Louise Glück, por Adalberto Müller e Thiago Ponce de Moraes

The Poet Louise Glück Talks About Winning the Nobel Prize in Literature -  The New York Times

Como todo mundo atento ao momento já sabe, a poeta norte-americana Louise Glück acaba de ganhar o prêmio Nobel de literatura. Apesar de não ter nenhum livro publicado no Brasil, ela já vinha chamando atenção de gente ligada, por isso publicamos aqui traduções feitas por Thiago Ponce de Moraes e Adalberto Müller, duas figuras que já contribuíram com a escamandro. A apresentação é feita pelo Ponce.
Como são muitos poemas, dessa vez optei por deixar apenas as traduções no post, com o título do poema em inglês entre parênteses. Para quem tiver interesse, sugiro procurar também as traduções que fez Camila Assad.

Guilherme Gontijo Flores

§

Louise Glück é uma poeta e ensaísta estadunidense nascida em 1943. Filha de uma família de imigrantes húngaros e russos de origem judaica, Glück nasceu em Nova York e, atualmente, é escritora residente no programa Rosenkranz da Universidade de Yale, onde também é professora adjunta. Poeta amplamente laureada, recebeu o Pulitzer (1993), com seu livro The Wild Iris (de 1992), e o prêmio Wallace Stevens (2008), em reconhecimento ao domínio artístico/poético da sua obra, entre vários outros. Acaba de receber a distinção do Prêmio Nobel de Literatura (2020).

Fui apresentado a alguns poemas de Louise Glück há alguns anos por meu amigo e colega tradutor Eduardo Ferraz Felippe, professor do departamento de História da UERJ e parceiro em projetos relacionados à poesia e à tradução de poesia. Eduardo é um grande leitor de poesia anglófona moderna e contemporânea, compreendendo um espectro bem amplo de autores, de modo que sempre me oferece obras fundamentais para o mergulho.

Passei, portanto, a partir daí, a ler Louise Glück com interesse e a esboçar traduções de alguns de seus poemas. Com a notícia na manhã de ontem de que Glück havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura, pensei que seria um momento mais que oportuno para revisar e retomar as traduções. Escolhi, dessa maneira, alguns poemas da minha seleta até então pessoal para compartilhar com um grupo maior de leitores (enquanto uma antologia mais ampla – ou várias – não aparece(m)).

Percebi, aliás, com alegria e entusiasmo, o interesse de vários poetas brasileiros pelo trabalho de Glück, inclusive oferecendo também suas próprias traduções para alguns de seus poemas ao longo do dia de ontem – o que me parece extremamente salutar quando se trata de uma obra tão vasta e importante como a da poeta, o que sem dúvidas vai colaborar para a recepção do seu trabalho no Brasil e em outros países lusófonos.

De maneira bastante pontual, sigo para um rápido comentário acerca do trabalho da poeta. Em primeiro lugar, é preciso apontar que Glück nos oferece uma poesia marcada pela clareza – o que não quer dizer que escreva uma poesia luminosa no sentido temático ou da exploração dessa temática; pelo contrário, a poeta trabalha questões bastante densas e mesmo obscuras –, com uma linguagem direta, em geral, que se abre à leitura. Sua poesia explora extensamente temas como o trauma, a morte, a perda, com forte viés autobiográfico, que, no entanto, se mescla com suas inúmeras recorrências à vasta tradição ocidental de poesia e de pensamento, mais especificamente à mitologia clássica (com destaque para os mitos e personagens gregos).

Seus poemas exploram um gesto de narratividade que se afasta do puramente prosaico. Além disso, seu trabalho é muito consistente na investigação e na revisitação da memória – e, de fato, também por isso apresenta uma dimensão altamente confessional. Contudo, tanto a narratividade quanto os traços confessionais são profundamente tensionados e esgarçados ao longo de seu trabalho, em última análise legando uma espécie de indecidibilidade à leitura, no sentido de que as fronteiras entre sujeito e objeto, observador e observado, ficção e lembrança, mito e fato histórico etc. são francamente borradas.

Vale lembrar, ainda, que o mundo natural aparece não só como tema, mas também como ambiência em vários de seus poemas e livros. Especificamente em um de seus trabalhos mais conhecidos, The Wild Iris (1992), metáforas da natureza são usadas em profusão. Nesse livro, flores e plantas ganham destaque e, literalmente, voz. Nos poemas em que aparece o tema da natureza, ora há uma investigação crítica da passagem do humano pelo mundo, ora certa revisão e revisitação da tradição romântica, ora, ainda, elementos naturais funcionam como alegoria para uma leitura subjacente.  

Termino esse pequeno texto recordando que se trata de uma brevíssima introdução: apenas uma forma de situar rapidamente a poeta para os leitores brasileiros. Convido, portanto (e finalmente), à leitura dessa série de poemas de Louise Glück.

Thiago Ponce de Moraes

* * *

Lamium (Lamium)

É assim que se vive quando o coração é frio.
Como eu: em sombras, rastejando sobre rochas frias,
sob os grandes bordos.

O sol mal me toca.
Às vezes o vejo na primavera, subindo distante.
Aí crescem folhas nele, ocultando-o todo. Sinto
ele luzindo entre as folhas, errático, como
alguém batendo o lado de um copo com uma colher.

Coisas vivas não requerem todas
a luz no mesmo nível. Algumas de nós
fabricam a própria luz: uma folha prateada
como uma senda que ninguém usará, um raso
lago de prata na escuridão sob os grandes bordos.

Mas você já sabe disso.
Você e os outros que pensam
que vivem para a verdade, e, por extensão, amam
tudo o que é frio.
(Trad. de Adalberto Müller)

§

Alvorada (Dawn)

1

Uma criança acorda num quarto escuro
gritando quero meu pato de volta, quero meu pato de volta

em uma língua que ninguém consegue entender —

Não há pato algum.

Mas o cachorro, todo estofado em pelúcia branca —
o cachorro está bem ali no berço ao lado dela.

Anos e anos — é o tanto que o tempo passa.
Tudo em um sonho. Mas o pato —
ninguém sabe o que aconteceu com ele.

2

Eles acabaram de se encontrar, agora
estão dormindo perto da janela aberta.

Um pouco para acordá-los, para assegurar a eles
que o que eles lembram da noite está correto,
agora a luz precisa entrar no quarto,

também para mostrá-los o contexto em que isso ocorreu:
meias meio escondidas sob um tapete sujo,
colcha decorada com folhas verdes —

a luz do sol especificando
esses mas não outros objetos,
criando fronteiras, certa de si, não arbitrária,

e então demorando-se, descrevendo
cada coisa minuciosamente,
meticulosa, como uma redação em inglês,
até mesmo um pouco de sangue nos lençóis —

3

Depois, eles se separam para o dia.
Mais tarde ainda, em um balcão, no mercado,
o gerente insatisfeito com o salário que recebe,
os frutos mofados sob a camada mais externa —

de modo que alguém se retire do mundo
mesmo enquanto ainda continue a atuar nele —

Você chega em casa, é quando você percebe o mofo.
Tarde demais, em outras palavras.

Como se o sol te cegasse por um momento.
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

§

Fura-Neves (Snowdrops)

Sabe o que eu era, como eu vivia? Você sabe
o que é o desespero; então pra você
o inverno deve ter sentido.

Não esperava sobreviver,
a terra me oprimindo. Não esperava
acordar de novo, sentir
na terra úmida meu corpo
capaz de responder de novo, lembrando
depois de tanto tempo como me abrir de novo
na luz fria
da pré-primavera –

medrosa, sim, mas contigo de novo
gritando sim risco júbilo

no vento cru do novo mundo.
(Trad. de Adalberto Müller)

§

Nostos (Nostos)

Havia uma macieira no quintal —
isso deve ter sido
há uns quarenta anos — atrás,
apenas pradarias. Montes
de açafrão na grama úmida.
Eu parei na janela:
fim de abril. As flores
da primavera no quintal do vizinho.
Quantas vezes, sério, a árvore
floresceu no meu aniversário,
no dia exato, nem
antes, nem depois? Substituição
do imutável
pelo variante, pelo emergente.
Substituição da imagem
pela terra implacável. O que
eu sei desse lugar,
o papel da árvore por décadas
tomada por um bonsai, vozes
aflorando das quadras de tênis —
Campos. Cheiro da grama alta, recém-cortada.
Como se espera de um poeta lírico.
Olhamos para o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória.
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

§

A Íris Selvagem (The Wild Iris)

No fim do meu sofrimento
tinha uma porta.

Escutem: o que chamam de morte
eu me lembro.

Lá em cima, ruídos, ramos do pinheiro movem-se.
Depois, nada. O sol fraco
cintilou sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência
enterrada na terra escura.

Depois, acabou: o que você teme, sendo
uma alma e incapaz
de falar, finando abrupta, a terra dura
dobrando-se um pouco. E o que eu achei que eram
pássaros cruzando arbustos baixos.

Você que não se lembra
a passagem por outro mundo
Digo que posso falar de novo: o que volta
do olvido volta
para encontrar uma voz:

do centro da minha vida veio
uma grande fonte, azul profundo
sombras na lazúli água marinha.
(Trad. de Adalberto Müller)

A Íris Selvagem (The Wild Iris)

No final do meu sofrimento
tinha uma porta.

Me escuta: aquilo a que você chama morte
eu me lembro.

Acima, barulhos, ramos do pinheiro balançando.
Depois nada. O sol fraco
tremeluzia sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência
enterrada no solo escuro.

Depois acabou: aquilo que você teme, sendo
uma alma ou incapaz
de falar, terminando abruptamente, a terra tesa
se curvando um pouco. E o que imaginei serem
pássaros se lançando nos arbustos.

Você que não se lembra
da passagem do outro mundo
eu te digo que falaria de novo: o que quer que
retorne do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do centro da minha vida brotou
uma grande fonte, sombras
azul-profundas em água do mar azul-celeste.
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

§

A Escada de Jacó (The Jacob’s Ladder)

Presa na terra,
você não ia querer ir também
para o céu? Eu moro
no jardim de uma moça. Me desculpa, moça;
a ânsia tirou a minha graça. Eu
não sou o que você esperava. Mas
como homens e mulheres parecem
desejar-se, também desejo
saber do paraíso – e agora
a tua mágoa, um talo nu
quase na janela da varanda.
E no fim, o quê? Uma florzinha azul
como uma estrela. Nunca
abandonar este mundo! Não é
isso o que dizem as tuas lágrimas?
(Trad. de Adalberto Müller)

§

Paisagem Aborígene (Aboriginal Landscape)

Você está pisando em cima do seu pai, minha mãe disse,
e de fato eu estava parada exatamente no centro
de uma cama de grama, aparada tão perfeitamente que poderia ser
o túmulo do meu pai, embora não houvesse lápide indicando.

Você está pisando em cima do seu pai, ela repetiu,
agora mais alto, o que me pareceu estranho,
uma vez que ela mesma já estava morta; até o doutor reconheceu.

Me movi ligeiramente para o lado, para onde
meu pai terminava e começava minha mãe.

O cemitério estava em silêncio. O vento soprava pelas árvores;
eu podia escutar, muito vagamente, sons de choro a vários corredores de distância,
e mais para além, um cão gemendo.

Com o tempo esses sons diminuíram. Passou pela minha cabeça
que eu não me lembrava de ter sido trazida aqui,
para o que agora parecia ser um cemitério, embora pudesse ser
um cemitério na minha cabeça apenas; talvez fosse um parque, ou se não um parque,
um jardim ou um pergolado, perfumado, agora me dou conta, com cheiro de rosas —
douceur de vivre enchendo o ar, a doçura de viver,
como diz o ditado. A certa altura,

me ocorreu que estava sozinha.
Onde tinham ido os outros,
Meus primos e irmã, Caitlin e Abigail?

Agora a luz se esvaía. Onde estava o carro
aguardando para nos levar para casa?

Então comecei a buscar alternativas. Senti
uma impaciência crescendo em mim, aproximando-se, eu diria, da ansiedade.
Finalmente, à distância, eu avistei um pequeno trem,
parou, me parece, atrás de alguma folhagem, o condutor
apoiado no batente da porta, fumando um cigarro.

Não me esqueça, eu gritei, agora correndo
sobre vários lotes, várias mães e pais —

Não me esqueça, eu gritei, quando enfim o alcancei.
Madame, ele disse, apontando para os trilhos,
certamente a senhora compreende que este é o fim, os trilhos não vão adiante.
Suas palavras eram duras, ainda que seus olhos fossem gentis;
isso me encorajou a argumentar de novo com mais ênfase.
Mas eles voltam, eu disse, e comentei
sobre a sua robustez, como se tivessem muitos retornos à sua frente.

Você sabe, ele disse, nosso trabalho é difícil: enfrentamos
muitas tristezas e decepções.
Ele me fitou com uma franqueza cada vez maior.
Eu já fui como você, acrescentou, apaixonado pela turbulência.

Agora falo como se com um velho amigo:
E você, eu disse, já que ele estava livre pra partir,
você não deseja ir para casa,
ver outra vez a cidade?

Esta é a minha casa, ele disse.
A cidade  — a cidade é onde desapareço.
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)

§

A Papoula Vermelha (The Red Poppy)

A grande coisa
é não ter
uma mente. Sentimentos:
oh, eu tenho desses; eles
me governam. Eu tenho
um senhor no céu
chamado o sol, e me abro
para ele, mostrando a ele
o fogo do meu coração, fogo
como a sua própria presença.
O que seria uma tal glória
se não um coração? Oh irmãos e irmãs,
vocês já foram como eu, faz tempo,
antes de serem humanos? Vocês
se permitem alguma
vez se abrirem, quem jamais
se abriria de novo? Pois em verdade
Estou falando agora
como vocês. Estou falando
porque estou destroçada.
(Trad. de Adalberto Müller)

§

Perséfone, a Errante (Persephone, the Wanderer)

Na primeira versão, Perséfone
é tirada de sua mãe
e a deusa da terra
pune a terra—isso tem
a ver com o que sabemos do comportamento humano,

os seres humanos têm profunda satisfação
ao fazer o mal, especialmente
o mal inconsciente:

podemos chamar a isso
de criação negativa.

A estadia inicial
de Perséfone no inferno segue sendo
apalpada por estudiosos que disputam
as sensações da virgem:

ela cooperou para seu estupro,
ou ela estava drogada, violada à revelia,
como é tão frequente acontecer agora com as garotas modernas.

Como bem se sabe, a volta do amado
não corrige
a perda do amado: Perséfone

volta pra casa
manchada de suco vermelho como
um personagem em Hawthorne—

Não estou certa de que eu vá
manter esta palavra: a terra
é “casa” para Perséfone? Ela está em casa, possivelmente,
na cama do deus? Ela não está
em casa em lugar algum? Ela é
uma errante nata, em outras palavras
uma réplica
existencial de sua própria mãe, menos
paralisada por ideias de causalidade?

Permite-se que você não goste
de ninguém, você sabe. Os personagens
não são pessoas.
Eles são aspectos de um dilema ou conflito.

Três partes: assim como a alma é dividida,
ego, superego, id. Da mesma forma

os três níveis do mundo conhecido,
um tipo de diagrama que separa
o céu da terra do inferno.

Você deve se perguntar:
onde está nevando?

Branco de esquecimento,
de sacrilégio—

está nevando na terra; o vento frio diz

que Perséfone faz sexo no inferno.
Ao contrário do resto de nós, ela não sabe
o que é o inverno, apenas que
ela é que o causa.

Ela está deitada na cama de Hades.
No que ela pensa?
Ela tem medo? Algo
apagou a ideia
da mente?

Ela bem sabe que a terra
é comandada por mães, isso
é certo. Também sabe
que ela não é mais o que
chamam de garota. Quanto ao
encarceramento, ela acredita

que é prisioneira desde que é filha.

As terríveis reuniões que a aguardam
vão tomar o resto de sua vida.
Quando a paixão pela expiação
é crônica, feroz, você não escolhe
o jeito como vive. Você não vive;
você não tem permissão para morrer.

Você vaga entre a terra e a morte
que parecem, enfim,
estranhamente similares. Os estudiosos nos dizem

que não faz sentido saber o que você quer
quando as forças que disputam por você
poderiam te matar.

Branco de esquecimento,
branco de segurança—

Eles dizem
que há uma fenda na alma humana
que não foi construída para pertencer
inteiramente à vida. A terra

nos pede que rejeitemos essa fenda, uma ameaça
disfarçada de sugestão—
como vimos
na fábula de Perséfone
que deveria ser lida

como uma briga entre a mãe e o amante—
a filha é apenas carne.

Quando a morte a confrontar, ela nunca terá visto
as pradarias sem margaridas.
De repente ela não canta
mais suas canções virginais
sobre a beleza e a fecundidade
de sua mãe. Onde
a fenda está, está a fratura.

Canção da terra,
canção da visão mítica da vida eterna—

Minha alma
despedaçada com a mancha
de tentar pertencer à terra—

O que você vai fazer,
quando é a sua vez no campo com o deus?
(Trad. de Thiago Ponce de Moraes)