Sessão Vagalume | Collana Gialla, por Prisca Agustoni

Há sete anos, a editora italiana Lietocolle publica, em parceria com o prestigioso festival literário Pordenonelegge (www.pordenonelegge.it), que ocorre todo ano no mês de setembro, uma coleção de poesia, “la gialla” (a amarela). Incialmente pensada para lançar ao público novas vozes da poesia italiana contemporânea, ao longo dos anos as edições ganharam também uma coleção paralela, “la gialla oro” (a ouro), que reúne trajetórias mais maduras e notas na cena poética italiana.
A coleção amarela “jovem” – que sempre é lançada em ocasião do festival literarário – tem hoje um público de leitores e críticos que confiam nas escolhas editoriais realizadas ano após ano, e que já lançou livros de poetas como Maria Borio, Laura Di Corcia, Laura Pugno, Azzurra d’Agostino, Tommaso Di Dio, alguns deles já traduzidos aqui na sessão Vagalume, outros a caminho.

Aproveitando a proximidade do festival Pordenonelegge, que este ano vai acontecer entre 16 e 20 de setembro na cidade italiana de Pordenone, a revista Escamandro propõe na sessão Vagalume a tradução de poemas de três dos quatro poetas escolhidos esse ano pela Editora para lançar seus livros. São Alberto Cellotto, Giorgia Esposito e Luca Bresciani. O quarto nome escolhido para este ano para publicar com a Gialla é esta que vos escreve que traduz, cuja obra se encontra com maior facilidade no Brasil, publicada pelas editoras nacionais.

* * *

Alberto Cellotto (1978_)

Alberto Cellotto (Treviso, 1978) vive em Maserada sul Piave. Trabalha como responsável de comunicação numa empresa de produtos esportivos. Publicou os livros de poesia Vicine scadenze (Zona, 2004, com uma nota de Antonio Turolo, prêmio APS de Pordenonelegge), Grave (Zona, 2008, com um prefácio de Fabio Franzin) e Pertiche (La Vita Felice, 2012, prefácio de Gian Mario Villalta). È Traduziu Gore Vidal, Stewart O’Nan e Frank Norris para a editora Fazi e Amos Edizioni. Colaborou com diferentes revistas e agora escreve no blog Librobreve.

La decenza comune. Lietocolle-Pordenonelegge, 2002.

1.

Un uomo va a mangiare e un altro ha già
mangiato. Un parcheggio pieno serve bene
a diseredare la speranza. Le porte e gli spifferi
sono premute dai colori caldi, in fronte una donna
ha i nomi che non mangia, quello che non assaggia.

Um homem vai comer e outro já
comeu. Um estacionamento cheio serve bem
para deserdar a esperança. As portas e as brisas
são carregadas pelas cores quentes, na testa uma mulher
tem os nomes que não come, aquilo que não saboreia.

2.

Bene bene, nel libero spazio che si può calcare, nel poco
onore, negli ultimi miti titolati, una volta a crociera
può deviare il respiro e rimandare il giorno la gioia
e l’astratto avanti e indietro, giù su per lo schermo.
In tutto ho fatto poca strada ma non pensiamoci.

Muito bem, no livre espaço que é possível pisar, na pouca
honra, nos últimos mitos titulados, uma abóbada em cruzeiro
pode desviar a respiração e reenviar o dia a alegria
e o abstrato, para frente e para atrás, acima abaixo da tela.
Em geral andei pouco caminho, mas melhor não pensar nisso.

* * *

Giorgia Esposito (1995_)

Giorgia Esposito (Napoli, 1995) é formada em Letras Modernas com especialização em Filologia Moderna pela Universidade dos estudos de Nápoles Federico II. Tem poemas publicados em diferentes revsitas e integra a redação da revista Inverso-Giornale di Poesia. Seu livro publicado pela Amarela é sua estréia.

Smarginature. Lietocolle-Pordenonelegge, 2020.

1.

La pelle si sgrana e l’acqua non purifica,
non ripara, non è più ritorno vitale:
corpo lattiginoso reclama muto.
È sempre stata questa la fronte,
le mani, questo il neo sul collo.
Non potrei giurarlo.
L’oblio non è definitivo

……………….spuntano bestie
……di un tempo premitico
…..sulle facce dei pendolari.

Fere-se a pele e a água não purifica,
não repara, já não é retorno vital:
corpo leitoso mudo reclama.
Sempre foi essa a fronte,
As mãos, esta pinta no pescoço.
Não poderia jurar.
O esquecimento não é definitivo

Surgem feras………………..
de um tempo pré-mítico…..
no rosto dos trabalhadores.

2.

Spiegarono, grosso modo così.
Quello di sua figlia è
uno spettro di ereditarietà
mal smaltito. Un principio
di psicosi. Ne soffriva anche
la zia, il padre, il fratello.
È ormai certo che un giorno
sfidò il buio come un gran
nemico, seminando il piscio
come acqua santa. Quando
la notte, al Grimaldi, la sana,
la madre, le restò a fianco,
capì quanto il principio
possa essere uno scandalo.

Explicaram, mais ou menos assim.
O da sua filha é
um espectro de hereditariedade
mal filtrado. Um princípio
de psicose. Também sofria disso
a tia, o pai, o irmão.
É coisa certa que um dia
desafiou o escuro como grande
inimigo, semeando o mijo
como água santa. Quando
de noite, no Grimaldi, a sã,
a mãe, ficou do lado dela,
soube quanto o princípio
possa ser um escândalo.

* * *

Luca Bresciani (1978_)

Luca Bresciani (Pietrasanta, 1978) publicou os livros Lucertola (Edizioni del Leone 2011), Modigliani (LietoColle 2015), L’elaborazione del tutto (Interno Poesia 2017) e Canzone del padre (LietoColle 2018). Na Itália tem poemas publicados em diferentes revistas online, como Poetarum Silva, Atelier Poesia, Interno Poesia, Perigeion, Poesia del nostro tempo, Laboratori Poesia, I poeti sono vivi e nos jornais la Repubblica.
Linea di galleggiamento foi entre os ganhadores do prêmio Guido Gozzano 2019 e Anna Osti 2019 sessão “livro inédito”.

Linea di galleggiamento. Lietocolle-Pordenonelegge, 2020.

1.

Un rettangolo di cotone
tra il legno e la fame
e nutrirsi senza strozzare con le mani
è ricomparire dalla parte degli uomini.

Due volte in un giorno
la memoria diventa indirizzo
e sono le briciole ai lati dei piatti
il numero civico dei nostri ritorni.

Um retângulo de algodão
entre a madeira e a fome
e nutrir-se sem engasgar com as mãos
é reaparecer ao lado dos homens.

Duas vezes no mesmo dia
a memória se faz endereço
e as migalhas contornando os pratos
são o número cívico de nossos retornos.

2.

Svegliarsi con luoghi abbandonati
all’estremità dei polsi
e l’erba nei corridoi delle vene
è sindrome del tunnel carpale.

Penso a un’usura per sottrazione
nello stallo di chi si astiene
e la natura violata delle braccia
di notte ci riconsegna alla terra.

Despertar com lugares abandonados
na extremidade dos pulsos
e a grama nos corredores das veias
é a síndrome do túnel carpal.

Penso na usura por subtração
no impasse de quem se abstém
e a natureza violada dos braços
de noite nos devolve à terra.