Priscilla Campos (1990—)

Priscilla Campos nasceu no Recife. É jornalista, crítica literária, poeta e doutoranda em Literatura Hispano-Americana pela Universidade de São Paulo (USP), onde pesquisa a obra da autora uruguaia Marosa di Giorgio. Publicou, em poesia, o gesto (nosostros editorial) e, em formato ensaio, Nenhum muro à altura do peito (Edições Macondo).

* * *

(sem título)

Trocar de pele. Pausa. Eu sou o sonho perdido da minha mãe. Trocar de pele. Sentir o incômodo. Trocar de pele.

Acordar e ver.

Alicerce. Rasgar a pele. Sentir o incômodo. Música. Rasgar a pele. Empunhar a faca. Segurar o mistério com as mãos. Rasgar a pele. 

Acordar e ver.

Assumir a pele. Segurar a flecha. Empunhar as mãos. Pescar com a precisão e a doçura de Logun. Saber o que tem que saber. Assumir a pele. O que dança dentro de mim é o brilho do mundo. Dar espaço na ponte. Assumir a pele. Encarar o céu. Manejar a água. Desenhar a nossa última fé.

Acordar e ver. 

Cair da Torre. Queimar a pele. Postura. Apontar a dor. Dizer: aqui dói. Queimar a pele. Pular. Construir o precipício como quem constrói o quarto de um filho. Queimar a pele. Deixar o fogo arder na minha boca e nos meus ouvidos. 

Acordar e ver. Saber que sou eu. 


(sem título)

1.

dar espaço aos verbos das mãos 
mão segura
mão bate 
mão limpa 

maneja teus dedos como os espinhos de um ouriço:
firmes no corpo enquanto te protegem e decidem os 
caminhos
manobra meus braços para onde apontam as flechas
eu quero cortar o ar
destemida e retilínea 
mão pinta 
mão escreve
mão delimita 

​​coloca o dorso das tuas mãos em cima dos meus olhos 
e assim eu vejo o quanto dói o teu espírito 
mão constrói 
mão afasta
mão toca 

2.

a quadra de esportes brilha no escuro da mata
criamos nosso jogo ritualístico 
você está com um prisma
nas mãos 
me ensina:
o que importa é a maneira de segurar 
antes do lançamento 

mão planta
mão benze 

3. 

lanço o prisma em direção à terra
a forma de carregá-lo organiza 
a força de seu voo

giro e te encaro de frente
mão direciona
mão dança 

o prenúncio de um encontro
só se conhece depois de arremessar 
luz e sombra no céu 
abro os meus cotovelos e te recebo
como o pescador que não toca 
em nada, mas tudo guia 

mão dá carinho