Tomaz Amorim Izabel (1988—)

Tomaz Amorim Izabel (n. 1988—), escreve sobre literatura e escreve literatura. Publica no fim de outubro seu segundo livro de poemas, Meia lua soco, pela Editora Primata.

Segue, antes do poema, o prefácio de Meia lua soco, escrito por Isabela Rossi


Isabela Rossi
(Companhia Balé de Pancadaria)

bytes, esferas lunares e contrabaixos dissonantes armam o cenário do poeta Tomaz Amorim em Meia Lua Soco. o poema, ora plataforma quântica ora espaçonave do absurdo, desenha a palavra como tempo da luta, ringue onde o analógico e digital, physis e techné, pixel e meteorito, travam-tramam-transam uma espécie de encontro de eras. nessa experimentação, meio briga-de-rua meio briga-de-galo, Tomaz faz vibrar, em muitos momentos, uma cosmogonia à contrapelo, que explode com a grande explosão, mas nela não se acaba:
propaga seus impulsos elétricos com a mesma intensidade a partir da qual, em algum lugar impreciso da galáxia, jogadores diferentes acionam e conduzem seus consoles/fliperamas em estrangeira e pré-histórica comunhão. “fosse a vida um videogame (…)/seria um jogo dependente da história”, assim imagina o poeta enquanto brinca com o leitor numa espécie de ludismo do próprio poema, mas não um ludismo qualquer:
nesse ringue chamado latino-américa, jogar o jogo implica reordenar a vida presente, interromper o curso do tempo, desafiar tudo aquilo que anda muito certo de si, incendiar o estado de coisas que nos atrofia.
se o poema é um jogo também ele mimetiza o brinquedo antigo, aquele que desmontamos e depois de uma longa travessia aprendemos, no colar das peças, uma nova ordem traduzida em desordem mítica. por isso mesmo, a este brinquedo não passam impunes os golpes baixos, a não ser aqueles que chegarem ao centro da terra e de lá retornarem untados no gozo de uma relva, de uma vida aberta.
quem jogar com o poema saberá que a brincadeira não é suave.
pele, ossos, sexo estão em luta, como também lá, no centro do verso, em luta tecem barricadas de pérolas as matriarcas de marte contra o comodismo inóspito das commodities da terra. meia- -lua-soco, corpo-contra-corpo, meia-lua-soco, corpo esquentando corpo, meia-lua-soco, o corpo querendo dançar com outro corpo. é como se o verso, erotizado, rumasse da tecnologia antiga de uma placenta a uma espécie de andrômeda afrofuturista.
sintetizado na Filosofia Cósmica de Sun Ra à lembrança da anarquia cyborgue da filósofa Donna Haraway para a qual o “chip de silício é uma superfície de escrita”, assim ecoa desse soundsystem planetário “a frequência eletrônica/ das ondas de Yemanjá/” e é com essa força que as palavras aqui renderizam o mundo para fazer brilhar em nós o tempo do pré-poema.


BW4

{tecno.
tectônico}

//garoa
//chuvisco de televisão sobre a cidade
//derrama uma enxurrada branca das nuvens de dados
//sobre os habitados

Enquanto verso =< poema
repetir e alterar
…….filhos do crisântemo de neon
…….dos teclados afiados como a katana
…….dixavar as portas do labirinto
…….de janelas e espelhos e interfaces
…….como dobrar e desdobrar
…….um origami elétrico
…….conservar corrente elétrica
…….e dissipá-la no ar
…….como uma pincelada de água
…….sobre uma tela de pedra quente

A frequência das ondas
eletrônicas de Yemanjá
A frequência eletrônica
das ondas de Yemanjá

[A Baphywave se solidifica no mar].

Para cada verso.genérico
repetir e alterar até
verso.único
…….tubarões devorando a luz da fibra óptica
…….nas planícies do cemitério subatlântico
…….tubarões devorando terabytes
…….em busca de quilocalorias
…….cabos de plástico com sabor de crustáceos
…….eletrosushi iluminado por mobas e softcore
…….extratos bancários criptografados
…….tubarões hackeando a rede mundial de computadores
…….tornando independentes novamente os continentes
…….cetopangéia moderna
…….ritual de decoração e invocação
…….da promessa não cumprida
…….do bug do milênio

[A Baphywave é a profetiza do bug do milênio].

Se o verso imita o mundo então
repetir e alterar
se não
…….rubis e diamantes desmanchando-se em luzes angulosas
…….toda Potosí digitalizada, libertada da prata
…….e erguida no ar, para as nuvens
…….sem cadáveres tios diabos e cabos que prendam à terra
…….:wireless potosi

[A Baphywave é hidrodigital].

…….Para cada verso humano
…….o computador dizendo
…….1-0
…….Para cada verso não-humano
…….o olho lendo no espelho
…….O-I
ou
…….A arte em pixels
…….que já se apresentava
…….na rede entrecruzada
…….do ponto-cruz.