Goliarda Sapienza, por Valentina Cantori

Goliarda Sapienza (1924-1996) foi atriz, poeta e prosadora italiana. Apesar de ter escrito muitas obras, veio a ser reconhecida apenas neste novo século com a publicação de l’Arte della gioia, seu romance de destaque. Porém, é importante dizer que Sapienza, antes de ser prosadora, é poeta: nos anos 1950 compôs Ancestral, livro de poemas que permaneceria inédito até 2013. Esse foi o ato de nascença de uma das autoras mais complexas e versáteis do Novecento italiano, cuja prosa não existiria sem a poesia. Depois de quase setenta anos, Ancestral chega agora ao Brasil em sua primeira tradução para outra língua publicada pela editora Âyiné.

Valentina Cantori é tradutora, pesquisadora e artista de teatro. Doutora em Letras (Universidade de Macerata/Universidade Hebraica de Jerusalém), desenvolve na USP uma pesquisa de pós-doutorado sobre poesia italiana. Ministra aulas e palestras sobre literatura italiana e tradução; se dedica à tradução de poesia e ao teatro. Traduziu Ancestral de Goliarda Sapienza (Âyiné, 2020) e traduz poesia da América Latina para a revista italiana MediumPoesia.

* * *

Con la gioia
dell’occhio voglio
amarti straniero
nemico
uomo amante
nemico
Tu non sei padre
di donne come vuoi
sembrare
e se lo sguardo
addolcisci la
bugia del tuo
sesso s’affila
in una lama
Io non temo il
coltello
contenere posso
il suo assalto senza
sforzo e rubarti
lo sperma donna
e ladra la
natura m’ha
fatta per godere
e rubare
e sottrarti la
vita che tu temi
di dare uomo avaro
che sperperi
nei dubbi dell’essere
o del non essere
il tuo pene

Com o prazer
dos olhos quero
te amar estrangeiro
inimigo
homem amante
inimigo
Não és pai
de mulher como queres
parecer
e se o olhar
abrandas a
mentira do teu
sexo se aguça
numa faca
Eu não temo a
lâmina
conter eu posso
esse assalto sem
esforço e te roubar
o esperma mulher
e ladra a
natureza me
fez para gozar
e roubar
e te furtar a
vida que temes
dar homem avaro
que dilapidas
nas dúvidas do ser
ou do não ser
o teu pênis

§

Non scherzare di notte fuori dall’uscio
il vento di scirocco porta profumo
di zagara e di mosto, fa cadere
le ragazze ferendole alle cosce.
E il sentore di mosto spiaccicato
sulle carni richiama cento cani
Cento cani ti mordono se cadi
e una cagna sarai sola additata.

Não brinques à noite fora do portão
o siroco traz perfume de mosto
e de flor de laranjeira, derruba
as garotas ferindo-as nas coxas.
E aquele cheiro de mosto esmagado
sobre a carne junta em torno cem cães
Cem cães que te mordem enquanto cais
e uma cadela serás, só e exposta.

§

A T. M.

Quando fu che incontrasti
il tuo dolore e imparasti
a vedere che ogni donna
lo tiene ripiegato contro il seno.

Quando fu che improvviso
faccia a faccia il suo viso
sfrangiato ti si oppose
e fissasti i suoi occhi di corallo.

Fu scrutando la fronte
tra le sbarre nell’ombra
ristagnante nel cortile.
O nei segni di gesso
del percorso inventato
pel gioco sotto casa
insoluto tracciato
di rincorse snodato
nella sera.
O nel muto cadere
della palla sull’erba
nera di pioggia.

Come fu che imparasti a trasmutare
quel dolore di donna che le membra
contorce in quel bianco calore
che dal seno
alle spalle ti commuove.

Tu cancelli il tremore delle labbra
con lacche rosse con risa ma nei silenzi
lo si sente gridare nelle dita
di quei rami protesi
contro i muri notturni che tu ami
nelle lame sferrate nel fogliame
lame aguzze di neon che le tue mani
brevi mani agitate di ragazzo
tagliano
ma tu neghi il dolore con merletti
e mi guardi negli occhi dove l’asfalto
si scompone in un cielo
nero di pece.

Aperture fugaci
su tramonti per viali
inquinati dalla notte
ridicono di pianti
smarrimenti, mentre
ferma mi guardi
e ti nascondi. E se
attenta mi chino
sul tuo viso tu
scrolli i capelli sulla fronte
per celare al mio amore il tuo spavento.

Para T. M.

Quando foi que encontraste
a tua dor e aprendeste
a ver que cada mulher
a mantém dobrada contra o seio.

Quando foi que de repente
esse rosto frente a frente
esfiapado se te opôs
e fitaste aqueles olhos de coral.

Foi perscrutando a fronte
entre as grades na sombra
estagnada no pátio.
Ou nas marcas de giz
do percurso inventado
brincando lá fora
insolúvel traçado
de impulsos tomados
quando é noite.

Ou no mudo cair
da bola na grama
negra de chuva.

Como foi que aprendeste a transmutar
aquela dor de mulher que os membros
contorce naquele branco calor
que do seio
às costas te comove.

Apagas o tremor dos lábios
com laca vermelha com risos mas nos silêncios
pode-se ouvi-lo gritar entre os dedos
daqueles ramos estirados
contra os muros noturnos que amas
nas facas desferidas entre as folhas
facas finas de neon que as tuas mãos
breves mãos agitadas de garoto
cortam
contudo negas a dor com rendas
e me olhas nos olhos onde o asfalto
se desmancha num céu
negro de piche.

Aberturas fugazes
no entardecer das ruas
poluídas pela noite
recontam de prantos
perdas, enquanto
parada me olhas
e te escondes. E se
atenta me inclino
ao teu rosto
soltas o cabelo sobre a fronte
para ocultar do meu amor o teu assombro.

§

Gessuminu girmugghia
da li to mani pusati
su l’umitu da rina.
Si rapunu i to occhi
a li lampari
ca currunu a funniri
u mari cu li stiddi.

Jasmim germina
das tuas mãos pousadas
no úmido da areia.
Abrem-se os teus olhos
às lâmpadas de pesca
que correm a fundir
o mar com as estrelas.