Virgílio, “Geórgicas”, Livro 2, vv. 1-109, por Rafael Silva

“mas quantas as espécies e quais são os nomes delas?”, por uma tradução poética das Geórgicas de Virgílio

pouca gente sabe, menos gente ainda faz lá questão de lembrar, mas a obra de Virgílio não se restringe à Eneida. além de ser o autor das Bucólicas, conjunto de dez poemas que retoma muito da produção helenística de Teócrito e que constitui o mais influente modelo para a poesia pastoral posterior (incluindo aí nossos Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga), Virgílio compôs ainda as Geórgicas: um poema didático dividido em quatro livros, onde a persona poética magistral dá lições sobre cultivo da terra e dos animais, com base no conhecimento das coisas da natureza. inspirado diretamente pela tradição didática que remonta a Hesíodo, com seus Trabalhos e dias (o poema “ascreu” mencionado pelo vate no livro II, v. 176), entendido em tais termos, esse poema não pareceria ter muito a oferecer ao leitor contemporâneo de poesia. acontece que muita gente boa considera essa uma das mais finas realizações poéticas de todos os tempos: “le plus accomply ouvrage de la Poësie” (Montaigne); “the best poem of the best poet” (Dryden). por quê?

a presença da terra no imaginário romano antigo é algo muito forte e atravessa boa parte dos valores desse povo. Virgílio recorre a esse imaginário para elaborar um ideal a um só tempo moral e poético: a ideia do cultivo da terra, isto é, da agricultura, como uma forma de cultivo de si. sem abrir mão da dimensão didática que a tradição romana prezava desde as obras de Catão e Varrão, por exemplo, as Geórgicas conseguem o feito extraordinário de tecer uma finíssima malha sonora, costurando imagens belíssimas, para falar a um só tempo do trabalho agrícola e do labor poético. quando o vate enumera as espécies de árvores – vinhas, oliveiras, castanheiras – trata-se aí também de um catálogo de alusões a poetas e seus poemas. a menção à possibilidade de enxertar um galho de macieira numa pereira, ou uma ameixeira num corniso, constitui uma profunda reflexão sobre a tradução poética como forma de enriquecer mutuamente as culturas envolvidas nesse processo. vocês entenderam…

a tradução aqui proposta se guia por uma opção métrica que tenho trabalhado para verter o hexâmetro datílico (do grego antigo e do latim): um metro de quatorze sílabas, com uma acentuação inicial sempre decassilábica (heroica, 6ª e 10ª; ou sáfica, 4ª, 8ª e 10ª) ou dodecassilábica. opta-se pela manutenção dos termos técnicos empregados por Virgílio, já que essa dimensão técnica cumpre uma função poética importante aí. essa opção certamente torna a leitura tão difícil para o leitor brasileiro da tradução quanto deve ter sido a leitura do texto latino para seu público romano: certamente poucas pessoas conseguiam decifrar todas as suas alusões a plantas, animais e ferramentas específicas, mas o que mais importava lá – como aqui – é o jogo verbi-voco-visual.

espero que a leitura desses versos seja tão divertida para vocês quanto sua escrita foi para mim. caso tenham comentários, críticas e sugestões, podem me escrever: gtsilva.rafa@gmail.com

textos latinos de base para a tradução:

VERGIL. Bucolics, Aeneid, and Georgics Of Vergil. J. B. Greenough. Boston: Ginn & Co. 1900.
VIRGILE. Géorgiques. Texte traduit par Eugène de Saint-Denis. Paris : Les Belles Lettres, 1998.

rafael silva

* * *

Até aqui, cultivo dos campos e astros celestes,
agora a ti, ó Baco, canto e contigo os silvestres
sarçais e o rebentar extemporâneo de olivais.
Para cá, pai Leneu!, aqui tudo é pleno de teus
mimos! A ti, fecundo em meio aos pâmpanos do outono,
floresce o campo e espuma em plenas tinas a vindima!
Para cá, pai Leneu!, vem e no mosto novo as nuas
pernas tinge comigo, destroçados os coturnos!
Primeiro, a natureza é vária em árvores criar.
Algumas, com efeito, em nada forçadas por homens,
vêm espontaneamente e retêm os campos e os rios
recurvos, como o tenro amieiro e as flexíveis giestas,
o choupo e, nas outrora frondosas cãs, os salgueiros.
Parte, porém, provém da semeação, como as altas
castanheiras e — à sombra enorme que a Júpiter dão —
os ésculos e, oráculos dos gregos, os carvalhos.
Pulula da raiz, para outras, densíssimo o bosque —
cerejeiras e olmeiros —, mas o loureiro parnásio
miúdo sob a sombra ingente da mãe se ocultou.
Tais modos deu primeiro a natureza: todo gênero
de arbusto e bosque assim verdeja e florestas sagradas.
Há outros que, por via certa, o uso descobriu.
Um, arrancando os brotos do tenro corpo da mãe,
depositou em sulcos; outro, estirpes pôs no campo,
quadrifendidas varas e estacas de lenho agudo.
Alguns, dos bosques, arcos em mergulhias calcados,
aguardam e também rebentos nascidos da terra.
Alguns não têm sequer raízes — a grande ameixeira
não hesita em voltar à terra a partir de seu galho.
E de um tronco cortado — maravilha de contar! —,
desponta uma raiz do seco lenho da oliveira.
E, com frequência, o ramo de um — impunemente — vemos
vertido em outro: transplantada assim produz maçãs
a pereira e o corniso enrubesce nas ameixeiras.
Mãos à obra e aprendei o que é próprio a cada cultura,
agrícolas, e o fruto fero abrandai, cultivando,
sem qualquer terra estéril. Agrada o Ismaro de Baco
semear e vestir de oliveiras o alto Taburno.
E tu, aqui, dê cabo do labor iniciado,
ó flama, parte máxima do mérito da fama,
Mecenas, e voando dê vela ao pélago aberto.
Eu próprio não escolho tudo abraçar com meus versos,
não, nem se para mim houvesse cem línguas e bocas,
férrea voz. Orienta-me por litorâneas bordas.
Às mãos, as terras! Não aqui — por carme imaginado,
em desvios e longos exórdios — reter-te-ei.
Aquelas que espontâneas dão nas luminosas bordas
são infecundas, mesmo que nasçam fortes e prósperas,
quando o solo for próprio. Ainda assim, essas também —
se alguém as enxertar ou em lavouras transplantar —
perdem o ânimo agreste e, por cultivação frequente,
não tardarão a se dobrar às artes que quiseres.
Assim será também da que brotar ao pé das outras,
estéril, caso seja espalhada em campo espaçoso.
Agora os altos galhos e os ramos da mãe ofuscam
as crias da que cresce: tolhem e secam o broto.
Já a árvore que — mal lançada a semente — se ergueu
vem com delonga e só fará sombra aos netos futuros,
enquanto os frutos apodrecem e os primeiros sucos
se perdem e a videira oferta às aves uvas vis.
Convém com todas despender certo labor e todas
em sulcos coletar para domar a muito custo.
Mas em tocos prosperam melhor oliveiras; videiras,
em mergulhias; mirtos de Pafos, em caules sólidos;
em mudas, nascem duras aveleiras e um enorme
freixo e uma umbrosa árvore de hercúlea coroa
e as bolotas do pai Caônio — e a altiva palmeira
nasce e seu lenho em breve vê desventuras marinhas.
Enxerta-se o medronho eriçado com a nogueira
e plátanos estéreis geram viçosas macieiras.
A faia encaneceu na flor da castanheira, o freixo,
na da pereira, e os porcos comem glandes sob olmeiros.
Não há um modo só de implantar e enxertar botões.
De fato, onde no meio da cortiça surgem gomos
rompendo as tênues túnicas, em cima do apertado
nó, que se faça um furo: aí de uma outra árvore o germe
introduz-se e ensina-se a crescer da seiva líquida.
Ou ainda, ao contrário, cortam-se os troncos sem nós
e com cunhas se fende um fundo buraco onde férteis
mudas são inseridas: em pouco tempo uma enorme
árvore exsurge até o céu com seus ramos felizes
e se admira de novas ramas e frutos não seus.
Não existe um só gênero, nem dos fortes olmeiros,
nem de salgueiro ou lótus, nem dos ciprestes ideus;
nem nascem de uma só forma as opulentas olivas,
mas oblongas, ovais e — as páuseas — de amargos caroços,
como os frutos silvestres de Alcínoo; nem um só broto
dá pêras do Crustúmio, da Síria e pêras pesadas.
A vindima que pende de nossas árvores não
é a mesma que em galhos de Metimna colhe Lesbos.
De Tasos, vinhas há; de Mareótis, uvas brancas
(estas convêm à terra opulenta, aquelas, à leve);
de Psítia, o vinho seco sobressai; de Lage, o suave,
que um dia há de tentar os pés e superar a língua.
Purpúreo ou prematuro, com que carme te direi,
ó Rético? Mas não vá competir com o Falerno.
Também de Amínea, vinhas há — em vinhos encorpados,
perante os quais se curva o Tmolo e o próprio rei Faneu.
E mesmo contra o mais humilde, Argitis, não há luta
tanto em termos de “tanto” quanto em termos de “quando”.
Nem a ti — tu, aceito em segundo à mesa dos deuses —
esquecerei, ó Ródio, nem de teus cachos, Bumasto.
Mas quantas as espécies e quais são os nomes delas?
E seu número? Não se pode compreender tal número.
Quem quiser conhecê-lo, queira primeiro aprender
com quanta areia o Zéfiro turva os mares da Líbia
ou, quando o Euro cai mais violentamente nas naus,
conhecer quantas vagas vêm ao litoral da Jônia.
De fato, as terras todas não geram todas as coisas.

Hactenus arvorum cultus et sidera caeli,
nunc te, Bacche, canam, nec non silvestria tecum
virgulta et prolem tarde crescentis olivae.
Huc, pater o Lenaee—tuis hic omnia plena
muneribus, tibi pampineo gravidus autumno
floret ager, spumat plenis vindemia labris—
huc, pater o Lenaee, veni nudataque musto
tingue novo mecum direptis crura cothurnis.
Principio arboribus varia est natura creandis.
namque aliae nullis hominum cogentibus ipsae
sponte sua veniunt camposque et flumina late
curva tenent, ut molle siler lentaeque genestae,
populus et glauca canentia fronde salicta;
pars autem posito surgunt de semine, ut altae
castaneae nemorumque Iovi quae maxima frondet
aesculus atque habitae Grais oracula quercus.
Pullulat ab radice aliis densissima silva,
ut cerasis ulmisque; etiam Parnasia laurus
parva sub ingenti matris se subicit umbra.
Hos natura modos primum dedit, his genus omne
silvarum fruticumque viret nemorumque sacrorum.
Sunt aliae, quas ipse via sibi repperit usus.
Hic plantas tenero abscindens de corpore matrum
deposuit sulcis, hic stirpes obruit arvo
quadrifidasque sudes et acuto robore vallos;
silvarumque aliae pressos propaginis arcus
exspectant et viva sua plantaria terra;
nil radicis egent aliae summumque putator
haud dubitat terrae referens mandare cacumen.
Quin et caudicibus sectis, mirabile dictu,
truditur e sicco radix oleagina ligno.
Et saepe alterius ramos inpune videmus
vertere in alterius mutatamque insita mala
ferre pirum et prunis lapidosa rubescere corna.
Quare agite o proprios generatim discite cultus,
agricolae, fructusque feros mollite colendo,
neu segnes iaceant terrae. Iuvat Ismara Baccho
conserere atque olea magnum vestire Taburnum.
Tuque ades inceptumque una decurre laborem,
O decus, o famae merito pars maxima nostrae,
Maecenas, pelagoque volans da vela patenti;
non ego cuncta meis amplecti versibus opto,
non, mihi si linguae centum sint oraque centum,
ferrea vox; ades et primi lege litoris oram.
In manibus terrae; non hic te carmine ficto
atque per ambages et longa exorsa tenebo.
Sponte sua quae se tollunt in luminis oras,
infecunda quidem, sed laeta et fortia surgunt;
quippe solo natura subest. Tamen haec quoque, si quis
inserat aut scrobibus mandet mutata subactis,
exuerint silvestrem animum cultuque frequenti
in quascumque voles artis haud tarda sequentur.
Nec non et sterilis, quae stirpibus exit ab imis,
hoc faciat, vacuos si sit digesta per agros;
nunc altae frondes et rami matris opacant
crescentique adimunt fetus uruntque ferentem.
Iam quae seminibus iactis se sustulit arbos
tarda venit seris factura nepotibus umbram,
pomaque degenerant sucos oblita priores
et turpis avibus praedam fert uva racemos.
Scilicet omnibus est labor inpendendus et omnes
cogendae in sulcum ac multa mercede domandae.
Sed truncis oleae melius, propagine vites
respondent, solido Paphiae de robore myrtus;
plantis et durae coryli nascuntur et ingens
fraxinus Herculeaeque arbos umbrosa coronae
Chaoniique patris glandes, etiam ardua palma
nascitur et casus abies visura marinos.
Inseritur vero et fetu nucis arbutus horrida,
et steriles platani malos gessere valentis;
castaneae fagus, ornusque incanuit albo
flore piri glandemque sues fregere sub ulmis.
Nec modus inserere atque oculos inponere simplex.
Nam qua se medio trudunt de cortice gemmae
et tenuis rumpunt tunicas, angustus in ipso
fit nodo sinus: huc aliena ex arbore germen
includunt udoque docent inolescere libro.
Aut rursum enodes trunci resecantur et alte
finditur in solidum cuneis via, deinde feraces
plantae inmittuntur: nec longum tempus, et ingens
exsilit ad caelum ramis felicibus arbos
miraturque novas frondes et non sua poma.
Praeterea genus haud unum nec fortibus ulmis
nec salici lotoque neque Idaeis cyparissis,
nec pingues unam in faciem nascuntur olivae,
orchades et radii et amara pausia baca
pomaque et Alcinoi silvae, nec surculus idem
Crustumiis Syriisque piris gravibusque volemis.
Non eadem arboribus pendet vindemia nostris,
quam Methymnaeo carpit de palmite Lesbos;
sunt Thasiae vites, sunt et Mareotides albae,
pinguibus hae terris habiles, levioribus illae,
et passo Psithia utilior tenuisque Lageos
temptatura pedes olim vincturaque linguam,
purpureae preciaeque, et quo te carmine dicam,
Rhaetica? Nec cellis ideo contende Falernis.
Sunt et Amineae vites, firmissima vina,
Tmolius adsurgit quibus et rex ipse Phanaeus;
Argitisque minor, cui non certaverit ulla
aut tantum fluere aut totidem durare per annos.
Non ego te, Dis et mensis accepta secundis,
transierim, Rhodia, et tumidis, Bumaste, racemis.
Sed neque quam multae species nec nomina quae sint,
est numerus; neque enim numero conprendere refert;
quem qui scire velit, Libyci velit aequoris idem
discere quam multae Zephyro turbentur harenae,
aut ubi navigiis violentior incidit Eurus,
nosse, quot Ionii veniant ad litora fluctus.
Nec vero terrae ferre omnes omnia possunt.