XANTO | tremor e delicadeza na poética de Camillo César Alvarenga, Por Rubens da Cunha

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“oxalufã”, por Salamanda

Em “À procura da poesia”, Carlos Drummond escreve: “Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres:trouxeste a chave?” A princípio, as palavras fazem essa pergunta para aqueles que se propõema escrever. Aqui, penso também que essa pergunta possa ser feita para quem se propõe a ler um poema. Assim, diante dos poemas de Camillo Cesar Alvarenga, pergunto: quais as chaves possíveis para abrir essas palavras? Mesmo sabendo do desinteresse delas pela minha resposta, arrisco duas chaves: tremor e delicadeza.
Não qualquer tremor: o pensamento tremor. Aquele que, segundo Édouard Glissant, surge em toda parte e formas sugeridas pelos povos. O pensamento que atravessa o “caos-mundo” e se desdobra em música, grito, beleza, ancestralidade, futuro, memória. Aquele pensamento que “nos preserva dos pensamentos de sistema e dos sistemas de pensamento.” O pensamento circular, de voo, de altura. O pensamento que atira pedra hoje para acertar o pássaro ontem. Um pensamento que também é água, fluxo e “nos reúne na absoluta diversidade, num turbilhão de encontros”.
Não qualquer delicadeza: a delicadeza como vidro. Proposta por Mario Perniola, é algo transparente que reúne as qualidades da dureza e da fragilidade. É impenetrável ao tato, mas está, por outro lado, sempre exposta ao perigo de quebrar: “nessa combinação de resistência e de precariedade está a essência da delicadeza, que possui em si mesma o desafio diante da brutalidade e da vulgaridade”. Não penso aqui a delicadeza como uma fraqueza, mas algo que, como vê Perniola, se expõe ao aniquilamento, com coragem, para retirar dessa provocação um reforço e uma intensificação.
Eis as chaves que trago para, brevemente, ler Camillo Cesar Alvarenga, autor de Scombros (Edufrb, 2012), Macumbe-se (Kza1, 2018) e do inédito Flor de Búzios.

1 – Scombros – a porta de saída

Scombros, primeiro livro, conta com o subtítulo: “Arquipélago de impressões do real. Breviário”. Esse arquipélago é composto por 63 poemas que se dividem em três capítulos intitulados “Das categorias e outras consequências”, “Das formas e dos fluídos” e “Pós-poeta”, além disso há outras duas partes denominadas “Apêndice” e “Anexo”. O que se percebe nesse livro inicial é um poeta praticandouma linguagem mais grandiloquente, marcada, por exemplo, por referências a poetas franceses. O poema “X” abre com uma epígrafe de Rimbaud: “A pena me livrará do esquecimento que se vem aos homens”, para no final do poema, Camillo dizer “Perdi-me de Baudelaire depois do bulevar,/ Invenção simbólica do humano ser.”
A linguagem nesse livro apresenta uma busca existencial do poeta através de versos grandes, algumas inversões sintáticas e um tom que remonta,por vezes, ao romantismo de Castro Alves, como no poema intitulado “A Senzala”, que na primeira estrofe diz:

“Ardem sobre a Babilônia
Os filhos de Tântalo deus e Caos”

A casa do Índio
A toca de Golias
trago o último,
quintessência de nós
para além dos pórticos
para o cosmo infindo,
onde dorme
em mansidão tranquila de manhã. (…).

Aqui temos uma dicção poética que opta por uma certa exacerbação sonora do poema. Assim, por exemplo, o poema que dá título ao livro e que é uma espécie de escombro da palavra escombro, se revela um texto que rememora um tom metafísico do poeta fazendo do presente uma lamentação, uma perda. Interessante notar as aproximações metafóricas e de linguagem com o clássico poema “Via Lactea” de Olavo Bilac:

………………..Quando quis o paraíso
…………………já o havia perdido…

………..Num céu de estrelas despido
Dorme o verso, no berço,
………..nos braços do Universo…
(…)

O que h’além das letras?

É preciso domar o dom, inventar estrelas,

Ter um punhado mísero de letras, a desmaiar, em minhas mãos

Desperta ó canção!

(…)

E das trevas de outrora
…………………………………Só resta,
Os scombros de agora.

Normalmente se pensa o primeiro livro como uma porta de entrada para os demais. Gostaria aqui de inverter essa imagem. Scombros não seria a porta de entrada para os demais livros de Camillo, mas sim a porta de saída, a porta da rua, de acesso às amplidões, aos longos espaços abertos da memória, da ancestralidade, daquilo que se Glissant chama de visão profética do passado. E é nesse mundo-fora, mundo-externo, mundo-acima, que Camillo chega com o imperativo Macumbe-se.

2 – Trema-se, macumbe-se, sempre em delicadeza.

Em 2018, Camillo lançou Macumbe-se. Uma série de quatro livretos, editados de forma independente pela editora Kza1, do Rio de Janeiro. Os livretos se denominam “ranca-toco”, “animítico”, “cama de flores” e aquele que dá título ao conjunto: “macumbe-se”. Os poemas apontam outra proposta poética de Camillo: mergulhar na ancestralidade e emergir com uma linguagem contemporânea, rápida, muitas vezes denunciadora das mazelas atuais. O que Macumbe-se tem de conciso, tem de vasto, tem de amplidão. Em Macumbe-se, o poeta muda de ponto de vista, tanto que em certa altura diz: “deixei-me / de ver-me / e passei a ver-te / verde pasmo / ouvir-te / em vez / de ser-me (…)”. Esse processo de abertura da linguagem poética de Camillo envolveum enfrentamento aos obscurantismos éticos, políticos, sociais que sempre estiveram na vida cotidiana da sociedade brasileira. O poeta agarra seu lugar, seu estar nesse mundo-fora e, também, apresenta suas chaves diante das palavras. É um trabalho árduo, mas sumamente delicado. Como diria Camillo em um de seus poemas-aforismo: “polvilho no escuro / o pólen-pensamento.”
Ao falar da delicadeza e da transparência, Mario Perniola faz uma reflexão a respeito do obscurantismo. Os obscurantistas reivindicam a confusão indiscriminada, pois acham que a transparência é uma perigosa utopia, capaz de propor uma comunicação universal entre os humanos. O obscurantismo cria um pântano, um lodaçal capaz de impedir o movimento, o dinamismo das relações. O verdadeiro inimigo do transparente não é o opaco, que seria o seu necessário e inseparável complemento, mas o obscuro, que impede a visão e bloqueia qualquer possibilidade de conhecimento e de ação. Por outro lado, o pensamento-tremor de Glissant também entra na luta ao não temer a Utopia, ao vê-la como nosso único ato, nossa única Arte.
Em Macumbe-se, a delicadeza-tremor de Camillo se manifesta nos versos curtos, ritmados, nessa luz lançada, ou polvilhada, sobre os dentros da ancestralidade, como um rito de resistência. No livreto “Cama de Flores”, por exemplo, encontramos

“Orêiêiêôoo”:
Orê iê iê ôoo
Flor de fogo
n’agua

ouro-brilho
na superfície
do rio
a caminho do mar.

Aquela que
na mata

com Oxóssi
caça,

vai e voa,

mergulha,
pula e nada

sol marinho,
sua chama aquática….

Ore iê iê ôoo

Podemos ver, também, essa força no poema inicial intitulado “”:

Descanso no descaso
acordo e acolho um rosto
com lágrimas nos olhos,
me encontro e sinto o gosto
da terra num broto – outro
gesto da diáspora: hora futura do
retorno. (…)

Resistir é retornar, não a uma origem ou a uma essência, mas para a emancipação, para o lugar da utopia. Esse lugar que barra o obscurantismo.Trazendo novamente a reflexão de Mario Perniola, o obscurantismo é o inimigo real da emancipação. Trata-se não apenas do obscurantismo como sinônimo do caos, mas da ordem, do “tudo está bem”, do “não é bem assim”, do “você está exagerando”, do “sempre foi assim”, do “é natural”. O obscurantismo que iguala barbárie e civilização, saber e ignorância, arte e preguiça. “Não há nada de verdadeiramente enigmático, de realmente problemático, de essencialmente conceitual no obscuro: apenas perturbação, desordem, tumulto, acervo informe, ódio pelo saber filosófico e histórico”, assevera Perniola. A turvação obscurantista torna tudo vulgar e trivial, banaliza sutilezas, elimina a diferença, homologa tudo num mesmo registro, caindo sempre em um dos campos: ou mostra tudo e se torna obsceno, ou oculta tudo e se torna opressão. No entanto, contra os avanços obscurantistas, existe a delicadeza, que mesmo sendo quebrável, tira justamente daí a sua força de enfrentamento. Camillo submergiu seus poemas na delicadeza, por isso macumbe-se é também um manifesto de pensamento-tremor:

Não,

não te
enganes:

o engodo
da hora
mais absurda
se revela
ante
o teu semblante

na mágica dos búzios,
na máquina dos músculos
da mente que medita
a hora que se ajusta
em orvalho,
na calmaria do tempo.

Nesse campo dos enfrentamentos entre delicadezas e obscurantismos, também podemos pensar numa frase bastante assertiva de Glissant: “o poeta ergue-se, ergue com ele o mundo”. Em Macumbe-se, Camillo César Alvarenga ergueu seu olhar sobre o contemporâneo amparado no lastro africano, sobretudo aquele vindo da linguagem, dos ritos, da memória do Candomblé, como no ritualístico e pop “Macumbe-se” em que se pode entrever o trânsito no tempo, o entendimento da própria poética e o retorno ao lugar da casa, o mundo físico, ou Aiyé, mas também ao Orum, o lugar infinito. Ambos coexistem em cada um de nós, por isso nossos corpos são feitos de tempo, lugar e memória. Eis uns trechos dos mundos trazidos e erguidos pelo poeta:

I.
………macumbe-se
uma vela
….pra ela,

uma vela
..pra ele
“selva branca”
……………Psirico & Jay-Z
……………………………Jay-Z + Beyoncé
……………………………= a crítica da soberba.
……………..macumbe-se
(…)

II.
…………….regresso ao futuro
………………………..(este
………………………..quase)
…………– território aquático –
…………mnemônicos achados
………………………(estes dispositivos
………………………móveis, dados)
……….: códigos do reinventar-se:
……………………..(que
……………………..são estas)
……….contraformas da violência,
……….da fragmentação política
……….do Estado à poética

do discurso ao monólogo
da mônada literária

……regresso do futuro e a
……poesia é esse processo

……e teu-amor me devolve à
……massa, de volta pra casa,

de volta ao Orun com você.
3 – O lugar e a opacidade de Flor de búzios

“O lugar é incontornável”, nos diz ainda Édouard Glissant. O lugar não é um território, mas algo que se divide, se concebe e se vivencia dentro de um pensamento de errância, que é um pensamento que rechaça as raízes únicas, para se tornar rizomático e que permite encontros não premeditados, mas pelos quais se migra dos absolutos do Ser às variações da relação. Depois de Macumbe-se, Camillo nos leva para Flor de Búzios, esse lugar-poema, esse lugar-errância. A poética continua a dos espaços abertos, das amplidões da ancestralidade, mas agora ainda mais concentrada, quase como um Ifá, um oráculo em que o tempo circula, pois dessa vez

………tem
umtempo
dentro
do
……….tempo
tem
……….um
……….tempo
dentro
…….do
………….tempo

É nesse lugar e nesse tempo errante que acontece Flor de Búzios. Aqui, é como se tremor e delicadeza amalgamassem o “caos-mundo”, algo que Glissant considera como “o choque, o entrelaçamento, as repulsões, as atrações, as conivências, as oposições, os conflitos entre as culturas dos povos na totalidade-mundo contemporânea”, ou, para Camillo:

(…)
Assim, como se diz volto logo, e leva-se
duzentos anos deambulando pelas ruas
do mundo, encantado, entre épocas e
magias de esquinas e encruzilhas, seja
em Lisboa, zona-leste ou no Recôncavo.
(…)

Flor de Búzios é uma poética de contínua busca, vigília, caça, Odé livre. Pensando um pouco mais sobre a delicadeza e transparência, é preciso trazer à tona a questão da opacidade, que é um tema comum entre Glissant e Perniola. Como já afirmado anteriormente, o italiano diz que o verdadeiro inimigo do transparente não é o opaco, mas o obscuro. O opaco seria o necessário e inseparável complemento da transparência. Assim, a delicadeza como vidro carrega alguma opacidade, que Perniola estabelece como a cultura, o saber, as artes, o processo de civilização. O obscurantismo atua quando torna tudo visível, tudo aberto, não há dobras, não há subterfúgio, não há mistério, mas também não há passagem, trânsito ou travessia. É uma turvação obscurantista. É o “efeito vitrina, que representa uma apropriação exclusiva da luz, pois estabelece uma separação total entre aquilo que resplandece para além do vidro e as trevas para as quais é banido o observador”, diz Mario Perniola. Assim, a exposição direta, sem perigo, sem desafio algum, faz com que a delicadeza se ausente, porque a delicadeza não tem a necessidade de se expor, como se fosse um corpo artificial, um corpo de plástico nas vitrines. A delicadeza já está exposta só pelo fato de existir e de “responder responsavelmente pelos próprios atos”
Por outro lado, Glissant proclama o direito à opacidade, que é se converter a outro humanismo, ou seja, não se deixar levar apenas pela própria transparência, mas pensar que o “inextricável, plantado no escuro, também guia as claridades não imperativas”. É uma defesa da opacidade que existe entre “o outro e eu”, algo que não é um apartheid, um muro, mas algo que amplia a nossa liberdade e, também, confirma que pode haver sempre uma “relação de puro compartilhamento, no qual o intercâmbio e o descobrimento e o respeito são infinitos”. A opacidade possui a sua própria transparência, que não é imposta, mas que é algo que precisamos saber sentir.É um acolhimento e um recolhimento do mistério da evidência das poéticas, dos lugares do mundo, mas nunca querendo ofuscá-los e, também, jamais intentando reduzir tudo a uma unidade, a um sistema, a uma raiz única. A opacidade não favorece essências, mas amplia e permite as grandes dimensões do “ser-como-sendo”. É uma chama, um movimento contínuo e dançante que Glissant resume como: “poesia”.
A poética de Camillo é marcada por essas opacidades. Em Flor de Búzios podemos encontrá-las em poemas-guia, ou poemas-ser-como-sendo, iguais a “Obatalá”:

Sigo a trilha transparente
que os ventos desenham
na superfície das águas,
sigo as curvas das ondas
que tragam as correntes,
sigo pela porta plantada
na paisagem paralela do
espelho, líquido vidro (des)
feito em silêncio e sal que,
marinho, d’asas se derrama,
e arrebentam as pedras, as
raízes. E de cá onde a calma
canta e acolhe em teu colo
a criança que a mãe amamenta,
assenta-se aos pés do Sol: pilhas
de pétalas púrpuras numa cuia
que carrega o cal das horas e os
segredos das rotas, filhas de Tempo,
e seus mistérios absurdos. De onde
Olorun entre mundos, planetas e signos,
cânticos míticos e momentos de sangue,
luzes e unguento, faz do verso lapso do
pensamento/corpo/vento que estremece
ao sopro que sussurra prece, acesa no Otá,
mais que morada, entrada ao Orún – onde o
tempo está a guiar as criações de Obatalá, sigo.

Assim, a delicadeza, com seus acervos de transparência e opacidade, o tremor com suas “sinuações” que evitam a rigidez das situações aqui se tornaram chaves para uma das possíveis aberturas à poética de Camillo.Por fim, aviso que a resposta das palavras do poeta não foi pobre nem terrível, mas sutil e docemente esperançosa: “Se der tudo certo, completaremos o percurso, atravessaremos o muro.”

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imagem do poeta, por Raul Ferraz

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ANDRADE, C. D. A rosa do povo. São Paulo: Record, 1995
ALVARENGA, C. C. Scombros – Arquipélago de impressões do real. Breviário. Cruz das almas: EDUFRB, 2012
____________. Macumbe-se. Rio de Janeiro: Kza1, 2018
____________. Flor de Búzios. 2019 (no prelo)
GLISSANT, E. O pensamento do tremor – La cohée du lamentin. Trad. Enilce do Carmo Albergaria Rocha e Lucy Magalhães.Juiz de Fora: Editora UFJF, 2014
____________. Introdução a uma poética da diversidade. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2013
____________. Filosofía de La relación – poesía en extensión. Buenos Aires: Miluno, 2019.
PERNIOLA, M. Desgostos – novas tendências estéticas. Florianópolis: EDUFSC, 2010.

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Rubens da Cunha, poeta, cronista e docente da Universidade do Recôncavo da Bahia – UFRB. Doutor em Literatura na UFSC, com tese sobre a obra teatral de Hilda Hilst. Atua também como crítico teatral. Com Marco Vasques, é editor do Jornal Brasileiro de Teatro Caixa de Ponto (http://caixadeponto.wix.com/site). Possui sete livros publicados: Campo Avesso, (2001); Casa de Paragens (2004); Aço e Nada (2007); Vertebrais (2008), Crônica de gatos (2010), Curral (2015), Breves exercícios para fugitivos (2015) e tem ainda no prelo: A guardadora da ponte e outras biografias inventadas (Andarilha Edições, da poeta baiana Deisiane Barbosa).