Pedro Pietri thel Nuyorican, por Nina Rizzi

rev.-pedro

“Eu não posso salvar sua alma com religião; posso salvar sua vida com um preservativo”

Pedro Pietri foi poeta e dramaturgo. Nasceu em Ponce, Porto Rico em 1944 e foi criado em Manhattan. Poucos anos depois de se formar no ensino médio foi convocado para o Exército e serviu na Guerra do Vietnã. Após seu retorno a Nova York, Pietri se juntou ao Young Lords, um grupo ativista dos direitos civis de pessoas porto-riquenhas. 

Em 1973, co-fundou o Nuyorican Poets Café, onde jovens Nuyoricans (continue lendo para saber mais) que viviam na cidade de Nova York, podiam recitar sua própria poesia, bem ao estilo sarau. Nesse mesmo ano publicou Puerto Rican Obituary, seu poema épico mais conhecido.

Seus poemas, performances e peças teatrais frequentemente refletem fortes visões políticas e denunciam a opressão política e social dos Nuyoricans na sociedade estadunidense. Dessa maneira, inspirou jovens a escrever com orgulho de sua origem e cultura.

Publicou os livros: Illusions of a Revolving Door: Plays (1992), The Masses are Asses (1984), Traffic Violations (1983), Lost in the Museum of Natural History (1980), Invisible Poetry (1979), and Puerto Rican Obituary (1973), e os álbuns de poesia performática, Loose Joints e One Is a Crowd, além de ter seu trabalho foi amplamente antologizado. Faleceu em 2004.
*

Nuyorican é uma junção dos termos “New York” e “Puerto Rican” (como o que fiz com o thel ali no título, juntando “the” e “el”: o) e tem um significado muito amplo: se refere tanto às pessoas como a cultura da diáspora porto-riquenha vivendo no entorno ou à Nordeste de Nova York e seus descendentes (especialmente pessoas criadas ou ainda vivendo na área de New York); também é usado por Boricuas (pessoas porto-riquenhas nascidas e vivendo em Porto Rico há mais de duas gerações; boricua pode derivar de boricuá: “comer caranguejos”, no Arawak-lokono, que era como os povos originários Tainos caribenhos se chamavam, como também pode derivar de borinquén: antiga denominação indígena da atual ilha de Porto Rico, que significa “terras do bravo/ arrogante senhor”) para diferenciar pessoas nascidas em Porto Rico de seus descendentes que não vivem lá; pode ser utilizado ainda para se referir ao espanhol falado em Nova York por pessoas porto-riquenhas, onde se concentra a maior comunidade porto-riquenha fora de Puerto Rico. Comunidades porto-riquenhas em outras cidades cunharam termos semelhantes, incluindo “Philly Rican” para quem está na Filadélfia, e “Chi-Town Rican” para quem está em Chicago.

A história e cultura de Porto Rico no Lower East Side, conhecida por grande parte da sua comunidade porto-riquenha como Loisaida, é longa e extensa. Do início de 1400 ao final de 1800, Porto Rico foi escravizado pela Espanha. Com autonomia concedida em 1897, foi autorizado pela coroa espanhola a eleger e imprimir sua própria moeda por um ano como território, mas em 1898, os EUA assumiram o controle do território, de quem eram dependentes da cana-de-açúcar e do café. Em 1910, o governo estadunidense começou a temer um levante e a fim de evitar que Porto Rico fosse independente, impuseram com a Lei Jones-Shafroth, de 2 de Março de 1917, a cidadania dos EUA para praticamente todas as pessoas porto-riquenhas, obviamente sem querer saber o desejo das pessoas reais que tinham uma ligação ancestral com a ilha. E como o país praticava a monocultura da de cana-de-açúcar e não permitia outro tipo de produção, as pessoas começaram a passar fome, ficando sem escolha sobre não deixar a ilha em busca de uma vida melhor nos EUA.

Porto-riquenhos começaram então a migrar para lugares como Nova York, especificamente para enclaves porto-riquenhos, como Lower East Side, San Juan Hill e Spanish Harlem, criando uma nova identidade, cultura e modo de vida. O período é conhecido como a Gran Migración que se acelerou nos anos 1940 e 1950 e diminuiu no final dos anos 1960, justamente quando a monocultura já não era tão forte na ilha. Muitos Nuyoricans são da segunda e terceira geração de porto-riquenhos-estadunidenses cujos pais ou avós chegaram na área metropolitana de Nova York durante a Gran Migración

Dentre as inúmeras consequências nas vidas de Nuyoricans em Nova Iorque, está o próprio desenraizamento de seus pares: algumas pessoas nascidas em Porto Rico não consideram que Nuyoricans sejam porto-riquenhos de verdade por causa de suas diferenças culturais e usam o termo de forma depreciativa, para descrever porto-riquenhos assimilados à cultura estadunidenses, ou “nascidos na ilha americanizada”: pessoas de ascendência porto-riquenha, que em grande parte perderam o contato com sua cultura tradicional, mesmo que ainda se identifiquem com Puerto Rico. 

Embora o termo tenha conotações negativas para alguns, é orgulhosamente usado por membros desta comunidade para se autoreferenciar, identificar sua história e filiação cultural a um ancestral comum ao serem separados da ilha, tanto física como através da linguagem e mudanças culturais. Esta distância criou uma dupla identidade que, mesmo se identificando com a ilha, reconhecem as influências tanto da geografia como da “assimilação cultural” que tiveram. 

O Dicionário Oxford de Inglês cita que a palavra evoluiu lentamente através do último terço do século XX, com a primeira referência feita pelo poeta Jaime Carrero usando neorriqueño em 1964, como sendo um adjetivo combinando neoyorquino e puertorriqueño de língua espanhola. Já Nuyorican data das primeiras sessões públicas do Nuyorican Poets Café, fundado em 1973, como um meio de validar a experiência porto-riquenha nos EUA, especialmente para pessoas pobres e da classe trabalhadora que sofriam marginalização, falta de perspectivas e discriminação. Assim, o termo originado e usado como um insulto foi reclamado por artistas que transformaram seu significado (como também foi feito com o boricua), o transformando em movimento artístico. 

Alguns dos mais conhecidos Nuyoricans que têm escrito sobre suas experiências na literatura são: Bimbo Rivas, Giannina Braschi, Lucky Cienfuegos, Miguel Algarín, Miguel Piñero, Piri Thomas, Richard August, Sandra Maria Esteves, Willie Colón e Pedro Pietri, e mais recentemente Bonafide Rojas, Caridad de la Luz (La Bruja), Edwin Torres, Emanuel Xavier, Flaco Navaja, JL Torres, Lemon Andersen, Nancy Mercado e Willie Perdomo. As organizações atuais incluem a The Acentos Foundation sediada no Bronx, que publica poesia, ficção, memórias, entrevistas, traduções e obras de arte de escritores e artistas latines emergentes e consagrados através da The Acentos Review e da Capicu  Cultural Showcase com sede no Brooklyn, onde produzem poesia ao vivo e eventos culturais inspirados nas tradições originais dos Poetas Nuyoricans desde 2007.
*

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um passante, harlem español

há alguns anos tenho me debruçado em questões de dupla/ múltipla identidade na poesia, pesquisado poetas que trabalham essas questões, fazendo assim uma “teoria poemática da identidade”. o desejo não é apenas por puro conhecimento: meu bilinguismo ou poliglotismo é aquele do chaves del ocho: uma troglodita, dançando com uma diferensa derridiana “não posso ter senão uma uma língua, ora ela não é a minha”.

i mean/ es decir/ intendo/ digo: uma dificuldade de dizer: o espanhol soa bem, mas muitas vezes não deixa de ser um portuñol, assim como o italiano é macarrônico, o inglês é quebrado, e, são sufocantes as expectativas e exigências do “falar bem a língua”, fazer desaparecer o sotaque, como se todes não tivéssemos sotaque dentro de nossas próprias comunidades y, dentro delas mesmas não nos quisessem rasurar/ apagar – deve ser alguma rebeldia interna, por exemplo, que depois de quase quinze anos morando no ceará, ainda puxo o erre no sotaque como a boa caipira que também sou (sotaque odiado por paulistinhas que inúmeras vezes me solicitaram que “anulasse” para fazer uma peça, por exemplo, da mesma maneira que me solicitavam para emagrecer se quisesse mesmo fazer determinado papel); e lembro bem de quando vim pra cá e minha filha ainda era bebê de colo e alguns diziam “não deixe ela pegar aquele sotaque horrível”. isso não é nada perto do que nordestines ouvem no sul/sudeste, argelines na frança, latines nos EUA… opa, um mano ou uma mona das quebradas falando gíria nas áreas nobres da cidade.

lo que pasa é que mesmo suprimindo artigos & fazendo redundâncias bleed blooding/ sangrando sangue deixamos de conversar em inglês; mismo hablando, no hablamos con nuestres hermanes; mesmo capiscando bem o italiano, deixamos de oferecer um bom spaghetti alphabetti; mesmo falando “o português gostoso do brasil”, deixamos de dizer/ escrever – a língua paterna castra, a língua materna castra, falantes me castram, eu me castro y no soy fidel. e a cada vez que alguém não “fala errado” comigo, uma vontade absurda de “falar errado”, que quer dizer simplesmente falar, vai se calando aqui também. so sad. somos um povo excluído também linguisticamente.

but/ pero/ ma/ mas: as pessoas sempre escreveram, até mesmo sem suas línguas, e inclusive sobre a opressão da língua que não é senão a opressão do sistema. uma poeta que tratou sobre o assunto e que já colou por aqui é Glória Anzaldúa, e dentre essas milhares de pessoas também Pedro Pietri e uma comunidade imensa de latines vivendo sob essa opressão nos EUA – e no reino desunido, frança, alemanha, enfim, no mundo branco todo errado.

maybe/ quizás/ forse/ talvez; na verdade muito provavelmente: esta é a primeira postagem de uma série de traduções de poemas/ poetas que tratam do tema. ulálá. e que quero muito, quero muito de verdade falar – falar como quem sussurra quando ama, grita quando tem raiva, geme quando tem desejo, desarticula quando lê poemas; como uma criança que não tem medo de falar porque está na fase pré-silábica, como um bicho que uiva. com toda força y beleza da minha língua troglodita.
*

Obituário Puertorriqueño é um épico e é uma performance, apresentando temas destrinchados nas próximas estrofes e com entradas fantasmático-irônicas “rise table rise table” – que escolhi traduzir como “levanta a mesa” sugerindo tanto a coisa sobrenatural como o jogo de roleta, quer dizer, fantasma que se diverte.

nesta poema o poeta faz moderado uso do spanglish/ espanglês, sendo a maior parte dos versos escritos em inglês; no espanhol temos as expressões “Mira Mira”, “Que Pasa” (sem o acento no qué, que acentuei, marcando o espanhol), “Como Esta Usted” (também sem acento no cómo, que acentuei), “gringos”, e na última estrofe, quando já não se refere aos EUA usa em diversos versos o “Aqui”, ao invés de “Here” – e num desses versos “Se Habla Español” -, obviamente mantive o aqui porque o correspondente em português brasileiro é o mesmo. no entanto, para marcar esse “aqui” traduzi o verso “all the time”/ “o tempo todo”, como “todo el tiempo”. y, uma liberdade: embora o poeta use os gentílicos estadunidenses ao se referir a Porto Rico, e ao Harlem Espanhol, escolhi traduzir em espanhol e não manter em inglês ou, arre, verter para o brasileiro.

li e reli muitas vezes o poema em inglês antes de começar a fazer esta versão em brasileiro. e ouvi o poeta dizendo essa poema, esse grito, essa teoria, tudo isso que é tão poderoso (e que também não deixa de ser tão triste de verouvir porque as pessoas muitas vezes parecem alheias, como se poetas fossem vendedores de perfumes, ou pior: vendedores das palavras de um deus que não existe com suas igrejas e comércios), tentando pegar ali o ritmo não só da palavra escrita, mas sua spoken poetry/ poesia falada, que lembra tanto o que vemos hoje em saraus e slams – e por isso o vídeo antecede a tradução. dessa maneira, li e reli também a versão em voz alta muitas vezes, tentando encontrar esse ritmo-manifesto. e assim está, como sempre, for a while/ por ahora/ per un po/ por enquanto.

nina rizzi

*


OBITUÁRIO PUERTORRIQUEÑO

Trabalharam
Chegaram sempre na hora
Nunca se atrasaram
Nunca falaram pelas costas
quando foram insultados
Trabalharam
Nunca tiraram uma folga
que não estivesse no calendário
Nunca fizeram greve
sem permissão
Trabalharam
dez dias por semana
e só receberam por cinco
Trabalharam
Trabalharam
Trabalharam
e morreram
Morreram fodidos
Morreram endividados
Morreram sem nunca saber 
como brilha a entrada da frente
do first national city bank

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
Morreram ontem hoje
e vão morrer de novo amanhã
passando suas dívidas
para o parente mais próximo
Todos morreram
esperando que o jardim do éden
abrisse novamente
sob nova direção
Todos morreram
sonhando com a américa
que lhes acordasse no meio da noite
gritando: Mira Mira
seu nome está no bilhete dos ganhadores da loteria 
de cem mil dólares
Todos morreram
odiando os mercados
que venderam carne de gato 
e arroz e feijão à prova de balas

Todos morreram esperando sonhando e odiando
Puertorriqueños mortos
que nunca souberam que eram Puertorriqueños
que nunca fizeram uma pausa nos dez mandamentos
para tomar um café
e MATAR MATAR MATAR 
os latifundiários de seus crânios partidos
e se comunicar com suas almas latinas

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
Nas ruas em colapso nervoso
onde os ratos vivem como milionários
e as pessoas não conseguem viver
estão mortas e nunca estiveram vivas

Juan
morreu esperando seu número ser sorteado
Miguel
morreu esperando o cheque da previdência
para ir e vir e ir de novo
Milagros
morreu esperando que seus dez filhos
crescessem e trabalhassem
para que ela pudesse parar de trabalhar
Olga
morreu esperando um aumento de cinco dólares
Manuel
morreu esperando seu supervisor cair morto
para que ele pudesse ser promovido

É uma longa viagem
do Harlem Español
para o cemitério de long island
onde estão enterrados
Primeiro o trem
depois o ônibus
e a fria parada para o almoço
e as flores
que serão roubadas
quando o horário de visitas acabar
É muito caro
É muito caro
Mas elas entendem, eles entendem
Seus pais entenderam
É uma longa viagem sem fins lucrativos
do Harlem Español
para o cemitério de long island

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
Todos morreram ontem hoje
e vão morrer de novo amanhã
Sonhando
Sonhando com o queens
Bairro limpo, branco como lírio
Cena de Puerto Semricos
Casa de trinta mil dólares
Os primeiros spics[1] do bloco
Orgulhosos de pertencer a uma comunidade
de gringos que os querem linchados
Orgulhos de passar longe
da sagrada frase: Qué Pasa

Esses sonhos
Esses sonhos vazios
dos quartos de faz-de-conta
que seus pais deixaram
efeitos colaterais
dos programas de televisão
com a ideal
família branca americana 
com empregadas negras
e porteiros latinos
bem treinados –
para fazer todo mundo
rir de suas fuças
seus cobradores 
e as pessoas que representam

Juan
morreu sonhando com um carro novo
Miguel
morreu sonhando com novos programas antipobreza
Milagros
morreu sonhando com uma viagem para Puerto Rico
Olga
morreu sonhando com joias de verdade
Manuel
morreu sonhando com a loteria irlandesa

Todos morreram
como morre um sanduíche de herói
nos cantos do vestiário
meio-dia em ponto
número da previdência às cinzas
contribuições sindicais para poeira

E sabiam
que nasceram para chorar
e manter o emprego de coveiros
enquanto juram fidelidade
à bandeira que os quer destruídos
E viram seus nomes listados
na lista telefônica da destruição
E estavam treinando para oferecer
a outra face aos jornais
que pronunciaram seus nomes errado
que não entenderam seus nomes
e comemoraram quando a morte veio
e lhes roubou o último bilhete da lavanderia

Nasceram mortos
e morreram mortos
Está na hora
de visitar a irmã lopez novamente
a benzedeira número um
e negociante da roda da fortuna
no Harlem Español
Ela pode se comunicar
com seus parentes falecidos
por um preço razoável
Boas notícias são garantidas
Sobe A Mesa Sobe a Mesa
a morte não é muda e burra –
Quem te ama quer saber
o número certo para jogar
Deixe-os saber agora mesmo
Sobe A Mesa Sobe a Mesa
a morte não é muda e burra
Agora que seus problemas acabaram
e você não carrega o mundo nas costas
ajude quem que você deixou para trás
encontre a financeira paz de espírito 
Sobe A Mesa Sobe a Mesa
a morte não é muda e burra
Se acertamos o número 
todos os nossos problemas vão partir
e vamos visitar seu túmulo
em cada feriado prolongado
Quem te ama quer saber
o número certo para jogar
deixe-os saber agora mesmo
Nós sabemos que seu espírito é capaz
A morte não é muda e burra
SOBE A MESA SOBE A MESA

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
Todos morreram ontem hoje
e vão morrer de novo amanhã
Odiando lutando e roubando
quebrando as janelas uns dos outros
Praticando uma religião sem teto
O antigo Testamento
O novo testamento
de acordo com o meu evangelho
da receita interna
o juiz e júri e carrasco
protetor e eterno cobrador
Merda de segunda mão à venda
aprenda a dizer: Cómo Esta Usted
e vai fazer uma fortuna

Estão mortos
Estão mortos
e não vão voltar dos mortos
até que parem de negligenciar
a arte do seu diálogo –
por aulas de inglês quebrado[2]
para impressionar o senhor goldsteins –
que lhes garante emprego
como lavadores de pratos
porteiros mensageiros boys
operários empregadas domésticas balconistas
camareiras carregadores assistente de carteiro
assistente, assistente assistente
para o assistente do assistente
lavador de pratos assistente e automático
porteiros com sorrisos artificiais
pelos salários mais baixos de todas as eras
e fúria quando você pede um aumento
porque é contra a política da empresa
promover SPICS SPICS SPICS

Juan
morreu odiando Miguel porque Miguel
tinha um carro usado em melhores condições de dirigir
do que seu carro usado
Miguel
morreu odiando Milagros porque Milagros
tinha uma televisão em cores
e ele ainda não podia comprar uma
Milagros
morreu odiando Olga porque Olga
ganhou cinco dólares a mais no mesmo trabalho
Olga
morreu odiando Manuel porque Manuel
acertou seus números mais vezes
do que ela acertou seus números
Manuel
morreu odiando a todos 
Juan
Miguel
Milagros
e Olga
porque todos falavam um inglês quebrado
mais fluente do que ele

E agora estão juntos
no vazio do saguão principal 
Viciados em silêncio
Fora dos limites do vento
Confinados à supremacia dos vermes
no cemitério de long island
Este é o futuro bacana
a caixa de esmolas protestante
que falava tão alto e orgulhosa 

Aqui jaz Juan
Aqui jaz Miguel
Aqui jaz Milagros
Aqui jaz Olga
Aqui jaz Manuel
que morreram ontem hoje
e vão morrer de novo amanhã
Sempre fodidos
Sempre devendo
Sem nunca saber 
que são pessoas bonitas
Sem nunca saber
a geografia de sua cor

PUERTO RICO É UM LUGAR LINDO
PUERTORRIQUEÑOS SÃO UMA LINDA RAÇA
Se apenas 
desligassem a televisão
e sintonizassem em sua própria imaginação
Se apenas 
usassem a supremacia branca das bíblias 
como papel higiênico
e fizessem de suas almas latinas
a única religião de sua raça
Se apenas 
voltassem à definição do sol
depois da primeira tempestade de neve mental
no verão de seus sentidos
Se apenas 
mantivessem seus olhos abertos
no funeral de seus colegas de trabalho
que vieram a este país para fazer fortuna
e foram enterrados sem cuecas

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
agora vão fazer suas próprias coisas
onde pessoas bonitas cantam
e dançam e trabalham juntas
onde o vento e o tempo miserável
são desconhecidos
onde você não precisa de um dicionário
para se comunicar com seu povo
Aqui
Se Habla Español
todo el tiempo
Aqui você saúda primeiro a sua terra 
Aqui não tem comercial do sabonete dial
Aqui todo mundo cheira bem
Aqui não se janta em frente a tevê
Aqui os homens e mulheres admiram o desejo
e nunca se cansam um do outro
Aqui o Qué Pasa é o poderoso o que está acontecendo 
Aqui ser chamado de negrito
quer dizer AMOR


[1] Um acrônimo para “Spanish Person In Custody” (pessoa hispânica/ latina sob custódia), e usado como  termo altamente ofensivo que se refere de forma depreciativa a uma pessoa latina de qualquer país ou território de língua espanhola da América Central, América do Sul ou Caribe.

[2] Broken english: Inglês incorreto ou mal estruturado, geralmente falado ou escrito por falantes não nativos; muitas vezes é referido de forma pejorativa contra estrangeiros.
*

PUERTO RICAN OBITUARY

They worked
They were always on time
They were never late
They never spoke back
when they were insulted
They worked
They never took days off
that were not on the calendar
They never went on strike
without permission
They worked
ten days a week
and were only paid for five
They worked
They worked
They worked
and they died
They died broke
They died owing
They died never knowing
what the front entrance
of the first national city bank looks like

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
All died yesterday today
and will die again tomorrow
passing their bill collectors
on to the next of kin
All died
waiting for the garden of eden
to open up again
under a new management
All died
dreaming about america
waking them up in the middle of the night
screaming: Mira Mira
your name is on the winning lottery ticket
for one hundred thousand dollars
All died
hating the grocery stores
that sold them make-believe steak
and bullet-proof rice and beans
All died waiting dreaming and hating

Dead Puerto Ricans
Who never knew they were Puerto Ricans
Who never took a coffee break
from the ten commandments
to KILL KILL KILL
the landlords of their cracked skulls
and communicate with their latino souls

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
From the nervous breakdown streets
where the mice live like millionaires
and the people do not live at all
are dead and were never alive

Juan
died waiting for his number to hit
Miguel
died waiting for the welfare check
to come and go and come again
Milagros
died waiting for her ten children
to grow up and work
so she could quit working
Olga
died waiting for a five dollar raise
Manuel
died waiting for his supervisor to drop dead
so he could get a promotion

Is a long ride
from Spanish Harlem
to long island cemetery
where they were buried
First the train
and then the bus
and the cold cuts for lunch
and the flowers
that will be stolen
when visiting hours are over
Is very expensive
Is very expensive
But they understand
Their parents understood
Is a long non-profit ride
from Spanish Harlem
to long island cemetery
Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
All died yesterday today
and will die again tomorrow
Dreaming
Dreaming about queens
Clean-cut lily-white neighborhood
Puerto Ricanless scene
Thirty-thousand-dollar home
The first spics on the block
Proud to belong to a community
of gringos who want them lynched
Proud to be a long distance away
from the sacred phrase: Que Pasa

These dreams
These empty dreams
from the make-believe bedrooms
their parents left them
are the after-effects
of television programs
about the ideal
white american family
with black maids
and latino janitors
who are well train—
to make everyone
and their bill collectors
laugh at them
and the people they represent

Juan
died dreaming about a new car
Miguel
died dreaming about new anti-poverty programs
Milagros
died dreaming about a trip to Puerto Rico
Olga
died dreaming about real jewelry
Manuel
died dreaming about the irish sweepstakes


They all died
like a hero sandwich dies
in the garment district
at twelve o’clock in the afternoon
social security number to ashes
union dues to dust

They knew
they were born to weep
and keep the morticians employed
as long as they pledge allegiance
to the flag that wants them destroyed
They saw their names listed
in the telephone directory of destruction
They were train to turn
the other cheek by newspapers
that mispelled mispronounced
and misunderstood their names
and celebrated when death came
and stole their final laundry ticket


They were born dead
and they died dead
Is time
to visit sister lopez again
the number one healer
and fortune card dealer
in Spanish Harlem
She can communicate
with your late relatives
for a reasonable fee
Good news is guaranteed
Rise Table Rise Table
death is not dumb and disable—
Those who love you want to know
the correct number to play
Let them know this right away
Rise Table Rise Table
death is not dumb and disable
Now that your problems are over
and the world is off your shoulders
help those who you left behind
find financial peace of mind
Rise Table Rise Table
death is not dumb and disable
If the right number we hit
all our problems will split
and we will visit your grave
on every legal holiday
Those who love you want to know
the correct number to play
let them know this right away
We know your spirit is able
Death is not dumb and disable
RISE TABLE RISE TABLE

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
All died yesterday today
and will die again tomorrow
Hating fighting and stealing
broken windows from each other
Practicing a religion without a roof
The old testament
The new testament
according to me gospel
of the internal revenue
the judge and jury and executioner
protector and eternal bill collector
Secondhand shit for sale
learn how to say Como Esta Usted
and you will make a fortune

They are dead
They are dead
and will not return from the dead
until they stop neglecting
the art of their dialogue—
for broken english lessons
to impress the mister goldsteins—
who keep them employed
as lavaplatos
porters messenger boys
factory workers maids stock clerks
shipping clerks assistant mailroom
assistant, assistant assistant
to the assistant’s assistant
assistant lavaplatos and automatic
artificial smiling doormen
for the lowest wages of the ages
and rages when you demand a raise
because 
is against the company policy
to promote SPICS SPICS SPICS

Juan
died hating Miguel because Miguel’s
used car was in better running condition
than his used car
Miguel
died hating Milagros because Milagros
had a color television set
and he could not afford one yet
Milagros
died hating Olga because Olga
made five dollars more on the same job
Olga
died hating Manuel because Manuel
had hit the numbers more times
than she had hit the numbers
Manuel
died hating all of them
Juan
Miguel
Milagros
and Olga
because they all spoke broken english
more fluently than he did

And now they are together
in the main lobby of the void
Addicted to silence
Off limits to the wind
Confine to worm supremacy
in long island cemetery
This is the groovy hereafter
the protestant collection box
was talking so loud and proud about

Here lies Juan
Here lies Miguel
Here lies Milagros
Here lies Olga
Here lies Manuel
who died yesterday today
and will die again tomorrow
Always broke
Always owing
Never knowing
that they are beautiful people
Never knowing
the geography of their complexion

PUERTO RICO IS A BEAUTIFUL PLACE
PUERTORRIQUENOS ARE A BEAUTIFUL RACE
If only they
had turned off the television
and tune into their own imaginations
If only they
had used the white supremacy bibles
for toilet paper purpose
and make their latino souls
the only religion of their race
If only they
had return to the definition of the sun
after the first mental snowstorm
on the summer of their senses
If only they
had kept their eyes open
at the funeral of their fellow employees
who came to this country to make a fortune
and were buried without underwears

Juan
Miguel
Milagros
Olga
Manuel
will right now be doing their own thing
where beautiful people sing
and dance and work together
where the wind is a stranger
to miserable weather conditions
where you do not need a dictionary
to communicate with your people
Aqui
Se Habla Español
all the time
Aqui you salute your flag first
Aqui there are no dial soap commercials
Aqui everybody smells good
Aqui tv dinners do not have a future
Aqui the men and women admire desire
and never get tired of each other
Aqui Que Pasa Power is what’s happening
Aqui to be called negrito
means to be called LOVE

*