Liana Salles Monteiro

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Liana Salles Monteiro é formada em Rádio e TV pela UFRJ e hoje cursa mestrado em Comunicação e Cultura na mesma instituição. Já teve poemas publicados em antologias e editou com amigos a Revista Transversal, espaço de experimentação literária e poética. Na adolescência, passou bons dias cuidando de um blog dedicado à poesia, o “Teresa, a mulher das balas”.
*

Pensamentos sobre uma fotogravura de Thereza Miranda 

Parte I — Vento
em seu esforço de remover a inércia das folhas.
Há folhas?
Há verde.
A inscrição “Machu Picchu” remove as folhas e
em seu lugar
inculcam-se pedras.

Parte II — A invariabilidade de uma pedra
o que causa ao instante em que
se fotografa?
Capta-se
o movimento?
Capta-se
o salto quântico?
O reordenamento quase secreto dos minerais?

Parte III — Sais
de prata no filme fotográfico
à luz, remontam, a um só tempo:
ao olho do passado e à imagem
do futuro
(revelar é fazer surgir o que não existe?)

Parte IV — Soluções alcalinas
de um papel submerso
interrompidas
para o efeito de estampar o
vazio,
criar a impressão
de uma cidade aérea
a dois quilômetros
acima do mar.

Parte V — Recobrar o instante
na matriz encoberta 
(os pigmentos são verdes).
Fazer surgir nova excitação:
transpõe-se um instante a outro;
impressiona-se, assim, uma pedra
e depois outra — constrói-se
uma cidade.

Parte VI — Intervenções manuscritas
interpretam vazios e
empenham-se em não deixar que
o ácido, o impulso de completar-se
dilua o verde 
das pedras
em apenas
verde.

Parte VII — Vejo
Machu Picchu
ou seriam
os rastros dos átomos
a envelhecerem
sobre nova superfície?

*

Díptico 

O corpinho cansado
neste quadro

O corpinho cansado

Eu tenho nas mãos
o mapa dos museus

Eu tenho no rosto
um rosto cansado

O quadro é o quarto
no mapa dos museus

Eu paro e desejo:
se este quadro fosse meu

Eu deitaria no museu
Eu deitaria neste quarto

De pernas abertas
neste quadro

Eu seria, eu seria
uma mulher deitada

E você, deste quarto
seria 

eu
a contemplar 
um quadrado

*

Tríptico

Eu me lembro dois minutos
atrás eu me lembrava três
dias mais longe eu
fazia de conta que 
me lembro catava 
caquinhos do chão
de vidro eu 
estava cortada já
e não me lembrava 
não me lembrava eu 
não 
me lembro todos 
os dias 
de frente
pro espelho
eu lembro minha
mãe
no espelho minha 
mãe cortada 
na fotografia

*