XANTO | Papo Solto com Siba, um poeta da voz, por Erika Muniz

Foto 1 - Crédito José de Holanda

foto de José de Holanda/divulgação

Em diversos momentos de nossa história, as movimentações artísticas encontram na canção um de seus elementos centrais. Seja no forró, samba, hip hop, funk carioca, baião, carimbó, pagodão baiano, frevo ou ciranda, para citar alguns dos ambientes em que isso se torna evidente. Mas há inúmeros outros. Sempre em profundo diálogo com a poesia e a teatralidade, visto que essas maneiras de fazer arte se manifestam inscritas na memória dos corpos e oralidade de seus sujeitos. E com bastante frequência, são responsáveis por reconfigurarem e diluírem essas fronteiras – se é que elas realmente existem. Entre os nossos compositores, o poeta pernambucano Siba Veloso é uma das vozes que se dedicam à busca por outros caminhos possíveis em seu versar.

No início dos 1990, aos vinte e poucos anos, Siba foi um dos fundadores da Mestre Ambrósio, banda que marca o início de sua trajetória – e integra a fase inicial do Manguebeat. Uma década depois de percorrer palcos e estradas mundo afora, a necessidade de viver mais intensamente a sua relação com o maracatu de baque solto falou mais alto. Retornou a Pernambuco para viver em Nazaré da Mata (PE), localizada na região da Mata Norte do estado, a cerca de 66 km do Recife. A cidade abraça as sedes de vários grupos de maracatu – inclusive, a Estrela Brilhante, que o artista faz parte – e tem sua história marcada pela monocultura canavieira. No início da década de 2000, já morando por lá, criou com parceiros como Mestre Biu Roque, Mané Roque e Cosmo Antônio a Fuloresta. Assim, a poesia e música pernambucana, novamente, ganharam o mundo. Retomando seus trabalhos com a guitarra – instrumento que ele se ligou ainda na juventude –, em 2012, ele lançou Avante, primeiro álbum solo, que traz sucessos como “Ariana”, “Preparando o salto” e “A bagaceira”. Em seu trabalho mais recente Coruja Muda (2019), disponibilizado três anos após o anterior De baile solto (2015), a poesia de Siba se encaminha, através de pesquisas no coco e noutras expressões de nossa cultura, na busca por outras potências políticas da arte. Nesse, há a participação afetuosa de Chico César, Alessandra Leão e Mestre Anderson Miguel.

Por conversa de vídeo, numa conexão entre Recife (PE) e São Paulo (SP) — onde o artista atualmente reside –, conversamos sobre esses trânsitos físicos, estéticos e de afetos. Mas também a respeito de como esses lugares repercutem em sua poesia, música e na maneira que ele compreende o mundo. O diálogo também foi costurado por momentos de sua história com o baque solto – onde fez sua graduação poética –, e por lembranças de figuras importantes ao longo da vida, questões políticas e o modo com que as amizades costumam atravessar seus trabalhos.

ERIKA MUNIZ Liguei para Barachinha [mestre do maracatu de baque solto, parceiro artístico e amigo de Siba há mais de duas décadas] para saber o que ele me sugeriria perguntar nesta entrevista. Ele disse para eu perguntar sobre como ficou sua vida a partir da sua relação com o maracatu.
SIBA VELOSO Ele está falando do momento específico da minha ida para Nazaré. É uma história que já era longa, mas era uma relação que ainda carecia, como se faltasse formalizar numa obra, amarrar as coisas. Eu já fazia parte do maracatu, já vivia muito com ele, mas tinha uma parte da lógica que me escapava. Uma coisa que eu não tinha tido acesso ainda e que, quando fui para Nazaré e passei a atuar do lado dele, entendi exatamente o que faltava para mim. Foi realmente o passo que precisava dar na vida, como artista e como pessoa também. O maracatu era um ambiente, uma prática, na qual eu gravitava em torno. E passou a ser uma coisa central na minha vida mesmo e, de fato, até hoje, é.

ERIKA Também liguei para Mestre Bi [Lezildo Santos, do maracatu Estrela Brilhante, que é onde o músico fez sua formação poética] e ele sugeriu que eu lhe perguntasse o que Nazaré da Mata representa para você.
SIBA Nazaré, para mim, se tornou como uma segunda terra natal. Ou terceira, porque nasci e cresci em Recife e Olinda. Mas como minha família é do Agreste, sempre tive essa experiência, esse trânsito, muito constante para o semiárido [região]. A casa do meu avô, a casa dos meus tios… Uma parte muito grande do que me constitui tem a ver com essa origem dos meus pais, mas que é compartilhada comigo profundamente. Nazaré é como se fosse uma terceira casa, um terceiro berço, porque é a minha relação com a Mata Norte. Posso falar que eu, praticamente, sou nascido nesses três lugares. Embora só se nasça, de fato em um lugar, são esses três que me definem. A Mata Norte, o Agreste pernambucano e o Recife, onde eu cresci.

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foto de Marcelo Subrin, 2015, em Buenos Aires/PE, durante a gravação do Campeões de Sambada 2

ERIKA Você, que é um importante nome da música pernambucana, queria que falasse sobre o que se espera de nossa música pelos lugares que você vai. Sei que são muitos, é claro, mas o que costuma se esperar de um artista pernambucano?
SIBA Ah, é um lugar que tem uma marca cultural muito forte, né? Uma marca local, própria e muito forte. Acho que o que se espera é, de algum modo, como o artista vai lidar com essa herança que já está lá dada para ele. É meio impossível de contorná-la, você pode até não usar, mas dificilmente se contorna quando se vem de um lugar como Recife, que tem essa marca tão forte. E depois, tem também uma expectativa de que você saiba falar de um modo bem articulado com o presente. Ou seja, não é uma expectativa de representar apenas uma particularidade cultural, mas também de poder falar de um presente a partir dessa particularidade. E conseguir rearticular essa especificidade dentro de uma coisa que é mais geral. Um tipo de vida que já é compartilhado realmente, em algum nível. Acho que esses dois fatores sempre andam meio juntos agora.

ERIKA Você tem seus três discos solo, os trabalhos anteriores e os em paralelo, os que acontecem ao mesmo tempo. Cada álbum é um, mas como costuma acontecer seu processo de criação? Ele parte do texto ou da musicalidade e da melodia?
SIBA É difícil falar de uma ordem sobre isso. Na verdade, o ponto, para mim, é que o texto é o elemento central. Ele que dita tudo o que está ao redor dele, mesmo quando estou trabalhando a parte mais musical propriamente. De algum modo, já pressuponho um espaço do texto ali. É estar lidando com o texto. Mesmo que não existam palavras, mas está ali enquanto expectativa que já se encontra sendo definida em termos de ritmo, métrica e arquitetura como um todo. Mesmo quando não estou ainda lidando com a palavra propriamente, isso está muito subentendido no corpo do texto, no corpo físico dele. Quanto à ordem, depende. Às vezes, tenho parte do texto; às vezes, faço a música e vou atrás do texto. A ordem, propriamente, não importa muito.

ERIKA Fala-se muito da sua relação com o maracatu de baque solto, mas queria que você falasse também de sua relação com a cantoria de viola.
SIBA A cantoria é uma vivência mais antiga, porque, desde pequeno, tinha em casa um pouco. Depois, já maior, fui procurar. Sempre gravitei em torno dos cantadores desde muito novo. O maracatu, por outro lado, é uma experiência mais total. Não é só de poesia. É de poesia e de música, mas também é de vida comunitária, de grupo social… Uma coisa mais abrangente, que a cantoria também é. Para mim, que não sou um cantador de viola, há um certo limite de até onde eu vou. O maracatu é mais constituinte da minha pessoa mesmo. Individual e social. A cantoria, para qualquer pessoa que pratica o tipo de verso que eu pratico, é uma referência principal. Ela é a base e é uma referência que sempre volta. E estou sempre gravitando em torno dos cantadores, sempre voltando para eles de um modo ou de outro.

ERIKA Pensando agora no seu último álbum Coruja Muda (2019). Estava ouvindo e percebi muitas referências nas relações entre os animais e os humanos. Em várias músicas, tem versos como “a internet da aranha”, “programação da cigarra”. Anotei algumas dessas imagens. Queria que você comentasse a construção delas, inclusive a do próprio título do disco.
SIBA Esse disco foi sendo gerado dentro do De Baile Solto (2015), que tinha um texto muito político, afirmativo e explícito. Logo em seguida, foi sendo construído esse momento terrível que a gente está passando agora, no qual, a dimensão política que se faz está muito à flor da pele, que coloca para o artista um desafio muito grande porque você é praticamente obrigado a falar dessa dimensão política. Mas esse “ser obrigado a falar” é uma armadilha também porque não é tão fácil assim, né? Então, eu tive que tatear muito até encontrar uma porta de entrada para essa dimensão política. Eu sabia que teria que ter, não poderia ignorar, mas que também não dava para ser novamente tão explícito. Até porque a crueza da dimensão política do país é tão grande que simplesmente não precisa se descrever isso. A realidade é muito mais bizarra do que qualquer poesia. Fui percebendo que eu tinha uma quantidade razoável de esboços, imagens, pedaços e fragmentos que tratavam dessas imagens de animais. Ou que usavam imagens de animais para falar coisas de humanos e vice-versa. Fui conseguindo explorar isso, percebendo esse espaço de indeterminação entre o homem e o animal, que poderia ser um lugar interessante para falar de qualquer assunto, inclusive de política também. Ao longo da história, a gente foi formulando de modos diferentes essa diferença entre homem e animal. E explorei esse espaço como tema, não como um tema fechado do disco. Não é um disco que trata de um tema específico com uma mensagem clara, mas ele tenta ficar sempre muito próximo desse espaço indefinido. Onde começa e onde termina o homem e o animal na vida.

ERIKA Nesse álbum, a voz de Mestre Nico está bastante presente, em várias músicas. Queria que você comentasse sobre a participação dele, que está mais forte ainda que no De baile solto.
SIBA É uma relação que vem sendo construída. Nico entrou no meu trabalho na Fuloresta [grupo musical formado no início dos anos 2000, por ele e músicos da Mata Norte, inclusive, o grande Mestre Biu Roque] ainda. Embora ele não tivesse gravado o disco, mas já fazia parte dela. Depois, no De baile solto, ele já estava. Fui elaborando a música muito em função desse jogo de duas vozes entre eu e ele. E, realmente, no Coruja muda, isso foi sendo desenvolvido ao longo do anterior na estrada. É praticamente o disco todo montado em cima desse jogo de respostas com a poesia que é desenvolvida. Ele realmente é uma figura muito central no meu trabalho hoje. Além de ser um amigo na vida. Nico tem um lugar muito próximo que Biu Roque sempre teve, uma pessoa central não só no meu trabalho como na minha convivência mesmo, até familiar.

ERIKA Das coisas mais bonitas que já vi foi Barachinha lembrando de sua amizade com Biu Roque. Queria que você contasse um pouco sobre ele, sobre a amizade de vocês e a importância dele na sua vida.
SIBA É sempre difícil ter essa dimensão porque tem vários esteriótipos comuns que se colocam numa amizade do tipo da minha com ele. Eu enquanto artista jovem, urbano, com uma educação formal com acesso a direitos e ele, um cortador de cana, analfabeto, um senhor de setenta e poucos anos. São várias as distâncias aí, que havia entre a gente. Naquele tempo, a gente elaborou uma amizade muito profunda de forma genuína para além de todas as coisas que a gente fez juntos e tal. Era essa relação de amizade profunda. Mas um ponto muito importante desse lance todo da amizade da gente fica inacessível a quem não conheceu a figura, porque ele era uma pessoa muito singular e muito cheia de… Era impossível ignorar Biu Roque, onde ele estivesse. Uma pessoa muito cheia de vitalidade, estava sempre rindo, sempre se encantando e sempre movia as pessoas em torno dele. E tinha aquela voz maravilhosa. Nasceu para cantar e estava sempre cantando sem parar. Era uma figura muito sedutora, muito cheia de sedução mesmo. Impossível não se apaixonar por ele. Quem o conheceu, quem esteve junto dele, nunca o esqueceu. A gente desenvolveu essa amizade de longos anos, de ficar noites afundo no cavalo-marinho, maracatu e depois fazer a Fuloresta junto. Entrei no grupo dele de cavalo-marinho, a gente viajou o mundo. É uma pessoa que também me fez e me formou. Foram sei lá quantos anos de amizade. Talvez uns 15 anos de muita convivência. Tudo o que eu fiz na minha vida profissional, mesmo na época do Mestre Ambrósio, já tinha muito a marca dessa amizade. Ele foi uma das pessoas que serviu de porta para mim na Mata Norte. É toda uma experiência que se mistura com a existência dele mesmo.

ERIKA Já li algumas coisas e também vi você comentar sobre o processo de questionar a si mesmo com relação ao seu lugar de origem. Só que você consegue diminuir essa ponte de distância entre uma pessoa com origem na classe média, que se relaciona com uma cultura de origem nos trabalhadores do corte da cana, mas claro que não se resume a isso. Queria que você comentasse como é esse processo para você. Acho que talvez você seja um dos artistas que faz esse movimento de forma mais efetiva e responsável.
SIBA Essa foi uma coisa que eu aprendi com o tempo, na verdade. Porque, para mim, originalmente, esse era um processo muito voluntarista. Cresci numa família de classe média, no Recife, mas que tinha essa origem rural. Meus avôs eram agricultores e alguns tios, até hoje, são. Por mais que eu não fosse isso, tinha esse lugar de vivência. Não só de vivência, de comunicação mesmo. Cresci sabendo desse outro mundo e não só sabendo, mas me comunicando com ele, fazendo parte dele também. Acho que isso é bem definidor para entender como eu consegui fazer o que fiz, que é um caminho bastante inusitado. Mas, partindo dessa possibilidade, que estou descrevendo como uma formação híbrida minha, ao chegar na Mata Norte, eu tinha uma postura muito ingênua e muito voluntarista. Muito movido por um amor, por uma criação, uma vontade de aprender e um tipo de humildade que não era muito racionalmente formulado. Eu acreditava que pela força da beleza, do gostar e do estar aberto, as coisas aconteceriam naturalmente. Com o tempo, fui amadurecendo e tive o entendimento de que as questões de classe, elas se impõem absolutamente em tudo isso aí. São impossíveis de ultrapassar. Elas estão sempre presente nessas relações todas que eu fiz. Ao me dar conta dessas relações de classe, que sempre estiveram presentes, pude elaborar melhor que elementos estavam em jogo o tempo inteiro nisso tudo, o que não diminuiu meu movimento nem um pouco, mas que é necessário saber e pensar também nisso porque nada acontece naturalmente. Sempre tem um jogo de troca, de interesses e de negociações, que são feitos, mesmo quando você não tem tanta consciência assim. Talvez, com o tempo, eu faça sempre questão de colocar como clara essa relação e o quanto a questão de classe está implícita em tudo o que eu fiz e o quanto tive que inverter muitas vezes essas questões intuitiva ou conscientemente. Elas estão sempre aí e são necessárias de ser colocadas mesmo.

ERIKA Com relação à linguagem, chamar de cultura popular coloca várias expressões, que são bastante complexas e têm suas práticas e ações próprias, numa só palavra, numa só caixinha. Por exemplo, o maracatu de baque solto, a ciranda, o cavalo-marinho tudo costuma ser encaixado como cultura popular e colocado no passado. Queria que você comentasse essa ideia, que, muitas vezes, o senso comum tem e, ao nos aproximarmos e escutarmos as pessoas, essa ideia é posta em questão.
SIBA Isso é um movimento complexo de exclusão. Para mim, hoje, a melhor chave para explicar isso é entender que, no desenvolvimento do capitalismo no Brasil, as práticas sociais e culturais que não se adaptaram imediatamente ao processo de modernização foram sendo excluídas da possibilidade de um agenciamento político no presente. Passaram a representar uma origem, um passado idealizado e a funcionar num presente aparentemente folclorizado. São estratégias de exclusão que são consequências de uma coisa muito maior que é a exclusão social que nega à maioria da população do acesso à riqueza do país. A negação de voz ativa no campo da cultura tem uma função importante nisso. É fundamental limitar o espaço de atuação cultural do povo, pois sua potência subversiva é enorme. Quando a cultura não tem agenciamento do presente, as pessoas também não têm, por isso que a cultura popular precisa ser colocada como uma coisa do passado. Isso é articulado, claro, por décadas e décadas e faz parte de um senso comum que a gente repete, até quando a gente adora cultura popular e fala: “Ah, nossas origens são muito legais”. Ou quando espera um tipo de pureza, que as pessoas sejam sempre pobres, sem dentes, analfabetas e tal. São consequências desse lugar-comum.

ERIKA Ao longo dos seus trabalhos, você faz muitos parceiros, né? Não só na música, mas suas fotos e capas de álbuns costumam ser produzidas pelo fotógrafo José de Holanda, por exemplo.
SIBA É, eu tento e gosto de trabalhar com pessoas envolvidas e que tenham uma relação que extrapole o projeto pontualmente falando. Acabo constituindo famílias em torno do trabalho. A equipe que está ao redor, de produção, as pessoas do visual vão virando uma coisa só. Tanto é que não separa muito dos meus amigos mais próximos. Com algumas exceções, são as pessoas que trabalho junto também. É um modo de ver. Talvez seja uma tentativa não consciente de ter o meu maracatu ao redor por ali. De algum modo é isso, essa necessidade de que não sejam relações só de trabalho, mas que envolvam a vida propriamente.

ERIKA Algumas vezes, associam você a uma ideia de alguém que “moderniza a tradição”, como se ela pertencesse ao passado ou como se a tradição não dialogasse e se (re)construísse a partir do que estamos vivendo. Queria que você comentasse essa visão e também a leitura que você faz quando lhe colocam nesse lugar, de alguém que “moderniza a tradição”.
SIBA Isso simplesmente é falso. Primeiro porque é uma produção cultural viva. Se ela é viva, se ela representa milhares de pessoas, então, ela não é obsoleta, não é anacrônica. Uma parte significativa dela é do presente, lógico. Em se tratando da relação com a tradição de um artista só, ele não tem esse poder, então, é falso. Nunca fiz isso, nunca me propus a modernizar nada. E, pelo contrário, a tradição da qual eu faço parte e as tradições que eu olho para me inspirar são que me fertilizam, na verdade. Elas que me trazem sempre modos renovados de olhar ao meu redor. A Cultura Popular é o que o Brasil tem de mais avançado, na verdade.

ERIKA Há poucas semanas o álbum Mestre Ambrósio (1996), o primeiro, entrou nas plataformas digitais e vi muita gente compartilhando nas redes sociais. Ele mexe com a memória afetiva de muita gente, eu mesma cresci ouvindo “Pé-de-calçada”, “Zé Limeira” e por aí vai. Para você, que fez parte da criação dele, o que é que esse álbum representa?
SIBA Ah, é meu primeiro disco, né? Meu primeiro disco da minha vida. É um disco que tem uma energia crua muito bonita. Tem aquela vitalidade da gente ali com vinte e poucos anos botando a energia da vida num projeto com muita garra e muito amor. Ele tem essa energia e essa ingenuidade. Muita força mesmo o disco. Hoje, para mim, ele parece distante e, de fato, está, né? Ele parece até mais longe do que, de fato, está, porque é um Siba muito diferente que está lá do que o que eu sou hoje. É um disco que ainda ouço e acesso um frescor ainda muito grande. Acho que é um disco que não ficou velho, ele não parece ser um disco de 1995. Você bota para tocar e ele envelheceu bem novinho, na verdade.

ERIKA Você falou que era um Siba diferente ali. Qual era aquele Siba e qual o Siba que é hoje?
SIBA Ah, ali era o meu começo, né? Estava nos primeiros passos do caminho que fui escolhendo, para mim, como artista. Naquela época ainda tinha muito o paradigma de músico, que é minha formação original. Músico de tocar o instrumento e que é o que eu faço até hoje. Mas, a partir da Fuloresta, fui movendo esse lado da música na poesia. Não é que deixei de ser músico e tal, mas passei a definir meus trabalhos em torno do texto com trabalhos musicais propriamente. Nesse sentido, é bem diferente do que sou hoje, realmente.

ERIKA Como é que nasce um verso seu?
SIBA Ah, eu não sei, essa resposta é difícil de dar assim, porque vou ter uma tendência a te responder meio pragmático. É como um ofício que você pratica e que… Como uma coisa que você vai praticando e deixando… E funciona meio só também. Você passa a se definir também em torno de um verso que você faz e, ao longo da vida, você vai bolando fragmentos, ideias e tal. Alguns você realiza, outros não. Hoje, eu diria que nasce de uma prática e tem me construído enquanto artista através do olhar para me definir através de verso. Mas não tem um lugar místico ou um lugar psicológico. Nem vou te dizer de onde ele vem, porque eu não sei.

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foto de José de Holanda/divulgação

ERIKA Com a prática vai desenvolvendo isso? E ganha mais velocidade?
SIBA Não falo nem de velocidade, é questão do que se constrói em torno dessa prática. A própria prática vai lhe exigindo trabalho e trabalho. É como uma coisa viva que se move a partir de um certo tempo. Você exercita, você trabalha, você se esforça e uma hora isso passa a ter uma vida própria. Não quer dizer que eu não me esforce para escrever o que escrevo, mas que antes de me esforçar propriamente, tem uma coisa que se processa naturalmente. Você vive colhendo frases, versos, pedaços e uma parte daquilo se transforma em algo maior. É parte do ofício. Por isso, falei que a tendência é responder isso de maneira mais pragmática.

ERIKA O que você costuma e gosta de ouvir? Há muito tempo e ultimamente.
SIBA Meio que ouço muita coisa e passo muito tempo sem ouvir nada propriamente. Tem coisas que sempre ouvi na vida. O que costumo ouvir é mais o que costumo ouvir sempre. Às vezes, estou ouvindo maracatu, às vezes, cantoria, coco. E ouço os artistas que têm muito a ver com o que eu faço, mas é dentro de uma chave que não é da música propriamente. Embora se processe musicalmente, é numa escuta do verso. É uma escuta da prática do verso autoral, não conto isso como música propriamente. No campo da música, sempre estou pesquisando coisas de músicos de guitarra porque é o meu instrumento. Tenho um certo apreço por música do Congo. Coisas que também ouço, mas que não está ligada ao meu trabalho propriamente. Não diz respeito ao meu trabalho, mas que é uma música que me inspira, uma certa vertente do jazz… Não tem muito a ver com o meu trabalho, mas sempre me inspirou, sempre me possibilitou um tipo de abstração na música porque eu gosto bastante. Sempre estou pesquisando música porque é o que forma o meu trabalho, então, hoje é muito fácil de ouvir fragmentado, né? Estou sempre ouvindo pedaços de coisas.

ERIKA Você escuta música nos streamings ou nos CDs e vinis?
SIBA 90% nos streamings! Já me rendi e gosto da facilidade de ter no meu celular, em casa. Não ter que pegar o objeto, que é caro e tal. Para mim, já se tornou a melhor maneira de ouvir música, com certeza.

ERIKA Mestre Anderson Miguel é de uma geração do baque solto posterior à sua, que pega a relação com a internet mais proximamente e tem essa vivência desde muito cedo. Queria que você comentasse como isso chega ao maracatu, como isso repercute nas criações no baque solto.
SIBA Acho que, na verdade, isso sempre houve. O maracatu nunca foi isolado culturalmente porque as pessoas tinham rádios. Os mestres sempre ouviram música popular. Biu Roque mesmo cantava os sambas dos anos 1930 e 1940, sempre teve esse lugar de comunicação. O maracatu sempre se apropriou de melodia, sempre esteve lá tudo isso. Depois, com a televisão, isso aumentou e com a internet teve um salto. Nesse sentido, realmente, a geração de Anderson acessa num nível exponencialmente maior. E, ao mesmo tempo, eles têm as preferências deles. A gente que cresce como músico, a princípio, com um horizonte muito amplo de informação. Basicamente, lá, eles ouvem sertanejo, forró, as coisas de cultura popular, música nordestina e tal. É um leque maior, mas é o leque dele. Vejo isso como muito natural, não tem essa crise. Não tem uma revolução, não tem uma quebra de geração não. É meio que uma continuidade, só que abre exponencialmente e acontece assim.

ERIKA Para compor uma canção, você costuma escrever em papel ou no celular? Você guarda um verso em algum lugar e trabalha nele depois? Como é o momento da produção, no sentido da escrita?
SIBA Guardo muito fragmento. A maioria gravado no celular mesmo, só falando. Às vezes, escrevo também e tal. Cada vez menos em papel, porque cada vezes menos estou com papel e lápis à mão. É mais fácil anotar no celular ou gravar mesmo. O ponto de partida sempre é colecionar fragmentos, depois é o momento de desenvolver alguma coisa. E quando eu chego já no dado inicial, nem preciso escrever. Imediatamente, quando chego numa coisa, sei que eu não vou esquecer nem tão cedo. Mas se está pela metade, tenho que escrever, se não eu perco. É isso. Às vezes, o texto dura meses; às vezes, pego um fragmento e já resolvo na hora. Não é um processo muito homogêneo.

ERIKA Sobre métrica, não enquanto uma estrutura rígida e que aprisiona. Você poderia comentar sobre a métrica enquanto potência artística? Muita gente olha para ela, na poesia, como estrutura rígida e de aprisionamento. Queria que você comentasse sobre essa forma poética.
SIBA As regras dessa poesia, que não é só a métrica, é rima também. São basicamente rima e métrica, porque oração é o discurso, no caso, embora venha. As regras da poesia que a gente faz, de fato, elas são rígidas e elas aprisionam. Mas, para mim, nesse sentido, elas libertam porque você tem um horizonte claro para trabalhar. Se não há existência de limites ou tudo está acessível, para mim, parece uma situação caótica impossível de resolver. Isso do ponto de vista totalmente subjetivo do que estou falando. Dentro de um cânone muito específico que funciona com essa lógica. Para mim, é um alívio saber que, seja uma forma tradicional ou uma forma que eu invento dentro dessa estética, se invento uma forma x, que tem uma formação em termos de rima e métrica, me tranquiliza de que eu tenho um campo seguro para andar. Para mim, é uma regra que liberta. O que me faz poder andar dentro dessa limitação é um certo domínio técnico, uma prática. Então, é uma solução e não um problema. Mas, mais uma vez, é dentro de uma lógica, de um jogo, que eu sempre gostei, me apropriei dele e é o que eu uso.

ERIKA Fazer isso dá trabalho que só a gota, não é, Siba?
SIBA [Risos] Dá trabalho, mas poesia tem que dar trabalho, porque, no caso da poesia, tem a bicha da inspiração, né? Que é uma coisa, uma armadilha também. Lógico que tem um universo imenso de poesia que não passa por esse modo que a gente está falando, mas que, igualmente, dá muito trabalho. Ela só lida com outras limitações. Todo bom poeta sempre tem limitações, não tem como. A poesia não é um fluxo de emoções e só. Ela pode ser, mas os grandes poemas têm um trabalho grande. Elaborar um texto dentro de uma… Como posso falar isso? De uma estreiteza estética, que determina para ele lá, ou dentro de uma escola tal. Mas não é um fluxo de emoções somente.

ERIKA Você acredita em inspiração?
SIBA Sim, mas a inspiração não é um espírito que vem. A inspiração é uma coisa que vem muito de uma prática. Quando você pratica muito uma coisa, uma parte disso fica naturalizada em você. E consegue fazer sem pensar tanto. Eventualmente, em determinadas condições quando você não domina, pode ter uma ideia que se desenvolva rápido na sua cabeça sem achar que está pensando nela. Parece que você recebe pronto. É uma ideia elaborada e tal, quando, na verdade, você andou um longo caminho para chegar ali e, aí, você consegue fazer pontes na sua cabeça, que está precisando elaborar passo a passo e você consegue dar saltos maiores. Isso que é a inspiração, na verdade.

ERIKA Vendo a live de Gilberto Gil, no São João, fiquei pensando sobre o humor na música nordestina. Na sua música e no maracatu têm muito de humor, ironia e também disputa. Fala a respeito dessa estratégia mais relacionada à poética do baque solto.
SIBA O baque solto tem muito essa questão da lógica da disputa, do desafio. É uma tradição de poesia que se passa no desafio de dois poetas. De de improviso e tal. Passa muito por uma lógica competitiva e, consequentemente, pelo uso do humor. Isso acaba se incorporando no meu trabalho de modo mais abrangente. Obviamente que o meu trabalho não é maracatu, mas traz muito dessa lógica de uso do humor enquanto recurso. Não é uma coisa que é tão intencional, para mim, é porque acabo conseguindo resolver algumas ideias assim.

ERIKA Imagino que sejam muitos, mas quais os poetas que têm a sua admiração?
SIBA Essa lista vai ser sempre dos poetas da voz, não é dos poetas do livro. Começa por Barachinha, Zé Galdino, Ivanildo Vila Nova, Severino Ferreira, Manoel Xudu. Os emboladores são muito importantes também, para mim, Antonio Caju. A lista é enorme e com esses daí já está um bom começo.

ERIKA Nos últimos 20 anos mais ou menos, a existência de políticas públicas de cultura foi mais presente, garantindo uma condição de vida melhor para muita gente. Você que frequentou e viveu na Mata Norte, queria que comentasse sobre a importância dessas políticas para os artistas de lá, já que agora estamos vivendo um desmonte completo, não só relacionado à cultura, no país.
SIBA É, eu testemunhei essas pessoas comendo cuscuz puro, vivendo em uma linha de subsistência bem básica mesmo. Não comendo carne todos os dias da semana. Comendo muitas vezes cuscuz puro ou macaxeira pura e café. Essa pequena distribuição de renda que houve no país, mudou a vida deles bastante. Não sei como a gente pode conseguir conceber que o país vai abrir mão desse bem-estar social mínimo realmente. Mas parece que é para onde a gente está caminhando. Não sei nem o que dizer com relação a isso. É de uma violência, que nem sei se cabe nesse assunto todo da gente dizer assim. É desumano, muito violento isso tudo.

ERIKA E sobre comunicação, você saiu da Mata Norte, mas, vez em quando, está por lá. Como é que vocês estão se falando nesse período difícil?
SIBA Ah, agora está fácil. Whatsapp, telefone, é fácil, né? Tem os grupos de Whatsapp da região lá, faço parte de três. No dia a dia, na Mata Norte, não preciso mais estar lá, eu gostaria de estar. É uma conexão. Sinto saudade bastante, especialmente da festa e de estar com os amigos, tomar uma bicada e conversar. Essa é a melhor parte mesmo.

ERIKA E para finalizarmos, dá alguma dica do que ouvir ou do que assistir, para a galera que vai ler a entrevista.
SIBA Dentro do nosso assunto, a melhor dica é o canal do Youtube de Raffael Ribeiro, que é um rapaz da Mata Norte. Ele vai a todas as festas, filma tudo e coloca inteiro na internet. Ele não só posta as festas que ele vai, mas tem um acervo. É um pouco da história da Mata Norte, na melhor maneira de divulgar.

ERIKA Muito obrigada, Siba.
SIBA Que é isso, é um prazer. Boa sorte aí e até já.

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Erika Muniz é jornalista cultural pernambucana, vem fazendo trabalhos jornalísticos pela Mata Norte/PE; formada em Letras pela UFPE.