Vincent Bounoure, por Natan Schäfer

Roberto Matta, Micheline e Vincent Bounoure, 1969 (arquivos Bounoure)

Depois de estudar na Escola de Minas de Nancy, Vincent Bounoure (Strasbourg, 1928 – Paris, 1996) recusou empregos em pesquisas industriais e militares e juntou-se ao grupo surrealista de Paris na primeira metade dos anos 1950 — grupo do qual ele faria parte até o fim de sua vida. Bounoure notabilizou-se tanto por sua atuação em âmbito internacional — contribuindo, inclusive, para a realização da XIII Exposição Internacional Surrealista organizada por Sergio Lima em São Paulo, em 1967 — assim como por ter sido um dos principais membros do grupo surrealista de Paris a posicionar-se contra sua autodissolução em 1969. Teve também uma intensa atividade militante e teórica — esta última parcela de sua produção pode ser encontrada nos volumes La Civilisation Surréaliste (et. al., Payot, 1976) e Moments du Surréalisme (L’Harmattan, 1999), este último publicado postumamente. Além disso, embora menos conhecida, deixou uma relevante obra poética, cuja edições são atualmente bastante raras e que encontra-se totalmente inédita em português.

Como podemos observar nesta breve seleta, os poemas de Bounoure são irrigados pelas mesmas veias e artérias que irrigaram sua vida: o maravilhoso, a alquimia, o coração selvagem, tudo associado ao viver para além do que é dado — sem concessões e submissões.

Os poemas aqui apresentados fazem parte dos volumes Talismans (Éditions Surréalistes, 1969), realizado em colaboração com o cubano Jorge Camacho; e Envers l’ombre (Éditions Surréalistes, 1965), o qual conta com ilustrações do canadense Jean Benoît e cuja tradução para o português será publicada no verão de 2021 pela Contravento Editorial.

Bom maravilhamento!

Natan Schäfer

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Desenho que acompanha “A mão majestosa”

A mão majestosa

Pálida com a alva
Nos círculos das noites pesadas
A masmorra da sua luva de toupeira parda
Como a aparição da ladra de lágrimas.

(in: Talismãs, 1969; desenho por Jorge Camacho)

La main majestueuse

Pâle comme l’aube
Dans les cercles de la nuit lourde
Le donjon sort de son gant de taupe
Comme l’apparition de la voleuse de larmes.

(in: Talismans, 1969; dessins de Jorge Camacho)

§

Caos

Depois de massacrada nossa complacência
E enfiadas as garras na memória dos anjos,
Ela desceu portando pedras santas nas mãos.

A liberdade de rolar cabeças
Exatamente
Como a aurora desenrola uma cabeleira sobre as tumbas.

A hora de nácar,
Os bichos deslumbrados
Nos levam pela coleira,
Ela mais nua por ser longa e sob o ouro
A testa negra afogada,
Eu sem voz,
Abençoamos nossa despossessão.

Dobrem as apostas
Com belos soluços.

(in: Envers l’ombre, 1965; ilustrações de Jean Benoît)

Chaos

Une fois notre complaisance massacré,
Les griffes plantées dans la mémoire des anges,
Elle est descendue portant les pierres saintes dans ses mains.

La liberté fait rouler des têtes
Parfaitement
Comme l’aurore déroule une chevelure sur les tombeaux.

L’heure de nacre,
Les bêtes éblouies
Nous tirent à la chaîne,
Elles plus nue d’être longue et sous l’or
Le front noir noyé,
Mais sans voix,
Nous bénissons notre dépossession.

Doublez vos mises
De beaux sanglots.

(in: Envers l’ombre, 1965; illustrations de Jean Benoît)

§

Sem fôlego

A boca que ela traz na testa come uma pedra lunar.

A brasa ali selada.
O marfim é opaco aos disparos,
Os broches inalienáveis nas bainhas
Estão afivelados numa luminária inclinada.

A faísca pálida no gorjal
Jorra a cada esforço da vaga.

O ovo da galinha d’água despencado em seu peito
Eclode sob o buquê de pistache e o estrondo dos lustres
Rumo aos recifes.

(in: Envers l’ombre, 1965; ilustrações de Jean Benoît)

Hors d’haleine

La bouche qu’elle porte au front mange une pierre de lune.

La braise scellée là.
L’ivoire est opaque aux coups de feu,
Les broches inaliénables dans les ourlés
Sont bouclées sur une lampe inclinée.

L’étincelle pâle au gorgerin
Jaillit à chaque effort du flot.

L’oeuf de râle chu dans sa poitrine
Eclôt sous les gerbes de pistache et le fracas des lustres
Vers les brisants.

(in: Envers l’ombre, 1965; illustrations de Jean Benoît)