3 Odelettes de Gérard de Nerval, por Victor Queiroz

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Gérard de Nerval (ou Gérard Labrunie, como fora batizado) é um dos mais importantes escritores românticos de França. Nascido em 1808, na cidade de Paris, perdeu ainda na primeira infância a sua mãe. Estudou no colégio Charlemagne, onde se aproximou de Théophile Gautier, outro grande poeta, com o qual manteve grande e duradoura amizade, tendo frequentado também a boêmia literária do século XIX. Apreciador da literatura alemã, Nerval tornou-se conhecido primeiro como tradutor, ao verter para o francês nada menos que o Fausto de Goethe. Dessa tradução, persistiu em sua poesia autoral a ideia de Eterno Feminino, capaz de articular um contínuo entre as figuras da mãe ausente, da amada Jenny Colon (cujo casamento com Nerval foi desastroso), reais, e ainda outras, míticas, como as de Virgem Maria, de Ártemis, de Ísis, de Cibele… Outra característica marcante da poesia de Nerval é a dissolução da linha divisória entre o real e o onírico: os sonhos invadem a realidade, a fim de revelar o sobrenatural inscrito no cotidiano, transformando o outrora dado objetivo em signo / símbolo a ser interpretado. Trata-se, assim, de um precursor tanto do Simbolismo quanto do Surrealismo. Afligido por transtornos psiquiátricos graves, Nerval compunha seus poemas / textos nos períodos lúcidos entre suas diversas crises nervosas, as quais o levaram mais de uma vez à internação. Foi encontrado enforcado em uma via pública de Paris em 1855, provavelmente vítima de suicídio. Suas obras mais consideradas são Sylvie (1853, prosa) e os sonetos de Chimères (1854, poesia).

Os poemas que apresento aqui traduzidos não pertencem às Chimères, mas às Odelettes rythmiques et lyriques, obra de juventude do escritor (1832-1839), compostas em diálogo com Ronsard e a Plêiade, com ênfase na regularidade e na musicalidade das composições. A primeira das Odelettes, Abril, na superfície não parece mais do que a ansiedade ingênua pela primavera e pela renovação por ela simbolizada. Porém, ao lê-lo atentamente, logo se percebe ser essa ânsia mais profunda, porque carregada de hesitação quanto a chegada da nova estação. A transição entre as estações se concretiza na figura de uma mulher futura (e mitológica), e a angústia do eu-lírico tem por objeto sobretudo o processo a separar seu momento atual de seu futuro: “ainda há de chover por dias”.

Avril

Déjà les beaux jours, – la poussière,
Un ciel d’azur et de lumière,
Les murs enflammés, les longs soirs; –
Et rien de vert: – à peine encore
Un reflet rougeâtre décore
Les grands arbres aux rameaux noirs!

Ce beau temps me pèse et m’ennuie.
– Ce n’est qu’après des jours de pluie
Que doit surgir, en un tableau,
Le printemps verdissant et rose,
Comme une nymphe fraîche éclose
Qui, souriante, sort de l’eau.

Abril

 Dias já belos – pulverinho,
Os céus azuis e luzidios,
Noites longas, muros flamantes –
Mas nada é verde: mesmo agora
É bronze a sombra que decora
O arvoredo e seus negros ramos!

Bom tempo que pesa e enfastia
– Ainda há de chover por dias
Antes que surja, em um só quadro,
A primavera em verde-e-rosa;
Como uma ninfa, quando aflora
E, sorridente, emerge d’água.

§

A segunda Odelette, A Prima, por sua vez, nos oferece um quadro um tanto mais realista e quase ingênuo, exceto por uma nota de sensualidade estranha que ressoa por todo o poema (e que me faz pensar na Palinódia, de Bandeira): de todas as traduções aqui apresentadas, esta é a única a apresentar uma figura feminina relativamente concreta e presente, embora, como se pode ver ao fim do poema, essa figura não se possa sustentar, manter-se, muito tempo ao lado do eu-lírico. Ela precisa partir. Eles precisam separar-se.

La Cousine

L’hiver a ses plaisirs; et souvent, le dimanche,

Quand un peu de soleil jaunit la terre blanche,
Avec une cousine on sort se promener…
– Et ne vous faites pas attendre pour dîner,

Dit la mère. Et quand on a bien, aux Tuileries,
Vu sous les arbres noirs les toilettes fleuries,
La jeune fille a froid… et vous fait observer
Que le brouillard du soir commence à se lever.

Et l’on revient, parlant du beau jour qu’on regrette,
Qui s’est passé si vite… et de flamme discrète:
Et l’on sent en rentrant, avec grand appétit,
Du bas de l’escalier, – le dindon qui rôtit.

A Prima

O inverno tem seu charme: é frequente, aos domingos,
Quando um fio de sol aloura o solo níveo,
Sairmos junto de uma prima, a passear…
– “E não fazei-vos esperar para o jantar”,

Diz a mãe. E após ter visto, lá nas Tulherias,
Sob as árvores negras toalhas floridas,
O broto sente frio… E faz-nos perceber:
Logo a bruma noturna começa a se erguer.

E, então, voltamos, a falar do dia belo,
Já saudade, tão breve foi-se… e ardeu singelo:
E sentimos, com grande apetite, ao chegar
(Ainda ao pé da escada), – um peru a assar.

§

A terceira Odelette, e talvez a mais conhecida de todas, Fantasia, narra o transporte do eu-lírico ao terreno dos sonhos por meio de uma melodia, que opera de maneira muito semelhante à Madeleine de Proust, principalmente porque, como atesta o eu-lírico, essa melodia não carrega em si esse poder, antes ele se encontra na relação estabelecida entre ela e o eu-lírico. Contudo, as reminiscências que afloram do contato com tal música não têm respaldo em memórias pessoais, mas, sim, no imaginário histórico; nem se assemelham a lembranças de fato, embora dêem-nos a impressão clara de que foram vividas / experimentadas, de alguma forma. Esse é um dos mais nítidos exemplos do imbricamento entre sonho e realidade na poesia de Nerval: o sonho não é rememorado, ele é vivido, e pode ser (re)vivido fora do sono. E ainda uma última observação: o ponto culminante do sonho-poema se dá na anunciação de uma outra figura feminina evanescente, agora no passado.

Fantaisie

Il est un air pour qui je donnerais
Tout Rossini, tout Mozart et tout Weber,
Un air très vieux, languissant et funèbre,
Qui pour moi seul a des charmes secrets.

Or, chaque fois que je viens à l’entendre,
De deux cents ans mon âme rajeunit:
C’est sous Louis treize; et je crois voir s’étendre
Un coteau vert, que le couchant jaunit,

Puis un château de brique à coins de pierre,
Aux vitraux teints de rougeâtres couleurs,
Ceint de grands parcs, avec une rivière
Baignant ses pieds, qui coule entre des fleurs;

Puis une dame, à sa haute fenêtre,
Blonde aux yeux noirs, en ses habits anciens,
Que, dans une autre existence peut-être,
J’ai déjà vue… – et dont je me souviens!

Fantasia

Existe uma ária por que eu trocaria
Qualquer Weber ou Mozart ou Rossini;
Ária funérea e langorosa e antiga,
Cujo secreto encanto é só pra mim.

Ora: sempre que chega-me aos ouvidos,
Transporta-me a alma a séculos atrás:
O rei é Luís XIII… uma colina
Verde – o ocaso a dourava – se desfaz;

E, a seguir, todo um castelo imbricado,
Com seus vitrais tingidos de rubores,
Vastos jardins a cercá-lo, e um riacho
Aos seus pés, a correr por entre as flores;

E, por fim, à janela, uma donzela
Loura, olhos negros, em vestes d’outrora…
Que, doutra vida, pode ser aquela –
Déjà vue! – que inda mora na memória!

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou em 2019 Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema e traduções de Hopkins, Ronsard e Yeats.

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