Judy Grahn, por Nina Rizzi

Judy Grahn January 1988 Oakland CA by Robert Giard

Judy Grahn nasceu em 1940 em Chicago, Illinois. Atualmente mora na Califórnia e leciona no California Institute of Integral Studies, no New College of California e no Institute for Transpersonal Psychology, onde ensina mitologia feminina e literatura antiga, Consciência Metafórica (uma filosofia criada por Grahn) e Parentesco Incomum – um curso que usa teorias de sua filosofia metafórica.

Filha de pai cozinheiro e mãe assistente de fotógrafa, Grahn contou que sua infância foi “numa cidade deserta do Novo México perto da fronteira infernal do oeste do Texas no fim dos anos 1950, economicamente pobre e espiritualmente deprimida”. Fugiu de casa aos dezoito anos, com uma estudante chamada Yvonne, a quem credita por abrir seus olhos para a cultura LGBT(QI). Logo depois, ingressou na Força Aérea dos Estados Unidos, mas aos 21 anos, recebeu dispensa militar por ser lésbica.

Grahn sofreu homofobia ao longo de sua vida, alguns dos episódios mais marcantes que conta foram: durante a adolescência quando fazia pequenos trabalhos para pagar o próprio colégio, quando tentava encontrar moradia e foi espancada por causa de suas roupas masculinas. “Esses solavancos me ensinaram tudo que precisava saber sobre a opressão das pessoas lésbicas e gays”, disse em uma entrevista.

Aos 25 anos, contraiu linforreticulose (doença da arranhadura do gato), que a deixou em coma. Depois de superar a doença, decidiu que a poesia seria sua aliada (embora escrevesse poesia desde os nove anos). Essa percepção também se deve aos abusos que Grahn enfrentou por ser uma lésbica declarada. “Percebi que, se fosse fazer o que me propusera na minha vida, teria que ir até o fim e assumir todos os riscos que pudesse correr… Decidi que não faria nada que não quisesse, que me afastasse da minha arte.”

Então se mudou para a costa oeste, onde se tornou uma ativa militante no movimento poético feminista dos anos 1970. Foi membro do Gay Women’s Liberation Group/ GWLG (Grupo de Libertação das Mulheres Lésbicas), o primeiro coletivo lésbico-feminista da Costa Oeste, fundado em 1969. Grahn e sua parceira, a artista Wendy Cadden, produziram livros, poemas e gráficos. Isso contribuiu com a base do Women’s Press Collective/ WPC (Coletivo de Imprensa Feminina), que se dedicava “exclusivamente ao trabalho de lésbicas privadas de direitos de raça ou classe”. A GWLG também é responsável pela fundação da livraria feminina A Woman’s Place (Um lugar para Mulher).

Os poemas de Grahn circularam em “periódicos, performances, chapbooks e de boca em boca, e foram documentos fundamentais para o feminismo lésbico”. Seu trabalho não se estendeu a um público comercial até o final dos anos 1970; no entanto, conquistou um grande público underground antes de 1975. Carl Morse e Joan Larkin citam o trabalho de Grahn como “alimentando a explosão da poesia lésbica que começou nos anos 70”.

Sua poesia, quase sempre em versos livres, está impregnada de sua identidade lésbica feminista e permanece fiel às suas raízes da classe trabalhadora, abordando racismo, sexismo, classicismo e as lutas de ser mulher e lésbica.

Publicou os livros: Edward the Dyke and Other Poems (1971); A Woman is Talking to Death (1974); She Who (1977); The Queens of Wands (1982); The Work of a Common Woman: Collected Poetry (1964–1977) (1982); The Queen of Swords (1990); Love Belongs to Those Who Do the Feeling (2008); além das gravações Detroit Annie Hitchhiking (2009), e Lunarchy (2010).
*

Conheci a poesia de Judy Grahn a partir de um brevíssimo curso sobre Adrienne Rich e Ellen Myles com Mariana Ruggieri, que citou sua importância para o cenário da poesia caminhoneira estadunidense. Estou apaixonada por esta mulher que está tão viva e tão maravilhosa e que há mais de 50 anos está fazendo coisas que estamos fazendo hoje, por exemplo, sua Teoria Metafórica que remonta os antigos ritos menstruais – “A menstruação criou o mundo”!, diz -, que por sua vez remonta nossa Inanna, ave! viva! vivinha dizendo coisas há tanto tempo, como se começasse agorinha.

E é isso, fiquei com muita vontade de fazer uma outra original dessas poemas tipo brasileira dá uma linguada bem gostosa. Deitei-me cá com Judy, sentindo o ritmo como fosse o mais genuíno azeite na sua pele #olive – i love you/ te amo pra buceta, essas coisas. e deu nisso, por enquanto! 😉

nina rizzi

*

I.D.

I’m not a girl
I’m a hatchet
I’m not a hole
I’m a whole mountain
I’m not a fool
I’m a survivor
I’m not a pearl
I’m the Atlantic Ocean
I’m not a good lay
I’m a straight razor
Look at me as if you had never seen a woman before
I have, red hands and much bitterness

R.G.

Eu não sou uma menininha
Eu sou uma machadinha
Eu não sou um orifício
Eu sou a montanha inteira
Eu não sou uma tonta
Eu sou uma sobrevivente
Eu não sou uma pérola
Eu sou Atlântica
Eu não sou uma boa trepada
Eu sou o fio da navalha
Olha para mim como se nunca tivesse visto uma mulher antes
Eu tenho, mãos encarnadas e muita zanga

*

I am the wall at the lip of the water
I am the rock that refused to be battered
I am the dyke in the matter, the other
I am the wall with the womanly swagger
I am the dragon, the dangerous dagger  
I am the bulldyke, the bulldagger.


and I have been many a wicked grandmother
and I shall be many a wicked daughter.

Eu sou o dique no lábio d’água
Eu sou a rocha que se recusou a ser batida até furar
Eu sou a entendida no assunto, a outra
Eu sou a parede com a arrogância feminina
Eu sou o dragão, a adaga perigosa
Eu sou a sapatânica, a bulldaga.

e eu tenho sido uma avó muito perversa
e serei uma filha muito perversa.

*

Ah, Love, you smell of petroleum
and overwork
with grease on your fingernails,
paint in your hair
there is pained look in your eye
from no appreciation
you speak to me of the lilacs
and apple blossoms we ought to have
the banquets we should be serving,
afterwards rubbing each other for hours
with tenderness and genuine
olive oil
someday. Meantime here is your cracked plate
with spaghetti. Wash your hands &
touch me, praise
my cooking. I shall praise your calluses.
we shall dance in the kitchen
of your imagination.

Ai, Amor, você cheira a petróleo
e estafa
com graxa nas unhas,
tinta nos cabelos
tem essa expressão de dor em seus olhos
de desvalorização
você me fala das liláses
e flores de maçã que deveríamos ter
dos banquetes que deveríamos servir,
depois nos esfregamos uma na outra por horas
com delicadeza e genuíno
azeite de oliva
algum dia. Enquanto isso aqui está seu prato rachado
com espaguete. Lava as mãos &
me toca, elogia
como cozinho. Vou elogiar seus calos.
vamos dançar na cozinha
da sua fantasia.
*

Paris and Helen

He called her: golden dawn
She called him: the wind whistles

He called her: heart of the sky
She called him: message bringer

He called her: mother of pearl
Barley woman, rice provider,
millet basket, corn maid,
flax princess, all-maker, weef

She called him: fawn, roebuck,
stag, courage, thunderman,
all-in-green, mountain strider
keeper of forests, my-love-rides

He called her: the tree is
She called him: bird dancing

He called her: who stands,
has stood, will always stand
She called him: arriver

He called her: the heart and the womb
and similar
She called him: arrow in my heart.

Páris e Helena

Ele a chamou: aurora dourada
Ela o chamou: o vento sibila

Ele a chamou: coração do céu
Ela o chamou: portador da mensagem

Ele a chamou: madrepérola
mulher cevada, provedora do arroz,
cesta de milho, donzela do trigo,
princesa do linho, toda-criadora, tecedora

Ela o chamou: cervo, corço,
veado, coragem, homem-trovão,
todo-em-verde, passolargo da montanha
guardião das florestas, cavalga-meu-amor

Ele a chamou: a árvore é
Ela o chamou: pássaro dançando

Ele a chamou: quem fica de pé,
resistiu, sempre permanecerá
Ela o chamou: chegada

Ele a chamou: o coração e o útero
são semelhantes
Ela o chamou: flecha em meu coração.

*

A HISTORY OF LESBIANISM

How they came into the world,
the women-loving-women
came in three by three
and four by four
the women-loving-women
came in ten by ten
and ten by ten again
until there were more
than you could count

they took care of each other
the best they knew how
and of each other’s children
if they had any.

How they lived in the world,
the women-loving-women
learned as much as they were allowed
and walked and wore their clothes
the way they liked
whenever they could. They did whatever
they knew to be happy or free
and worked and worked and worked.
The women-loved-women
in America were called dykes
and some liked it
and some did not.

they made love to each other
the best they knew how
and for the best reasons

How they went out of the world,
the women-loving-women
went out one by one
having withstood greater and lesser
trials, and much hatred
from other people, they went out
one by one, each having tried
in her own way to overthrow
the rule of men over women,
they tried it one by one
and hundred by hundred,
until each came in her own way
to the end of her life
and died.

The subject of lesbianism
is very ordinary; it’s the question
of male domination that makes everybody
angry.

UMA HISTÓRIA DO LESBIANISMO

Como elas vieram ao mundo,
as mulheres-que-amam-mulheres
vieram de três em três
e quatro em quatro
as mulheres-que-amam-mulheres
vieram de dez em dez
e novamente de dez em dez
até que houvesse mais
do que você poderia contar

elas cuidaram uma da outra
da melhor forma que sabiam fazer
e dos filhos e das filhas uma da outra
quando tinham.

Como elas viviam no mundo,
as mulheres-que-amam-mulheres
aprenderam tanto quanto foram permitidas
e andaram e vestiram suas roupas
do jeito que gostavam
sempre que podiam. Elas fizeram tudo
sabiam ser felizes ou livres
e trabalharam e trabalharam e trabalharam.
As mulheres-que-amam-mulheres
na América eram chamadas de sapatonas
e algumas gostaram
e algumas não.

elas fizeram amor uma com a outra
da melhor forma que sabiam fazer
e pelas melhores razões

Como elas saíram para o mundo,
as mulheres-que-amam-mulheres
saíram uma por uma
resistindo as maiores e menores
provações e muito ódio
de outras pessoas, elas saíram
todas, uma por uma tentando
à sua própria maneira derrubar
o domínio dos homens sobre as mulheres,
elas tentaram uma por uma
e cem por cem,
até que cada uma chegou à sua maneira
ao fim de sua vida
e morreu.

A história do lesbianismo
é muito comum; e essa questão
da dominação masculina que faz de todas
bravas.

*