Hope Mirrlees (1887-1978), por Alvaro A. Antunes

Ela nasceu Helen Hope Mirrlees em 08/04/1887, em Chislehurst, Kent, e morreu aos 91 anos, em Thames Bank, Goring. Sua  família era de tradição escocesa e tinha vínculos profissionais com a África do Sul. Mirrlees cresceu na Escócia e na África do Sul. Estudou drama na Royal Academy of Dramatic Art e grego no Newnham College, em Cambridge. Lá, tornou-se acólita (mas logo prima inter pares) de Jane Ellen Harrison, a hoje lendária classicista, uma das pioneiras dos estudos modernos de mitologia e religião gregas na era arcaica, e primeira mulher a se estabelecer, ser reconhecida, e brilhar em uma carreira acadêmica (quando, antes, tais cátedras eram propriedade exclusivamente masculina).

Mirrlees e Harrison (que era trinta e sete anos mais velha) viveram juntas, principalmente em Paris, de 1913 até à morte de Harrison, em 1928. Mirrlees escreveu Paris: A Poem em 1919. Escreveu também três romances, entre os quais apenas Lud-in-the-Mist, uma fantasia, é ainda lido, e querido. A morte de Harrison causou em Mirrlees um choque que a transformou profundamente. Ela se converteu ao catolicismo e, depois disso, escreveu muito pouco, atormentada, ao que parece, por profundas questões de fervor intenso, e sentimentos de pecado e culpa. No seu longo meio século de relativo silêncio, Mirrlees escreveu outros poemas (que Parmar retorna à tona [2]) mas, ainda que densos e sofisticados em muitos casos, não há em nenhum deles qualquer traço do radicalismo de Paris: A Poem. Quase sem exceção, são poemas competentes, mas tradicionais: velas crepusculares de uma mente poderosa voltada aos seus próprios profundíssimos abismos. Hope Mirrlees morreu praticamente esquecida.

No princípio deste século, Paris: A Poem foi redescoberto por Julia Briggs [1]. Alguns anos mais tarde, Sandeep Parmar editou os poemas coligidos de Mirrlees [2]. Mais recentemente ainda, em 2020, Paris: A Poem foi republicado pela Faber, em comemoração ao centenário de sua publicação pela Hogarth Press (de Virginia e Leonard Woolf) em 1919 [3, 4]. A recepção à redescoberta do poema logo se concentrou em alguns rótulos que me parecem pouco fundamentados. Com o intuito, benigno, de advogar a causa de Mirrlees, o principal destes propõe o poema como um precursor de (por três anos anterior a) The Waste Land, de T. S. Eliot, e, implicitamente, pedra pelo menos tão fundamental quanto o poema de Eliot no desenvolvimento do modernismo de língua inglesa. Penso, contudo, que o radicalismo do poema de Mirrlees tem fontes diferentes do de Eliot, e é precursor, ou contemporâneo, de poemas modernistas posteriores distintos da vertente eliotiana.

Quanto às fontes, as comumente citadas são as inovações gráficas do Apollinaire de Calligrammes (e assim, em última análise, do Mallarmé daquele lance de dados) e do Cocteau de Le Cap De Bonne Esperance. Além destas fontes, o aspecto onírico de certas passagens do poema é frequentemente associado ao desabrochar do surrealismo na Paris da virada do séc. XX. Embora The Waste Land contenha traços dessas influências (possivelmente indiretas, e subjacentes), o poema de Mirrlees é, ao meu ler, muito diferente, em concepção e construção, do de Eliot. Por exemplo, é quase brutalmente anti-lírico: nele, qualquer emoção é bem mais esquecida do que relembrada em tranquilidade. Por um outro exemplo, enquanto o poema de Eliot insere o que cita no ímpeto narrativo do poema, o de Mirrlees é mais uma coreografia-colagem de citações, de sinais, slogans, anúncios, vozes, sons, muito mais próxima do que Picasso e Braque estavam fazendo, plasticamente, no mesmo tempo da mesma Paris. Para mim, enquanto The Waste Land tem uma intensa, intrínseca, intrincada estrutura intelectual, Paris: A Poem recusa-nos um claro andaime conceitual (que, mesmo assim, num heróico esforço, Julia Briggs tenta desvendar em seu extenso comentário) e, antes, antecipa as técnicas de cine-montagem de Eisenstein e Vertov, lembrando-me (e a outros) a experiência perceptual dos filmes destes, um pouco mais tarde na mesma década de 1920.

Quanto aos desenvolvimentos da poesia modernista de língua inglesa que o poema antecipa, ou confirma e reforça, o mais saliente, penso, é a guinada radical da sintaxe à parataxe com que Pound, principalmente nos Cantos, cada vez mais se distancia de Eliot. Assim, o poema de Mirrlees me parece mais próximo da obra de Pound do que costumam salientar os críticos que o têm lido recentemente. Muito esquematicamente, eu diria: não tanto de Eliot a Stevens e Auden, mais de Pound a Cummings e Bunting/Zukofsky. O poema de Mirrlees, me parece, está na origem da vertente poundiana do modernismo anglo-saxão. (Lembro também que Augusto de Campos e Décio Pignatari sacaram logo os aspectos corte/fusão, remontando a Eisenstein, e câmera-é-olho-à-solta-no-mundo, que Vertov inventou, no Gil Domingo no Parque e no Caetano Alegria Alegria — sem ligá-los, claro, ao poema de Mirrlees, que invernava enquanto Paris ardia).

Como todo gesto de audácia, Paris: A Poem é um vórtice, em torno do qual várias vozes voam. Assim, não importa qual prefiras: resta, para o sem fim do futuro, uma “Experiência \ Muito lentamente \ Tomando a forma \ De algo belo—terrível—gigante” que “O que quer que aconteça, um dia vai parecer bonita.”. Para mim, esse dia é hoje e, com esperança, o saúdo.

NOTAS

[1] Julia Briggs, “Modernism’s Lost Hope: Virginia Woolf, Hope Mirrlees, and the Printing of Paris.” Reading Virginia Woolf. Edinburgh: Edinburgh UP, 2006. 80–95.
[2] Hope Mirrlees. Collected Poems. Ed. Sandeep Parmar. Manchester: Carcanet Press, 2011.
[3] Hope Mirrlees, Paris: A Poem. London: Faber, 2020.
[4] Fac-simile: https://www.bl.uk/collection-items/paris-by-hope-mirrlees

Alvaro A. Antunes foi professor de ciência da computação no Reino Unido, onde vive há muito. Nos anos 80, traduziu para a extinta Interior Edições: The Aspern Papers/Os Papéis de Aspern (Henry James); The Hunting of the Snark/A Caça ao Turpente (Lewis Carroll); Canti/Cantos (Giacomo Leopardi) e uma recriação indireta dos fragmentos de Safo. Traduziu a versão de Ezra Pound de The Seafarer para o SLMG e esparsos de Novalis, Pushkin, Pound e Catulo para a Musa Rara. Para a escamandro, traduziu Songs to Joannes/Canções para Joannes (Mina Loy).

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Paris: um poema, em tradução de Alvaro A. Antunes, com notas da autora, notas do tradutor e ensaio de Julia Briggs.