5 poemas de Rodrigo Lobo Damasceno

Rodrigo Lobo Damasceno nasceu em Feira de Santana (ba), em 1985, e vive em São Paulo desde 2011. Escreve poemas, contos, romances e ensaios. Às vezes, traduz. Junto com a artista Camila Hion, edita textos e imagens pelo selo treme~terra, onde atua também como artesão e feirante. Ao lado de Fabiano Calixto, Natália Agra e Tiago Guilherme Pinheiro, faz a revista de poesia Meteöro.

imitação de bolaño (com enrique verástegui)

Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita

Paulo Colina

A noite amplamente ruidosa de São Paulo abre a boca
e um rapaz de 30 e poucos se inclina outra vez
sobre as ruas, observando, sem piscar os olhos, os motoboys
e os assassinatos, os mendigos velhos e os acidentes de carro,
as peixeiras e os atropelamentos – que, tipo uma plateia,
cercam o karaokê da Consolação, suas fronteiras ambíguas
(onde ele, vestindo calças jeans, botas e camiseta branca,
outra vez saúda uma garota de piercings e olhos brilhantes).

E os corpos tristes passam de mão em mão pela mesa
cheia de fumaça e de conversas nostálgicas de desempregados:
noites passadas numa Casa do Norte ou numa pizzaria perdida
em outra dimensão, agora inacessível apesar da degustação
das inflorescências andróginas do haxixe, contando
as linhas de cocaína que os anjos cheiravam (através
do murmúrio ele sente o contorno de vozes remotas vindo ainda
vivas de outras malocas, do Brás, Barra Funda, do Bixiga)
quando as palavras indicadas para saudar os jovens forasteiros
eram escolhidas entre os diversos letreiros luminosos
do centro enfumaçado de São Paulo: o escuro das esquinas
e certa elegância nos gestos dos seus sonâmbulos,
ou em sua clara e rápida forma de amar, fumar e matar
que o rapaz quer estudar antes de amar, fumar e morrer.

§

redescobrimento

1.

abancado à escrivaninha em são paulo
no meu quarto de pensão da rua iquiririm
cochilo – o queixo bate no peito de tanto cansaço
e me dou um susto
trabalhei o ano inteiro
ganhei pouco
gastei muito na feira hoje de manhã
(bananas da terra maiores do que a minha esperança)
já já eu vou pra rua tomar cerveja na casa do norte
e ver as luzes e as gentes e os cães bem cuidados
as contas crescem
como os meus cabelos

2.

nem me lembro mais
quando descobri
que mário de andrade
lá na barra funda
muito longe e antes de mim
(e que faz muito se deitou, está dormindo)
era baiano que nem eu.

§

correio da estação do brás (viola)

coração aberto aos analfabetos,
empregados da cptm,
maquinistas dos trens,
mestres de obra à beira da rua e da ruína,
os tocadores cansados de viola,
todos os baianos: os paraibanos e os maranhenses,
os fracassados e os que se deram bem,
os que só passaram e os que não voltaram nunca mais,

– eu era o correio da estação do brás –

§

vale do capão

acho que a gente poderia ficar por aqui
mesmo,
(…)
— namorar, dançar
forró
— espiar a lua crescer na

encosta da serra
Adão Ventura

a noite está mais baixa do que nunca,
cobriu a serra inteirinha com seu escuro
e daqui, dos calcanhares do morro,
enquanto tomo cachaça,
sinto esfriar meu cocuruto
(visto meu capote em torno dos azuis noturnos da vila e do vale)
a lua está cheia
e perdeu a melancolia das cidades
meu coração está cheio
e perdeu a melancolia das cidades
sinto o sono que um gavião já está dormindo lá na árvore
lembro que a subida da serra é um plágio da vida
e que o poema é um plágio da subida da serra

§

invocações

  1. do quintal

um corpo cheio de comida e memória
levado de um lado a outro pela rede
vislumbra
(no mato escuro próximo ao trópico de capricórnio)
dois ou três vaga-lumes
e volta de volta à vida em que ainda voavam
aos bandos de vinte e nove
e nas conchas de minhas mãos miúdas
lançavam suas luzes
verdes –

de longe, de óculos na cara
e cigarros hollywood no bico,
meu pai me espreita

  1. do caruru

um corpo azedo de suor e cheio de azeite
no bucho baixa às outras noites
de caruru – um
dos sete meninos escreve,
e os outros, soltos
na noite aberta e vermelha do continente,
sentem
(ao mesmo tempo)
os cheiros
de dendê, vatapá, pipoca –

caruru não há mais,
mas os meninos
(os sete, por sorte)
ainda voltam