letreiro num trecho
da Augusta risca a noite com sua luz
de plástico, e promete: wild horse